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Coimbra e a ciência europeia no século XIX e início do século XX

Portugal foi bastante marcado pelas grandes transformações sociais e políticas observadas em França, com a Revolução Francesa, em finais do século XVIII. As invasões francesas obrigaram a corte do Regente D. João, futuro rei D. João VI, a refugiar-se em 1807 na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, uma transferência que não foi alheia à independência do Brasil, proclamada no dia 7 de Setembro de 1822, junto às margens do Ipiranga, em São Paulo, por D. Pedro, filho de D. João VI.

Também na Universidade de Coimbra se fizeram sentir as mudanças introduzidas então no ensino e que se generalizaram na Europa durante o século XIX. O modelo de ensino na Escola Politécnica de Paris viria a constituir uma das mais importantes referências em Coimbra ao longo deste século. Por outro lado, no final desse século, a organização universitária na Europa viu‑se obrigada a grandes reformas de organização, sendo paradigmático o caso da Universidade de Berlim, fundada pelo alemão Wilhelm von Humboldt, em 1810, que foi considerada a “mãe das universidades modernas”. Tratava‑se, com efeito, de um centro aberto à investigação científica como trabalho complementar ou mesmo autónomo da docência universitária. Várias viagens científicas de alguns professores de Coimbra a diversos centros universitários europeus reflectiram-se na evolução do ensino em Portugal durante todo o século XIX e também na organização, ainda que débil, de algum trabalho de investigação.

Na primeira metade do século XIX concretizaram-se na Universidade de Coimbra algumas reformas curriculares (sendo as mais importantes as de 1801, 1836 e 1844, as duas últimas já influenciadas pela Revolução Liberal de 1830), da iniciativa do claustro universitário, como necessidade de melhor ajustamento ao desenvolvimento científico na Europa. No entanto, apesar das sucessivas reformas tendentes à actualização dos conteúdos científicos dos programas, não se pode dizer que Coimbra tenha sido palco de descobertas ou desenvolvimentos relevantes à escala europeia. A partir de 1836/1837, com a fundação da Escola Politécnica de Lisboa e da Academia Politécnica do Porto, imbuídas do espírito do liberalismo, a Universidade de Coimbra passou a ter concorrência a nível de estudos superiores. A relação de Coimbra com essas novas escolas não foi simples nem pacífica. Alguns críticos da velha universidade afirmaram que os métodos de ensino coimbrão continuavam a assentar na erudição livresca e nas lições magistrais e, consequentemente, não eram mais do que um repositório de uma ciência desligada das novas realidades científicas e técnicas. Coimbra era acusada de ser fábrica de homens políticos, normalmente formados em Direito ou Medicina, que perseguiam os graus académicos para conquistar posições proeminentes na sociedade.

Contudo, depois da Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, foi no ano de 1791 que se verificou a primeira alteração do plano de estudos na Faculdade de Filosofia. Com efeito, foi criada nesse ano a cadeira de Botânica e Agricultura para substituir a de Filosofia Racional, que os estatutos pombalinos haviam colocado no primeiro ano do Curso Filosófico. Para reger a nova cadeira de Botânica foi nomeado Félix de Avelar Brotero, que por carta régia se graduou gratuitamente e entrou na corporação de professores da Faculdade de Filosofia. Brotero havia estudado no Colégio dos Religiosos Arrábicos de Mafra, tendo posteriormente concorrido ao lugar de capelão‑cantor da Igreja Patriarcal de Lisboa. Emigrou para França na companhia do poeta Francisco Manuel do Nascimento, mais conhecido pelo pseudónimo de Filintio Elísio. A sua estada na capital francesa permitiu‑lhe conviver com os mais eminentes naturalistas franceses da época, especialmente com Georges-Louis Leclerc (Conde de Buffon), Georges Cuvier e Jean Baptiste Lamark. Doutorou‑se em Medicina na Universidade de Reims. Depois do seu regresso a Portugal, foi nomeado professor da Faculdade de Filosofia, tendo sido determinante a sua intervenção para reformar o plano de estudos que levou à criação da cadeira de Botânica e Agricultura.

Brotero foi membro de diversas academias científicas, entre as quais a Sociedade de Horticultura de Londres e a Lineana de História Natural da mesma cidade; a Academia Real das Ciências de Lisboa, de História Natural e Filomática de Paris; Fisiográfica de Lund na Suécia; de História Natural de Rostock, na Alemanha, e Cesareia de Bona, também na Alemanha. Entre os vários trabalhos que publicou citem-se, a título de exemplo, os seguintes: Compêndio de Botânica, ou Noções Elementares desta Ciência, segundo os melhores Escritores Modernos, espostas na Língua Portuguesa (Paris, 1788); Flora Lusitanica: seu plantarum, quae in Lusitania vel sponte crescunt (Lisboa, 1804); Phytographia Lusitaniae selectior... (Lisboa, 1816-1827); e Compêndio de botânica: addicionado e posto em harmonia com os conhecimentos actuais desta ciência, segundo os botânicos mais célebres... (Lisboa, 1837-1839). Também publicou diversos trabalhos nas Transactions of the Linnean Society de Londres. Autor de vasta obra, Brotero foi talvez o mais proeminente cientista português do século XIX.

No Gabinete de Física Experimental, o italiano António Dalla Bella foi substituído em 1791 pelo português Constantino Botelho de Lacerda Lobo, que foi pela primeira vez nomeado demonstrador de Física em 1781/1782. Entre 1785 e 1790 alternou com Teotónio Brandão e Ribeiro de Paiva na docência da cadeira de Física. Botelho de Lacerda Lobo, mostrando assídua aplicação e elevada inteligência foi em 1778, tal como Brotero, graduado gratuitamente. Passados treze anos foi nomeado Lente Proprietário de Física Experimental, tendo falecido em 1820 antes de se jubilar. Em 1807 a Congregação da Faculdade de Filosofia reuniu na sala do Gabinete de Física, deliberando que para o aumento do Gabinete de Física se mandem modelar algumas máquinas, que de modo importante são empregadas nos usos das Artes. Durante a sua direcção o Gabinete sofreu uma perda irreparável. Com efeito, por ocasião da terceira invasão francesa, o exército de Massena entrou em Coimbra no dia 30 de Setembro de 1810. Passados dois dias foram levados pelos invasores um óculo astronómico, um óculo de Galileu e dois magníficos microscópios que tinham sido comprados em Inglaterra. Para além da sua dedicação ao ensino da Física, Lacerda também se interessou pelos assuntos de agricultura, publicando várias obras sobre esse assunto em periódicos como o Investigador Português, Jornal de Coimbra e as Memórias da Academia das Ciências. Tornou‑se notável por ter descoberto um novo modo de aplicar a força do vapor ao movimento das máquinas. Uma memória sobre este invento foi lida em sessão pública da Academia das Ciências de Lisboa realizada em Janeiro de 1805. No último parágrafo queixava‑se de que a glória da sua invenção lhe fosse roubada por Verzy, que, arrogando a si a autoria da descoberta, a propusera ao Ministro do Interior francês, tendo obtido os fundos indispensáveis para fazer experiências em ponto grande. A descrição da máquina veio no Jornal de Coimbra, de Abril de 1812, acompanhada por estampas. Botelho de Lacerda não mandou imprimir os seus trabalhos, tendo as muitas memórias que escreveu sido publicadas em vários jornais e em revistas científicas.