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Luiz W. Carrisso: um homem de ciência, para a ciência

Enquanto Luiz Wittnich Carrisso (1886-1937) se embrenhava no universo das plantas, timbrando o seu nome na História da Botânica, Portugal transcorria diversos agendamentos políticos. O declínio monárquico, a implantação republicana, o envolvimento na 1.ª Grande Guerra, a ditadura militar e o Estado Novo, foram e eram momentos vividos em profundidade, partilhando, opondo e conturbando sentimentos, mesmo os mais efusivos, frustrantes, optimistas ou renegados. Turbilhão de pensamentos e de sentires que em pouco beliscou a produção científica. A não ser nos que feneceram. A não ser nos que, desiludidos com práticas contraditórias de ideários proclamados, se afastaram, encerrando-se em si ao desesperançarem-se com o cenário envolvente. Muitos outros, porém, firmaram ânimos, vontades e propósitos em nome de algo que norteasse suas existências, insuflando-as de coerência, do que substanciasse seus dias, preenchendo as horas que passavam velozes. 

Demasiado céleres para quem fazia da ciência, do conhecimento, do escrutínio da natureza, o seu próprio ser, a sua vida, o seu quotidiano.
L. W. Carrisso foi um destes casos; de alguém firme nos seus desideratos; convicto do papel inestimável da ciência na afirmação nacional e no desenvolvimento económico e cultural do seu país. Discípulo e continuador do grande promotor do ensino e do estudo botânico em Portugal, Júlio Augusto Henriques (1838-1928), cedo revelou a excelência do seu trabalho. Empenhado, tenaz e visionário, abraçou um dos maiores projectos da sua vida: elevar a ciência botânica em Portugal a parâmetros internacionais. Tarefa árdua, espinhosa e, por vezes, decepcionante. Mas o professor de Coimbra não esmorecia. Antes se agigantava na vontade de ir mais além, de fazer mais e melhor. Mormente no que respeitava ao Instituto de Botânica da Universidade de Coimbra (IBUC), que dirigiu e beneficiou profusamente até falecer (1937), em solo estranho, porém entranhado, porquanto estimado na sua demanda permanente pela inovação e realce. Enquanto isso, reflectia, traçava objectivos científicos, concebia programas de trabalhos, associando com maior convicção ciência e política no que aquela podia e devia contribuir para o bem-estar dos povos, crescimento dos países e destaque no xadrez internacional. Por isso também assumiu múltiplas responsabilidades, entre as quais a presidência da municipalidade de Coimbra (1935), a representação dos municípios na Câmara Corporativa e o lugar no Conselho do Império Colonial (1934-1937), esse autêntico fomentador da investigação científica em África. Enquanto isso, reforçava a primazia do seu labor ao representar a Universidade de Coimbra (UC) e o país em conferências internacionais, ao mesmo tempo que se transfigurava no pilar da Sociedade Broteriana.