Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Ciência e política colonial

Transformando-se num pedagogo estimado por quem mergulhava nos mistérios da vida através da botânica, L. W. Carrisso deixou um amplo lastro sustentador do seu pensamento e planos futuros (dos quais o plano de Ocupação Científica do Ultramar Português, de 1945), batalhando por dotar o IBUC de equipamento actualizado e especialistas de renome. Somente assim a botânica frutificaria, formando escola a manter, expandir e melhorar por gerações vindouras. Divisando novos rumos para a ciência cultivada, glorificando-a e garantindo a sua perpetuação na figura de seus discípulos, L. W. Carrisso reconheceu o enorme e quase inesgotável potencial das colónias portuguesas. Vislumbre retirado de outras potências colonizadoras, onde há muito investigadores e centros de investigação se votavam ao escrutínio dos territórios de além-mar para valorizar seus países no teatro das rivalidades mundiais.
Comungando do ideário nacionalista imperante em finais dos anos 20, L. W. Carrisso defendia, com convicção, a necessidade de promover o conhecimento científico das colónias para glória de Portugal. Havia por conseguinte que aliar produção científica e agenda política. Botânico conceituado no mundo académico nacional e internacional, figura proeminente da sua geração, investigador, docente, dirigente universitário e figura política, L. W. Carrisso deixou-se fascinar pela diversificada, numerosa e (ainda muito) desconhecida flora africana. Sobretudo dos territórios administrados por Lisboa. Situação incómoda comparada à firmada por outros colonizadores europeus. Sobretudo ao deterem menores geografias e sóbrio histórico imperial. Tal não os obstava porém de organizar missões científicas contempladas com recursos humanos e materiais basilares ao inventário do copioso repositório natural de além-mar. Experiência cumulada desde finais de oitocentos, quando a insaciável industrialização exigia novos mercados, nova mão-de-obra e novas matérias-primas. O método secular de exploração desses recantos mundiais era no entanto ultrapassado agora por uma contemporaneidade acorrentada a novos ditames económicos e financeiros. Urgia por isso repensar as colónias. Reflecti-las, exigia contudo conhecer em profundidade suas características e valências humanas, biológicas e geológicas.

Não era a primeira vez que Portugal (re)pensava o seu vasto império. Antes de vozes, como a de L. W. Carrisso, se erguerem em corredores decisivos do país, já um escol de individualidades gradas da política e da intelectualidade nacionais se faziam escutar. Algumas, viram suas medidas implementadas. Outras, perdidas por entre espirais de ideias, bradaram-nas em periódicos e monografias. Lidas por poucos e atendidos por menos, lançaram ideias estruturantes de uma realidade antevista (mesmo que de forma monolítica), insistindo na renovação de atitude face aos territórios para lá do equador. Os meados do século XIX trouxeram por fim uma ocupação gradual do interior das colónias. Em especial de Angola, por intermédio de campanhas militares, expedições políticas e científicas. Sobressaiu nas últimas o médico e naturalista austríaco Frederico Welwitsch (1806-1872), contratado para o estudo fitográfico do território (1853 e 1861), ocupando o lugar de conservador do Jardim Botânico da Ajuda (1840 e 1861). Apesar deste primeiro grande esforço, a verdade é que, mais de meio século depois, “em Angola como nas outras colónias, a investigação scientifica portuguesa não se afirmou como devia.” (Carrisso, 1928b, p. 19. Nosso itálico). 
Havia razões para temer o pior. A perda de geografias clamadas portuguesas podia tornar-se real. Foi então vital impedi-la. Fundada a Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), fomentou-se uma nova política ultramarina de inspiração regeneradora. Criou-se a Comissão Central Permanente de Geografia (CCPG) (1876), adstrita ao Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar. Os resultados desejados não foram contudo atingidos. As razões foram várias, destacando-se a fragilidade da estratégia traçada perante a complexidade do desafio a vencer. Mais grave, era a impreparação do país para acolher o programa de João de Andrade Corvo (1824-1890) substanciado na recolha e estudo de materiais passíveis de revelar a totalidade dessas regiões tão longínquas, secundando congéneres estrangeiras. Como em relação a outros aspectos da vida portuguesa, ironizava-se reiteradamente a ausência de uma vontade intrínseca, real, de proceder de acordo com as necessidades assomadas e o xadrez político europeu onde nos movíamos. Como se bastasse participar modestamente em exposições universais organizadas por uma burguesia ascendente. Ilusão pura.
Os escolhos e imperfeições encontrados nesta demanda não anularam o facto de, possivelmente pela primeira vez de modo tão eloquente, se entrecruzar ciência e política com o objectivo primeiro de desenvolver Portugal. Houve, é certo, ensaios anteriores. Testemunham-no as viagens filosóficas da Academia Real das Ciências de Lisboa (ARCL) (1779). Mas, embora modelares, foram na sua maioria intermitentes e estéreis, ao não integrarem um projecto super estrutural. A. Corvo planeou então o seu ideário para os territórios ultramarinos, de modo a enfrentar com lucidez a poderosa Inglaterra. Instava por isso conhecer de modo abrangente esses remotos termos para melhor os administrar e fruir economicamente, compondo um verdadeiro programa de investigação científica sustido pelos melhores recursos humanos e materiais disponíveis. Mesmo que estrangeiros. Esforço inglório. As críticas foram arrasadoras. Antes de mais, denunciava-se a inexistência de esclarecimento público sobre os objectivos e procederes da nova actuação. Havia que mudar ideias e mentalidades, adaptando-as à política internacional esteada num impetuoso desenrolar económico, financeiro e social de uma Europa à mercê da voragem industrial. Neste vórtice quase imperceptível, os interesses coloniais conquistavam relevância capital, nomeadamente para um país como Portugal.

Não surpreende por conseguinte que a CCPG cedesse a outro organismo onde a Geografia (física e política) alicerçou o conhecimento humano, social, natural e exacto dos trópicos colonizados por Lisboa. Elo de ligação entre diferentes (mas complementares) áreas de saber, a Geografia interconectou vontades políticas e curiosidades científicas, dela nascendo a Comissão Central de Geografia (CCG), num ano (1880) de particular fervor nacionalista com a evocação camoniana. Englobada na Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL), a CCG (re)definiu fronteiras ultramarinas para consolidar a posição portuguesa em África. Procedeu mais tarde a trabalhos de triangulação acompanhados de debates enérgicos sobre metodologia de campo. Em especial, quando não era sempre fácil encontrar e manter o equilíbrio entre pensamento político (SGL) e decisão política colonial (Governo). Permutaram-se em todo o caso opiniões, conceitos e meios indispensáveis de acção, (re)utilizando-se saberes e recursos. Tudo num ambiente de discussão saudável e profícua. 

Mas o lento adormecimento da CCG era inegável. Apesar de fornecer ao Ministério do Ultramar os especialistas indispensáveis, a SGL não conseguia assegurar os meios próprios de actuação. Em particular num momento em que o Governo traçava e assumia o plano de Ocupação do Ultramar, estruturado por investigadores ao serviço de entidades públicas. Decisão tanto mais importante quando, nas palavras do próprio L. W. Carrisso, “mesmo mutilado, o Império Colonial português ainda constitue um conjunto grandioso. Não será de-certo por falta de espaço que nós deixaremos de cumprir a nossa missão histórica” (Carrisso, 1928b, p. 19). Neste entretanto, a SGL afastava-se das teses expansionistas para enlaçar a investigação científica tropical. Surgiu assim a Comissão de Cartografia (CC) (1883). O cumprimento da sua missão foi no entanto delongado por dificuldades financeiras e contrariedades políticas. Apesar disso, o Atlas Geral das Colónias foi realizado a partir de missões científicas enviadas especialmente para o efeito. A começar por Angola, recuperando-se o Mapa Cor-de-Rosa através De Angola à Contra Costa. Vivia-se uma conjuntura internacional pontuada de múltiplas e sobejas pretensões fronteiriças minimizadas por Ernesto de Vasconcelos (1852-1930). Perspectivando garantir os direitos de Portugal, a sua posição foi reforçada por um grupo de especialistas, quadros ministeriais e demais funcionários administrativos. Viram-se ademais apoiados por documentos basilares às suas competências, o Questionário para as Autoridades Administrativas e as Instruções para o Traçado de Itinerários. O seu conteúdo exprime o muito a percorrer até apreender de forma total os territórios de além-mar. Estavam bem cientes de como o progresso económico fundeado na emigração metropolitana e num sistema administrativo racional dependia do conhecimento profundo do terreno.

Havia pois que cartografar para ocupar; ocupar para explorar. Havia sobretudo que proceder a uma concertada e sistemática exploração científica e administração política das colónias. Tudo em uníssono. Tudo em nome da perpetuação do ideário imperial. Tudo pela sobrevivência do próprio país. Por isso também a CC foi abrangida pela agenda republicana, não obstante as problemáticas aduzidas por algo (supostamente) incompatível à sua filosofia. Passou então a órgão consultivo da 6.ª Repartição da Secretaria das Colónias, confirmado pelo governo sidoniano, após a 1.ª Grande Guerra, até à reforma do Ministério das Colónias (MC) (1919), altura em que foi transferida para a Direcção dos Serviços Diplomáticos, Geográficos e de Marinha. Mudança elucidativa do seu novo rumo, recentrado na demarcação das fronteiras coloniais. Assumia-se assim o interesse político da investigação científica associada. Em concreto, num contexto internacional adverso à República portuguesa. Foi de novo a SGL a coadjuvar, sugerindo a aliança entre ciência, economia, administração e política colonial, constituindo para o efeito a Comissão Especial de Estudo dos Problemas Coloniais, subdividida em subcomissões científicas. Entretanto, a reestruturação da administração central ultramarina (1920) inscreveu a CC na repartição dos Estudos Geográficos (EG) da Direcção Técnica do Fomento pertencente à Direcção-geral dos Serviços Centrais da Secretaria do MC. Mantinha porém a composição e atribuições anteriores (1893 e 1902), acrescidas (1924) dos recursos dos EG e saberes universitários.

Decidindo-se politicamente, discutia-se, ponderava-se e concebia-se a investigação científica nas colónias, como indissociável do desenvolvimento e afirmação do país. Agendaram-se conferências e imprimiram-se inúmeros opúsculos desaprovando a apatia de governos sucessivos nesta área. Fazia parte dos críticos mais doutos e incisivos o geólogo da UC, Anselmo Ferraz de Carvalho (1878-1955). Era impensável para este professor que a organização das missões ignorasse os recursos humanos e materiais existentes nas universidades, porquanto fundamentais ao sucesso dos trabalhos definidos. Evitar-se-ia assim o contínuo adiamento do seu início. Outros o secundaram nestas duras censuras. Foi o caso do Engenheiro Silvicultor Raul Guardado, ao insistir na importância e urgência de montar uma missão de reconhecimento (= ciência) e exploração (= economia) das florestas moçambicanas. O veterinário Cristiano Sheppard Cruz (1892-1951) foi mais longe na clareza de pensamento. Elevando o seu saber, recordou a premência de transmudar a ciência experimental em ciência de aplicação norteada pela política (neste caso) colonial. Não obstante concordar com estas duas posições complementares, o botânico de Coimbra Luís W. Carrisso alertava para uma série de óbices à sua concretização. Entre eles, a insuficiência de meios. Nomeadamente nas próprias universidades, francamente deficitárias em prática e conhecimento colonial. Na verdade, eram quase inexistentes. Defendia no entanto o intuito económico do conhecimento científico das colónias. Em especial da matéria que lhe era mais próxima, a exploração agrícola. No seu entender, havia que ampliar resultados económicos, a par dos científicos e paisagísticos, orientando cientificamente a valorização desses territórios para cimentar o projecto político do Estado Novo que parecia acolher sem reservas.

Não estranha este envolvimento de docentes universitários. Em especial de Coimbra. Elementos vivos de especializações (uma das cruzadas de L. W. Carrisso) e conhecimentos holísticos, os seus laboratórios, salas, bibliotecas, arquivos e museus sustentavam, como noutros estados, o quotidiano nacional, nas suas múltiplas abrangências. Além do mais, as Universidades de Lisboa e do Porto eram muito recentes, pese embora a excelência do quadro docente, conteúdos programáticos, projectos de investigação e ensaios impressos. Mas Coimbra continuava a desfrutar de longa tradição, herdando os primeiros grandes ensaios tutelados pelas novas linhas oitocentistas de pensamento e abordagem, que nela se cimentaram após eclosão europeia. Fora a única esfera universitária portuguesa até ao definhar monárquico, nela laborando especialistas nacionais conjuntamente a estrangeiros contratados pelo merecimento do trabalho cumulado, a romper fronteiras entre nós. Aparte experiências internas decorridas no âmbito da ARCL, entre finais de setecentos e inícios de oitocentos, quase ninguém se aventurou por terras de além-mar com propósitos meramente científicos, objectivando embora incrementos económicos e dividendos financeiros. Excepção feita ao IBUC.

Mercê da amizade, transformada em auxílio, do antigo discípulo de L. W. Carrisso, A. Torres Garcia, então Secretário Provincial da Agricultura em Angola, o IBUC realizou, em 1927 (Carrisso, 1928a; Carrisso, 1932b), uma expedição de reconhecimento botânico a Angola (Cabinda, Lunda, Benguela, Huila e Moçâmedes). Proximidade pessoal justificativa da opção por este território, ao invés de Moçambique, um dos poucos redutos africanos cuja flora era desconhecida quase na totalidade. O Com.dte João Belo (1876-1928), Ministro das Colónias, e o Alto-Comissário em Angola, Coronel A. Vicente Ferreira facilitaram os transportes. O Ministro das Finanças, General J. Sinel de Cordes (1867-1930), subsidiou equipamento e material científico (Carrisso, 1932a, p. 3). Compunham a missão apenas L. W. Carrisso e Francisco de Ascenção Mendonça (1889-1992), 1.º Assistente do IBUC, certamente por dificuldades orçamentais. Decorrida entre 1 de Junho (embarque em Lisboa) e 13 de Dezembro (desembarque na capital portuguesa), a missão cruzou-se, em Huambo, com a Geológica, numa comprovação dos ensaios realizados neste sentido muito antes da criação do organismo estatal que haveria de tutelá-los (vide infra). Mais do que isso, este encontro demonstrava como o reconhecimento dos solos se encontrava mais adiantado na árdua, porém estimulante, tarefa de esquadrinhar as colónias. Preferência explicável pela necessidade de retirar rápidos proventos das suas entranhas, para com eles alimentar uma economia sequiosa de minérios, aferindo-se em simultâneo locais de edificação de infra-estruturas vitais à sobrevivência da política colonial portuguesa. Convicção antiga, como reconhecia L. W. Carrisso: “Todos os esforços dos Govêrnos serão inúteis e estéreis, enquanto Portugal não tiver à sua disposição homens capazes de investigar devidamente o estado das nossas colónias, de avaliar as suas tendências, de conceber, elaborar e traçar o plano da sua organização administrativa…” (Júlio Máximo de Oliveira, Visconde de Vila Maior apud Carrisso, 1934b, p. 15).
 “Cheio de entusiasmo e de fé…que somos capazes de nos ocupar daquilo que nos pertence, e de o valorizar para o progresso da Humanidade” (Carrisso, 1929-1930, p. 312), L. W. Carrisso organizou, dois anos depois (1929), uma excursão académica a Angola, anunciada na SGL em Maio do ano anterior. A designação escolhida não deixa de ser interessante. Curiosa, por conferir um estatuto mais informal aos propósitos da viagem, assim como ao ambiente pretendido. Descontraído, mas não alheado. Possivelmente inspirada em modelos estrangeiros, esta experiência afastava-se das visitas domingueiras de acentuado pendor tardo romântico, em busca de resquícios de uma ancestralidade gloriosa. Tratava-se de um recurso bem conhecido além-fronteiras, onde as necessidades de afirmação identitária suscitavam eventos similares e a formação de sociedades específicas. As exigências académicas obrigaram no entanto à sua reapreciação, surgindo as excursões, muitas vezes designadas pela especialidade científica contemplada. Pensadas, organizadas e lideradas por docentes universitários, o leque de membros nelas integrados era assaz mais restrito. O primeiro objectivo não era divulgar conhecimentos. O intuito primacial era analisar, discutir e apreender aspectos menos abarcados em auditórios tradicionais. L. W. Carrisso teria bom conhecimento desta realidade. Saberia quão útil era. Sobretudo para rasgar horizontes, trazendo a Academia para o campo, nele colhendo, em directo e em primeira mão, a essência da própria humanidade inscrita numa natureza que a nutria. Dispondo de recursos seculares para pesquisar o seu território, Portugal precisava de alargar horizontes quanto ao além-mar. Podia ser auspicioso de algo a estender no espaço e no tempo. Desconhecemos se não o fez por prescindível, por desmotivação ou por inoportunidade. Sabemos, isso sim, que terá bastado para alertar autoridades para a relevância e urgência do (re)conhecimento intenso das colónias. A começar por Angola.

A excursão formou-se por colaboradores do IBUC, professores e alunos das universidades e escolas superiores portuguesas (Carrisso, 1934a, p. 6), num total de 22 pessoas. Retornados ao continente europeu, “seriam os melhores propagandistas do nosso Império Colonial” (Carrisso apud 1939, p. 25)[1]. Primeira do género realizada entre nós, teve “funda repercussão…na consciência nacional” (Carrisso, 1934a, p. 6). A novidade aportada justificou em pleno a conferência preferida pouco depois na Sala dos Capelos da UC, espaço simbólico da sapiência e excelência científica nacional. Mereceu de igual modo idealizar um Congresso-excursão de Geografia Botânica (ou de Fitogeografia) para o mesmo território em 1931, não concretizada por insuficiência financeira.
Nesta, como noutras ocasiões, L. W. Carrisso reflectiu acerca da posição de Portugal nas colónias e perante as colónias. O contexto internacional não era propício à desatenção metropolitana para com os territórios de além-mar. Ao contrário, a pressão internacional exercia-se no sentido oposto, demandando, através da Sociedade das Nações (com relatório de 1925 demolidor de Portugal em Angola), um empenho redobrado da Europa em relação às suas colónias, sob pena de ser ostracizado por uma comunidade cada vez mais exigente. A avidez das economias do pós-guerra e do crash norte-americano exigia novos mercados, matérias-primas e mão-de-obra. África podia ser a solução. Mais do que isso, podia metamorfosear-se de modo oficioso num palco privilegiado de concorrências ocidentais. Reavivaram-se então críticas e sofreguidões imperiais de oitocentos sobre as colónias africanas portuguesas. A nota era porém agora mais acentuada. Não bastava ocupar. Havia que desenvolver. A ocupação só fazia sentido se conduzisse ao crescimento dos territórios colonizados. Crescimento económico, financeiro e cultural. Portugal pouco fizera neste domínio. A ocupação fora sempre superficial. Nada comparada à experiência de outros países. Em especial da Inglaterra, ao interiorizar a vantagem de incrementar, em todas as linhas, os territórios administrados. Somente assim se ocupava o todo. Lisboa confrontava-se pois com uma “moralidade” ditada por forças internacionais, descrita pelo próprio L. W. Carrisso:

sei de sobejo que, nos termos actuais daquilo a que poderemos chamar «a moral internacional» só teem direito a terem colónias as nações que provem, pela sua actividade colonial, ser capazes de as valorizarem e utilizarem para o bem comum da Humanidade (Carrisso, 1934a, p. 9. Nosso itálico)

Portugal tinha de actuar com rapidez se pretendia manter-se como império. Havia pois que colonizar (= civilizando), desenvolvendo e valorizando as comunidades humanas, rentabilizando recursos naturais. Para L. W. Carrisso, colonizar equivalia a (re)construir com as disponibilidades das colónias. Incluindo as comunidades locais. Mas, como homem de ciência, de iniciativa e conhecedor das linhas de investigação firmadas além-fronteiras, L. W. Carrisso amparava-se numa imagem em revisão por demais comunidades científicas. Comungava no entanto de ideias estribadas numa determinada literatura portuguesa. Não surpreende assim que afirmasse serem os indígenas “homens como nós, que é necessário elevar a um mais alto nível material, moral e social, arrancando-os à fatalidade de uma evolução, que por ser lenta ou degradante, os afastou de nós.” (Carrisso, 1934a, p. 12. Nosso itálico). Defensando a teoria evolucionista não linear, criticava deste modo a certeza da hierarquia biológica do ser humano. Mas não deixava o tom de saliente paternalismo. Mais do que isso, insistia na ordenação civilizacional e, acima de tudo, na obrigação (moral) dos povos culturais em elevar os povos naturais. Era um dever moral. Mais do que moral, histórico. Além disso, contraditava com asserto a negação da premência civilizadora dos autóctones por serem (assim se entendia) incapazes de se aperfeiçoarem, reprovando em simultâneo o cruzamento racial e defendendo o seu isolamento em áreas predeterminadas. Ao contrário, L. W. Carrisso entendia que “colonizar é uma obra social, cujo primeiro objectivo é a elevação do indígena” (Carrisso, 1934a, p. 14); numa evidência da missão cristã do colonizador, forçado a ascendê-lo para uniformidade processual.



[1] “De regresso votámo-nos todos à propaganda: dezenas de conferências por esse país em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Aveiro, Viseu, Évora e Leiria; artigos de jornal e de revista; e em palestras e nas simples conversas, todos nós deixávamos transbordar o entusiasmo de que nos sentíamos possuídos e julgo que o soubemos transmitir. Tenho abundantes provas do que afirmo e suponho que ao despontar da mentalidade colonial, a que se está assistindo, não foi indiferente a propaganda e o êxito da Missão Académica de Angola” (1939, p. 26).