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L. W. Carrisso e a ocupação científica das colónias portuguesas

Dedicada à Mocidade Portuguesa, a prelecção de L. W. Carrisso na sala dos Capelos da UC (2 de Março de 1928), intitulou-se significativamente O problema colonial perante a nação. Enaltecendo os feitos marítimos dos antepassados portugueses, assinalou a ausência de base científica do processo colonizador. Em especial, quanto a um plano acautelado e metódico. Para o autor, essa vacuidade patenteava falhas estruturantes do ser, estar e fazer português. Faltava-nos a característica que “tanto invejamos aos outros povos que actualmente desempenham na vida mundial um papel análogo, mas talvez mais restrito, do que aquele que há quatro séculos nos pertenceu.” (Carrisso, 1928b, p. 9). Defeito a debelar, sob pena do xadrez político mundial nos pulverizar. Era pois o momento de alterar este quadro. Até porque “A nossa verdadeira História está hoje a fazer-se, e essa obra, de transcendente interesse patriótico, honra sobremaneira os seus autores” (Carrisso, 1928b, p. 9. Nosso itálico); de harmonia com a agenda ideológica vigente entre nós.

Nesta sua lição de sapiência, o celebrado botânico enfatizou a urgência de validar e sustentar cientificamente a economia colonial. Também nisto secundava seu mentor, J. Henriques, introdutor da dimensão ultramarina no Jardim Botânico da UC. Mas, com que objectivo? Antes de mais, para rentabilizá-las. Assim procediam outras metrópoles desde finais do século precedente. Atitude premente face às críticas internas ao projecto colonial, “um cancro que roe a economia nacional, um sorvedouro de vidas e dinheiro” (Carrisso, 1934a, p. 11).

Em suma, as colónias portuguesas não rendiam. Antes pelo contrário. Longe de esmorecer e aderir a esse coro definhado, L. W. Carrisso destacava sucessos. Entre eles, o comércio da borracha indígena. Embora delicado, era assunto fácil de resolver. Bastava abordá-lo de forma científica. A sua ruína resultara dos valores praticados por outros mercados, “onde a cultura das plantas borrachíferas e a preparação da matéria prima era feita segundo processos scientificos”” (Carrisso, 1928b, p. 23). Havia que fazer algo. Em especial, quando a terra constituía “fonte única que é de uma vida económica sã e perdurável” (Carrisso, 1928b, p. 24). Mais do que isso, “a tão decantada riqueza de Angola não é um mito, é um facto.” (Carrisso, 1928b, p. 25); ao reunir “um complexo de qualidades que a torna talvez a região mais interessante da África, para além do equador” (Carrisso, 1928b, p. 25). O potencial de Angola era inequívoco e precisava de ser explorado quanto antes. Sobretudo agora que os meios e as vias de comunicação uniam com maior celeridade as suas localidades principais, minimizando o estilhaçar de eventuais focos de instabilidade política e social. Registava-se também uma melhoria substancial da generalidade das condições sanitárias, assim como a disponibilidade de uma imensa massa trabalhadora local. Até porque, como afirmou Maximino Correia (1893-1969), em edição evocativa de L. W. Carrisso, “O estudo científico, metódico, sob tôdas as modalidades da flora, da fauna, da geologia, da antropologia, da etnografia, etc., tem tanta importância como a ocupação militar e administrativa.” (1939, p. 19. Nossos itálicos).

Mas, “Para resolvermos o problema colonial, para continuarmos essa expansão da nossa raça que constitui o objectivo histórico da Nacionalidade” (Carrisso, 1928b, p. 30. Nosso itálico), era necessário dispor de recursos materiais e humanos com preparação moral e técnica. Além de frisar o propósito (ultra) nacionalista do projecto colonial, o professor de Coimbra salientava algo de suma importância para o país, porquanto alicerçador: a união entre programa político e educação. Situação arrastada e debatida desde a centúria anterior, com a implantação dos regimes liberal e republicano, na esteira das reformas pombalinas. O assunto era reforçado agora com a premência de manter as colónias, tornando-as, mais do que auto-suficientes, rentáveis à metrópole. Mas, como proceder quando reinava o desconhecimento (quase) absoluto sobre esses territórios? Como actuar, quando os temas inerentes não ingressavam no ensino, em especial superior, de si carente de alguma qualidade genérica, mormente quanto à investigação? Questões inadiáveis quando a educação era vital ao desenvolvimento do país e suporte do ideário dominante. A inconsciência deste facto tornara a vida política e social do país demasiado atribulada, aumentando de modo exponencial a revolta social (filha da desordem dos espíritos), o desrespeito e a privação de civismo.