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As Faculdades de Philosophia e de Mathematica: Um projecto de ensino das ciências Físico Matemáticas

As Faculdades de Philosophia e de Mathematica apresentavam características complementares na formação científica dos estudantes. Esta complementaridade manteve‑se nas sucessivas reformas curriculares, até à sua fusão, dando origem à Faculdade de Ciências em 1911. Com efeito, os estudantes do Curso Philosophico adquiriam conhecimentos fundamentais em Mathematicas Puras na Faculdade de Mathematica, antes de frequentarem a cadeira de Fysica Experimental e Chymica Theorica e Pratica, leccionadas na Faculdade de Philosophia. Posteriormente, davam continuidade aos seus estudos nos aspectos teóricos da Física, frequentando a cadeira de Phoronomia, integrada no 4º ano do plano curricular do Curso Mathematico. Por sua vez, os estudantes da Faculdade de Mathematica também frequentavam a cadeira de Fysica Experimental, leccionada no Curso Philosophico. Tanto para os estudantes do Curso de Philosophia como para os de Mathematica, a frequência desta cadeira era considerada uma base indispensável para os estudos posteriores das Sciencias Fysico‑Mathematicas. O plano curricular da Faculdade de Philosophia de 1772 previa o estudo de Philosophia Racional e Moral no primeiro ano do curso. No segundo estudava‑se História Natural e Geometria, estando o terceiro ano destinado à frequência das cadeiras de Physica Experimental e Cálculo, sendo concluído no quarto ano com a frequência nas disciplinas de Chymica Theorica e pratica e ainda a Phoronomia.

O ensino da Filosofia Experimental foi considerado pelos mais influentes ideólogos da Reforma do ensino como uma das necessidades mais urgentes da instrução pública em Portugal. Com a Reforma da Universidade de Coimbra em 1772, o Gabinete de Física Experimental surgiu integrado na Faculdade de Philosophia. A primeira colecção de instrumentos que o enriqueceu esteve intimamente ligada à extinção do estudo da Matemática e da Física no Colégio dos Nobres em Lisboa. Na sua origem podemos encontrar pressupostos pedagógicos que ainda hoje mantêm a sua validade. Nos Estatutos da Universidade, de 1772, pode ler‑se:

Para que as Lições de Fysica, que mando dar no Curso Filosofico da Universidade, se façam com aproveitamento necessário dos estudantes; os quaes não sómente devem ver executar as Experiencias, com que se demonstram as verdades até o presente, conhecidas na mesma Fysica; mas também adquirir o habito de as fazer com sagacidade, e destreza, que se requer nos Exploradores da Natureza; haverá também na Universidade huma Collecção das Máquinas, Aparelhos, e Instrumentos necessários para o dito fim.

Um dos objectivos para a criação do Gabinete de Física foi que se ministrasse o ensino da Física Experimental, através do qual se mostrasse o objecto desta ciência, a sua origem, progressos e as revoluções científicas que ao longo da história se observaram. Por outro lado, o desenvolvimento da competência individual no que respeita ao domínio do método experimental não foi esquecido. A arte de fazer as experiências, tendo‑se a noção de como as repetir, combinar, distinguir os factos acessórios dos principais, bem como o controle de variáveis de que um sistema físico depende, constituíram uma das metas a atingir com a sua inclusão no plano de estudos do Curso Philosophico. O objectivo principal das experiências em que se deveria empenhar o professor era o de descobrir as leis gerais que regem a natureza nas suas operações. Não apenas o carácter qualitativo deveria estar contemplado no ensino ministrado.

Nos Estatutos Pombalinos da Universidade de Coimbra o conjunto das ciências Fysico‑Mathematicas era considerado um ramo do conhecimento que tinha uma perfeição indisputável entre todos os conhecimentos naturais, caracterizada pela exactidão do método, bem como pela sublime e admirável profundidade de análise das suas doutrinas. Pelas suas características particulares, justificava‑se que o seu estudo fosse considerado indispensável para a subsequente formação de todos os estudantes em geral. O entendimento de qualquer outra disciplina poderia atingir um elevado estágio de desenvolvimento, fundamentado no método das ciências matemáticas.

A diversidade de ciências que constituíam o conjunto das Mathematicas Puras e Mathematicas Mixtas dava origem a um extenso corpo de conhecimentos, cujo tratamento profundo tornava inviável que o seu estudo ficasse limitado no período de quatro anos do Curso Mathematico. Deste modo, o estudo das referidas ciências não poderia ir para além dos princípios fundamentais de cada uma delas. Assim, a profundidade dos estudos deveria ser a necessária e indispensável para que o estudante pudesse, por si mesmo, dar continuidade ao desenvolvimento posterior dos seus conhecimentos. Tendo por base o critério da formação que preparasse o estudante para o desempenho autónomo na progressão e aplicação dos seus conhecimentos, o Curso Mathematico tinha distribuído ao longo de quatro anos um conjunto de quatro cadeiras que serviam de base para as ciências mais específicas. A primeira cadeira era a de Geometria, onde se ensinava no primeiro ano os Elementos de Arithmetica, Geometria e Trigonometria Plana, com as respectivas aplicações à Geodesia, Stereometria, etc. O segundo ano estava destinado ao estudo da Algebra, a qual contemplava o estudo do Cálculo Literal, ou Algebra Elementar, e os princípios do Cálculo Infinitesimal Directo e Inverso, considerando também a sua aplicação à Geometria Sublime e Transcendente. O estudo geral dos movimentos fazia‑se no terceiro ano, na cadeira de Phoronomia. Nesta cadeira eram abordados todos os ramos desta ciência, que constituía o corpo das Sciencias Fysico‑Mathematicas, como a Mecânica, Statica, Dynamica, Hydraulica, Optica, Dioptrica, etc. Por fim, no quarto ano ensinava‑se, na cadeira de Astronomia, a teoria do movimento dos astros. Neste estudo estavam contemplados tanto os aspectos físicos como geométricos, procedia‑se à prática do cálculo, observações astronómicas, bem como eram desenvolvidos os estudos relativos às ciências que dependiam da Astronomia, como por exemplo a Cosmografia, Geografia, Hydrografia, Gnomonica, Chronologia, Pilotagem etc.. Para o cumprimento da parte prática do programa da Cadeira de Astronomia Fysico‑Mathematica ficou ordenado que se mandasse construir um edifício com condições ideais para a instalação do Observatório Astronómico. Após a sua conclusão deveria ser equipado com a melhor instrumentação proveniente dos mais qualificados fabricantes. Para além destas quatro cadeiras, os estudantes deveriam também frequentar uma cadeira de Desenho Civil e Militar. Esta cadeira, no entanto, não era considerada com o mesmo estatuto das restantes, por se considerar que nestas artes não havia a exactidão matemática que caracterizava todas as outras cadeiras que faziam parte do curso. Tratava‑se de uma cadeira cujo ensino se desenvolvia através de um grande número de regras arbitrárias, e regia‑se mais pelo bom gosto, do que pela demonstração. 

Nas recém criadas Faculdades de Philosophia e de Mathematica começaram por exercer a docência António Dalla Bella, Domingos Vandelli, António Soares Barbosa, Miguel Franzini, Miguel António Cieira, José Monteiro da Rocha, José Anastácio da Cunha. A partir de 1790 Félix de Avellar Brotero também deu um notável contributo para o desenvolvimento dos estudos científicos em Coimbra. Reorganizado o Curso de Filosofia, que até ao ano de 1759 tinha sido ministrado pelos jesuítas, no Colégio das Artes, houve que começar a recrutar entre os estudantes da nova Faculdade de Philosophia aqueles que no futuro viriam a ser os seus futuros docentes. Entre estes devemos destacar Vicente Coelho Seabra, José Bonifácio de Andrada e Silva, Manoel José Barjona, Thomé Rodrigues Sobral, Constantino Botelho de Lacerda, José Homem de Figueiredo Freire.

Uma das primeiras medidas do Marquês de Pombal para a organização do corpo docente da Faculdade de Mathematica, foi a nomeação de Monteiro da Rocha, por portarias de 3 e 7 de Outubro de 1772. Passou logo a reger a cadeira de Sciencias Physico‑Mathematicas, e antes de se dedicar aos trabalhos originais que o tornaram célebre, traduziu compêndios franceses indispensáveis para a regência das aulas. Foi assim que traduziu e publicou em Coimbra, em 1773, os Elementos de Arithmetica, de Bezout, introduzindo‑lhe alguns assuntos novos, onde se inclui um método especial para a extracção da raiz cúbica dos números, que ficou conhecido pelo nome de Methodo de Monteiro. Os Elementos de Arithmetica tiveram várias reimpressões, até 1826, e parece, que foi esta a última publicada. Traduziu também o Tratado de Mechanica, de Maria, de que houve várias edições até 1812; O Tratado de Hydrodynamica, de Bezout, que se reimprimiu algumas vezes até 1813; os Elementos de Trigonometria Plana, de Bezout, publicados em 1774, adicionados com uma numerosa série de fórmulas, que tornaram este trabalho um dos mais abundantes e ricos entre os do seu género. Embora em nenhuma destas obras seja indicado o nome do tradutor, é certo que foi Monteiro da Rocha o seu autor.

Em consequência de um ofício datado de 30 de Maio de 1776 para o reitor da Universidade, requisitando‑lhe um dos lentes mais autorizados, Monteiro da Rocha foi também indicado para ser principal do Colégio dos Nobres de Lisboa, lugar que era provido por três anos. Em 16 de Janeiro de 1780 foi nomeado sócio fundador da Academia Real das Sciencias de Lisboa, tendo o cargo de director de classe. Publicou então várias memórias das quais se destacam as seguintes: Solução do problema de Kepler sobre a medição das pipas e tonéis; vem no tomo I das Memórias da mesma Academia; Additamento à regua de Mr. Fontaine para resolver por aproximação os problemas que se reduzem às quadraturas; nas citadas Memórias e tomo I; Determinação das orbitas dos cometas; idem tomo II.

José Anastácio da Cunha também exerceu a docência na Faculdade de Mathematica desde início. Pela consideração que lhe merecia, o Marquês de Pombal nomeou‑o como lente da Faculdade de Mathematica, por provisão de 5 de Outubro de 1773, devendo ensinar a cadeira de Geometria. Com efeito, foi através de uma carta, datada de 5 de Outubro, que o Marquês de Pombal dava conhecimento ao Reitor Reformador, D. Francisco de Lemos, da seguinte informação do nomeado:

O dito militar é tão eminente na Sciencia Mathematica, que, tendo‑o eu destinado para ir à Allemanha aperfeiçoar com o Marechal general, que me tinha pedido dois ou tres moços portuguezes para os tornar completos, me requereu o Tenente General Francisco Marican que o não mandasse, porque elle sabia mais que a maior parte dos Marechais de França, de Inglaterra e de Allemanha; e que é um d’aquelles homens raros que nas nações cultas costumam apparecer. Sobre estes e outros egualmente authenticos testimunhos foi provido na primeira cadeira do Curso Mathematico, attendendo à que nella não podem os professores das cadeiras maiores ensinar este anno tendo‑a regido no precedente. A falta de gráu não lhe deve servir de impedimento porque alem de lembrar que o meu tio, o sr. Paulo de Carvalho, foi nomeado lente antes de ser doutor, se pode o dito professor doutorar da mesma maneira que se doutoram os outros professores depois de nomeados lentes.
Em ofício do Marquês, dirigido ao Prelado da Universidade, datado de Oeiras em 15 de Outubro de 1773, afirmava‑se que:

Tenho por certo, que o Professor de Geometria ha de fazer uma boa parte do ornamento litterario d’essa Universidade, e que com o genio suave que se lhe conhece, conduzirá os seus discipulos a aprenderem com gosto e diligencia uma disciplina, tão proveitosa como esta para todas as Faculdades positivas.

Foi breve a carreira académica de José Anastácio em Coimbra, porquanto, no princípio do reinado de D. Maria I, sendo denunciado ao Tribunal da Inquisição por causa das suas opiniões religiosas, foi preso no 1º de Julho de 1778 e penitenciado depois por aquele tribunal por sentença de 15 de Setembro, confirmado pela mesa do conselho geral de 6 de Outubro do mesmo ano. Como consequência deste processo foi condenado à reclusão na casa de Nossa Senhora das Necessidades. O intendente geral de polícia da corte, Diogo Ignacio de Pina Manique, reconhecendo o mérito de José Anastácio, e pretendendo de algum modo remediar a injustiça de que foi vítima, conseguiu do governo que fosse nomeado como professor na Real Casa Pia do Castelo de S. Jorge, denominada de S. Lucas, instituição vocacionada para educação dos órfãos e meninos pobres.

Além dos Principios Mathematicos existem duas obras póstumas de Anastácio da Cunha publicadas pela imprensa – Enasios sobre os principios de mechanica, dada à luz por Domingos António de Sousa Coutinho, possuidor do manuscrito autografo, Londres, 1807; Carta physico‑mathematica sobre a theoria da polvora em geral, e determinação do melhor comprimento das peças em particular, escripta por José Anastacio da Cunha, em 1769, Porto, Typographia Commercial Portuense, 1838. Foi publicada por dois ilustres antigos estudantes da Faculdade de Mathematica, José Victorino Damazio e Diogo Kopke. O Ensaio sobre os principios de mechanica foi reimpresso no volume 4º do Instituto de Coimbra; e no volume 5º do mesmo jornal foram publicadas as Notas ao Ensaio, de Silvestre Pinheiro Ferreira, as quais primitivamente tinham sido impressas em Amsterdão no ano de 1808. Nestas notas Silvestre Pinheiro afirmava que José Anastácio escrevera o Ensaio a rogo do seu discípulo e admirador, Manuel Pedro de Mello. Além destas obras ficaram em poder de João Manuel de Abreu outras manuscritas, que não chegaram a ser publicadas.