Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Conferências do Instituto de Coimbra

A realização de conferências como meio de cultivar as ciências, as letras e as artes só foi especificada estatutariamente em 1966, junto com sessões de estudo, colóquios e exposições. No entanto, tudo isto se realizou desde cedo no Instituto, cabendo na designação mais genérica de “discussão e estudo de temas científicos, literários e artísticos”. Tal discussão se enquadrou, nas décadas de 1850 e 1860, nas sessões das classes[53]. A partir da década de 1870 é que se encontram registos de verdadeiras conferências promovidas pelo Instituto, num crescendo nítido de sessões.

Começaram com um tema de Medicina, apresentado por Fernando Augusto de Andrade Pimentel e Melo, lente de Medicina Legal, que discursou sobre a missão do médico na sociedade, no dia 29 de março de 1873 (vd. O Instituto, 17: 237). O Jornal de Coimbra relatava, a 4 de abril, que a conferência fora assistida por público variado, e o orador “aplaudido pela mocidade académica, pelas senhoras que ornavam a sala e pelos graves homens de ciência, que o escutavam atentos”. No mesmo ano seriam ouvidos outros quatro conferentes, variando as disciplinas de cada um deles: Direito, Pedagogia, Literatura. 

Sobre a conferência realizada pelo jurisconsulto Júlio de Vilhena, destinada a defender a tese “A análise comparada das ficções do Direito demonstra a origem ariana dos povos hispânicos”, o Jornal de Coimbra (13.11.1873) declara ser a primeira realizada no salão que o Instituto recentemente preparara para o efeito, ou seja, a academia criou um espaço apropriado a estas sessões públicas, na intenção de continuar a promovê-las no futuro. Acrescenta o mesmo Jornal: “O auditório era respeitável. Compunha-se quase na sua totalidade de lentes e distintos académicos”, incluindo as principais autoridades de Coimbra[54]

Com efeito, a presença das principais autoridades conimbricenses neste tipo de sessões do Instituto revelar-se-ia uma constante. Por norma, incluíam o reitor ou o vice-reitor da Universidade, o governador civil do Distrito, ocasionalmente o presidente da Câmara. Testemunhavam, com a sua presença, a solenidade e a reputação destes atos, frequentemente associados à Universidade. De facto, se o princípio era realizar as conferências no edifício do Instituto, não deixaram, muitas delas, de se efetuar em salas faustosas da Universidade, como a dos Capelos, ou noutros locais a ela pertencentes (Museus, Faculdades), e algumas em edifícios municipais.

Nas décadas de 1870 e 1880, são os temas de Medicina que predominam nas conferências do Instituto, aliás, é daí que surge o primeiro conferente estrangeiro. Em 21 de abril de 1877, Adolphe Burggraeve, professor de Medicina da Universidade de Gand, expôs no Instituto, perante um auditório numeroso, o seu método de medicina dosimétrica – um método terapêutico na aplicação dos medicamentos. A maioria, no entanto, eram docentes de Coimbra, como Augusto Rocha, Augusto Filipe Simões e José Epifânio Marques. Outros temas presentes neste período são a Arqueologia e as Ciências Sociais. Note-se, ainda, a particularidade de se entrever, nestas sessões, uma intenção de contribuir para uma real melhoria das condições de vida da população, nos aspetos da saúde pública, sobretudo com as sessões de 1879, e, por outro lado, uma especial incidência nas matérias relativas à região de Coimbra.

Com a entrada de Bernardino Machado na Direção, opera-se uma viragem para o debate de temas de ensino e instrução pública, e, por outro lado, com a influência de sócios efetivos como Eugénio de Castro, privilegiam-se as questões literárias. É uma tendência que poderemos constatar, de igual modo, nos volumes da revista publicados nesta época. Neste sentido, temos, por exemplo, as conferências sobre a reforma do ensino superior e em especial a da Universidade, da iniciativa de Bernardino Machado, em 1899, com a participação de Teixeira de Abreu, Mendes dos Remédios, Sousa Refoios, Costa Alemão e Daniel de Matos. Refere O conimbricense de 14 e 17 de janeiro de 1899 que os conferentes seguiram uma mesma orientação e combateram a reforma parcial do ensino, em prol de uma reforma conjunta. Bernardino Machado, em particular, defendeu a nomeação de um conselho superior de instrução com representantes de todas as categorias de ensino, como instância última e definitiva à qual se submetessem todos os trabalhos parciais da projetada reorganização.

Há notícias de um novo conferente estrangeiro para 1898, desta vez o professor polaco W. Lutoslawski que, no salão nobre do Instituto, veio expor o tema “Principes de stylométrie appliqués à la chronologie des oeuvres de Platon”. A partir da segunda década do século XX, não vão faltar os conferentes estrangeiros, convidados principalmente por Costa Lobo.

Entretanto, começavam a acentuar-se nas sessões os temas de política internacional, quer a nível europeu quer relativo às colónias. Em abril de 1910 registam-se duas neste âmbito. Primeiro, o suíço Alfred Bertrand falou sobre as suas viagens no sul de África, especialmente a portuguesa, mencionando-se ter sido a palestra “acompanhada de projeções luminosas” (Notícias de Coimbra, 13.4.1910). Dias mais tarde, Leote do Rego, oficial da Marinha, discursou sobre “A situação presente de Portugal como potência marítima”.

Digna de registo é, bem assim, a presença de mulheres no papel de oradoras, que começa a impor-se por esta altura. Segundo as informações de que dispomos, a primeira de que há memória data de 4 de maio de 1909 (embora já constassem mulheres entre os sócios do Instituto desde 1896), quando a escritora Olga de Morais Sarmento realizou uma conferência sobre a Infanta D. Maria. O jornal Resistência de 7 de maio de 1909 informa que se encontravam a assistir “muitas senhoras, com elegantes e luxuosas toilettes”, e que, “no final da conferência, as senhoras e os cavalheiros que a ela assistiram reuniram-se no Club da Rua da Ilha improvisando uma soirée que correu animadamente até depois das duas horas da manhã”.

Efetivamente, as sessões de conferências costumavam ser acompanhadas por soirées ou simples almoços/jantares de confraternização que o Instituto oferecia aos oradores. Além disso, serviram, muitas vezes, de pretexto para a eleição do conferente a sócio. Não muitos anos depois, uma outra senhora dedicava à academia conimbricense uma série de conferências realizadas no salão nobre do Instituto. Trata-se da “ilustre pensadora portuguesa” Maria Feio, que falou sobre “O problema da educação moral sob o ponto de vista individual e coletivo”, em dezembro de 1914 (Gazeta de Coimbra, 2, 5 e 9 de dezembro de 1914).

Com a entrada de Francisco Miranda da Costa Lobo na presidência do Instituto (1913), a atividade científica desta academia acusa importante renovação, que se projeta a nível das conferências promovidas. A ligação de Costa Lobo ao estrangeiro facilita o convite a personalidades de outras nações, que se deslocam a Coimbra para expor os seus estudos. Além disso, acentua-se a vertente das ciências físicas e matemáticas no ambiente destas sessões. Mas não só. Prosseguem e até se intensificam as questões de política internacional, motivadas pelo contexto das duas Grandes Guerras, que esta Direção atravessa.

De qualquer modo, é intenção declarada de Costa Lobo promover as relações científicas entre Portugal e o exterior, por meio destas conferências. Trata-se de uma orientação que se torna mais visível a partir das comunicações, em 1915, de José Maluquer y Salvador, da Real Academia de Jurisprudência de Madrid, e Eduardo Gómez de Baquero, do Conselho Superior de Instrução Pública de Espanha (vd. O Instituto, 62: 625 e 72: 176).

Nomes importantes da cultura portuguesa deixaram no Instituto um testemunho dos seus trabalhos de pesquisa, tais como Fidelino de Figueiredo (1917), Gomes Teixeira (1920) ou José Matoso (1965). Por outro lado, privilegiaram-se as culturas das nações com as quais Portugal tem maior proximidade: o Brasil, Espanha, Inglaterra e França. Nos últimos tempos da sua presidência, Costa Lobo organizou um ciclo de sessões de cultura científica, literária e artística, em 1943, sendo a primeira da responsabilidade de Anselmo Ferraz de Carvalho, que falou sobre “Auroras polares e alta atmosfera”, a segunda do botânico Abílio Fernandes, que apresentou o tema “Ecologia da polinização”, e a terceira do próprio Costa Lobo, versando sobre “O Infante D. Pedro Duque de Coimbra”.

Os derradeiros anos da presidência de Costa Lobo são, de facto, recheados de conferências de assuntos vários, desde a Astronomia à Música. Anselmo Ferraz de Carvalho, seu sucessor, deu continuidade a esta atividade intensa, desde o mesmo ano de 1945 em que subiu à presidência. Com efeito, Ferraz de Carvalho conseguiu convocar personalidades de todos os quadrantes, dando cumprimento à orientação múltipla desta academia. Foi nesta altura que o Instituto organizou um ciclo de estudos coloniais, no âmbito do qual se realizaram as conferências do comandante Álvaro de Freitas Morna e do professor da Universidade do Porto A. A. Mendes Correia.

Impôs-se também a colaboração de entidades externas, como a do Instituto Francês de Coimbra, no dia em que René de Possel, professor da Universidade de Argel, discursou no Instituto sobre os princípios matemáticos da mecânica clássica (1946). A partir desta altura torna-se visível uma preponderância de convidados francófonos, especialistas em temas históricos e literários, mas também, na senda de Costa Lobo, nos temas de ciências exatas e naturais.

Na década de 1950, respondendo aos interesses de organismos coimbrãos, como o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), o Instituto promove encontros com distintas personalidades do Brasil. É neste contexto que se inserem as conferências do romancista José Lins do Rego (1951), do diplomata Herculano Rebordão, ou do médico Divaldo Gaspar de Freitas (1952), entre outras. Em algumas destas sessões, o TEUC e outros organismos académicos, como a Tuna e o Orfeão, contribuíram com espetáculos para o programa das visitas.

Na década de 1960 parece reduzir-se o impulso cultural do Instituto, com a consequente limitação do elenco das conferências. Apesar de tudo, continuam a visitar o Instituto investigadores de nomeada, agora sobretudo portugueses, e alguns espanhóis. Com a viragem política e social que Portugal viveu no pós 25 de Abril de 1974, a atividade do Instituto recebe um forte sopro de vitalidade, que tanto acusou o entusiasmo das novas correntes que circulavam quanto se extinguiu brevemente com o apagar desse entusiasmo. As conferências e outro tipo de iniciativas deste período refletem, ademais, a proximidade do Instituto com o núcleo de Coimbra da Associação de Amizade Portugal-RDA. Recordem-se, por exemplo, as conferências de Axel Hesse, musicólogo da República Democrática Alemã, e da linguista Elena Wolf, em 1975.

No seguimento desta renovação insere-se um extraordinário ciclo de conferências sobre o século XIX, que, apesar de não constituir a derradeira realização do Instituto, surge como uma espécie de canto do cisne. Ocupando o primeiro semestre de 1977, este ciclo contou com a presença de intelectuais provenientes de várias instituições de diferentes pontos do país, abordando cada um deles o século XIX sob perspetivas distintas. Participaram Joel Serrão, António Hespanha, Armando de Castro, Fernando Catroga, Lousã Henriques, João Medina, entre outros. A entrada era livre e, ao que parece, a afluência foi enorme, de tal modo que se tornou necessário montar uma instalação sonora para que as conferências pudessem ser escutadas na sala de leitura do rés do chão do edifício. O elevado interesse que despertaram revela-se também pela circunstância de o Instituto ter disponibilizado gravações das conferências que podiam ser ouvidas todos os dias úteis das 16h às 19h, segundo nos informa o folheto de divulgação.

As últimas conferências no Instituto de que há registo têm a ver com a comemoração do 1º centenário do nascimento de Albert Einstein, em 1979, e representam uma colaboração do Instituto com a Secção de Coimbra da Sociedade Portuguesa de Física e a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

 

[53] Ver capítulo Classes.
[54] Para os restantes conferentes, veja-se a lista mais abaixo.