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A investigação

Tal como assinalou Luís de Albuquerque, os Estatutos de 1772 revelam uma orientação muito moderna ao indicar que “o papel da Universidade não deve ser apenas o de dotar o país com diplomas, (...) cabe-lhes também o encargo de se entregarem à investigação científica”[74]. E indica em abono da sua tese a criação dos “Gremios das Faculdades” cujo objectivo era “nelles se receberem todos aquelles, que, tendo acabado os seus respectivos Cursos com mais distinção, e louvor, déssem esperanças bem fundadas de poderem algum dia succeder dignamente no Magisterio (...) fazendo á contenda os estudos mais avançados, e profundos, que para isso são sempre necessarios.”[75] Esta preocupação é ainda mais claramente visível no Titulo VIII que regulamenta a “Congregação da Mathematica”. Aí se declara expressamente no parágrafo 4: “Em particular cuidará muito em que os descubrimentos, que se fizerem, e approvarem na Congregação Geral das Sciencias, passem logo a transfundir-se nas Lições, reduzidos a huma fórma elementar; e que os Estudantes (principalmente os Ordinarios) se criem desde o principio no espirito da mesma Congregação; para depois se fazerem habeis a entrar nella (...) e para continuarem o fio das mesmas indagações.”[76]

Não só se aponta o caminho da investigação na introdução do Livro III dos Estatutos “trabalhar no progresso, adiantamento, e perfeição das mesmas Sciencias; do mesmo modo que felizmente se tem praticado, e pratíca na Academias mais célebres da Europa; melhorando os conhecimentos adquiridos; e adquirindo outros de novo, os quaes se façam logo passar immediatamente aos Cursos respectivos”[77]

Infelizmente não há notícia da criação dos “Gremios das Faculdades“ ou da “Congregação Geral das Sciencias para o adiantamento, progresso e perfeição das Sciencias Naturaes“[78]. Na “Relação Geral do Estado da Universidade”, o Reitor, D. Francisco de Lemos, explica porque não chegou a ser impressa a quarta parte do Livro Terceiro dos Estatutos onde estariam os Estatutos dessa “Congregação Geral”. E insta a Rainha a promover a publicação desses Estatutos pois a “experiencia das outras Nações da Europa não nos deixa ja duvidar do Sucesso”. E acrescenta vários exemplos, tal como: “A quem devem Inglaterra e França a sua Opulencia, e o flerente estado das Artes da Paz, e da Guerra, se não a Sociedade Real de Londres, e a Academia Real das Sciencias?”[79]

D. Francisco de Lemos lamenta-se ainda de não terem sido tomadas as “Providencias proprias, para florescerem as Sciencias, e haver bons Lentes na Universidade”. O parágrafo com este título é um verdadeiro libelo em defesa da investigação científica: os Doutores deveriam ingressar no “Corpo das Faculdades” organizado à “maneira das Academias” para trabalhar em “Producções Literarias”. E D. Francisco de Lemos indica com muito detalhe como deveria funcionar cada “Corpo das Faculdades”; na realidade trata-se de um verdadeiro seminário de investigação: “Deveriam juntar-se huma ves cada Semana na Salla da Universidade, ou em outro lugar que parecesse ao Reytor; e cada hum por seu Turno seria obrigado a ler huma Dissertação sobre alguma Materia importante da Faculdade, que fosse digna de Discussão. Depois de lida passaria a mesma Dissertaçaõ pela mão de todos os Collegas, os quaes fariam sobre ella as observaçoens, que lhes parecessem; e tudo seria revisto, e examinado pelos Lentes que assistiriam ás mesmas Assembleias. As obras que fossem julgadas de merecimento seriam destinadas á Impressão.”[80] E D. Francisco de Lemos acrescenta que nenhum Doutor poderia aspirar a um lugar de Professor da Faculdade de Matemática sem que trabalhasse “particularmente ate fazer huma Obra, que aprezentada ao Corpo da Faculdade merecesse ser impressa entre as dos outros Academicos, sendo examinada da forma sobredita.”[81]

Podemos ver que este espirito de algum modo teve influência através de uma referência que se podem encontrar nas Actas das Congregações da Faculdade de Filosofia. Numa reunião conjunta em 1780, as Faculdades de Matemática e Filosofia concordaram que na contratação dos professores não se levasse em conta a antiguidade mas apenas os “trabalhos literarios annuaes em que se deveram exercitar e qualificarem-se perante as Congregações com memorias por escrito e verbais, segundo o plano que as mesmas Congregações (...) proporá a sua Magestade”[82]. Esta é uma prova da preocupação com a qualidade dos docentes.

Por Aviso Régio de 1787 é determinado que não tendo sido estabelecida a “Congregaçaõ Geral das Faculdades Naturaes, e Filosoficas”[83], apesar de se continuar a achar que a Congregação devia ser formada com as três Faculdades, pelo menos deviam passar à prática os princípios dos Estatutos no que a cada Faculdade respeitasse. Mas chamava a atenção para a necessidade do estabelecimento da Congregação Geral, “naõ se offerecendo, nem impossibilidade, nem dificuldade ardua, para que a Congregaçaõ Geral se naõ estabeleça”[84], e indicava expressamente que “Sua Magestade quer que Ellas entre Sy confiram os meyos, e os modos de Se fazer estabelecimento”[85]. Um forte incentivo ao estabelecimento da Congregação Geral, mas mais uma vez a Congregação Geral não parece ter avançado.

Uma das razões para esta situação poderá estar na rivalidade entre as Faculdades e seus Lentes. Com efeito, os Estatutos de 1772 determinavam que tinha assento na Congregação da Faculdade de Filosofia “o Lente do Terceiro Anno do Curso Mathematico, o qual terá nesta Congregação o mesmo lugar, que teria, se fosse Lente da Faculdade”[86]. Esse Lente foi até 1783 José Monteiro da Rocha, Lente de Física-Matemática. Ora em 1783, Monteiro da Rocha foi nomeado Lente de Astronomia e Miguel Franzini Lente da Cadeira de Física-Matemática. Como este se encontrava ausente em Lisboa, as aulas eram dadas pelo Lente substituto, Manoel Joaquim Coelho da Costa Maya, doutorado em 1777. A Faculdade de Filosofia sempre se opõs vigorosamente a esta substituição, apesar de os Estatutos de 1772 indicarem que na Congregação teriam assento os Lentes ordinários os Jubilados e os Substitutos. Mas em declaração de voto na reunião da Congregação de Filosofia, Domingos Vandelli, Director e Decano da Faculdade de Filosofia, declara “julgar que se lhe tem ofendido pela inobservancia do Estatuto”. Só em 22 de Maio de 1786, aparece menção nas Actas da presença de Manoel Joaquim Coelho da Costa Maya na Congregação da Faculdade de Filosofia, depois de um Acordão da Universidade datado de 27 de Janeiro de 1786. Nas Actas da Faculdade de Filosofia aprece outra menção que não abona muito ao espírito de cooperação entre as Faculdades de Matemática e Filosofia. Na reunião de 11 de Julho de 1818 refere: “Foi decidido que o lente do 3º anno mathematico não podesse votar nas habilitaçoens dos doutores para oppositores, por ser uma coisa só privativa dos lentes da Faculdade“[87]. O Director e Decano da Faculdade de Filosofia era Francisco António Ribeiro de Paiva, o Lente de Matemática com assento na Congregação de Filosofia era Frei Luis Fortunato, Lente substituto, doutorado em 1807.

Os contactos directos com o estrangeiro foram escassos neste período. Entre 1801 e 1815 Manuel Pedro de Melo fez uma visita (alongada por causa das invasões napoleónicas) a França, Holanda, Bélgica e Itália como preparação para a leccionação da nova cadeira de Hidráulica. Para observar o eclipse solar total de 1860 uma comissão presidida pelo Lente de Matemática Rodrigo Sousa Pinto deslocou-se a Espanha, tendo posteriormente visitado os Observatórios de Madrid, Paris, Bruxelas e Greenwich. Fora estas deslocações e ainda deslocações particulares de alguns Lentes como Luciano Pereira da Silva e Henrique de Figueiredo, não há notícia de mais contactos directos entre professores da Faculdade de Matemática e cientistas estrangeiros.

Só a partir de 1908 a Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra passa a dispor de verbas próprias e então atribui pela primeira vez verbas para uma "missão de estudo (...) sobre assumpto das suas cadeiras e quaisquer outros relativos à Faculdade de Mathematica" com a duração de três meses. Os primeiros professores a deslocar-se ao estrangeiro foram Luciano Pereira da Silva, Henrique de Figueiredo e Sidónio Pais. Estes últimos estiveram duas vezes em Paris (em 1909 e 1910) tendo o ultimo visitado várias Escolas Superiores e assistido a lições de, por exemplo, Mme Curie, Langevin, Goursat, Appell e Picard.

Em função das citações contidas em muitos dos trabalhos realizados por Doutores pela Faculdade de Matemática, podemos dizer que, apesar dos poucos contactos, os matemáticos portugueses estavam a par da matemática produzida na época. Podemos apontar as dissertações de Henrique de Figueiredo sobre “Superfícies de Riemann” (1884), de António dos Santos Lucas “Transformações de Contacto” (1897) onde são estudadas a equação de Pfaff e são referidos os métodos de Sophus Lie para a integração dos sistemas de equações diferenciais de 1ª ordem, de Sidónio Pais sobre a aplicação das probabilidades à “teoria dos erros das observações“ (1898) e de Arzilla da Fonseca sobre os quaterniões (1884, 1885). Como só a partir de 1857 começaram a ser obrigatoriamente publicadas na Universidade as dissertações de doutoramento, não é possível fazer indicações semelhantes sobre teses anteriores a essa data.

Só com o lançamento do Jornal de Sciencias Matematicas e Astronomicas em 1877, por iniciativa de Francisco Gomes Teixeira, é que se desenvolveram verdadeiramente as relações dos matemáticos portugueses com os seus colegas europeus, dando uma real divulgação aos trabalhos portugueses, tendo também muitos artigos de matemáticos estrangeiros sido por este meio publicados em Portugal.

Até à década de 70 as teses de doutoramento deviam versar obrigatoriamente temas de matemática aplicada. A partir dessa data encontramos temas mais variados como:

“Integraes e funcções ellipticas” - 1875 - Antonio Zepherino Candido da Piedade

“Integração das equações ás derivadas parciaes de 2ª ordem” - 1875 - Francisco Gomes Teixeira

“Principios elementares do calculo dos quaterniões” - 1884 - Augusto d’Arzilla Fonseca

“Resolução das equações indeterminadas” - 1885 - Francisco Miranda da Costa Lobo

“Superficies de Riemann” - 1887 - Henrique Manuel de Figueiredo

“Estudo sobre funcções duplamente periodicas de primeira e segunda especie” - 1889 - José Pedro Teixeira

Também nas dissertações de concurso a um lugar de professor encontramos bastantes temas de matemática pura:

“Comparação do methodo teleologico de Wronski com os methodos de Daniel Bernoulli e Euler, para a resolução numerica das equações” - 1870 - Joosé Joaquim Pereira Falcão

“Determinação de funcções ellipticas” - 1874 - João Ignacio do Patrocinio da Costa e Silva Ferreira

“Theoria dos determinantes” - 1880 - Francisco da Costa Pessoa

“Primeiras noções sobre a teoria das funcções uniformes” - 1885 - José Bruno de Cabedo e Lencastre

“Estudo de algumas equações de congruencia e indeterminadas” - 1885 - Francisco Miranda da Costa Lobo

“Curvas planas algebricas” - 1888 - Henrique Manuel de Figueiredo

Inicialmente os temas das duas lições que os candidatos ao lugar de professor catedrático deviam proferir eram obrigatoriamente de matemática aplicada, um de Mecânica Racional ou Física-Matemática, e um de Geodesia, Astronomia Prática ou Mecânica Celeste. Por proposta de Luiz da Costa e Almeida, apresentada ao Conselho Superior de Instrução Pública em 1885, os temas das lições do concurso passaram a ser um de Algebra, Análise, Mecânica Racional ou Física-Matemática e um de Astronomia Geodesia, ou Mecânica Celeste.

   

[74] ALBUQUERQUE, Luís de, “As ciências positivas na reforma pombalina”, in Em
homenagem a José Anastácio da Cunha
, Coimbra, 1987, pp. 19-27.
[75] Estatutos (1772), liv. III, Parte II, tít. I, Cap. I, § 2.
[76] Estatutos (1772), liv. III, Parte II, tít. VIII, Cap. I, § 4.
[77] Estatutos (1772), liv. III, Parte II.
[78] LEMOS, Francisco de, Relação Geral do Estado da Universidade (1777), Coimbra, 1980, p. 107.
[79] Ibidem, p. 110.
[80] Ibidem, p. 163
[81] Ibidem, p. 164.
[82] Actas das Congregações da Faculdade de Filosofia (1772-1820), Universidade de Coimbra, 1978, p. 20.
[83] in ALMEIDA, M. Lopes d’, Documentos da Reforma Pombalina, vol. II, Coimbra, 1979, pp. 137-138.
[84] Ibidem.
[85] Ibidem.
[86] Estatutos (1772), liv. III, Parte III, tít. VII, Cap. I, § 2.
[87] Actas das Congregações da Faculdade de Filosofia (1772-1820), Universidade de Coimbra, 1978, p. 377.