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Os naturalistas e as viagens Philosophicas

A História Natural terá sido a área científica do projeto pombalino da reforma universitária com mais auspiciosos resultados, impulsionando um melhor conhecimento dos recursos naturais do reino e império colonial português.[54] O apoio do Estado garantiu que os jovens naturalistas formados por Vandelli servissem a Corte através das viagens philosophicas que trouxeram à luz novos conhecimentos científicos e se procedesse à prospeção dos recursos naturais dos seus domínios territoriais.[55] Entre os expedicionários formados na Faculdade de Filosofia assumiram particular destaque alguns oriundos do Brasil. O mais notável foi Alexandre Rodrigues Ferreira (Bahia, 27 de abril de 1755 - Lisboa 1815).[56] Frequentou o Curso Jurídico em 1770 e em 1772 matriculou-se no curso de Filosofia. Em 10 de janeiro 1779 tomou o grau de doutor e começou a trabalhar no Real Museu de História Natural d’Ajuda. Aos 22 anos, Rodrigues Ferreira foi o nomeado por D. Maria I como primeiro naturalista português encarregado da expedição científica denominada Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso[57] e Cuiabá.[58]

Começada a ser planeada em 1778, a expedição teve início a 31 de agosto de 1783, com a missão complementar a Comissão de Demarcação de Limites entre as fronteiras dos domínios de Portugal na América, prevista pelo Tratado de Santo Ildefonso. Além disso, pretendia-se um melhor conhecimento do centro-norte da colónia brasileira, até então praticamente inexplorado, a fim de lá implementar medidas para o seu desenvolvimento.[59]

Outros brasileiros, alunos de Vandelli, trabalharam sob a direção do antigo mestre no Real Museu de História Natural e Jardim Botânico da Ajuda, em Lisboa, após a conclusão dos estudos Philosophicos em Coimbra.[60] Durante a fase preparatória das viagens philosophicas eram elaboradas instruções de viagem, compostas por Vandelli com a participação dos seus discípulos.[61] Após a experiência adquirida em viagens de exploração de recursos naturais no reino, foram incumbidos de missões no Brasil e nas colónias africanas[62], procurando assim cobrir todo o vasto império colonial português.[63]

  • Joaquim José da Silva (nasceu no Rio de Janeiro). Foi enviado para Angola.[64]
  • João da Silva Feijó (natural do Rio de Janeiro). Foi para a Ilha de Cabo Verde, onde chegou em junho de 1783. Em 1822 regressou ao Brasil onde viria a ser professor de História Natural, Zoológica e Botânica da Academia Militar do Rio de Janeiro.
  • Manuel Galvão da Silva (nasceu na Bahia). Esteve em Goa e foi nomeado secretário de governo em Moçambique.
  • Manuel Arruda Câmara (natural de Pombal, Paraíba). Depois de frequentar a Faculdade de Filosofia na UC[65] foi estudar Medicina na Universidade de Montpellier, em França. Foi eleito membro da Academia das Ciências de Lisboa em 15 de maio de 1793. Regressado ao Brasil, entre 1794 e 1799 fez expedições mineralógicas e botânicas entre Pernambuco e Piauí, Paraíba e o Ceará e ao longo do rio São Francisco.[66]
  • Joaquim Velloso de Miranda (nasceu no Inficionado – hoje Santa Rita Durão, Mariana. Era sobrinho do Frei José Santa Rita Durão). Após a conclusão do Curso de Filosofia foi lente substituto de História Natural e Química. Em 1779 regressou a Minas Gerais, onde realizou pesquisas de botânica e química e foi encarregado, por D. Maria I, de organizar coleções de objetos naturais para o Real Museu do Jardim Botânico da Ajuda. As remessas de plantas enviadas do Brasil permitiram a Vandelli a inclusão de novas classificações na sua obra Floræ Lusitanicæ et Brasileiensis specimen.[67] Velloso de Miranda tem o seu nome associado à origem do Jardim Botânico de Ouro Preto, criado em 1798.[68]


[54] DOMINGUES, Ângela – Para um melhor conhecimento dos domínios coloniais: a constituição de redes de informação no Império português em finais do Setecentos. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [online]. 2001, vol.8, suppl., p. 823-838.
[55] PATACA, Ermelinda Moutinho; PINHEIRO, Rachel – Instruções de viagem para a investigação científica do território brasileiro. Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência. Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, 2005. p. 58-79.
[56] RAMINELLI, Ronald – Do conhecimento físico e moral dos povos: iconografia e taxionomia na Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [online]. 2001, vol.8, suppl., pp. 969-992. VERRAN, Rossana Samarani – Inventário científico do Brasil no século XVIII: A contribuição de Alexandre Rodrigues Ferreira para o conhecimento da Natureza e dos índios. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências Humanas da Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. 2006.
[57] COSTA, Maria de Fátima – Alexandre Rodrigues Ferreira e a capitania de Mato Grosso: imagens do interior. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro. [online]. 2001, vol.8, suppl., pp. 993-1014.
[58] CARVALHO, José Candido de Melo – Viagem Filosófica pelas capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá (1783-1793). Ed. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Museu Paraense Emílio Goeldi. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Ensino Superior. Universidade Federal do Pará. 1983.
[59] AREIA, Manuel Rodrigues Laranjeira; MIRANDA, Maria Arminda; MARTINS, Maria do Rosário – Da Universidade de Coimbra ao Brasil: É muito o que nos une. Atas do Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2011. p. 171-183.
[60] CRUZ, Ana Lúcia Rocha Barbalho da – As Viagens são os viajantes: Dimensões identitárias dos viajantes naturalistas brasileiros do século XVIII. História: Questões & Debates. Editora UFRP. Curitiba. N. 36. 2002. p. 61-98.
[61] PATACA, Ermelinda Moutinho – Coletar, preparar, remeter, transportar – práticas de História Natural nas viagens filosóficas portuguesas (1777-1808). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011. Disponível em http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300882030_ARQUIVO_ermelindaanpuh2011.pdf. Consultado em 6/01/2012.
[62] PEREIRA, Magnus Roberto de Mello – Brasileiros a serviço do Império; a África vista por naturais do Brasil, no século XVIII. Revista Portuguesa de História. Coimbra. v. 33. 1999. p. 153-190.
[63] PATACA, Ermelinda Moutinho – Terra, água e ar nas viagens científicas portuguesas (1755-1808). Tese (doutorado). Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Geociencias. Campinas, SP. 2006. PATACA, Ermelinda Moutinho. A confecção de desenhos de peixes oceânicos das "Viagens philosophicas" (1783) ao Pará e à Angola. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro. 2003, vol.10, n.3, pp. 979-991. Pataca, Ermelinda Moutinho – Viagens Científicas no Império Português (1755-1808). I Simpósio de Pesquisa em Ensino e História de Ciências da Terra. III Simpósio Nacional Sobre Ensino de Geologia no Brasil. Unicamp. Campinas. 2007. p. 383-390.
[64] SILVA, Joaquim José da – Notícias sobre Cabo Negro, extrahidas dos fragmentos da viagem do doutor Joaquim José da Silva. O Patriota : Jornal Litterario, Politico, Mercantil. Rio de Janeiro. n.6, 1811. p.71-77. Extracto da viagem, que fez ao sertão de Benguella no ano de 1785 por ordem do governador e capitão general do Reino de angola, o bacharel Joaquim José da Silva, enviado aquelle reino como naturalista, e depois secretario do governo. O Patriota : Jornal Litterario, Politico, Mercantil. Rio de Janeiro. n.1, 1813. p. 97-100; n.2, 1813, p. 86-98; n.3, 1813, p. 49-60.
[65] AGUIAR, José Otávio – Quando o Iluminismo Científico herborizava: Manuel Arruda da Câmara e seus escritos botânicos. Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime. Lisboa. 2011. Disponível em http://www.iict.pt/pequenanobreza/arquivo/Doc/p2-01.pdf. Consultado em 21/12/2011.
[66] ALMEIDA, Argus Vasconcelos de; MAGALHAES, Francisco de Oliveira – As "Disquisitiones" do naturalista Arruda da Câmara (1752-1811) e as relações entre a Química e a Fisiologia no final do Século das Luzes. Química Nova. vol. 20, n.4, 1997. p. 445-451.
[67] Vandelli, Domenico – Floræ Lusitanicæ et Brasiliensis specimen ... et Epistolae ab eruditis viris Carolo a Linné, Antonio de Haen ad Dominicum Vandelli scriptae. Conimbricae : Ex Typographia Academico-Regia, apud Bibliopolam Antonium Barneoud, 1788.
[68] MAIA, Moacir Rodrigo de Castro – Uma quinta portuguesa no interior do Brasil ou a saga do ilustrado dom frei Cipriano e o jardim do antigo palácio episcopal no final do século XVIII. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro. V. 16, n 4. 2008, p. 881-902.