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As cadeiras


Em 1772, o curso de Matemática foi criado com quatro cadeiras próprias[13] :

Primeiro Anno

1ª Cadeira
Geometria, comprehendendo Elementos de Arithmetica, Geometria e de Trigonometria Plana, com applicação á Geometria e Stereometria.

Segundo Anno

2ª Cadeira
Algebra, comprehendendo a Algebra elementar, Principios de calculo infinitesimal, directo e inverso, com applicações á Geometria sublime e transcendente.

Terceiro Anno

3ª Cadeira
Phoronomia (Física-Matemática), comprehendendo a sciencia geral do movimento com a sua applicação a todos os ramos de Phoronomia, que constituem o corpo das Sciencias physico-mathematicas.

Quarto Anno

4ª Cadeira
Astronomia, comprehendendo a theoria geral do movimento dos astros, tanto physica como geometrica, e a práctica do calculo e observações astronomicas.

Os alunos tinham também de frequentar as cadeiras do 1º e 2º ano do curso de Filosofia Natural e ainda a cadeira de Desenho e Arquitectura que funcionava em anexo à Faculdade de Matemática[14].

A cadeira de Geometria do 1º ano era obrigatória para todos os outros cursos da Universidade (incluindo Direito e Teologia). Este facto trouxe alguns problemas; por exemplo, em 1787 um Aviso Régio determinava que se fizessem compêndios de Geometria separados para os alunos dos cursos de Teologia e Direito, o que indicia queixas de uma excessiva dificuldade da cadeira de Geometria para estes alunos. Numa carta enviada pelo Rei à Universidade em 1790 determinava-se que os alunos do curso Jurídico não poderiam inscrever-se no primeiro ano sem ter feito Geometria, o que pressupõe uma tentativa de eliminar a cadeira de Geometria do curso de Direito. Nessa mesma carta se indicava que “os Estudantes Ordinarios da Faculd.e Phylosophica sejaõ obrigados a houvir as liço~e s do Profesor da Cadeira de Calculo, do m.mo modo ~q  o saõ os Estudantes Medicos”[15] o que mais uma vez dá a entender que teria existido um pedido para que tal não acontecesse.

Por Carta Régia de 1 de Abril de 1801 foram criadas 2 cadeiras novas na Faculdade de Matemática, Hidráulica e Astronomia Prática. A cadeira existente de Astronomia passou a ter como tema a Mecânica Celeste. Em 1836 o curso foi totalmente reformado, tendo aumentado para cinco anos, com a criação de uma cadeira de "Architectura civil, militar e subterranea, e artilheria"[16] no 5º ano e a reorganização das cadeiras do 3º, 4º e 5º anos. A Faculdade de Matemática levantou objecções a esta reforma por considerar que a nova cadeira de Arquitectura tinha um programa impossível de cumprir num ano e que de qualquer modo deveria ser ensinada em escolas próprias. Apresentou assim uma outra proposta de reforma, tendo o Governo implicitamente sancionado a modificação pelo que o novo plano de estudos passou a ser:

Primeiro Anno

1ª Cadeira
Geometria

Segundo Anno

2ª Cadeira
Algebra

Terceiro Anno

3ª Cadeira
Mechanica dos sólidos, Óptica e Acústica

Quarto Anno

4ª Cadeira
Geometria descriptiva, Geodesia e Architectura.
5ª Cadeira
Astronomia practica

Quinto Anno

6ª Cadeira
Mechanica Celeste
7ª Cadeira
Hydraulica

Em 1844 foi decretada nova reforma, depois de uma consulta à Faculdade de Matemática, em que esta se dividiu entre os que defendiam um desenvolvimento da Matemática Aplicada e os que defendiam que "nella os estudos theoricos transcendentes tenham o maximo desenvolvimento"[17] . De algum modo acabou por vencer esta última posição pois as três primeiras cadeiras foram reformuladas, aparecendo Cálculo Integral, Cálculo das Variações e, de forma explícita, o estudo das equações diferenciais, na 3ª Cadeira; para isso esta ficou divida em duas partes tendo-se mantido a Mecânica na segunda parte, e tendo passado os temas de Acústica e Óptica para as cadeiras do 4º e 5º anos; estes anos, fora esta alteração, ficaram essencialmente na mesma:

Primeiro Anno

1ª Cadeira
Arithmetica; Geometria de Euclides; Algebra até ás equações do 2º gráu inclusivamente; Trigonometria plana.

Segundo Anno

2ª Cadeira
Continuação da Algebra; Algebra Superior; Series — principios elementares de calculo differencial e integral.

Terceiro Anno

3ª Cadeira
Calculo integral transcendente, de variações, e equações differenciaes até á 3ª ordem; e na 2ª parte do anno Mechanica dos solidos.

Em 1855 foi aprovada nova reforma, desta vez por iniciativa da Faculdade de Matemática, tendo desaparecido a referência às Equações Diferenciais e tendo a ligação óbvia entre as Equações Diferenciais e a Mecânica sido substituída por um casamento claramente de conveniência com a Geometria Descritiva. A Hidrostática e a Acústica desapareceram, tendo aparecido a Mecânica dos Fluidos e a Mecânica Aplicada. Os três últimos anos ficaram organizados da seguinte forma:

Terceiro Anno

3ª Cadeira
Calculo superior, differenças finitas; Geometria descriptiva.
4ª Cadeira
Mechanica racional dos sólidos e fluidos; Óptica.

Quarto Anno

5ª Cadeira
Astronomia practica
6ª Cadeira
Mechanica applicada; Geodesia.

Quinto Anno

7ª Cadeira
Mechanica Celeste

Contudo, logo em 1857, a Congregação da Faculdade de Matemática propôs a criação de uma nova cadeira de Geometria Descritiva, Acústica e Óptica. O Governo concordou em 1861 com a criação de uma 8ª cadeira de Geometria Descritiva e sugeriu uma redistribuição das matérias. A proposta da Faculdade de Matemática não foi aceite pelo Governo que determinou que se aplicasse uma outra que a Faculdade de Matemática não pôs logo em aplicação por considerar que era impossível de pôr em prática. Essa redistribuição governamental concentrava as três primeiras cadeiras em apenas duas com o desaparecimento da Geometria e Trigonometria elementares e o aparecimento no 2º ano do Cálculo das Probabilidades. O curso ficava com uma feição claramente mais aplicada, visto que até o número de disciplinas obrigatórias a fazer na Faculdade de Filosofia passava de três para cinco cadeiras. A Faculdade de Matemática tentou remediar as dificuldades de tal plano de estudos criando uma introdução na 1ª cadeira que ensinasse as noções elementares de aritmética, álgebra e geometria que não faziam parte do ensino secundário e em dar parte do cálculo diferencial e integral na 3ª cadeira. Por várias razões tais planos nunca foram concretizados, tendo o plano de estudos ficado como segue até 1902:

Primeiro Anno

1ª Cadeira
Algebra Superior - principios de theoria dos numeros - geometria analytica a duas e a tres dimensões - theoria das funcções circulares - trigonometria espherica.

Segundo Anno

2ª Cadeira   
Calculo differencial e integral; das differenças, directo e inverso; das variações e das probabilidades.

Terceiro Anno

3ª Cadeira   
Mechanica racional, e suas applicações ás machinas.
4ª Cadeira
Geometria descriptiva - applicações á stereometria, á perspectiva e á theoria das sombras.

Quarto Anno

5ª Cadeira
Descripção e uso dos instrumentos opticos - astronomia practica.
6ª Cadeira
Geodesia - topographia - operações cadastraes.

Quinto Anno

7ª Cadeira
Mechanica Celeste.
8ª Cadeira
Physica Mathematica - applicações de mechanica ás construcções.

Como corolário lógico da controvérsia anterior, a Faculdade de Matemática propôs a criação de uma disciplina de Analyse Mathematica Superior porque “não podem ser ensinados por falta de tempo, nos dois primeiros annos da faculdade de mathematica, capitulos importantes de analyse matemática superior, indispensáveis para o estudo das doutrinas professadas nas 7ª e 8ª cadeiras da mesma faculdade”[18]. Esta posição é expressamente referida na Portaria governamental de 11 de Novembro de 1898 que autoriza a criação da disciplina; esta aparece referida no anuário de 1898 como tendo sido dada no 4º ano do curso por Gonçalo Xavier de Almeida Garrett que era o Lente da 8ª cadeira.

Em Dezembro de 1901 foi feita uma reforma geral da Universidade[19], tendo sido alterados os estatutos. Assim, até 1910, altura em que a Faculdade de Matemática foi extinta e integrada na nova Faculdade de Ciências, vigorou o seguinte plano de estudos (os alunos faziam ainda mais duas cadeiras da Faculdade de Filosofia além de 3 cadeiras de Desenho, tal como no anterior plano):

Primeiro Anno

1ª Cadeira

Álgebra Superior; geometria analytica a duas e a tres dimensões; trigonometria esphérica.

2ª Cadeira

Geometria descriptiva.

Segundo Anno

3ª Cadeira

Cálculo differencial e integral.

Terceiro Anno

4ª Cadeira

Anályse superior.

5ª Cadeira

Mechánica racional.

Quarto Anno

6ª Cadeira

Astronomia.

7ª Cadeira

Geodesia; cálculo das probabilidades.

Quinto Anno

8ª Cadeira

Mechánica celeste.

9ª Cadeira

Physica mathemática.

Este plano de estudos consagra o aparecimento da disciplina de Análise Superior e representa já um avanço notável em relação a planos anteriores aproximando-se muito de um moderno plano de Matemática Aplicada às Ciências da Engenharia. Na 3ª cadeira eram estudadas Equações Diferenciais Ordinárias e de Derivadas Parciais. Na 4ª cadeira eram estudadas Funções de Variável Complexa, Equações Diferenciais e Cálculo das Variações. Na 5ª cadeira estudava-se Cinemática, Estática e Dinâmica do ponto material, dos sistemas materiais e dos corpos sólidos, e Hidrostática. Na 6ª cadeira era estudado o Cálculo das Probabilidades e a Teoria dos Erros das Observações (seguindo Gauss e Poincaré). Na 9ª cadeira estudava-se Termodinâmica, Elasticidade, Teoria Analítica do Calor, Electricidade e Óptica[20].

  

[13] Ibidem, p. 25.
[14] com um professor subordinado à Congregação da Faculdade de Matemática. Durante muito tempo o Lente da cadeira de Desenho não foi provido por falta de pessoa qualificada. Apenas começou a funcionar depois de 1840 com professores nomeados interinamente e apenas teve um professor proprietário apartir de 1872.
[15] Actas das Congregações da Faculdade de Matemática (1772-1820), Universidade de Coimbra, 1982, vol. I, p. 83.
[16] FREIRE, Francisco de Castro, Memoria Historica da Faculdade de Mathematica, Coimbra, 1872, p. 65.
[17] Ibidem, p. 66.
[18] Annuario da Universidade de Coimbra - Anno lectivo de 1898-1899, Coimbra, 1899, pp.  206-207.
[19] Cf. Annuario da Universidade de Coimbra - Anno lectivo de 1901-1902, Coimbra, 1901, pp.  103-120(III).
[20] Cf. Faculdade de Mathematica - Programmas, Coimbra, 1900.