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A ciência em Coimbra depois da morte de Galileu

Nos anos que se seguiram à passagem de Borri por Coimbra, continuaram a verificar-se influências renovadoras em aulas de Filosofia no Colégio das Artes, em Coimbra, leccionadas por portugueses. São exemplos os cursos de Baltasar Teles – Summa Philosophiæ: in quatuor partes distributa, de Francisco Soares Lusitano – Cursus philosophicus in quatuor tomos distributus, e de António Cordeiro – Cursus Philosophicus Conimbricensis.

Após a difusão das descobertas astronómicas de Galileu, as novas ideias passaram a ser ensinadas no Colégio das Artes. Nos cursos de Teles, Lusitano e Cordeiro podia aprender‑se que: a matéria celeste tinha a mesma natureza que a da Terra; que os astros eram corruptíveis; que apareciam estrelas novas e que os cometas não eram elementares e sublunares; e que os astros não eram movidos por anjos… E mais: Todos os elementos eram pesados e não buscavam naturalmente os seus lugares; a gravidade era apenas uma força intrínseca; também era por uma força intrínseca que os astros se moviam; o centro do mundo não existia e, portanto, não podia “apetecer” às partes da Terra. Se uns corpos desciam e outros subiam, tal se devia à diversidade do peso: provinham exclusivamente da diferente resistência do meio, porque por si tendiam igualmente para o centro. Não havia fogo elementar entre a terceira região do ar e a Lua; o Sol não era sólido: estava em ebulição, salvo no centro que era bastante sólido; tinha manchas e era dotado não só de movimento de translação mas também de rotação. Em resumo, o pensamento de Aristóteles tinha sido muito abalado e, em parte, substituído.

Baseando‑se num estudo pormenorizado do Cursus philosophicus de Soares Lusitano, o historiador João Pereira Gomes destacou a independência de ideias e o conhecimento dos mais recentes tratados científicos daquele professor. Com efeito, Lusitano afirmou que, perante os novos conhecimentos, nem desprezava as coisas antigas, quando verdadeiras, nem abraçava as recentes, quando falsas: Agradam‑me as coisas verdadeiras, porque verdadeiras; desagradam‑me as falsas, porque falsas. Pois não me arrasta a beleza da novidade, ou o peso da antiguidade, mas a verdade das coisas. Apoiando‑se nas observações que os modernos matemáticos e físicos tinham feito e publicado sobre o Sol, Lusitano afirmava tratar‑se não de um corpo sólido, mas sim líquido. Os modernos que lhe serviam de referência eram Copérnico, Tycho, Borri, Galileu, Kepler, etc. Segundo ele, aos melhores matemáticos e físicos deveria dar‑se todo o crédito nas coisas de que eram diligentíssimos investigadores. Destacava o facto de Simão Mário e Francisco Rodrigues Cassão terem feito observações do Sol em Coimbra, e o descreviam como parecendo ouro liquefeito numa fornalha quando observado pelo helioscópio, um instrumento destinado a observar o Sol sem ferir a vista. Cassão, considerado por Lusitano um insigne matemático nesta Universidade de Coimbra, afirmava que através do seu helioscópio com vinte e quatro palmos de comprimento via-se toda a circunferência do Sol a borbulhar, tal como a água a ferver borbulha numa panela ao lume. Eram, na verdade, novos estes fenómenos, mas, como provinham de instrumentos de observação, a sua veracidade não podia ser negada! Ao longo da segunda metade do século XVII Coimbra continuou a ser um local de passagem de estudiosos da Matemática e da Astronomia, alguns dos quais, tal como antes, em trânsito para o Oriente. Antes de partir para o Oriente, o jesuíta belga Antoine Thomas ensinou num curso de Matemática do Colégio das Artes, frequentado por candidatos à missão da China. Foi durante a sua estada em Coimbra que Thomas observou o eclipse da Lua de 29 de Outubro de 1678. Os resultados da observação foram enviados ao padre jesuíta Jean de Fontenay, professor de Matemática no Colégio de Clermont, França, e depois publicados num artigo, em Fevereiro de 1679, no Journal des Savants, sob o título Observation de l'éclipse de lune du 29 octobre 1678 à Coimbre.