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A controvérsia sobre a natureza da luz na época de Newton

O final do século XVII – um tempo dominado pela figura de Newton – ficou assinalado no Colégio das Artes pela discussão acerca do hilemorfismo – doutrina aristotélico‑escolástica, segundo a qual os corpos resultam de dois princípios distintos e complementares: a matéria, princípio indeterminado de que as coisas são feitas, e a forma, princípio determinante da essência particular a cada ser. Este assunto deu origem a uma forte polémica, na qual esteve envolvido o jesuíta açoriano António Cordeiro, que veio para o Continente no Verão de 1656 e entrou para a Companhia de Jesus no ano seguinte. Depois de um período de ensino no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, regressou a Coimbra, onde ensinou durante duas décadas. As obras científicas mais recentes tinham sido reunidas nas bibliotecas de Coimbra. Não admira por isso que, entre as muitas referências apresentadas por Cordeiro no seu Cursus Philosophicus Conimbricensis, apareçam várias a Kepler, Galileu, Descartes, Gassendi, etc.

Sobre a natureza da luz, uma questão estudada experimentalmente por Isaac Newton, Cordeiro afirmava que não havia dúvida de que a luz era aquilo que tornava os objectos claros e manifestos; e tal acontecia pelos sentidos e pela experiência. Para ele, a dúvida estava em saber qual era, na realidade, a natureza da luz. Cordeiro comentou que a luz, criada por Deus quando exclamou faça‑se a luz, não seria mais do que um elemento substancial do fogo. Segundo ele, esta opinião podia ser provada pela experiência, visto que os raios de luz aqueciam, queimavam, iluminavam, etc., como se podia verificar através do espelho ustório, um grande espelho côncavo que fazia convergir os raios solares para um ponto. Esses raios, mesmo quando dispersos, não deixavam de ser fogo, mas manifestavam mais intensamente as suas propriedades ígneas quando concentrados no foco do espelho. Para Cordeiro as espécies que estavam na origem das sensações visuais eram tenuissima corpuscula, ou eflúvios corpóreos. À semelhança do que era proposto na teoria corpuscular de Newton, cuja versão final foi publicada em 1704 no livro Opticks (uma das mais notáveis peças da obra newtoniana, apesar de não ser tão conhecido como os Principia), Cordeiro também concebia a luz como uma substância material, formada por partículas pequeníssimas que eram continuamente emanadas da fonte luminosa. As suas ideias geraram, porém, grande controvérsia no Colégio das Artes. Na Primavera de 1696 António Cordeiro foi suspenso do ensino em consequência da disputa em torno das suas opiniões. Apesar de ter começado a ensinar em Coimbra em 1676, só em 1714 obteve autorização do Geral da Companhia de Jesus para publicar as suas lições, o que fez sob o título Cursus Philosophicus Conimbricensis.

A natureza corpuscular da luz e a sua velocidade de propagação finita também tinham implicações no domínio da Astronomia. Cordeiro considerava que a percepção que temos das coisas longínquas do Universo era influenciada pelo facto das partículas ígneas emanadas pelos corpos luminosos se deslocarem com uma velocidade finita, embora muito elevada (Galileu tinha tentado, sem êxito, medir essa velocidade). Contudo, os opositores da natureza corpórea da luz argumentavam que, se a luz demorasse algum tempo a chegar do Sol à Terra, então jamais o Sol seria visto onde realmente se encontrava. Para responder a esta dificuldade Cordeiro recorreu à experiência, fazendo notar que, quando se movia circularmente um tição aceso, se julgava ver a brasa em cada ponto dessa circunferência. Apontava como razão do engano a conservação das imagens nos nossos olhos durante um certo tempo. A defesa que fez da observação e do método experimental Cordeiro torna-o, decerto, merecedor de maior conhecimento e reconhecimento.