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A botânica no processo colonial

Louvando o labor de predecessores, como J. Barbosa du Bocage (1823-1907), Conde de Ficalho (1837-1903), J. Henriques e F. Welwitsch (1806-1872), prosseguido, entre outros, por J. Gossweiller (1873-1952), A. Exell (1901-1993) e F. de Ascensão Mendonça, L. W. Carrisso lamentava que as colecções botânicas recolhidas em colónias portuguesas fossem estudadas por estrangeiros e no estrangeiro. Em especial no Museu Britânico. Não existiam naturalistas nacionais com conhecimento directo dessas realidades, por ausência de recursos monetários para o efeito; por carência de colectores seguidores de José de Anchieta (1832-1897); por impreparação dos institutos e gabinetes. Exceptuando a geologia, apoiada nos últimos anos pela importância económica aduzida, a ciência colonial portuguesa quási emudeceu (Carrisso, 1934b, p. 12). Entretanto, as colónias portuguesas eram calcorreadas por expedições estrangeiras, recolhendo cuidadosamente aquilo que desprezamos (Carrisso, 1934b, p. 13); acedendo-se aos seus resultados com extrema dificuldade, pela pobreza dos nossos laboratórios e bibliotecas (Carrisso, 1934b, p. 14). Várias foram as causas da falta de formação de nacionais nestas especialidades. Em 1934, por exemplo, não tínhamos um único naturalista zoólogo nas colónias. O mesmo sucedia no domínio das ciências humanas e sociais. Na antropologia e na etnologia, não estamos melhor, antes pelo contrário (Carrisso, 1934b, p. 19).
O interesse científico e institucional por estas paragens era quase quimérico. O país parecia divorciar-se do além-mar ao não divisar-lhe mais-valias individuais e colectivas. Inércia quebrada por um testemunho privado: a Companhia dos Diamantes de Angola (1917), “sempre pronta a auxiliar com a maior generosidade os empreendimentos científicos” (Carrisso, 1934b, p. 20). Razão bastante para que o director do IBUC sugerisse recorrer-se aos seus préstimos para ultrapassar um torpor nacional, quase endémico, justificando a escolha da Lunda como palco privilegiado de suas prospecções botânicas, constatando uma proveitosa prática colonial estruturada na ciência.

Era sobretudo necessário continuar a cruzada iniciada pessoalmente anos antes, divulgando com amplitude a importância dos territórios colonizados para o bem-estar do próprio continente português. Fê-lo inúmeras vezes. Uma delas, em plena 1.ª Exposição Colonial Portuguesa (1934), primeiro certame do género realizado com sucesso no país, num momento em que “em matéria de investigação científica colonial estamos numa fase de grande atrazo, senão de decadência.” (Carrisso, 1934b, p. 21). Conferenciou então (UC, 12 de Setembro) acerca da Ocupação científica das colónias portuguesas. O que há feito. O que há a fazer. Aplaudindo a Exposição enquanto expressão de como a “Nação se interessa pelo seu Império” (Carrisso, 1934b, p. 7), exaltava a política do Estado Novo, num momento em que o país reagia perante “um chefe, que, com prudência mas com inquebrantável energia, o tem guiado no seu ressurgimento” (Carrisso, 1934b, p. 8. Nossos itálicos); equiparando-o ao plano italiano. Desse renascimento, L. W. Carrisso destacava a ideia colonial, por constituir a base essencial da nacionalidade (Carrisso, 1934b, p. 8); alicerce e esteio da sua independência. Até porque “Esse movimento de expansão europeia, que trouxe às raças brancas a hegemonia do mundo, fomos nós que o iniciamos” (Carrisso, 1934a, p. 10), numa defensa do (presumido) ascendente ocidental. Sustentava por isso a colonização efectiva, sendo que,

Colonizar, nas condições actuais da vida mundial, é uma operação extremamente complexa e delicada. É uma operação – digamos o termo próprio – científica, e que tem de ser conduzida cientificamente, com tôdas as cautelas…O conhecimento perfeito do meio onde a operação se realiza é a base indispensável. A colonização sendo, em última análise, a instalação do colono nas colónias, é, fundamentalmente, um problema de ecologia humana (Carrisso, 1934b, p. 9. Nossos itálicos)

    De contrário, multiplicar-se-iam projectos fracassados e investimentos inutilizados por falta de rigor e desmedidos empirismos. Panorama agravado com o desprendimento da maioria da intelectualidade nacional, circunscrevendo-se os trabalhos realizados a poucas iniciativas particulares ocorridas em décadas prévias.

Se a Exposição portuense revelava o muito a fazer, ela denunciava o muito a concretizar. Principalmente quanto à investigação científica colonial. Mesmo no ensino universitário. Procedia-se como se “em Portugal, na terceira potência colonial do Mundo, como se as colónias não existissem.” (Carrisso, 1934b, p. 21. Nosso itálico). Não que o ensino colonial não competisse às universidades. Pelo contrário, ele devia inscrever-se nos seus programas. Para isso, havia que despertar o corpo docente para a sua relevância, numa altura em que a única monografia completa disponível sobre as colónias, em concreto Angola, fora redigida e impressa em alemão, por alemães. Dava-se, é certo, à estampa o Boletim Geral das Colónias, representando um esforço louvável de difusão de conhecimentos. Mas, os números saídos a lume, “respeitante a uma colónia, é uma colecção de artigos sem qualquer subordinação a um plano de conjunto, e cada monografia, encarada por si, revela vastas lacunas.” (Carrisso, 1934b, p. 21). Longe de inculpar o Estado por este satus quo, A. W. Carrisso interrogava como se permitira destruir colecções e reduzir drásticamente orçamentos vitais à prossecução de trabalhos iniciados em oitocentos. Pior. O Estado nunca solicitou a colaboração de universitários na obra colonial, não a estimulou e não a facilitou, num país onde os cientistas nem sempre dispunham das condição essenciais ao desenrolar dos seus trabalhos. Mais do que isso,

Em Portugal a investigação científica não é, apesar dos progressos ultimamente feitos, ainda bem compreendida. Tudo o que seja trabalho desinteressado é tomado, não como um motivo de admiração, respeito e digno de estimulo, mas apenas como uma excentricidade a que se vota a maior indiferença. A pequena produção científica portuguesa – a que existe – é circunscrita aos institutos universitários ou adstritos ao ensino. A iniciativa particular não existe e os legados particulares são tão raros que não podem praticamente contar. É o Estado que tem de manter não só as necessidades do ensino – essas evidentemente – mas ainda de subsidiar as iniciativas que aqui e ali esporadicamente se revelam (1939, p. 19. Nossos itálicos)

Portugal não detinha uma cultura científica muito desenvolvida, nem protagonistas habilitados a incentivá-la e a nutri-la. Que decisão tomar? Qual a solução? Antes de mais, uma gestão fundamentada e coesa da produção científica. De que modo? Convocando professores universitários e o país a colaborarem na grande obra da expansão colonial portuguesa, a partir da metrópole, por inviabilidade de erguer bases científicas nas colónias pelo dispêndio, inconveniência e (quase) impossibilidade de concretizar um plano desta natureza e envergadura. Com efeito, “Não é fácil reunir, de um momento para o outro, todos os elementos que uma tal base necessariamente exige, tais como bibliotecas e material de comparação.” (Carrisso, 1934b, p. 22). Os apoios já existiam na metrópole. Em concreto, no meio universitário, onde se recrutariam os investigadores, cabendo-lhes assegurar o ensino colonial superior. Mas, como estruturar estas investigações? Para L. W. Carrisso, a resposta era simples: em missões temporárias. Organizadas e orientadas por um organismo estatal a criar em sintonia com os directores de instituições científicas continentais, deveriam observar e recolher material científico para ulterior estudo e publicação nas bases metropolitanas. Bases que, secundado o geólogo Fernando Mouta (? -1898), ganhariam a forma de um instituto de investigação científica colonial (IICC) tutelado pelo MC. Com o tempo, obter-se-ia um corpo de investigadores coloniais colocados perante “um vasto campo de trabalho, que lhes permitiria ganhar a vida sendo úteis ao seu País.” (Carrisso, 1934b, p. 23). Especializando-se, cumpria-lhes, entre outros aspectos e envoltos no prevalecente espírito científico essencialista, funcionalista, triunfalista e universalista, recolher exemplares científicos, realizar levantamentos topográficos, proceder a registos fotográficos.

Beneficiavam a ciência, as colónias e a metrópole. Enquanto isso, renovava-se a imagem de Portugal no adverso cenário internacional. Como? Fundando um museu colonial, o coroamento deste plano, para o qual havia que coligir material e formar pessoal, inovando preexistências acanhadas quando cotejadas a exemplos estrangeiros: “continuaremos nós a contemplar as glórias do passado sem repararmos nas exigências do tempo presente?” (Carrisso, 1934b, p. 23). Por tudo isto, a exposição colonial do Porto devia rasgar uma nova era no olhar metropolitano sobre os territórios de além-mar, confiando-se aos cientistas “a missão de desbravarem o caminho, conduzindo a Nação aos seus altos destinos.” (Carrisso, 1934b, p. 23. Nosso itálico); numa aliança inequívoca entre produção científica e agendamento político. A demora do país era no entanto substancial nesta matéria, assim como o trabalho a executar. Tarefa, para a qual o país não estava preparado, desencorajando os mais optimistas.