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Desenlace

Volvidos sete anos sobre a Missão Botânica a Angola (1927), L. W. Carrisso ultrapassou indiferenças e alcançou uma verba especial do MC para a “expedição científica mais importante de todos os tempos aos nossos domínios ultramarinos” (1939, p. 28), a botânica a Angola, cujos propósitos divulgou largamente.
Os consecutivos brados e reptos de L. W. Carrisso não cairiam no vazio por completo. O seu esboço tomou forma. A administração ultramarina (1936) foi remodelada pelo Estado Novo compelido a transformar a mística imperial num usuário nacional, significativamente em plena comemoração do décimo aniversário da Revolução Nacional e necessidade de autonomizar financeira e economicamente os territórios ultramarinos, de modo a equilibrar o orçamento metropolitano. A 7 de Janeiro de 1936, criou-se, não o IICC, como ambicionara, mas a Junta das Missões Geográficas e Investigações Coloniais (JMGIC), testemunhando a intervenção estatal em assuntos científicos. Estendendo o papel da CC, o novo organismo devia sistematizar o conhecimento científico das colónias, a par do já longo reconhecimento geográfico, coadjuvada pelos serviços geográficos, geológicos e cadastrais do Fomento Colonial. Separava-se, em definitivo, investigação e administração. Presidida pelo antigo colaborador da CC, Alm.te Carlos Gago Coutinho (1869-1959), a JMGIC coordenava a investigação no ultramar, norteando o estudo dos materiais recolhidos pelas missões, enquanto se procurava cimentar a ideia de um império, uma só nação, por dela depender o Acto Colonial (1930). Estavam lançadas deste modo as bases do plano de Ocupação científica do Ultramar português (1941), reiterando os óbices assinalados por L. W. Carrisso: improviso, escassez de missões, desconexão entre ciência pura e ciência aplicada; falta de interdisciplinaridade. Urgia, pois, abrir um novo ciclo neste domínio, garantida que estava a ocupação territorial. Havia que iniciar a colonização intensiva apoiada num profundo conhecimento científico dos solos, das floras, das faunas, das gentes, começando pelas colónias de maiores dimensões e potencial holístico.

A 6 de Junho 1937, o coração atraiçoou-o em pleno deserto do Namibe (Moçâmedes), na sua terceira expedição a este país, porém na 1.ª Missão Botânica a Angola da JMGIC, que idealizara e montara. Integraram-na, sua mulher, Ana Maria Carrisso, o naturalista F. de A. Mendonça e o auxiliar de naturalista Francisco de Sousa, do IBUC, assim como Jara de Carvalho, licenciado em ciências biológicas. Participaram ainda, por Angola, o técnico agrícola J. Gossweiler, e o botânico de Kew, A. Exell e mulher, a convite de L. W. Carrisso. Conseguiu ainda a colaboração de técnicos e amadores, alguns seus antigos alunos (como A. Rocha da Torre e Maria Sofia Pomba Guerra), para organizar colecções a enviar ao IBUC com regularidade: “A investigação científica nas colónias portuguesas, a ocupação científica das nossas colónias, como dizia, foi o seu último e mais acarinhado sonho. Procurando realizá-lo, perdeu a vida…” (1939, p. 15). Não sem antes combater com ferocidade uma certa fatalidade timbrada no ser português:
Revolto-me contra o espírito, infelizmente tão vulgar, de cómodo pessimismo, que, de cabeça baixa, aceita a derrota antes da luta, admitindo a priori que a raça, já exausta, sofre de irremediável dessoramento (Carrisso, 1928b, p. 12)
Deixava assim a paixão de uma vida: o estudo da flora africana, na sua vertente de Geografia Botânica, como elucida o Conspectus Flora Angolensis (1937), cuja publicação iniciou.