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As reformas de 1836 e 1844

Em consequência da invasão francesa só no ano lectivo de 1811 – 1812 o ensino retomou a normalidade. Neste ano o curso da Faculdade de Philosophia constava de quatro anos de estudo efectivo, nos quais se ensinava a Zoologia, a Mineralogia, a Química, a Metalurgia e a Física Experimental, estando estes estudos distribuídos por cinco cadeiras. No primeiro ano ensinava‑se Zoologia e Mineralogia, estando o segundo ano do curso destinado ao ensino da Física Experimental. Numa passagem do artigo intitulado Breve notícia da Faculdade de Philosophia da Universidade de Coimbra, publicado no Jornal de Coimbra, afirmava‑se que a Física era uma ciência que fazia conhecer pela experiência as propriedades, equilíbrio e movimento dos corpos. O seu método consistia primeiramente em coligir factos averiguados pela observação e experiência, chegando depois, pela combinação e generalização a um facto primordial, que permitisse explicar sinteticamente os factos particulares. Neste artigo o autor afirmava que a Física era considerada uma ciência histórica, racional e experimental. As propriedades dos corpos podiam ser consideradas em abstracto, ou em concreto; por isso deveria dividir‑se a Física em geral e particular. A Física geral tinha por objecto a Mecânica, ciência do equilíbrio e movimento dos corpos. Sendo estes sólidos ou fluidos dividia‑se a Mecânica em Estática, ou equilíbrio dos sólidos; em Dinâmica, ou movimento dos sólidos; em Hidrostática, ou equilíbrio dos fluidos, e em Hidrodinâmica, ou movimento dos fluídos. A Física particular ocupava‑se do exame das propriedades de certos corpos, como a água, o ar, o fogo, a luz, e os fluidos magnético, eléctrico e galvânico.

O terceiro ano do Curso Philosofico era constituído por duas cadeiras. Numa ensinava‑se Botânica e Agricultura, enquanto na outra o objecto de ensino era a Química Teórica. O quarto ano era destinado à frequência da cadeira de Metalurgia, onde se tratava da extracção dos metais das suas respectivas minas. Este estudo iniciava‑se pela Docimasia, que consistia no ensaio experimental de produtos provenientes das minas, determinação exacta da sua constituição e da proporção das substâncias que os compunham, tendo como finalidade o conhecimento da sua qualidade e quantidade. Depois deste exame, iniciavam‑se os trabalhos de sondagem dos terrenos, a abertura de poços, reconhecimento dos veios metálicos, estabelecimento e sustentação de galerias, esgotamento de águas das minas, defesa dos trabalhadores da acção dos gases nocivos à vida, extracção, lavagem, etc..

Os estudantes que pretendiam fazer a formatura, bem como os que somente queriam obter o bacharelato, eram obrigados a frequentar os quatro anos do curso. O acto do quarto ano conferia o grau de Bacharel. Para a obtenção da Formatura os estudantes frequentavam um novo ano onde tiravam ponto nos quatro anos. Os que pretendiam ser Licenciados ou Doutores deveriam frequentar mais um ano, no qual ouviam as lições do terceiro e do quarto ano.

Depois de um longo período entre 1828 até 1834, no qual a Universidade teve um funcionamento irregular, tendo mesmo sido encerrada, retomou a sua actividade normal durante o governo de Passos Manuel. Os rápidos e incessantes progressos das ciências naturais observados no início do século XIX tornavam cada vez mais urgente uma nova organização do Curso Philosophico, e o decreto de 5 de Dezembro de 1836 aprovou e mandou pôr em execução o novo plano de estudos, proposto ao governo por José Alexandre de Campos, vice‑reitor da Universidade. Na realidade, era urgentíssima uma reforma que ampliasse e melhorasse o ensino, com o fim de o harmonizar com o estado de perfeição a que já tinham chegado os principais ramos da Philosophia Natural nos países mais cultos. A antiga organização curricular ordenada pelos Estatutos de 1772, à qual tinham sido introduzidas pequenas reformas, começava a revelar‑se inadequada, considerando o nível de desenvolvimento que caracterizava a ciência nos primeiros trinta anos do século XIX. As fronteiras da ciência eram muito mais amplas do que na época pombalina. O ritmo do desenvolvimento científico permitiu uma maior diversidade e aperfeiçoamento dos meios de observação e de investigação dos fenómenos da natureza. Os estudos philosophicos tornaram-se significativamente mais abrangentes no domínio das novas teorias científicas e aplicações tecnológicas. Consequentemente, era impossível manter por mais tempo o plano primitivo da Faculdade. Com a reforma de 1836 o Curso de Filosofia Natural ficou divido em cinco anos, constituindo a Mineralogia e Zoologia duas cadeiras independentes. Foram criados os cursos especiais de Agricultura, Economia Rural e Tecnologia. Este plano de estudos tornava ainda obrigatória a frequência de quatro cadeiras de Matemática e uma de Medicina.

A reforma de 1836, no entanto, muito cedo se revelou pouco profunda relativamente às expectativas de desenvolvimento do ensino teórico e prático nas diversas áreas científicas na Faculdade de Philosophia. Assim, os estudos de Química eram feitos sem serem precedidos pelas noções gerais de Física, reflectindo‑se este facto no aproveitamento dos alunos. Os anos que se seguiram demonstraram ser indispensável uma boa formação em Física para que os estudos de Química fossem realizados com sucesso. Por outro lado, a opção feita tinha resultado da necessidade de se fazer anteceder os estudos de Física por uma conveniente preparação em Matemática. Começou a ser um sentimento generalizado a grande necessidade de ampliação dos estudos, criando para isso novas cadeiras de estudos especializados que permitissem dar uma formação condigna com o desenvolvimento científico e tecnológico observado nos países mais desenvolvidos da Europa. Por várias vezes foi apresentada a proposta de desdobramento do ensino da Física Experimental, sem que, contudo, este intento tivesse sido conseguido antes do final da década de cinquenta. Com efeito, foi apenas por volta de 1860 que começou a ganhar forma definitiva um plano de estudos no qual o ensino da Física Experimental ficou distribuído por duas cadeiras anuais.

As sucessivas reformas introduzidas no Curso Philosophico sempre tiveram correspondência no Curso Mathematico, por forma a manter uma perfeita harmonia na formação científica dos estudantes que frequentavam cadeiras nas duas Faculdades. Pela carta régia de 1 de Abril de 1801 foram criadas na Faculdade de Mathematica as cadeiras de Astronomia Prática e de Hidráulica. Na primeira cadeira foi provido António José de Araújo Sancta Barbara, passando para a de Astronomia Teórica Manuel Joaquim Coelho da Costa Vasconcellos e Maia, na qual se ensinava a Mecânica Celeste de Laplace. Considerando indispensável a existência de uma bibliografia sobre os assuntos de Análise Matemática e Mecânica, que fosse adequado ao estudo aprofundado das leis celestes, bem como das suas aplicações, Vasconcellos e Maia procurou organizar o programa da sua cadeira tendo em consideração não somente os trabalhos originais de Laplace, mas também recorrendo aos trabalhos dos mais ilustres geómetras do século XVIII, que se achavam dispersos por muitas e diversas obras e memórias de diferentes sociedades científicas. Na cadeira de Hydraulica foi provido Manuel Pedro de Mello. Para que o ensino nesta cadeira atingisse um nível científico digno de mérito, este professor foi incumbido pelo governo de uma viagem científica a França, Holanda, Bélgica e Itália, para se especializar nas aplicações práticas de Hidráulica, estudos então pouco desenvolvidos em Portugal. A cadeira de Hydraulica somente foi definitivamente aberta após o seu regresso, que só teve lugar em 1815.

Pelo decreto de 5 de Dezembro de 1836, deu‑se uma nova organização aos estudos científicos da Faculdade de Mathematica. O Curso das Sciencias Mathematicas foi elevado a cinco anos, determinando‑se que no 3º ano se estudasse somente a Mecânica dos Sólidos, Óptica e Acústica; no 4º ano Mecânica dos Fluidos e Arquitectura Hidráulica na 4ª cadeira, e na 5ª Astronomia Elementar e Prática; e, finalmente, no 5º ano Mecânica Celeste na 6ª cadeira, e na 7ª Arquitectura Civil, Militar e Subterrânea e Artilharia. Os preparativos de Philosophia exigidos para o Curso Mathematico foram os de Química, Física Experimental, Mineralogia, Geodesia e Metalurgia, devendo ser estudados sucessivamente, e nesta ordem, nos três primeiros anos do curso. Determinou‑se que os repetentes de Mathematica frequentassem a cadeira de Cálculo, e na Faculdade de Philosophia a Física Experimental. Os estudantes ficavam isentos de formar teses em Matemáticas Puras. O Curso de Mathematica foi considerado habilitação suficiente para os cargos e ofícios em que fosse requerida a carta de engenheiro civil ou militar, assim como para os postos das diferentes armas do exército e da armada, e bem assim para todos os ofícios ou empregos da Fazenda, devendo ser, em igualdade de circunstâncias, preferidos aqueles que juntassem carta de formatura nesta ciência.

O sentimento de que alguns aspectos importantes para o ensino teórico e prático da Física não tinham sido contemplados nas reformas anteriores, e a necessidade de se promover uma alteração do organograma geral do ensino, levaram as comissões das Faculdades de Mathematica e de Philosophia a elaborar em 1844 uma nova proposta de reformas da legislação académica consideradas indispensáveis. Um avanço importante, mas que apenas parcialmente satisfez as solicitações do corpo docente, foi o do alargamento do ensino da Física. Com efeito, para além de uma cadeira anual de Physica Experimental, frequentada no terceiro ano, foi introduzida uma nova cadeira que na primeira metade do ano lectivo era dedicada ao estudo dos princípios fundamentais da Física, seguindo-se o estudo da Química Inorgânica. Era o seguinte o quadro curricular na Faculdade de Philosophia:

Organização curricular da Faculdade de Philosophia em  1844


Para além destas cadeiras, os alunos frequentavam também, no primeiro ano, a 1ª cadeira da Faculdade de Mathematica, cujo conteúdo programático era: Aritmética, Geometria Sintética, Álgebra e Trigonometria Plana. No segundo ano frequentavam a 2ª cadeira do segundo ano de Matemática, onde continuavam o estudo de Álgebra e estudavam Álgebra Superior, Geometria Analítica, Cálculo Diferencial, Princípios Elementares de Cálculo Integral.