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A reforma curricular de 1861

Depois da reforma de 1844 a Universidade voltou a passar por um novo período de instabilidade. Durante o ano lectivo de 1846 e 1847 os Cursos das Faculdades de Philosophia e de Mathematica estiveram suspensos. A década de cinquenta do século XIX, foi assinalada pelo início de uma intensa actividade da qual resultou uma significativa evolução do Gabinete de Física e no ensino da Física Experimental em Coimbra. Este processo de desenvolvimento culminou com o desdobramento do ensino da Física Experimental em duas cadeiras anuais no Curso de Philosophia. No início da segunda metade do século, a experiência adquirida nos poucos anos decorridos desde a reforma de 1844 tinha demonstrado que não era possível, por falta de tempo, leccionar com a qualidade desejada alguns dos ramos das ciências físico‑matemáticas e dar a outros o desenvolvimento que a evolução dos conhecimentos teóricos e técnicas experimentais exigiam.

Em 6 de Junho de 1851 foi aprovado pela Congregação da Faculdade de Philosophia um plano de estudos, no qual o Curso Philosophico ficava dividido em três partes. Após a formação fundamental, o curso dividia‑se em estudos de Ciências Naturais, cujas cadeiras deveriam ser frequentadas no quarto ano. O quinto ano destinava‑se ao estudo das ciências aplicadas. Um dos aspectos mais relevantes desta proposta de reformulação curricular foi a introdução de uma segunda cadeira anual de Física Experimental, reafirmando um desejo já antigo dos docentes da Faculdade. Era a seguinte a estrutura proposta:

Tabela 2


Apesar da insistência do Conselho da Faculdade, o governo não aprovou este plano de estudos e apenas em 1861 o Curso Philosophico passou a dispor de duas cadeiras anuais de Física.

Foram várias as propostas apresentadas ao governo, tendentes a introduzir reformas curriculares que tornassem o ensino mais actualizado. Em 22 de Junho de 1855 foi presente um ofício do Conselho Superior de Instrução Pública, pedindo o voto da Faculdade acerca da reforma dos estudos Philosophicos, proposto ao governo em consulta de 11 de Abril de 1851. Para responder a este ofício foi nomeada uma comissão que apresentou o seu parecer em Congregação de 21 de Julho. Numa passagem deste parecer podemos ler o seguinte:

Quando por toda a parte os povos dirigem as suas vistas para os melhoramentos materiais, quando todas as nações do mundo civilisado estão dando a máxima importância ao estudo das ciências philosophicas, como fonte priomodial d'estes melhoramentos, seria com effeito para estranhar que o primeiro estabelecimento scientifico do reino ficasse estacionario no meio d'este movimento geral, e que a Faculdade de Philosophia manifestasse pouco empenho em se elevar à altura do seu glorioso destino… Os rapidos e avantajados progressos, que a Physica tem feito no presente século, não consentem que este ramo se possa estudar, ainda que mui perfunctoriamente seja, em um só curso annual. Os tratados do calorico, da luz, da electricidade e do magnetismo são tão avultados, que dariam materia de sobejo para constituirem outras tantas cadeiras especiaes. D'uma tal vastidão de doutrinas ha de necessariamente resultar, como sempre tem acontecido, que os alumnos fiquem ignorando completamente alguns d'elles, a despeito de todos os esforços e diligencias do respectivo professor, que para adiantar o compêndio, se vê as mais das vezes obrigado a explicar toda a hora, com grave prejuizo não só da disciplina, mas também do aproveitamento dos mesmos alumnos.

Também na Faculdade de Mathematica foram apresentadas propostas para o desenvolvimento do ensino teórico de algumas áreas da Física. Fundamentando‑se no argumento de que deveriam ser introduzidas novas áreas de ensino teórico e prático que acompanhassem os mais recentes desenvolvimentos científicos, a Congregação da Faculdade decidiu em 27 de Abril de 1857 consultar o governo, pedindo que se introduzisse no organograma curricular mais uma cadeira, dedicada à Geometria Descritiva e se introduzissem novas cadeiras que contemplassem estudos avançados de Acústica e Óptica, que fossem complementados pela parte experimental no Gabinete de Física. Em atenção àquele pedido foi criada, por carta de lei de 26 de Fevereiro de 1861, a cadeira de Geometria Descriptiva, e em portaria de 5 de Março do mesmo ano o governo ordenou que o Conselho apresentasse um programa completo da distribuição das matérias a ensinar pelas oito cadeiras do novo Curso Mathematico. Por sua vez, na reunião do Conselho da Faculdade de Philosophia do dia 29 de Julho de 1858, foi elaborada uma consulta sobre a nova distribuição dos estudos das ciências Physico‑Chymicas e Historico‑Naturaes na Universidade de Coimbra, submetida à aprovação do governo. Segundo esta proposta o curso passou a ter a seguinte estrutura:

Tabela 3Tabela 4



ANORepetição das 3ª e 6ª cadeiras.

Apesar do relativo avanço observado, o plano de estudos aprovado ainda não satisfazia o corpo docente da Faculdade. Os progressos incessantes de todos os ramos da indústria, e as tendências da época exigiam que se desse aos ramos de aplicação um desenvolvimento, que não se coadunava com a organização da Faculdade então em vigor, e mais especificamente com a situação limitativa em que se encontrava o ensino da Física. Apesar do 3º ano ser integralmente destinado ao estudo dos vários ramos de especialidade, considerava-se exíguo o pouco tempo que lhe estava reservado, impedindo que os métodos da Física Experimental fossem ensinados de acordo com o desenvolvimento que até então se tinha observado nesta ciência. Apenas no ano de 1861 foi definitivamente contemplado o desejo de serem integradas duas cadeiras anuais de Física no Curso Philosophico, as quais passaram a ser a 3ª e a 5ª cadeiras deste curso, integradas no 3º e 4º ano, respectivamente. A nova estrutura do Curso Philosophico foi aprovada através da portaria do Ministério do Reino, no dia 9 de Outubro de 1861, a qual foi apresentada ao Conselho da Faculdade no dia 17 de Outubro. Com esta importante reforma do Curso Philosophico pretendia‑se que o quadro curricular ficasse harmonizado com os das Faculdades de Mathematica e Medicina.

Após a reforma de 1861 os professores que mais se distinguiram para o desenvolvimento do ensino da Física Experimental foram Jacinto António de Sousa e António dos Santos Viegas. Em 1861 o curso ficou organizado do seguinte modo:

Organização curricular da Faculdade de Philosophia em 1861


Na Faculdade de Mathematica os estudantes de Philosophia estudavam no primeiro ano Álgebra Superior, princípios da teoria dos números; Geometria Analítica a duas e três dimensões, teoria das funções circulares, Trigonometria Esférica. No segundo estudavam Calculo Diferencial e Integral; teoria das probalidades. Nos primeiro quatro anos do curso também frequentavam uma cadeira anual de Desenho. Para além das cadeiras específicas de Matemática, o curso também era constituído por disciplinas onde se estudava Mecânica Racional e as suas aplicações às máquinas, descrição e utilização dos instrumentos ópticos. Também fazia parte da organização do curso uma cadeira de Física Matemática, contemplando no seu programa as aplicações da Mecânica às Construções. Na área da Astronomia havia uma cadeira de Mecânica Celeste. Também esta reorganização curricular foi feita obedecendo ao princípio da complementaridade da formação académica dos estudantes, através da frequência obrigatória de cadeiras do Curso Philosophico. Além daquelas cadeiras, os estudantes frequentavam no primeiro ano, na Faculdade de Philosophia, a cadeira anual de Chymica Inorganica e Mettalurgia e outra de Desenho. No segundo ano frequentavam a cadeira de Physica Experimental e Desenho e no terceiro a cadeira de Physica dos Imponderáveis. No quarto ano estudavam também Botânica e no quinto, Mineralogia, Geologia e Arte de Minas.

A reforma curricular das Faculdades de Philosophia e de Mathematica, autorizada pelo governo em 1861, apesar de muito significativa, muito cedo mereceu a insatisfação generalizada do seu corpo docente. Na Memória Histórica da Faculdade de Philosophia, Joaquim Augusto Simões de Carvalho comentava que, comparando a organização curricular actual com o quadro que a constituía na sua fundação, verificava‑se que em 1872 possuía o dobro das cadeiras, e cada uma delas com um programa vasto e extensamente complexo. Não podia deixar de suceder assim, para não faltar à lei de paralelismo que deveria manter‑se entre os progressos das ciências e a contínua modernização dos estabelecimentos encarregados do seu ensino. Era certo, porém, que o quadro actual de disciplinas era ainda muito deficiente e imperfeito, se atendermos ao grande desenvolvimento que no século XIX tiveram todos os ramos da Philosophia Natural.