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Christophorus Clavius: um dos mais famosos estudantes de Coimbra

A Companhia de Jesus foi fundada em Paris, em 1534, por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados por Íñigo López de Loyola, mais conhecido por Santo Inácio de Loyola. Passados alguns anos, em 1547 foi instalado em Coimbra um dos mais importantes colégios jesuítas: o Colégio das Artes. Cinco anos depois foi inaugurado em Lisboa o Colégio de Santo Antão, que se tornou famoso pelo ensino da Matemática e Astronomia na chamada “Aula da Esfera”. Esses dois colégios em Coimbra e Lisboa foram pontos de passagem de matemáticos e astrónomos jesuítas oriundos de diversos países europeus, que pretendiam estudar ou se dispunham a ensinar antes de se dirigirem para o Oriente ou para outras regiões da Europa. Entre os contemporâneos de Galileu que, no início do século XVII, mais influenciaram as ciências físico-matemáticas nas principais escolas nacionais e estrangeiras encontram-se o alemão Christophorus Clavius, o austríaco Christophorus Grienberger e os italianos Giovanni Lembo e Christophoro Borri. Todos eles passaram por escolas portuguesas e todos eles contribuíram para a disseminação das notáveis descobertas científicas feitas por Galileu em 1610 e que rapidamente alcançaram fama mundial.

Clavius, um jesuíta tão notável que foi considerado por alguns historiadores de ciência o Euclides do século XVII, foi estudante no Colégio das Artes de Coimbra. A sua estada nessa cidade, entre 1555 e 1560, ocorreu antes da jubilação de Pedro Nunes, cuja obra estudou, apesar de não haver certeza de ter sido seu aluno directo. A observação do eclipse solar realizada em Coimbra, em Agosto de 1560, e a influência de Pedro Nunes teriam sido determinantes para a sua decisão de se dedicar à Astronomia. Nunes deve a Clavius a divulgação dos seus trabalhos na enorme rede da Companhia de Jesus. Como exemplos das referências feitas ao matemático português pelos mais destacados matemáticos e astrónomos jesuítas encontram-se, para além da Opera Mathematica, de Clavius, o Aristotelis loca mathematica ex universes ipsius operibus collecta et explicata, de Giuseppe Biancani e o Almagestum novum, astronomiam veterem novamque complectens, de Giovanni Riccioli, um tratado que é visto como a mais importante peça de literatura científica dos jesuítas no século XVII.

Clavius, com cerca de 40 anos de idade, aceitou a responsabilidade de coordenar a comissão papal de matemáticos para a reforma do calendário juliano. No dia 24 de Fevereiro de 1582 o novo calendário – chamado gregoriano – foi promulgado pelo papa Gregório XIII pela bula Inter Gravissimas. Mas esse novo calendário não se instaurou sem polémica. Entre os principais críticos do novo calendário encontravam-se cientistas ilustres como o astrónomo alemão (protestante) Michael Maestlin e o matemático francês (católico) François Viète. Clavius viu-se obrigado a refutar as censuras de Maestlin publicando o texto Novi calendarii Romani apologia, adversus Michaelem Maestlinum e, pouco depois, Clavius voltou a defender-se das críticas do matemático francês na obra Romani calendarij à Gregorio XIII. P. M. restituti explicatio. A bula, os cânones e o calendário foram reimpressos no tomo V da sua principal obra, a Opera Mathematica (Obra Matemática). O túmulo do papa Gregório XIII tem gravado um baixo-relevo que mostra Clavius apresentando o seu calendário. O novo calendário bem poderia, por isso, ter sido chamado “claviusano”...

Os mais conceituados cientistas da época debateram com Clavius diversos temas científicos de vanguarda. Durante uma visita a Roma, o jovem Galileu, que tinha na altura apenas 23 anos, procurou o prestigiado jesuíta, membro do Colégio Romano (naquela época o mais importante colégio da Companhia de Jesus), para lhe apresentar e discutir com ele os resultados do seu recente estudo sobre o centro de gravidade dos sólidos. Galileu foi bem acolhido por Clavius e, depois deste primeiro encontro, os dois trocaram correspondência ao longo de muitos anos sobre várias questões científicas. Galileu enviava os seus trabalhos ao mestre jesuíta, solicitando a sua opinião. Até ao fim da sua vida Clavius não deixou de dar estímulo a Galileu, tendo-se mesmo empenhado pessoalmente na confirmação da descoberta dos satélites de Júpiter. No entanto, nunca chegou a assumir o princípio copernicano tido como certo por Galileu. Clavius faleceu em 1612, muito antes do processo que o Santo Ofício moveu ao sábio italiano.

Christophorus Grienberger e Giovanni Lembo estiveram, além de Clavius, directamente envolvidos na confirmação das observações de Galileu. Estes dois matemáticos e astrónomos foram professores no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, e formaram o grupo de matemáticos do Colégio Romano, que, juntamente com o jesuíta belga Odo van Maelcote, foram interpelados pelo Cardeal Roberto Bellarmino, membro da Cúria Romana e mais tarde papa, tendo confirmado as recentes descobertas astronómicas relativas aos satélites de Júpiter, publicadas no Sidereus Nuncius em 1610. Em Portugal, terá sido através da recepção do terceiro volume da Opera Mathematica, de Clavius, que foram efectuadas as primeiras alusões a Galileu. Nessa obra o autor teceu breves comentários ao Sidereus Nuncius, enumerando as recentes descobertas de Galileu, e deixou expressa a opinião de que, se as novas ideias fossem exactas, deveriam ser adoptadas pelos astrónomos na maneira de construir a esfera celeste, por forma a tudo ter uma explicação coerente. Mas tal poderia não significar a adopção do modelo de Copérnico, pois o sistema de Ptolomeu já tinha incorporado muitas e sucessivas modificações.

Matteo Ricci, outro dos mais notáveis astrónomos desta época, foi estudante de Clavius. Tornou-se um dos primeiros europeus a estabelecer contactos com matemáticos e astrónomos chineses. No ano de 1577 esteve em Coimbra, onde estudou Teologia e Matemática antes de seguir para o Oriente. No ano seguinte embarcou em Lisboa, desembarcando em Goa seis meses depois. Dois anos mais tarde entrou na China, permanecendo algum tempo em Macau. Posteriormente, foi, em Pequim, um grande impulsionador da Astronomia, tendo chegado a presidir ao conselho imperial que decidia matérias científicas e que tinha, entre outras, a incumbência de organizar o calendário, prever eclipses e realizar outras observações astronómicas (Tribunal das Matemáticas). Para estimular o desenvolvimento científico no Oriente, solicitou com alguma insistência que, da Europa, fossem enviados jovens matemáticos e livros. Com o italiano Michele Ruggieri completou o Dicionário de Português – Chinês, que continha a tradução de muitos termos científicos e técnicos. Ricci traduziu para chinês as principais obras do seu mestre Clavius.