Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Matemáticos e Astrónomos da Reforma Pombalina

Um dos primeiros estudantes brasileiros formados pela UC no contexto dos novos planos de estudos foi Francisco José de Lacerda e Almeida (São Paulo, 1750 – África, 1798). Em 1772 iniciou os cursos de Matemática e de Filosofia. Concluídos os seus estudos serviu a Coroa como Matemático e Cartógrafo em expedições no Brasil e no continente africano. Em 1777, aos vinte e sete anos, recebeu o grau de doutor em Matemática. Regressando ao Brasil, nos anos de 1780 a 1790 fez parte de uma comissão para a determinação dos limites das suas fronteiras, percorrendo as capitanias do Pará, Rio Negro, Mato-Grosso[44], Cuiabá, e S. Paulo, retornando a Portugal em 1791.[45] Em 1798 participou num grande projeto de travessia da costa oriental de África à contracosta de Angola, tendo falecido em outubro desse ano no decurso desta expedição ao chegar ao Cazembe – a Noroeste do Niassa, que ficou narrada no manuscrito intitulado Instruções e Diário de Viagem que o Governador Francisco José de Lacerda e Almeida Escreveu sobre Sua Viagem para o Centro da África, Indo do Rio do Sena, no Ano de 1798.[46] No interior africano Lacerda e Almeida tinha por objetivo descobrir uma rede fluvial que permitisse a ligação continental entre as costas oriental e ocidental, ligando Moçambique a Angola.[47] Realizou observações astronómicas feitas na África Central, incluindo cuidadosas determinações de longitude pela ocultação dos satélites de Júpiter.

Nascido em 1750, na comarca de Mariana, Minas Gerais, Antonio Pires da Silva Pontes Leme iniciou os seus estudos em Coimbra por volta de 1772. Formou-se em Matemática e Filosofia e obteve o grau de doutor em Matemática no ano de 1778. Nos dez anos seguintes, a sua atividade de matemático e astrónomo ao serviço do Reino esteve associada à de Lacerda e Almeida.[48] Foram ambos nomeados matemáticos astrónomos da Terceira Partida de Demarcação de Limites do Brasil, organizada em consequência do tratado de Santo Ildefonso, assinado no dia 1 de outubro de 1777 entre a rainha de Portugal, D. Maria I, e o rei de Espanha, Carlos III. Os dois matemáticos compunham o corpo expedicionário que partiu do porto de Lisboa em janeiro de 1780, em direção ao Pará.[49] Tendo percorrido os principais rios e explorado os limites ocidentais da Amazónia, estabeleceram as novas coordenadas geográficas que corrigiam e refaziam os mapas existentes. Silva Pontes partiu depois em expedição para o Mato Grosso.[50] Tendo regressado a Portugal, continuaria a trabalhar com Lacerda e Almeida como professores na Academia de Marinha. Em 1801 regressou ao Brasil, assumindo o governo do Estado do Espírito Santo.

No Rio de Janeiro e São Paulo foram realizados importantes estudos de meteorologia e astronomia por cientistas formados segundo os planos de estudos das novas Faculdades. Bento Sanches d’Orta (Coimbra, 1739 – São Paulo 1794) frequentou os Cursos de Filosofia e Matemática. Na sequência do Tratado de Santo Ildefonso, Sanches d’Orta e Francisco de Oliveira Barbosa (?-?) foram enviados para o Brasil, sob a supervisão do lente da Faculdade de Matemática, o italiano Miguel António Ciera, onde empreenderam uma missão para a demarcação dos limites na região Sul do Brasil, tendo chegado ao Rio de Janeiro em 1781. Ciera já tinha iniciado este projeto de demarcação da América Meridional numa expedição realizada entre 1752/56 com o propósito de elaborar o Mappa Geograficum quo Flumen Argentum, Paranà et Paraguay,… oferecido ao Rei D. José I em 1758.[51] Durante sete anos os seus discípulos realizaram no Rio de Janeiro observações meteorológicas, astronómicas e magnéticas. Também determinaram a sua latitude e a longitude a partir das observações dos satélites de Júpiter. Após estes estudos seguiram para São Paulo, em 1788, dos quais resultaram as publicações dos relatórios intitulados Observações Astronómicas e Meteorológicas Feitas na Cidade de São Paulo, América Meridional, no Período de 1788 a 1789, e do Diário Physico-Meteorológico de Outubro, Novembro e Dezembro de 1788 da Cidade de São Paulo. Alguns instrumentos utilizados na definição das fronteiras brasileiras foram encomendados pela coroa portuguesa e enviados de Inglaterra por João Jacinto Magalhães.[52] Os registos efetuados no Rio de Janeiro e São Paulo podem ser considerados o início da Meteorologia no Brasil. Sanches d’Orta também aplicou os conhecimentos químicos adquiridos em Coimbra, com o seu mestre Vandelli, e durante nove anos analisou as virtudes das águas de ribeiros e fontes, sob as ordens do Governador e Capitão de São Paulo, Bernardo José Maria Lorena e Silveira. Outro empreendimento em que d’Orta esteve envolvido foi a elaboração de um relatório de observações astronómicas para facilitar a entrada de navios na Baía de Santos.[53]



[44] FERREIRA, Mário Clemente – Cartografar os Sertão: A representação de Mato Grosso no século XVIII. II Simpósio Luso-Brasileiro de Cartografia Histórica, Lisboa. 2007. Disponível em http://www.igeo.pt/servicos/DPCA/PDF/022_MarioClementeFerreira.pdf. Consultado em 9/12/2011.
[45] Almeida, Francisco José de Lacerda – Diario da viagem do Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida pelas capitanias do Pará, Rio Negro, Matto-Grosso, Cuyabá, e S. Paulo, nos annos de 1780 a 1790. São Paulo : Typ. de Costa Silveira. 1841. Disponível em http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00021500#page/5/mode/1up. Consultado em 5 de dezembro de 2011.
[46] Disponível em http://www.wdl.org/pt/item/234/. Consultado em 27/12/2011. O Diário de viagem foi publicado nos Annaes Marítimos e Coloniaes, série n.º 4, p. 286-300, 303-314, 334-343, 377-381, 397-408, e na Série n.º 5, p. 29-26, 63-77, 108-120. Em 1889 a Imprensa Nacional publicou o diário com o título “Diário da viagem de Mossambique para os Rios da Sena feita pelo governador dos mesmos rios o D.or Francisco José de Lacerda e Almeida".
[47] O relatório da viagem foi publicado em Londres pela Royal Geographical Society. The lands of Cazembe Lacerda's journey to Cazembe in 1798 translated and annotated by R. F. Burton. Also Journey of the pombeiros, P. J. Batista, and Amaro José, across Africa from Angola to Tette on the Zambeze, translated by B. A. Beadle. And a Résumé of the journey of MM. Monteiro and Gamitto, by C. T. Beke. Published in 1873 by John Murray in London. Disponível em http://openlibrary.org/books/OL6960360M/The_lands_of_Cazembe. Consultado em 5 de dezembro de 2011.
[48] CRUZ, Ana Lúcia Rocha Barbalho da – As Viagens são os viajantes: Dimensões identitárias dos viajantes naturalistas brasileiros do século XVIII. História: Questões & Debates. Editora UFRP. Curitiba. N. 36. 2002. p. 61-98.
[49] PEIXOTO, Renato Amado - Impernitentes, desinteressados ou sem escolha: os Demarcadores e as demarcações portuguesas no norte do Brasil durante a década de 1780. Anais o II Encontro Internacional de História Colonial. Mneme – Revista de Humanidades. UFRN. Caicó (RN), v. 9. n. 24. 2008. Disponível em www.cerescaico.ufrn.br/mneme/anais. Consultado em 10/11/2011.
[50] MARTINS, Francisco José Corrêa – Compilar para conhecer: alguns mapas do território colonial brasileiro da mapoteca do Arquivo Histórico do Exército. III Simpósio Luso-Brasileiro de Cartografia Histórica. Ouro Preto. Minas Gerais. 2009. Disponível em http://www.ufmg.br/rededemuseus/crch/martins_compilar-
para-conhecer-alguns-mapas-do-territorio-colonial-brasileiro.pdf. Consultado em 5/12/2011.
[51] Costa, Maria de Fátima – Miguel Ciera: um demarcador de limites no interior sul-americano (1750-1760). Anais do Museu Paulista, N. Sér. v. 17. n. 2. 2009. p. 189-214.
[52] MALAQUIAS, Maria Isabel – João Jacinto de Magalhães e a definição das fronteiras brasileiras. Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência. Nº 1. Vol 2. 2003. P. 94-102.
[53] NADER, Rundsthen Vasques – Bento Sanches Dorta: Um astrónomo da Corte nos trópicos. In Scientiarium História II. Encontro Luso-Brasileiro de História da Ciência. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2009. p. 529-533.