Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

A Universidade de Coimbra e o ensino das ciências no Brasil

José Bonifácio, juntamente com Silva Pontes e Câmara Bethencourt têm os seus nomes associados à criação da Academia Real Militar do Rio de Janeiro, sob os auspícios de D. Rodrigo Domingos de Souza Coutinho, Conde de Linhares, que em 1796 assumira a Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos. Os seus projetos de desenvolvimento do Brasil ficaram plasmados na Memória sobre o melhoramento dos domínios de Sua Majestade na América.[83] Para a concretização do seu plano de desenvolvimento procurou obter dos antigos estudantes das Faculdades de Filosofia e Matemática da UC o competente apoio.[84] O ofício de criação daquela instituição foi publicado por Carta de Lei de 4 de dezembro de 1810.[85] Este documento determinava que na Academia existisse um Curso completo de Ciências Matemáticas e Ciências de Observação, das quais constava a Física, Química, Mineralogia e História Natural, que incluísse o estudo do reino vegetal e animal. Os estatutos estabeleciam que as aulas de desenho tivessem lugar no primeiro ano do curso, e no segundo ano a geometria descritiva.[86] Daqui se depreende que o modelo de ensino das ciências experimentais para a formação dos futuros exploradores da natureza naquela escola brasileira tinha alguma semelhança com a organização do Curso de Filosofia e Matemática da UC.[87] Mas, as influências não se limitavam apenas à estrutura do Curso. Também os privilégios e prerrogativas da Academia Real Militar eram bem explícitos quanto ao modelo inspirador:[88]

Os professores da Academia Real Militar, além do que fica expresso a seu respeito, gozarão de todos os privilégios, indultos e franquezas que tem e gozam os lentes da Universidade de Coimbra. Serão tidos e havidos como membros da Faculdade de Matemática, existente na dita Universidade, sem que entre os lentes da Academia e os de Coimbra, se haja interpor diferença alguma, ainda a respeito daquelas graças e franquezas, que requerem especial e expressiva menção, porque quero que também estes sempre se entendam e julguem compreendidos e serão considerados em tudo por tudo, como se realmente regessem suas respetivas cadeiras na mesma Universidade. Os discípulos que legitimamente frequentarem a dita Academia, gozarão dos privilégios que se concedem aos estudantes da Universidade.

Outra instituição de prestígio cuja origem e primeiros desenvolvimentos está intimamente ligada a personalidades formadas no contexto da reforma pombalina é o Museu Real do Rio de Janeiro.[89] Foi fundado pelo decreto de 6 de junho de 1818 que determinava a sua instalação num prédio do Campo de Santa’Anna. Tinha como objetivo “propagar os conhecimentos e estudos das sciencias naturaes no Reino do Brazil, que encerra em si milhares de objetos dignos de observação e exame e que podem ser empregados em benefício do commércio, da indústria e das artes”.[90] O seu primeiro diretor foi Frei José Batista da Costa Azevedo, natural do Rio de Janeiro (1763-1822), antigo discípulo de Vandelli em Coimbra.[91] Além de reunir um acervo disperso de História Natural, instrumentos e coleções mineralógicas, o novo Museu recebeu também os remanescentes anteriormente pertencentes à Casa de História Natural, criada em 1784, mais conhecida pelo nome de “Casa dos Pássaros” por possuir uma vasta coleção de pássaros empalhados. No novo Museu foram integradas a coleção mineralógica de José Bonifácio e as coleções geológicas, mineralógicas e zoológicas recolhidas por naturalistas como Georg Heinrich Graf Von Langsdorff (1774-1852), Johann Natterer (1787-1843) e Friedrich von Sellow (1789-1831).[92]

Regressado ao Brasil em 1819 José Bonifácio elaborou o primeiro projeto para a criação de uma Universidade no Brasil, que se pode considerar ter sido inspirada na organização da UC. Não prevendo a existência de uma Faculdade de Matemática, contudo o projeto para a Universidade a ser criada em São Paulo determinava a existência de três faculdades – Filosofia, Jurisprudência e Medicina, e teria dentre outras instalações, um Observatório Astronómico. Enquanto na UC coexistiam duas faculdades, a de Filosofia e a de Matemática, no projeto da Universidade brasileira as Ciências Matemáticas eram incorporadas na Faculdade de Filosofia com três cadeiras com uma estrutura e designação semelhante às lecionadas na Faculdade de Matemática da UC: Matemática pura, Foronomia (Ciência do Estudo Geral dos Movimentos) e Astronomia. A cadeira de Astronomia deveria estar no Colégio de Matemáticas puras e aplicadas.[93] O projeto para a criação desta Universidade é de finais de 1821, foi apresentada pelos deputados brasileiros pelo Estado de São Paulo à Assembleia Constituinte de Lisboa. Entre os proponentes deste projeto encontravam-se José Arouche de Toledo Rendon, Francisco Muniz Tavares, José Feliciano Fernandes Pinheiro, e António Carlos Andrada e Silva, irmão de José Bonifácio. Segundo Fernandes Pinheiro, o Tietê valia bem o Mondego do outro hemisfério.[94]

 

[83] DE SOUSA COUTINHO, D. Rodrigo – «Memória sobre o melhoramento dos domínios de Sua Majestade na América», 1797, in «Textos Políticos, Económicos e Financeiros, 1783-1811», introdução e direção de edição de Andrée Diniz da Silva, Lisboa, Banco de Portugal, 1993, tomo II. P. 47-66.
[84] Varela, Alex Gonçalves – Atividades científicas na "Bela e Barbara" Capitania de São Paulo (1796-1823). Tese (doutorado). Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Geociências. 2005.
[85] CONDE DE LINHARES – Transcrição da Carta de Lei de 4 de Dezembro de 1810. Boletim da Sociedade Brasileira de Cartografia. n. 52. 2004. p. 3-13. Disponível em http://www.cartografia.org.br/boletim/Boletim52.pdf. Consultado em 4/01/2012.
[86] BUENO, Marcelo – A importância do desenho na conceção de desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil oitocentista. Atas do Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2011. p. 1626-1638.
[87] MORMÊLLO, Ben Hur – O ensino de matemática na Academia Real Militar do Rio de Janeiro, de 1811 a 1874. Dissertação. UNICAMP: Programa de Pós-Graduação em Matemática. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica. Campinas, SP. 2010.
[88] Citado Em: MOREIRA, Heloi; SANTOS, Nadja Paraense Dos – A Universidade de Coimbra e o Ensino de Engenharia no Brasil. Atas do Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2011. p. 1153-1163.
[89] Atualmente faz parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conhecido como Museu Nacional.
[90] SILVA, Paulo Vinícius Aprígio da Silva; KUBRUSLY, Ricardo Silva – O Archivos do Museu Nacional e a promoção do Brasil oitocentista. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011. Disponível em http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300569068_ARQUIVO_OarchivosdoMuseuNacionaleapromocaodascienciasnoBrasiloitocentista-texto.pdf. Consultado em 5/12/2011.
[91] ZAVATARO, Thereza de Barcellos Baumann (coord.) – Os Diretores do Museu Nacional / UFRJ. Organizado pela Seção de Museologia. Rio de Janeiro. Museu Nacional / UFRJ. 2011.
[92] FERNANDES, Antonio Carlos Sequeira Fernandes; HENRIQUES, Deise Dias Rego – José da Costa Azevedo e Custódio Alves Serrão: Da formação na Universidade de Coimbra à importante atuação na estruturação do Museu Nacional no Brasil. Atas do Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2011. p. 1018-1031.
[93] CAMPOS, José Adolfo; SANTOS, Nadja Paraense dos – A Astronomia nas propostas de criação de Universidades no império do Brasil. Atas do Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2011. p. 1093-1105.
[94] CAMPOS, Ernesto de Souza – História da Universidade de São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo. Edição Fac-Similar. 2004. p. 27-29.