Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Coimbra e a génese da ciência moderna

A grande mudança de atitude in­telec­tual relativamente aos fenómenos da Natureza observada nos séculos XVI e XVII caracteriza a chamada “Revolução Científica”. Este período da história da Humanidade foi a época dos grandes génios da ciência. Entre eles o que mais merece o título de fundador da ciência moderna é certamente o italiano Galileu Galilei. Foi ele o primeiro a observar os céus com um instrumento adequado (o telescópio) e também o primeiro a praticar e a teorizar o método experimental, que ainda hoje caracteriza as ciências físicas e naturais, libertando o pensamento de alguns erros aristotélicos. A sua preferência pelo sistema heliocêntrico ficou bem clara no livro Diálogos sobre os Grandes Sistemas do Mundo, impresso em 1632, e escrito em língua italiana para chegar a mais gente. O despontar da ciência moderna só ficou, porém, completo com a publicação dos Philosophiæ Natu­ralis Principia Mathematica (Princípios Matemáticos de Filosofia Natural), doutro grande génio, o inglês Isaac Newton, no ano de 1687. Galileu morreu em 1642 e Newton nasceu logo no ano a seguir, aprofundando as ideias galilaicas.

Foi no folheto Sidereus Nuncius (O Mensageiro das Estrelas), publicado em 1610, que Galileu anunciou a sua descoberta dos satélites mais próximos de Júpiter, uma descoberta que, no seu entender, contestava a visão geocêntrica da astronomia antiga, devida a Aristóteles e a Ptolomeu. Para além dos satélites de Júpiter, as descobertas das manchas solares, das montanhas da Lua e das fases de Vénus colocavam sérias dificuldades às concepções aristotélicas segundo as quais a substância celeste era incorruptível e os astros giravam em torno da Terra. Levantou-se uma forte polémica, que levaria à bem conhecida condenação de Galileu pela Inquisição em 1633 (é menos conhecido que, passados mais de 350 anos, a Igreja Católica reabilitou Galileu).

A obra de Galileu abalou o mundo. Também em Portugal a obra de Galileu teve profundos reflexos nas disputas académicas e também aqui tal ocorreu principalmente pelas suas implicações anti‑aristotélicas. Nos séculos XVI e XVII confluíram para a Universidade de Coimbra, além naturalmente dos nacionais, vários estrangeiros desejosos de estudar as Ciências Físico-Matemáticas. Posicionada na rota dos físicos, matemáticos e astrónomos que demandavam as paragens do Oriente, cujo acesso marítimo tinha sido descoberto pelos Portugueses, a academia conimbricense fez com que Portugal, apesar de afastado dos grandes centros europeus, onde iam germinando as novas correntes do pensamento científico, acompanhasse esses desenvolvimentos.

A história da Universidade de Coimbra tinha começado no século XIII. Ela foi, com a excepção dos exactos dois séculos, entre 1559 e 1759, em que existiu o ensino dos jesuítas de Évora, até à implantação da República em 1910 a única não só em Portugal Continental como também no vasto império português. No dia 1 de Março de 1290 foi assinado em Leiria, pelo rei D. Dinis, o documento Scientiae thesaurus mirabilis, que instituiu a Universidade portuguesa. A bula De statu regni Portugaliae do papa Nicolau IV, a 9 de Agosto do mesmo ano, reconheceu o então chamado “Estudo Geral”, que incluía as Faculdades de Artes, Direito Canónico, Direito Civil e Medicina. Em 1308 a Universidade foi instalada no Paço Real da Alcáçova (hoje Paço das Escolas), em Coimbra, que tinha sido residência real durante quase toda a primeira dinastia. Os primeiros estatutos do “Estudo Geral” foram redigidos no ano seguinte, sob o título Charta magna privilegiorum. Em 1338 a Universidade foi transferida para Lisboa, onde permaneceu 16 anos, regressando a seguir a Coimbra. Após nova mudança para Lisboa, em 1377, a Universidade regressou definitivamente a Coimbra em 1537, por ordem do rei D. João III.

 

[1] As ciências exactas e naturais em Coimbra. Décio Ruivo Martins; Carlos Fiolhais. In. Luz e Matéria. Museu da Ciência – Universidade de Coimbra. Dezembro. 2006. p. 70 – 115.