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Monteiro da Rocha: Um projeto científico vindo do Brasil

O mentor do programa de ensino das ciências físico-matemáticas do projeto pombalino de reforma da Universidade tinha vindo do Brasil. Com efeito, um dos grandes conselheiros da reforma pombalina foi José Monteiro da Rocha (1734-1819). Foi por intervenção do Reitor Reformador que o Marquês de Pombal teve conhecimento do seu mérito científico. Tendo o chamado a Lisboa, encarregou o da redação dos novos Estatutos da Universidade na parte das ciências físico-matemáticas. O percurso anterior de Monteiro da Rocha permanece incerto nalguns aspetos. Nascido em Canavezes, presumivelmente terá sido levado para o Brasil ainda jovem, onde ingressou na Companhia de Jesus em 1752. Aí terá feito os seus estudos no colégio dos jesuítas da Bahia. Depois da extinção da Ordem, continuou durante algum tempo na colónia, tendo sido encarregado da educação dos filhos do governador da Província. Em 1760 foi ordenado padre secular na Bahia. Depois do seu regresso a Portugal em 1766, fixou-se em Coimbra. Frequentou aí a Universidade entre 1766/7-1770, formando-se em Cânones.[12]

Por ocasião da passagem do cometa Halley, em 1758/1759, Monteiro da Rocha redigiu em Salvador, na Bahia, um manuscrito sobre a teoria dos cometas, que concluiu em março de 1760, quando ainda tinha apenas 25 anos de idade. Neste documento, intitulado Systema Physico-Mathematico dos Cometas coposto por occazião de hum que foi visto no ano de 1759 na cidade da Bahya, Rocha analisava a sua natureza física e o modo de calcular as respetivas efemérides.[13]  Por razões que se desconhecem, o manuscrito escrito no Brasil manteve-se inédito na Biblioteca Pública de Évora[14] até que o investigador brasileiro Carlos Ziller Camenietzki o encontrou e publicou em 2000.[15]  Ainda no Brasil, Monteiro da Rocha terá iniciado um estudo sobre uma solução matemática para a obtenção da longitude pelas distâncias lunares, o qual dedicou ao Senhor Conde de Oeiras, Ministro e Secretário dos Negocios do Reino.[16]

A formação obtida entre os mestres jesuítas no Brasil habilitou Monteiro da Rocha para o desempenho de um papel de relevo na Reforma Pombalina. Destacou-se na elaboração dos Estatutos da nova Faculdade de Matemática, nomeadamente do plano de estudos do Curso Mathematico. Porém a sua importância não se limitou ao período reformador. Tornar-se-ia uma das principais figuras da Faculdade de Matemática e da própria Universidade, tanto enquanto professor das cadeiras de Foronomia (1772-1783) e Astronomia (1783-1804) e Diretor do Observatório Astronómico (1795-1819), bem como vice-reitor (1786-1804).[17] Um dos mais importantes projetos em que se empenhou foi o da criação do Observatório Astronómico. A construção do edifício do Observatório previsto nos estatutos pombalinos passou por várias vicissitudes. Inicialmente foi delineado um imponente edifício, bem ajustado à grandiosidade do projeto pombalino para as ciências. Mas o plano inicial foi abandonado em setembro de 1775, provavelmente, devido ao seu exagerado custo. Só em 1790 começou a ser erigido um edifício mais modesto no Paço das Escolas. Apenas ficou concluído em 1799, tendo existido até meados do século XX quando a Alta coimbrã foi completamente transformada – o edifício foi demolido. Para equipar o Observatório com os melhores instrumentos, Monteiro da Rocha encarregou-se de os encomendar aos mais conceituados fabricantes ingleses através de João Jacinto de Magalhães, na época a viver em Londres.[18]



[12] TEIXEIRA, António José – Apontamentos para a Biographia de José Monteiro da Rocha. O Instituto : Jornal Scientifico e Litterario. - Volume XXXVII (1889-1890), p. 65-98.
[13] Apenas em 1799 José Monteiro da Rocha viria a publicar um estudo sobre a Determinação das Orbitas dos Cometas, nas Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa (vol. 2, 1799, p. 402-479).
[14] O Códice encontra-se no fundo Manizola nº 506 na Biblioteca Pública de Évora.
[15] CAMENIETZKI, C. Z. (Org.); PEDROSA, Fábio Mendonça (Org.) – Sistema físico-matemático dos cometas de José Monteiro da Rocha. Rio de Janeiro: MAST, 2000. CAMENIETZKI, Carlos Ziller; PEDROSA, Fábio Mendonça – A Observação Cometária de José Monteiro da Rocha no Brasil Seiscentista. Anais do VII Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia. Editora da Universidade de São Paulo. 2001. p. 103-106.
[16] PEREIRA, José Manuel Malhão – Um manuscrito de cerca de 1767, do P. José Monteiro da Rocha, S.J. com uma solução matemática para a obtenção da longitude pelas distâncias lunares. Cuadernos de Estudios Borjanos. L-LI, 2007-2008. p. 339-394.
[17] FIGUEIREDO, Fernando de – O Programa curricular do Curso Mathematico delineado nos Estatutos Pombalinos (1772) e os primeiros livros adotados para o seu ensino: um estudo comparativo. Atas do Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2011. p. 184-198.
[18] FIGUEIREDO, Fernando José Bandeira de – José Monteiro da Rocha e a atividade científica da “Faculdade de Mathematica” e do “Real Observatório da Universidade de Coimbra”: 1772-1820. Tese de doutoramento. Coimbra : [s.n.], 2011.