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O Museu do Instituto

Em 1873, o reitor da Universidade, Visconde de Vila Maior (Júlio Máximo de Oliveira Pimentel), autorizou a instalação do Museu de Arqueologia em duas salas do pavimento inferior do edifício do Colégio de S. Paulo Eremita, onde o Instituto residia desde 1868. Os primeiros objetos recebidos no museu, em abril e em maio de 1873, foram dois capitéis da igreja de São Tiago oferecidos por A. Filipe Simões e cinco lápides romanas e duas portuguesas depositadas pela Universidade. Em pouco tempo, as aquisições foram-se avolumando e enriquecendo o espaço, pois “não tardaram a convergir para o museu do Instituto muitas outras relíquias de maior ou menor valor histórico, umas oferecidas, outras confiadas em depósito por corporações e por particulares” (Vasconcelos, 1896: 275). As peças que chegavam eram classificadas e catalogadas pelo conservador.

Desde o início, os associados contactaram pessoas e entidades a fim de que se dispusessem a colaborar com o museu. As respostas foram positivas de várias proveniências, dando origem a uma coleção inicial de objetos cedidos pelo Visconde de Vila Maior, Adolfo Ferreira de Loureiro (diretor das obras do Mondego e membro da comissão), Matias Cipriano Pereira Heitor de Macedo (diretor das obras públicas), João Correia Aires de Campos, Miguel Osório Cabral de Castro (membros da comissão), António Maria Seabra de Albuquerque (sócio do Real Instituto Arqueológico de Portugal), Cabido e Câmara Municipal de Coimbra.

O seu espólio seria em breve divulgado pelo Catálogo de Aires de Campos, publicado n’O Instituto em três fases, e em separado apenas as duas primeiras, compreendendo no total os objetos integrados no museu entre 1873 e 1887. Agrupa-os segundo dois critérios, começando pela tipologia, classificando objetos de pedra, bronze, ferro, barro, metal e madeira, esculturas, armas e outros objetos, manuscritos e impressos, desenhos e fotografias, tecidos, moedas e medalhas, selos e sinetes; e depois a época a que pertencem, desde a pré-histórica, a romana, a dos godos, a dos árabes e por fim a portuguesa. Para cada um deles inclui uma sucinta descrição, a sua origem e, por vezes, adiciona apontamentos históricos. Todos apresentam o nome do ofertante ou do depositante e a data de entrada no museu. Daqui resulta uma lista considerável de pessoas e entidades que contribuíram para a construção deste museu único no panorama conimbricense, demonstrando apreço pelo trabalho dos membros da Secção de Arqueologia do Instituto. Dessa lista sobressaem, pela quantidade de espécies oferecidas, os nomes de Augusto Filipe Simões e Augusto Mendes Simões de Castro, para além das aquisições obtidas em resultado de diligências por parte da mesma Secção.

Borges de Figueiredo, associado correspondente da Secção, não esqueceu o Instituto quando escreveu a sua Coimbra antiga e moderna, em 1886, referindo-se principalmente ao Museu de Arqueologia. Constatando que a maior parte dos seus objetos eram doados e menos os depositados, o estudioso da história conimbricense observa que o Museu albergava espécies notáveis: “Ali se encontram os mais antigos monumentos epigráficos da cidade do Mondego, que ascendem à época romana, e outros muitos procedentes doutras povoações; da época dos godos, cujos monumentos tão raros são entre nós, alguns objetos possui, assim como da dos árabes; e da época portuguesa há ali muitos monumentos. Conserva igualmente alguns manuscritos curiosos (diplomas e cartas) e algumas moedas antigas romanas e portuguesas”. Borges de Figueiredo destaca em seguida as peças que mais valoriza. Lamenta, porém, que escasseiem os meios de fomentar esta coleção: “Se os recursos do Instituto fossem maiores, muito haveria que exigir desta sociedade, não só no que respeita à aquisição de objetos, mas ainda a outros muitos respeitos. Todavia é de justiça dizer-se que a secção de Arqueologia tem velado constantemente pela conservação dos monumentos conimbricenses, tanto quanto lhe é dado na sua ainda limitada esfera, e já muito se lhe deve” (Figueiredo, 1996: 222-224). Prevê, no entanto, que o museu continue a crescer e que se torne respeitável, o que não ficou longe da verdade. Num outro momento, ao descrever o mosteiro de Celas e os monumentos epigráficos nele contidos, formula o desejo de que o Instituto possa adquiri-los para o seu museu, o que de facto veio a acontecer, mediante autorização do Governo[37].

Em julho de 1887, em sessão da Direção do Instituto, o presidente Júlio Augusto Henriques participava que a Direção das Obras Públicas do Distrito de Coimbra (por solicitação do Instituto) tinha enviado para Lisboa o plano e orçamento das obras a fazer na sala que servia o museu, num contexto de reforma alargada também às instalações do Gabinete de Leitura do Instituto. Havia uma clara intenção de realizar obras de adaptação do edifício, pensando-se em formas alternativas de obter financiamento. Mais tarde, a intervenção do reitor da Universidade haveria de se tornar decisiva na execução de uma nova fase de reforma das salas do museu de Arqueologia, em 1895[38], a qual se achou apoiada por alguns sócios de mérito, que se disponibilizaram para dar a sua contribuição.

A ação de António Augusto Gonçalves, não apenas na revitalização da Arqueologia no Instituto, mas também numa série de acontecimentos marcantes no ensino das artes e na proteção do património histórico e artístico de Coimbra – como o restauro da Sé Velha, a criação do Museu Machado de Castro ou a fundação da Escola Livre das Artes do Desenho –, tornou-o digno de homenagens pelos seus amigos e alunos, havendo uma delas partido da iniciativa do próprio Instituto (em 1946). O seu nome foi proposto por Júlio Augusto Henriques como a pessoa mais habilitada para refazer todo o Museu e dar-lhe nova vida. Era preciso primeiro torná-lo sócio do Instituto, o que se deu por meio de um processo de contornos pouco habituais no seio daquela academia. Gonçalves não tinha títulos académicos, o que por si só não constituiria impedimento para a sua eleição, visto que outros sócios entraram nessas condições. Porém, Gonçalves era uma figura de polémicas, travadas na imprensa, de palavras incisivas, que chegaram a ser direcionadas ao Instituto. Apesar de tudo, a proposta que foi entregue para a sua eleição era assinada por um número de sócios muito superior ao exigido, de modo que em sessão de assembleia geral de 24 de novembro de 1894 se efetivou a nomeação.

Segundo António de Vasconcelos, por esta época, “o Museu, tão amorosamente criado por um reduzido grupo de arqueólogos, e tão sábia e honestamente catalogado por Aires de Campos, não passava já de um conjunto informe de pedras e várias velharias, amontoadas sem ordem, sem arte, sem luz, sem limpeza, em duas espeluncas, que nunca haviam sido vestidas de cal, mas que, em compensação, se achavam profusamente decoradas com espessas colgaduras de teias de aranha” (Homenagem, 1923: VII). Ora, mediante a sábia organização praticada pelo novo conservador, tudo terá mudado: “O Museu arqueológico do Instituto, decorrido pouco tempo, já não parecia o mesmo; transformou-se e ampliou-se rapidamente e largamente, sendo vastas e preciosas as coleções que nele se instalaram. Os objetos que as constituíam foram, em grande parte, adquiridos por indústria de Gonçalves, e muitos eram propriedade sua; António Augusto é que dirigiu sempre, e exclusivamente, a escolha, disposição e instalação” (Homenagem, 1923: XI).

Mediante a intervenção de Gonçalves, artista e escritor multifacetado, renovou-se o esforço de obtenção de objetos de arte ou arqueologia para o museu, em especial junto do Bispo Conde de Coimbra. Não demorou muito a resposta. Logo em dezembro do mesmo ano, a assembleia louvava os relevantes serviços prestados à Secção pelo Bispo Conde D. Manuel Correia de Bastos Pina, que tinha mandado recolher no museu objetos provenientes da Sé Velha. Em agradecimento, foi-lhe conferido o diploma de presidente honorário da Secção. Uma outra personagem a quem a Secção prestou agradecimentos foi António Augusto da Costa Simões, que era então reitor da Universidade, e que deu ordem para a realização de obras no edifício do museu. Costa Simões esteve, aliás, envolvido desde os primeiros tempos nas atividades da Secção, de modo que também a ele decidiram atribuir a honra de associar o seu nome a uma das salas do museu, junto com a de sócio benemérito.

Com obras realizadas, com novas aquisições e com a reorganização implementada pelo novo conservador, o Museu de Antiguidades do Instituto (designação que substituiu a de Museu de Arqueologia) reabriria as suas portas oficialmente em sessão solene de 26 de abril de 1896, na presença dos órgãos diretivos do Instituto (presidido na altura por José Epifânio Marques) e das autoridades principais de Coimbra. Evidenciaram-se os discursos proferidos pelo Bispo Conde e pelo reitor da Universidade.

A ampliação das duas salas iniciais projetou-se logo no ano seguinte à reabertura, financiadas as despesas pelo Ministério das Obras Públicas e cedido o espaço pelo reitor da Universidade, embora só se efetuem os trabalhos em 1898. De facto, o reitor Costa Simões acabaria por conceder ao Instituto as únicas salas que restavam para todo o edifício do Colégio ficar na posse da sociedade, as quais foram assim destinadas à extensão do museu (assembleia geral de 4 de junho de 1898). A sua quinta sala é pensada em 1903, anexando-se para esse efeito uma casa contígua ao Colégio, e contando a obra mais uma vez com apoio financeiro do Ministério (Serra, 2002: 119-121). Segundo J. P. Loureiro, ainda nos princípios de 1911 o Instituto tomava medidas para alargar o espaço museológico, com a aquisição de outra casa contígua ao edifício (Loureiro, 1940: 194). Quanto à colaboração dos sócios no melhoramento das instalações, é um facto que as atas das sessões da Direção confirmam a receção de cartas de várias individualidades que se disponibilizavam a contribuir para as obras do museu.

Uma importante narrativa das condições em que a Secção de Arqueologia trabalhou para a reorganização do Museu conserva-se entre os documentos de Arquivo pertencentes ao espólio do Instituto. Trata-se de uma circular enviada aos associados da Secção em 4 de abril de 1900, assinada pelo presidente António de Vasconcelos e pelos restantes membros diretivos. Resumidamente, ela informa dos desenvolvimentos do Museu, refletidos num crescente interesse do público pelas suas coleções, possibilitados pelos apoios provenientes da administração central, realçando o contributo da rainha D. Amélia, das autoridades universitárias, da direção e dos próprios sócios do Instituto, a título individual. Agradecendo o patrocínio, inestimável pela elevada soma de despesas necessárias ao empreendimento, e pretendendo continuar a incrementar a reputação do Museu, apela ao contributo pecuniário das três classes de sócios do Instituto, nomeadamente com o fim de adquirir reproduções e objetos de maior valia que de outra forma não seriam alcançáveis.

Embora a fase posterior se repute de maior brilho, a verdade é que dela não resultou um catálogo como o que elaborou Aires de Campos. Apenas no último momento da sua existência viu o museu ser publicada (em 1911) uma espécie de guia para o visitante, com uma descrição sumária das coleções. Antes, porém, havia Rocha Peixoto publicado uma breve síntese do conteúdo das salas principais, à data da reabertura, transcrita de um jornal diário que não identifica. Assim, a Sala Costa Simões exibia uma “notável e importante coleção romana: marcos miliários, inscrições comemorativas e tumulares, fragmentos de pavimento de mosaico, objetos de curiosidade, etc.”. Acrescente-se que os pavimentos de mosaico romano que o museu incorporou três anos depois com as escavações de Conímbriga vieram embelezar esta coleção. O autor continua a descrição com documentos de epigrafia da época portuguesa, bem como “esculturas, baixos-relevos, fragmentos de decorações arquitetónicas e curiosidades apreciáveis e de grande valor histórico”. Refere ainda “uma montra com instrumentos pré-históricos, muito raros e interessantes”, provenientes das escavações realizadas por Santos Rocha na Figueira da Foz. Quanto à Sala Aires de Campos, ela dispunha de obras do Renascimento, mencionando o autor uma “coleção de espelhos de fechaduras e outros trabalhos antigos de ferro forjado”, “padrões de azulejos variados e exemplares de vidraria, etc.” (Peixoto, 1896: 209-210). Aqui se encontravam ainda as coleções de cerâmica conimbricense depositadas por António Augusto Gonçalves e Joaquim Martins Teixeira de Carvalho.

Entretanto, os jornais de Coimbra, e mesmo algumas monografias, noticiavam ofertas e depósitos particulares que enriqueciam o museu. Daremos apenas alguns exemplos. Em 25 de fevereiro de 1899, o Conimbricense registava o oferecimento de “um tabuleiro de madeira com decorações em imitação de laca japonesa, dois leques do império, um cálice e um frasco de vidro de Veneza”, por José António de Sousa Nazaré, acrescentando que o museu se encontrava aberto ao público todos os dias santificados entre as 11h e as 15h. O periódico republicano Resistência dá conta do depósito de obras de pintura, nomeadamente, em 1908, quadros do séc. XVII, do pintor Simão Rodrigues, provenientes da Capela da Universidade, e dois quadros do séc. XVI atribuídos a Frei Carlos (Resistência, 5 mar. 1908, 21 maio 1908, 31 jul. 1908). F. A. Martins de Carvalho assegura que seu pai, o jornalista Joaquim Martins de Carvalho, entregou para o museu três provisões autógrafas do Arcebispo de Braga D. Frei Bartolomeu dos Mártires, dadas em 1575 (Carvalho, 1910: 60).

Por intermédio de António Augusto Gonçalves, o Instituto solicitou e obteve autorização do Governo, em 1897, para transferir para o seu museu alguns objetos do extinto Museu Industrial de Coimbra[39]. Em 1909, o engenheiro diretor das Obras Públicas do Distrito de Coimbra, João Teófilo da Costa Góis, oferecia à Secção de Arqueologia uma coleção de fotografias das ruínas da igreja de São Tiago, que estava a ser restaurada, e ainda duas pedras com inscrições (uma da capela dos ourives de Coimbra, outra com o brasão da família Alpoim), resgatadas nas demolições desta igreja[40].

Em relação ao roteiro publicado em 1911 sob o título Museu de Antiguidades do Instituto de Coimbra: notas, atribuído a Gonçalves, ele abre com a explicação de que pretende, na realidade, constituir um apoio ao visitante que deseja conhecer tudo o que é mais importante em poucos minutos. Nesta altura, com as obras de alargamento, são mais três as salas descritas. A primeira encontrava-se composta de antiguidades romanas e medievais, de certo modo amontoadas por falta de espaço. A maior parte daquelas de época romana provinha de Conímbriga. Entre os objetos desta sala enumeram-se mosaicos, tijolos, capitéis, túmulos, estátuas, utensílios domésticos, olaria, etc. Destaca-se uma inscrição comemorativa confirmando a conjetura de que Coimbra se denominara Aeminium nos tempos do império romano. As condições da descoberta desta prova decisiva, numa casa demolida na Couraça dos Apóstolos, em 1888, vêm descritas por António de Vasconcelos n’O Instituto[41]. Estavam ali também alguns capitéis românicos provenientes da igreja de São Cristóvão, de Coimbra, demolida em 1860 para se construir o Teatro de D. Luís.

Na segunda sala estavam expostos objetos de cerâmica, bem como as cinco estátuas transferidas da Universidade nos começos do museu, representando a Justiça, o Direito Canónico, a Teologia, o Direito Romano e a Medicina. A terceira sala continha objetos diversos, tais como escultura em madeira dos sécs. XVI a XVIII, estátuas, tecidos dos sécs. XVII e XVIII, livros de coro, mobiliário, etc. Na quarta sala dominavam objetos de Coimbra do séc. XVI, entre eles algumas peças provenientes do mosteiro de Santa Cruz e da Sé Velha. Por fim, a quinta sala expunha pintura, incluindo alguns materiais provenientes do mosteiro de Celas.

Registemos ainda alguns artigos que merecem distinção, dentro deste museu que chegou a ser considerado “um dos mais notáveis do país” (Monteiro, 1904: 514). Nele se encontravam as lápides romanas patenteadas, no séc. XVIII, aquando da demolição do antigo castelo de Coimbra, que do Pátio da Universidade passaram para o museu e que constituem um marco importante no reconhecimento da existência de uma povoação romana onde hoje se situa Coimbra. Possuía também o padrão comemorativo da reconstrução da ponte de Coimbra por D. Manuel, no séc. XVI. Saliente-se, por fim, a imponente escultura em pedra representando um cavaleiro medieval, datada do século XIV, proveniente de Oliveira do Hospital, localizada na primeira sala do Museu.

Em agosto de 1912, a Direção do Instituto tomava conhecimento de um ofício do Conselho de Arte e Arqueologia da 2ª Circunscrição do país, datado de 11 de junho desse ano, assinado por Júlio Augusto Henriques, participando a organização do Museu Machado de Castro e sugerindo o depósito da coleção do Museu de Antiguidades naquele novo espaço. A Direção, provavelmente pensando nos problemas perenes de alojamento e na natural transição operada pela mão de António Augusto Gonçalves, que foi dirigir o novo museu, decidiu, pois, anuir ao pedido de cedência em depósito no Museu Machado de Castro dos objetos de arte e arqueologia cuja propriedade pertencia – e continuaria a pertencer, uma vez que se tratava de um depósito – ao Instituto e que se encontravam expostos no seu Museu de Antiguidades[42].

Parece-nos, assim, ter ficado aqui bem patente o significativo contributo do Instituto de Coimbra para o desenvolvimento das ciências históricas, o estudo e a defesa do património nacional, ao ponto de poder verdadeiramente esta academia inscrever um capítulo na história da Arqueologia em Portugal.



[37] Cf. Catalogo dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto de Coimbra a cargo da Secção de Archeologia do mesmo Instituto: supplemento 2º: comprehendendo os objectos offerecidos e depositados desde novembro de 1883. O Instituto. Vol. 35 (1887/1888), p. 210 ss.

[38] Livro de Atas da Direção do Instituto, sessão de 29 de maio de 1895.

[39] Cf. Loureiro, 1940: 192-193, e Serra, 2002: 105.

[40] Arquivo do Instituto de Coimbra, Correspondência recebida, 25 fev. 1909.

[41] No vol. 43, p. 215-222.

[42] Livro de Atas da Direção, sessão de 8 de agosto de 1912, sob a presidência de Filomeno da Câmara Melo Cabral.