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As ciências experimentais e o iluminismo em Portugal

O Laboratório Químico, o Gabinete de Física Experimental, o Museu de História Natural, o Jardim Botânico e o Observatório Astronómico foram, todos eles, criados no âmbito da reforma dos estudos de ciências realizada em 1772 por ordem do Marquês de Pombal. Esse governante, que tinha apreendido a cultura europeia quando foi diplomata em Londres e Viena, tornou-se em 1750 o poderoso primeiro-ministro do rei D. José I, tendo dirigido a reconstrução de Lisboa após o grande terramoto de Lisboa de 1755 (que tanto impressionou os maiores espíritos europeus, como Voltaire, Kant e Rousseau).

A reforma pombalina das ciências procurou fazer chegar a ciência moderna à Universidade, onde ela tinha tido alguma dificuldade em chegar e em permanecer. As ideias de Galileu e Newton, alicerçadas no método experimental, vieram a influenciar todo o século XVIII, o século das luzes. Um aspecto renovador, iniciado em Inglaterra no princípio do século XVIII, foi o ensino da Física Experimental. Instalaram-se gabinetes de Física Experimental nas mais prestigiadas universidades europeias, o que exigiu novos instrumentos. Por isso, logo nas primeiras décadas do século surgiram na Europa oficinas que produziram os instrumentos didácticos necessários para a Física Experimental. Quanto à Química, herdeira da antiga alquimia (hoje sabe-se que Newton foi um alquimista secreto) só no final do século XVIII havia de conhecer o lugar adequado para a investigação e ensino – o laboratório, um espaço equipado com meios de aquecimento e com utensílios de vidro e de cerâmica.

Apesar de todas as resistências internas, durante o século XVIII foi possível acompanhar-se entre nós o que se passava nos mais importantes centros da cultura europeia. Tal deveu-se, em grande parte, a acção de portugueses – os chamados “estrangeirados” – que, lá fora, contactavam e absorviam as novas correntes do pensamento e as novas práticas.

Newton, que morreu em 1727, foi pessoalmente conhecido por vários portugueses que passaram por Londres no final do século XVII e início do século XVIII. Numa sessão da Royal Society em 1724, presidida por Newton, foram lidas as primeiras comunicações de observações astronómicas realizadas em Lisboa no Paço Real pelos jesuítas italianos Giovanni Carbone e Domenico Capassi.

A difusão da filosofia newtoniana em Portugal deveu-se, em boa parte, ao exílio do judeu Jacob de Castro Sarmento para Inglaterra. Para fugir à Inquisição, em 1721, Sarmento, que tinha estudado Medicina na Universidade de Coimbra, fixou‑se em Londres, mantendo, no entanto, uma importante influência em Portugal. Ele foi um dos “estrangeirados”, portugueses notáveis que emigraram por razões de perseguição religiosa, política ou intelectual e lá fora assimilaram a cultura europeia. Sarmento, doutor pela Universidade de Aberdeen, na Escócia, entrou na Royal Society em 1730. A primeira tradução portuguesa de Newton foi feita por Sarmento: Teoria verdadeira das marés, conforme à Filosofia do incomparável cavalheiro Isaac Newton, publicada em Londres em 1737.

Outro “estrangeirado” que exerceu uma notável influência no desenvolvimento português no século XVIII foi João Jacinto de Magalhães (o nome denota a sua descendência do navegador Fernão de Magalhães), que estudou no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Depois de ter deixado Portugal em 1756, viveu em França antes de se fixar definitivamente em Londres em 1764. Magalhães foi muito claro ao declarar que não queria mais viver sob um governo que não assegurasse a liberdade pessoal. Em Inglaterra colaborou e manteve correspondência com os cientistas europeus mais notáveis da sua época. Além disso, promoveu em todo o continente europeu instrumentos científicos feitos em Inglaterra. O prestígio científico de Magalhães estendeu‑se a toda a Europa, desde Lisboa a São Petersburgo, tendo mesmo chegado aos Estados Unidos. Magalhães foi membro ou sócio correspondente de várias sociedades científicas, entre as quais a Academia das Ciências de Lisboa, a Academia Real das Ciências – em Bruxelas, a Academia das Ciências – em Paris, a Academia Imperial de Ciências de São Petersburgo, a Academia das Ciências – em Berlim, a Sociedade Filosófica Americana – em Filadélfia, e a já referida Sociedade Real (Royal Society) – em Londres. Colaborou com a coroa portuguesa, enviando colecções de instrumentos de astronomia, física, náutica, etc., cuja construção ele próprio supervisionava. Para Coimbra, Magalhães enviou um conjunto de instrumentos de Física e de Astronomia, alguns com melhoramentos técnicos da sua autoria.