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Introdução

A Reforma Pombalina representa um acontecimento sem precedentes para a Matemática em Portugal, com a criação da Faculdade de Matemática a que se atribui um lugar de destaque, sendo considerada nos Estatutos de 1772 “huma Faculdade Maior do Ensino público, incorporada na Universidade, como qualquer das outras Faculdades, que até agora se distinguíram com o nome de Maiores[1] sendo mesmo expressamente afirmado que “terá a mesma Graduação, Predicamento, Honras e Privilegios, de que por Direito, e costume gozam as mesmas Faculdades, sem já mais poder haver-se por inferior a ellas por qualquer titulo, ou pretexto, que se possa allegar”[2], e com a criação de um curso de Matemática para que se estabelecesse “a Profissão Mathematica na Universidade de Coimbra“[3] e para que “se criem Mathematicos consumados, que possam succeder nas Cadeiras, e ser empregados no serviço da Patria.”

Nesse documento, a segunda parte do Livro III, relativa à Matemática, começa com um elogio rasgado: "Têm as Mathematicas uma perfeição tão indisputável entre todos os conhecimentos naturais, assim na exactidão luminosa do seu Método, como na sublime e admiravel especulação das suas doutrinas, que Ellas não somente e em rigor, ou com propriedade merecem o nome de Sciencias, mas também são as que tem acreditado singularmente a força, o engenho, e a sagacidade do Homem." E mais adiante indica que “se a mesma Universidade ficasse destituída das luzes Mathematicas (...) não seria mais do que hum cháos, semelhante ao Universo, se fosse privado dos resplandores do Sol”. Nos Estatutos são mesmo indicadas penas para quem diminuir a importância dos estudos matemáticos: "Todos aquelles, que directa ou indirectamente apartarem ou dissuadirem a alguem dos estudos mathematicos; (...) não serão por mim attendidos em opposição alguma, que façam às cadeiras das suas respectivas Faculdades." Eram também concedidos privilégios para quem frequentasse a Faculdade com aproveitamento ou distinção: “Haverei a todos os Fidalgos da minha Casa por serviço vivo na Campanha, todo o tempo, que cursarem a Mathematica na Universidade”[4], eram dispensados de todos ou duma parte dos exames na admissão a profissões militares, e ainda a criação de 18 partidos “perpetuamente” (que existiam apenas para a Faculdade de Medicina) porque o “premio he estímulo eficaz para incitar, e promover a diligencia”[5] por se entender que “as Sciencias Mathematicas involvem difficuldades que se não podem vencer sem grande constancia no estudo“[6].

No relatório que elaborou em 1777, “Relação Geral do Estado da Universidade”, D. Francisco de Lemos analisou os problemas dos primeiros anos de funcionamento da nova Faculdade de Matemática. O principal problema que apontou foi o da baixa frequência: no primeiro ano inscreveram-se 8 estudantes mas um morreu e 2 “desertaram”, no 2ª ano inscreveram-se 2 mas um “faltou” e nos anos seguintes até 1777 não se inscreveu mais nenhum. E aponta várias medidas para se remediar esta situação “do qual depende em grande parte a felicidade da Monarchia”. A causa principal desta situação é, de acordo com o Reitor Reformador da Universidade de Coimbra, “não serem destinados por Ordens Regias os Mathematicos Graduados para os Empregos, e Lugares, que há proprios desta Profissão”[7]. Por isso D. Franscisco de Lemos solicita à Rainha D. Maria II que confirme duas determinações do Rei D. José I que nunca chegaram a ser executadas:

“1º Que os Lugares de Cosmographo Mor, Engenheiro Mor do Reyno, fossem só occupados pelos Mathematicos Graduados.

2º Que em cada huma das Comarcas se creasse um Lugar de Cosmographo Menor para ser occupado pelos mesmos Mathematicos Graduados.

3º Que na cidade do Porto se instituisse huma Cadeira de Astronomia Nautica, para ser tambem regida por um Mathematico Graduado.”[8]

D. Francisco de Lemos defende vigorosamente estas medidas, dizendo por exemplo da segunda que “faria certamente cessar a metade das Demandas, e huma terça parte dos Crimes nestes Reynos; porque he certo, que muitos crimes se commettem por teimas, e dividas sobre as Propriedades”[9].

Mas no mesmo documento são propostas ainda outras medidas que criem mais empregos para “Mathematicos Graduados“. Além da cadeira de Náutica no Porto são também propostas iguais cadeiras em Lisboa, Baía e Rio de Janeiro. É indicado o que poderia ser um programa dessa cadeira, a ser frequentada por todos os cadetes da Marinha durante três anos. Propõe que os titulares das cadeiras de Artilharia e Engenharia Militar só fossem ocupadas por “Mathematicos Graduados“. E propõe que sejam criadas cadeiras de Geometria em todas os lugares onde se ensinar Filosofia Racional.

Este problema mantém-se com alguma acuidade durante muitos anos, e o número de alunos no curso de matemático foi bastante reduzido até meados do século XIX. Em reunião da Congregação de Matemática de 22 de Maio de 1807, o Reitor, D. Francisco de Lemos, chama a atenção para a “ademinuiçaõ progressiva ~q . se via aresp.to do numero d’Estudantes Ordinarios ~q . sepropuzesem à Formatura de Mathematica”[10]. Aponta como razão a falta de empregos para matematicos em serviços publicos, e a Congregação roga-lhe que solicite ao Governo a criação de tais empregos.

Na reforma de 1836 foi determinado que o curso de Matemática seria habilitação suficiente para "os cargos e officios em que for requerida a carta de ingenheiro civil ou militar, assim como para os postos das differentes armas do exercito e da armada, e bem assim para todos os officios ou empregos de Fazenda; devendo ser, em egualdade de circunstancias, preferidos aquelles que junctarem carta de formatura nesta sciencia"[11] . Esta determinação deve ter tido um efeito diminuto conforme se pode ajuizar por uma passagem da Oração de Sapiência proferida pelo Lente da Faculdade de Matemática Luís da Costa e Almeida em 1889: “Poucas, pouquissimas são as profissões, para cujo exercicio se exige a formatura na faculdade de mathematica”[12] .

Apesar disso encontramos referências neste período a algumas posições importantes ocupadas por “Mathematicos Graduados“: Filipe Folque, doutor em Matematica, é o director geral dos trabalhos geodésicos do Reino, e Francisco António Brito Limpo, bacharel formado em Matemática é membro da comissão dos trabalhos geodésicos do Reino.

 

[1] Estatutos (1772), liv. III, Parte II, tít. I, Cap. II, § 1.
[2] Ibidem.
[3] Estatutos (1772), liv. III, Parte II, tít. I, Cap. I, § 4.
[4] Ibidem, Cap. II, § 9
[5] Ibidem, tít. VII, Cap. II, § 1.
[6] Ibidem.
[7] LEMOS, Francisco de, Relação Geral do Estado da Universidade (1777), Coimbra, 1980, pp. 87-88.
[8] Idibem, p. 89.
[9] Ibidem, p. 90.
[10] Actas das Congregações da Faculdade de Matemática (1772-1820), Universidade de Coimbra, 1983, vol. II, p. 94.
[11] FREIRE, Francisco de Castro, Memoria Historica da Faculdade de Mathematica, Coimbra, 1872, p. 65.
[12] Annuario da Universidade de Coimbra - Anno lectivo de 1898-1899, Coimbra, 1899, p.  XXVII.