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A influência de Santos Viegas

O final da década de 1850 ficou assinalado no Gabinete de Física Experimental da Faculdade de Philosophia pela criação de um centro de investigação dedicado aos estudos do Geomagnetismo. Esta iniciativa permitiu que alguns professores da Faculdade de Philosophia visitassem diversos observatórios geomagnéticos da Europa. Associados à criação do Observatório Meteorológico e Magnético, foram estabelecidos contactos no estrangeiro por volta do ano de 1860, permitindo que no Gabinete de Física fosse intensificado o desenvolvimento do ensino das novas técnicas experimentais até ao final do século, reflectindo‑se este facto na qualidade do ensino teórico e prático. Os professores eram os primeiros a expressar a opinião de que, até ao ano de 1861, o ensino da Física na Universidade de Coimbra era algo limitado, se atendermos ao estado de desenvolvimento em que se encontrava esta ciência. Este desenvolvimento era incomportável com um estudo profícuo numa única cadeira e no intervalo de um ano lectivo. Desta forma, os professores consideravam que o ensino da Física se tinha tornado demasiado elementar, resultando impraticáveis os meios técnicos de acção formativa dos estudantes, para que a observação e a experimentação constituíssem metodologias eficazes de transmissão de conhecimento. Para este défice qualitativo contribuía, principalmente, a falta de financiamento, que condicionava o desenvolvimento da Física Experimental em Coimbra.

Jacinto António de Sousa, António dos Santos Viegas, António Meirelles Garrido e Henrique Teixeira Bastos foram os principais impulsionadores do desenvolvimento do ensino da Física Experimental em Coimbra na segunda metade do século XIX. Os Cursos de Física Experimental orientados por António dos Santos Viegas foram muito influenciados pelas observações que fez durante as viagens científicas a várias capitais europeias a partir dos anos de 1866 e 1867. As visitas aos principais centros universitários e escolas técnicas tinham por objectivo conhecer os melhores observatórios meteorológicos e magnéticos europeus, bem como proceder a um estudo sobre o estado de desenvolvimento da Física Experimental e das suas modernas metodologias de ensino. Por portaria de 24 de Outubro de 1866, foi encarregado de uma viagem científica pelos principais países da Europa, devendo visitar as universidades e escolas mais conceituadas, estudar a organização do ensino das ciências filosóficas, a organização e dinâmica dos diversos estabelecimentos científicos e das fábricas. O Conselho da Faculdade recebeu com muito entusiasmo esta resolução do governo, e encarregou uma comissão de redigir as instruções convenientes para esta viagem, as quais foram aprovadas em 10 de Outubro de 1867. Tendo sido encarregado de estudar nos melhores centros universitários europeus os processos práticos da Física Experimental, de visitar os estabelecimentos de ciências físicas e naturais bem como observar os métodos e a organização do ensino nas universidades mais prestigiadas da Europa, Santos Viegas começou por visitar Madrid. O ensino da Física praticado nas escolas que visitou na capital espanhola não lhe deixaram boas impressões. Em Paris interessou‑se pelos cursos de Física orientados por Desains na Sorbone; Bertin no Colégio de França; Jamin na Escola Politécnica e de Bequerel no Conservatório de Artes e Ofícios. Também visitou universidades na Alemanha, Áustria, Bélgica, Inglaterra, Escócia, etc..

Segundo Santos Viegas, a preparação que os alunos franceses tinham na sua formação do ensino secundário era de melhor qualidade do que a observada em Portugal. A exemplo do que acontecia em Coimbra, também em Paris os docentes das cadeiras de Física começavam a sentir algumas dificuldades em transmitir aos seus alunos um programa de ensino adequado ao estado de desenvolvimento da ciência em apenas um ano lectivo. Tal como acontecia nas escolas do ensino superior em França, Santos Viegas também incluía várias experiências didácticas no seu curso em Coimbra, recorrendo para o efeito a diverso equipamento científico e didáctico moderno. No entanto, como ele próprio afirmou nos relatórios das suas viagens, também desconhecia muitos processos que os livros não descreviam, os quais só se aprendiam, vendo‑os praticar e praticando‑os ao lado de quem os conhecia.

Santos Viegas conheceu os preparadores da Sorbone — Bourbouse, Ruhmkorff, Koening e Bianchi — dos quais existem em Coimbra alguns instrumentos por eles concebidos. Bianchi era também preparador das experiências para os cursos de Física do professor Bequerel. Também conheceu Regnault que era professor proprietário do curso de Física do Colégio de França e neste estabelecimento executou importantíssimos trabalhos em diversos ramos da Física. Este professor foi considerado por Joule como um dos melhores projectistas europeus de instrumentos científicos da sua geração. São inúmeros os aparelhos, principalmente de termodinâmica, por ele desenhados e que se encontram referenciados na mais diversa bibliografia. O Gabinete de Física Experimental de Coimbra foi equipado com vários exemplares de instrumentos concebidos por aquele professor e investigador. No ano da visita de Santos Viegas a Paris, também estabeleceu contactos com Bertin e teve conhecimento da forma como este professor organizava o ensino da electricidade, dando muita importância aos trabalhos mais recentes feitos na Alemanha. Foi numa destas lições que Santos Viegas viu funcionar pela primeira vez duas novas máquinas eléctricas de Holtz e A. Bertsch, sendo as experiências relativas a esta última efectuadas pelo próprio inventor. Tratavam‑se de dois aparelhos singulares, que se carregavam electrizando uma pequena lâmina de caoutchouc, e permitiam obter correntes contínuas de intensidade comparáveis às de uma bobine de Ruhmkorff. Os contactos estabelecidos por Santos Viegas permitiram que se procedesse à aquisição de uma máquina de Holtz para o Gabinete de Física de Coimbra. No Conservatório de Artes e Ofícios, conheceu Bequerel que apresentava um curso aplicado às artes. Este curso, tal como todos os cursos daquele estabelecimento, estava adequado para a instrução dos operários e artistas, que ali acorriam em grande número. Santos Viegas interessou‑se particularmente pela forma como estava organizado o ensino científico na Escola Politécnica de Paris. Este curso bienal era feito em alternância por dois professores: Jamin e Verdet, tendo o segundo falecido no ano de 1866, sendo substituído pelo professor Alfred Cornu. Os programas de ensino da Física Experimental na Universidade de Coimbra dos professores Jachinto Antonio de Sousa e Antonio dos Santos Viegas eram muito semelhantes ao da Escola Politécnica de Paris. Na escola francesa, o professor Jamin seguia nas suas lições quase a mesma ordem dos assuntos tratados no seu livro, dos quais existem exemplares na biblioteca do Departamento de Física da Universidade de Coimbra.

Para além destes cursos, Santos Viegas também teve oportunidade de assistir a várias conferências científicas que decorreram no Ateneu, no Observatório e na Sorbone, durante o Inverno de 1866 — 1867. A frequência dos cursos, na qualidade de simples espectador, proporcionou ao professor do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra a ocasião de ver funcionar muitos aparelhos de concepção recente, embora a maior parte não era a primeira vez que os contactava, já que o Gabinete de Coimbra se encontrava equipado com instrumentos modernos. Para ver de perto como as experiências se preparavam e, com o objectivo de poder trabalhar sob a orientação de um homem que conhecesse bem os instrumentos, dirigiu‑se a Duboscq, reputado construtor de instrumentos científicos, a quem encomendou alguns aparelhos que vieram aumentar a colecção de instrumentos destinados ao ensino da Física Experimental em Coimbra. Sendo aconselhado por Duboscq a contactar o preparador da Sorbone, Santos Viegas conseguiu obter de Bourbouze autorização para acompanhar os trabalhos em curso no laboratório de Física Experimental dessa prestigiada escola. Este preparador gozava de excelente reputação junto da comunidade científica de Paris, tendo trabalhado para mestres tão distintos como Pouilett, Despretz, Desains e Jamin. Ao lado de Bourbouze, Santos Viegas assistiu à preparação das experiências para o curso da Faculdade de Ciências e aos ensaios para as Soirées Scientíficas. No laboratório realizou trabalhos de determinação de densidades dos corpos sólidos e líquidos, construção de termómetros, aplicação da máquina de dividir a graduação de tubos de vidro e ao traçado de escalas micrométricas, métodos gráficos para determinar a duração das vibrações sonoras, processos de galvanoplastia, douradura e prateadura química, fotografia, com aplicação especial às projecções usadas nos cursos de Física, clivagem dos cristais birrefrangentes e trabalhos de soprar o vidro.

A aquisição de instrumentos científicos modernos para o Gabinete de Física Experimental não se limitou apenas aos fabricantes de Paris. Este facto explica a grande variedade de fabricantes de instrumentos de diversos países europeus representados na numerosa colecção que actualmente faz parte do valioso espólio do Museu de Física da Universidade de Coimbra. Esta colecção pode ser considerada bem representativa do avanço tecnológico que teve a Física Experimental até ao início do século XX. Trata‑se de uma colecção muito completa em todos os domínios desta ciência e que também acompanhou os aspectos mais importantes dos primeiros desenvolvimentos experimentais da Física Atómica moderna.

Santos Viegas foi um professor muito influente na Academia de Coimbra durante toda a segunda metade do século XIX. Doutorou‑se em Filosofia em 30 de Outubro de 1859, sendo‑lhe concedido gratuitamente o grau de doutor, que era nesses tempos a maior prova de consideração dada aos alunos de superior talento e óptima aplicação nos estudos. Pouco tempo depois, a 22 de Fevereiro de 1860, foi despachado Lente Substituto da mesma Faculdade, com 24 anos ainda incompletos, lugar de que tomou posse em 17 de Março seguinte, e que ainda conservava à data do seu falecimento, tendo sido Lente Catedrático de Prima, decano e director da sua Faculdade. Foi deputado, eleito pela Covilhã, nas legislaturas de 1868 e 1871, e par do reino efectivo pela Universidade. Por decreto de 13 de Janeiro de 1890 foi nomeado reitor da Universidade, de que tomou posse em claustro pleno a 31 do mesmo mês. Na sua reitoria foi homenageado pelas visitas do Rei D. Carlos, Rainha D. Amélia, e do Príncipe Real D. Luiz Filipe, no mês de Julho de 1892. A 6 de Agosto seguinte foi exonerado do cargo. Em 1896 foi novamente nomeado reitor, cargo de que se exonerou em 1898. Em Abril de 1906 tornou a ser nomeado reitor. Representou Portugal em muitos congressos científicos, em Roma, Paris e Viena, etc. No ano de 1881 foi mandado a Paris para representar Portugal no Congresso e Exposição de Electricidade. Por essa ocasião recebeu do governo francês o grau de Cavaleiro da Ordem da Legião de Honra. Em 17 de Março de 1910, realizou‑se na Universidade uma grande solenidade. O conselheiro António dos Santos Viegas, que nesse dia completava 50 anos de carreira docente, foi alvo de uma importante e majestosa manifestação de apreço e consideração pela sua incansável dedicação ao magistério universitário. Durante os cinquenta anos de serviços prestados na Universidade de Coimbra, o Gabinete de Physica Experimental teve um desenvolvimento assinalável.