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Presidentes e direção

O primeiro presidente do Instituto de Coimbra, Adrião Pereira Forjaz de Sampaio (1810-1874), atuou como o ideólogo da fundação desta academia científica e literária. Estava entre os membros da comissão que redigiu o segundo projeto dos estatutos, e assina como presidente os primeiros estatutos, aprovados em 3 de janeiro de 1852.

Forjaz era sócio da Nova Academia Dramática na classe de literatura. Doutorou-se em Leis (1835), depois tornou-se lente da Faculdade de Direito (desde 1835/1836), distinguindo-se no ensino de Economia Política, foi vogal efetivo do Conselho Superior de Instrução Pública, sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa, comendador da Ordem de S. Tiago, fidalgo da Casa Real, presidente do Asilo da Infância Desvalida. Algumas das suas publicações: Memórias do Buçaco (1838-1839), Elementos de economia política (1839, com várias reedições), Primeiros elementos da ciência de estatística (1841) e Gramática da infância (1851).

É esta personalidade que lança as bases conceptuais da nova academia, à imagem das academias científicas nacionais e estrangeiras. As linhas do seu pensamento para esta associação de intelectuais encontram-se bem vincadas na Introdução do primeiro volume da revista: “Os membros e sócios do Instituto da Academia Dramática, desejosos de alargar os limites desta sociedade, subordinada à mesma Academia, resolveram no princípio deste ano [1852] constituí-la independente, tendo por fim geral a cultura das ciências e letras – composta de três classes, de Ciências Morais e Políticas, Físico-Matemáticas e de Literatura, Belas Letras e Artes, e com o nome de Instituto de Coimbra”. Acrescenta que “Coadjuvar a Academia Dramática na censura das peças e nas representações teatrais, até então o principal objeto, ficou sendo secundário”.

O princípio da independência política era, para Forjaz, fundamental, não se cansando de o acentuar. Por exemplo, quando as classes selecionavam temas para debate, Forjaz lembrava que “era prática sempre seguida no Instituto nunca discutir nas suas sessões qualquer assunto que de algum modo jogasse com a política interna ou externa” (Livro de Atas da Classe de Ciências Morais e Sociais, sessão de 14.1.1860).

Uma vez assentes os alicerces, Forjaz cede o seu lugar. No artigo “O 1º de Outubro” (O Instituto, 1: 137-138), Forjaz declara já não pertencer à Direção do Instituto:

Seus estatutos foram entregues em Coimbra ao presidente do conselho dos ministros, para subirem à régia confirmação. Os regulamentos internos iam a entrar em discussão, quando a direção, pela ausência de muitos de seus membros e demissão de alguns, se desorganizou. Reconstituída em breve, é muito de esperar que os bem combinados esforços dos novos diretores imprimam a esta bela associação o movimento necessário. Reuniões periódicas e refletidas discussões científicas, recitações de prosa e verso e outros trabalhos análogos poderão mostrar que a flor da academia conhece e aprecia o espírito de seu tempo, e está em comunhão de luzes com os sábios das outras nações. A sorte deste jornal depende da fortuna da associação. Seis meses de duração, em época morta para as fadigas literárias, e dispersos seus colaboradores; seis meses da mais rigorosa pontualidade em sua publicação, sempre anterior aos dias fixados; e isto sem o incentivo do menor interesse pessoal, não só da redação, mas da cuidadosíssima administração, fazem-nos esperar que o 1º de outubro lhe trará certeza de continuação, e não menos de importantes melhoramentos. O Instituto não pertence a uma só das classes que compõem a academia: é dos alunos e dos professores; mais ainda, é de todos os homens de letras não académicos que desejem ilustrar suas colunas. Mas, se a alguma classe mais particularmente pertence, é à da nobre juventude universitária, à flor da academia. Circunstâncias imperiosas nos obrigaram, ao começar um e outro Instituto, sociedade e jornal, a tomar parte, com prejuízo de muitas e penosas obrigações domésticas e públicas, em sua gerência; houvemos de ceder a instâncias obsequiosas, porque nos representaram esta anuência como condição indispensável para, naquela ocasião, se dar princípio à obra projetada. Essas circunstâncias cessaram; prevalecem as obrigações. Já não fazemos parte da direção da sociedade; e com o número 15º terminaremos a que nos fora concedida na redação do jornal.

No entanto, o lente de Direito integrou novamente a Direção, como presidente, no biénio 1861-1862, para o qual saiu eleito a 12 de dezembro de 1860. Esta Direção integrava José Ferreira de Macedo Pinto como vice-presidente, António Vitorino da Mota como 1º secretário, António da Cunha Vieira de Meireles como 2º secretário, Filipe do Quental e Jaime Constantino Moniz como vice-secretários, Raimundo Venâncio Rodrigues como tesoureiro.

Das sessões efetuadas, poucos registos se guardam da passagem desta Direção, para além da aprovação periódica das contas e da eleição de sócios. Ainda assim, neste último aspeto, esta Direção merece destaque pelo facto de procurar abrir o Instituto ao exterior, integrando no seu grémio sócios estrangeiros. Em 1861-1862, foram eleitos Giovenale Vegezzi Ruscalla, tradutor do Frei Luís de Sousa para italiano, Manuel Rico y Sinobas, catedrático de Física da Universidade de Madrid, Antonio de Aguilar y Vela, diretor do Observatório Astronómico de Madrid, Cesare Cantu, historiador italiano, Pedro Felipe Monlau, da Academia de Medicina e Cirurgia de Barcelona, entre outros.

O relatório que apresentou em sessão de assembleia geral a 2 de janeiro de 1863 veio publicado n’O Instituto (11: 249-250), resumindo os resultados alcançados. Refere que esta Direção havia encetado relações amigáveis com associações nacionais e estrangeiras, que tratou da amortização parcial da dívida à Imprensa da Universidade, que diligenciou estreitar as relações especialmente com a Academia Real das Ciências e o Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, “pelo interesse e empenho que têm mostrado na prosperidade e adiantamento do Instituto”, e ainda que, durante os dois anos desta administração, houve palestras literárias ouvidas por grande número de espectadores. Não se deve esquecer, finalmente, que o Regulamento do jornal do Instituto de Coimbra, aprovado em 10 de março de 1861, é da responsabilidade desta Direção.

Em sessão geral de 28 de outubro de 1852, Francisco José Duarte Nazaré (1805-1862) torna-se o primeiro presidente eleito do Instituto de Coimbra. Mais uma vez, um homem de Direito. Doutor em Cânones em 1835, depois professor da Faculdade de Direito, magistrado, juiz de fora em Coimbra e Aveiro, corregedor e provedor na comarca de Coimbra, Nazaré foi deputado às cortes (partido progressista) em quatro legislaturas (1840, 1852, 1853, 1857), vereador da Câmara Municipal de Coimbra (1834-1835, 1837, 1838, 1846) e provedor da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra (1843); era também sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa e colaborou nos periódicos Constitucional (Lisboa, 1840-1842), Observador e Revista jurídica (ambos de Coimbra).

Após o primeiro biénio, 1853-1854, Francisco Nazaré será reeleito para mais dois, 1855-1856 e 1857-1858. Pode-se dizer, por conseguinte, que se assumiu como o presidente que consolidou a posição do Instituto de Coimbra, impedindo-o de soçobrar durante a infância. Uma das primeiras medidas que tomou foi nomear comissões, uma para conceber o regulamento provisório, outra para examinar o estado da contabilidade da academia e da administração do jornal, e ainda para propor regulamentos para o jornal e para o gabinete (sessão da Direção de 2 de novembro de 1852). A Direção aprovou depois o parecer desta comissão acerca da administração do jornal, achando-se exatas as contas. No mesmo mês de novembro de 1852 eram apresentados o regulamento provisório do Instituto e o regulamento para os cursos de leitura, e, no mês seguinte, o regulamento para o arquivo da secretaria do Instituto. Apenas em 17 de dezembro de 1854 se elege, pela primeira vez, um vice-presidente da Direção, no caso, Francisco de Castro Freire, que sucederia na presidência a Nazaré.

Ao tomar conhecimento da portaria de 5 de setembro de 1853, que facilitava em grande medida o florescimento do Instituto, a Direção, “atendendo a que por esta concessão do governo diminuíam as despesas do Instituto, resolveu:

- que, afluindo matéria por parte do Conselho Superior e faculdades académicas, se elevasse, de vez em quando, a dezasseis o número das páginas do jornal, de maneira que não aumentasse a despesa anual orçada em 150$000 réis;

- que doravante fosse o jornal franqueado para todos os assinantes e sócios honorários;

- que de janeiro de 1854 em diante ficasse a prestação dos sócios efetivos reduzida a 240 réis mensais” (O Instituto, 2: 145).

A Direção de Nazaré pautou-se também por uma maior interação com as classes, cada uma delas prestando contas dos seus trabalhos em assembleia geral. Foi a época em que se realizaram os cursos de leitura. Atravessando a data do falecimento de Almeida Garrett, a Direção tomou medidas, instada por requerimento de sócios, para auxiliar o intuito de se erguer um monumento ao escritor (sessão extraordinária de 31 de dezembro de 1854). Resolveu-se também colocar o retrato de Garrett no salão do Instituto para adornar a sessão de elogio fúnebre.

Foi tempo de começar a lidar com o incumprimento das condições regulamentares por parte dos sócios, particularmente os correspondentes, que descuravam as suas obrigações. Tempo ainda de gerir os desequilíbrios no seio da própria Direção: em 7 de dezembro de 1856, quando Jacinto António de Sousa é reeleito para secretário, revela estar a executar quase todo o serviço, incluindo o relativo à comissão de redação e ao gabinete, pedindo por isso que o libertassem das funções do 2º secretário e que “o escusassem de tudo o que pertencia à redação e administração do jornal e do gabinete, o que por muitas vezes tinha requerido ao Instituto” (O Instituto, 5: 217). Em face da insistência da assembleia para que ficasse, Jacinto António de Sousa acabou por aceitar a nomeação, mas declarando que apenas se responsabilizaria pelas funções do cargo para o qual fora eleito, isto é, de 1º secretário.

No último ano da presidência, 1858, nota-se a ausência de Nazaré, que começa a ser substituído por Francisco de Castro Freire na presidência das sessões. Confrontando os dados relativos à sua carreira parlamentar, percebemos que interrompeu na mesma altura o exercício da atividade política, por motivo de doença.

A Duarte Nazaré sucedeu Francisco de Castro Freire (1809-1884), ao que tudo indica (não há registo da eleição). Apesar de se tratar de um período bastante nebuloso, pela falta de registos conservados, o biénio 1859-1860 envolve atuações decisivas da Direção.

Francisco de Castro Freire vem da área da Matemática, onde se doutorou em 1836, ensinando na mesma Faculdade as cadeiras de Astronomia, Cálculo Integral, Geometria Descritiva, Geometria Analítica e Mecânica Racional. Torna-se diretor da mesma Faculdade em 1861-1866 e vice-reitor da Universidade de Coimbra (1875, 1880-1882). Desempenhou ainda os cargos de vogal do Conselho Superior de Instrução Pública e conselheiro do rei, nomeado comendador da Ordem de Cristo. Foi sócio do Instituto da Academia Dramática, colaborou na Crónica literária, na Revista académica, no Prisma, no Trovador etc. Para além de poeta e tradutor de Lamartine, Castro Freire destacou-se pelas seguintes publicações: Elementos de mecânica racional dos sólidos (1853), Recreações poéticas (1861) e Memória histórica da Faculdade de Matemática nos cem anos decorridos desde a reforma da Universidade em 1772 até o presente (1872).

O marco de maior significado no percurso desta Direção foi a aprovação dos Estatutos do Instituto de Coimbra, a 30 de março de 1859, com assinaturas de Francisco de Castro Freire como presidente, José Maria de Abreu como vice-presidente, António Bernardino de Meneses como 1º secretário e Albino Augusto Geraldes como 2º secretário. Tudo indica que Raimundo Venâncio Rodrigues se mantenha no posto de tesoureiro, uma vez que é ele que continua a assinar os livros de contabilidade na década de 1860. No entanto, os nomes que assinam o Regulamento Interno aprovado em sessão da Direção de 21 de novembro de 1860 diferem dos de 1859, exceto o do presidente. São eles: Adrião Forjaz como vice-presidente, José Maria Batista Calisto como diretor da 1ª Classe, José Ferreira de Macedo Pinto como diretor da 2ª Classe, António Vitorino da Mota e António da Cunha Vieira de Meireles como secretários. 

É de salientar que nesta altura entraram para o Instituto personalidades que se iriam evidenciar pelo seu dinamismo no seio desta academia, tais como Augusto Filipe Simões (13.1.1859), Filipe do Quental (17.12.1859) ou Manuel da Cruz Pereira Coutinho (4.2.1860). A Direção de Castro Freire destaca-se ainda por ter recrutado para o Instituto os primeiros sócios de origem brasileira: os literatos António Gonçalves Dias e Manuel Odorico Mendes, em 10 de dezembro de 1859.

Para além do trabalho fundamental do assentamento das bases estatutárias – que vigorariam por grande parte da existência do Instituto – a Direção de Castro Freire mandou imprimir os Estatutos e Regulamentos e fazê-los distribuir pelos sócios. Em outros vetores de atuação, procurou angariar assinantes para o jornal e desenvolver relações com o Brasil e com outras academias, portuguesas e espanholas (sessão da Direção de 14.10.1860). Castro Freire e a restante Direção aproveitaram a visita do rei D. Pedro V a Coimbra, no final de novembro de 1860, para lhe oferecerem um exemplar dos Estatutos do Instituto e solicitarem que se declarasse protetor desta academia, o que de facto se cumpriu, coroando assim o esmero desta Direção (O Instituto, 9: 260).

Muitos anos depois, Francisco de Castro Freire voltou a ser presidente do Instituto, e por longo período. Por quatro biénios, de 1877 a 1884, Francisco de Castro Freire é sucessivamente eleito presidente do Instituto, e apenas não permaneceu por inteiro o último ano porque faleceu em março de 1884. Raimundo Venâncio Rodrigues, que fora tesoureiro do Instituto desde 1857 até 1866, reentra para o mesmo lugar com Castro Freire, desde 1877 até 1879, data em que, por falecimento, é substituído pelo botânico Júlio Augusto Henriques.

Nota-se que, mais uma vez, a Direção de Castro Freire se acha envolvida na produção de normas, em concreto, o Regulamento aprovado em sessão da Direção de 18 de julho de 1877. Mais tarde, em assembleias gerais de 4 e 7 de junho de 1882, são discutidas e votadas as primeiras alterações aos Estatutos – que, recorde-se, haviam sido obra da primeira presidência de Castro Freire –, sob proposta de reforma assinada por 28 sócios, que pretendem assim remediar “as dificuldades económicas e financeiras em que esta sociedade se tem encontrado nos últimos tempos, apesar da severa administração das últimas direções” (O Instituto, 30: 251). Finalmente, a Direção de Castro Freire aprova, em 1882-1883, novas alterações ao Regulamento Interno.

Logo na tomada de posse, a 31 de dezembro de 1876, a Direção de Castro Freire é confrontada com uma dívida na Imprensa da Universidade, decorrente da impressão d’O Instituto, para a qual se tornara insuficiente o subsídio do Estado. Com efeito, alguns meses depois era recebido um ofício do administrador da Imprensa da Universidade notificando uma dívida de 347$370 réis, derivada da impressão do jornal e outros folhetos para o Instituto (Livro de Atas da Direção, 23.6.1877). Tendo sido enviado pela anterior gerência um pedido de aumento da subvenção, o processo não estava concluído, aguardando-se uma resposta do Governo. Por isso, por sugestão de José Epifânio Marques, o presidente solicitou ao reitor da Universidade para que este reforçasse as pretensões do Instituto.

Apesar das dificuldades, a Direção aprovou a atribuição de uma gratificação ao compositor e ao impressor do jornal, no valor de 1500 réis a cada um; e autorizou ainda a despesa da cópia do catálogo da biblioteca. Em termos científicos, a Direção de Castro Freire tomou medidas para incentivar a realização de conferências, que efetivamente se intensificaram neste período. Por um lado, incitou os diretores das classes para que ativassem a vida literária do Instituto por meio de conferências e palestras (Livro de Atas da Direção, 11.1.1879); por outro, desbloqueou os meios necessários à preparação da sala de conferências. Na reunião de 30 de janeiro de 1881, o presidente voltava a insistir para que prosseguissem as conferências, pedindo aos colegas da Direção que contribuíssem para este propósito.

A 10 de abril de 1880, a administração da Imprensa da Universidade volta a alertar para o pagamento em atraso, mas desta vez fixando um prazo de 30 dias. A resposta ficou a cargo do 1º secretário Assis Teixeira e do diretor do gabinete Epifânio Marques, os quais elaboraram uma representação dirigida ao Governo, expondo as razões para se considerar extinta a dívida reclamada pela Imprensa. Por intermédio do sócio José Joaquim Fernandes Vaz, presidente da câmara eletiva, a representação foi apresentada ao Ministro do Reino. A resposta do Ministério concretizou-se através da portaria de 31 de maio de 1880 emanada da Repartição de Contabilidade, que não perdoa a dívida, apenas permite que seja paga em prestações, em vista da qual se decidiu (sessão da Direção de 6.11.1880) efetuar o pagamento em pequenas prestações, de acordo com as disponibilidades do cofre. A diretiva caiu, portanto, como um duro golpe nas finanças do Instituto.

Embora reeleito em 1883, Francisco de Castro Freire já pouco exerce o cargo de presidente no biénio 1883-1884, uma vez que, ainda durante o primeiro ano, entra o vice-presidente António dos Santos Pereira Jardim a dirigir as sessões. Castro Freire morre em março de 1884, Pereira Jardim terá assumido a presidência até ao final desse ano. Trata-se de mais um lente de Direito, especificamente ligado às áreas de Finanças e Direito Civil. António dos Santos Pereira Jardim (1821-1888) havia já sido tesoureiro da Direção e diretor da Classe de Ciências Morais e Sociais.

Entre o primeiro e o segundo mandato de Castro Freire, outras quatro personalidades dirigiram o Instituto (descontando o já citado Adrião Forjaz). Jerónimo José de Melo (1794-1867) é eleito presidente para o biénio 1863-1864, em sessão de 2 de janeiro de 1863. É o primeiro presidente da área da Medicina. Com efeito, Jerónimo José de Melo concluiu a formatura em Medicina na Universidade de Coimbra em 1818 e, desde novembro de 1834, era regente da cadeira de Matéria Médica, recebendo no mesmo ano o grau de doutor. Frequentou a Academia Real de Medicina em Paris e a Royal Institution em Londres, bem como a Universidade de Londres (Fisiologia, Anatomia). Regressou a Portugal em 1839, nomeado nesse ano lente catedrático de Fisiologia. Preparou um compêndio, adotado para o ensino na Universidade e nas Escolas Médico-Cirúrgicas. Foi diretor da Faculdade de Medicina (1864-1867), conselheiro da rainha (1848), deputado (1840-1850, 1858-1859), membro da Junta do Distrito de Coimbra, vogal do Conselho Superior de Instrução Pública (1844-1859), presidente da Câmara Municipal de Coimbra (1839), comendador da Ordem de Cristo (1844). Era também sócio do Instituto da Academia Dramática.

Será reeleito depois, a 31 de dezembro de 1864, para o biénio 1865-1866. Não restam, porém, muitos elementos relativos a estes anos de 1863 a 1866, a não ser a informação de sócios eleitos e as contas da gerência. Entraram para o grémio do Instituto os cientistas britânicos Edward Sabine, Balfour Stewart e David Brewester (18.4.1863), Juan Creus y Manso, pioneiro na cirurgia espanhola (18.12.1863), e, entre os portugueses, o poeta José António Monteiro Teixeira, o historiador Simão José da Luz Soriano (31.12.1864), o presidente da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa José Eduardo de Magalhães Coutinho (18.12.1863), ou ainda o filósofo José Maria da Cunha Seixas (23.6.1863).

O horizonte manteve-se nebuloso, pois não se encontram registos da data de eleição e da composição da Direção que se seguiu. Sabemos, porém, que foi António Augusto da Costa Simões o presidente em exercício em 1867-1868, um período muito particular da história do Instituto. É que, apesar de Costa Simões ser um homem de ciência (Medicina) e prestador de grandes serviços à cidade de Coimbra, a atividade do Instituto durante a sua presidência afastou-se dos seus méritos. Nestes anos, o Instituto transformou-se numa autêntica casa de jogos. Não é fácil destrinçar os motivos que o encaminharam para este fim. As pistas de que dispomos são o fraco dinamismo da Direção anterior, descuidando a missão científica, e as declarações de que um grupo de sócios pretendia tornar a casa num espaço de recreio e divertimento. Não obstante, Costa Simões revelou-se uma figura chave para a obtenção de uma nova sede, que se concretizou na sua presidência e sob os seus auspícios, com a portaria do Ministério do Reino de 5 de junho de 1868.

Na sua essencial Bibliografia da Imprensa da Universidade de Coimbra, A. M. Seabra de Albuquerque descreve assim o processo: “Pelo decurso do tempo o Instituto foi reformado: à sociedade científica juntaram-lhe uma secção recreativa – triste enxerto em árvore tão frondosa, que, não podendo receber bastante seiva, definhou, morreu e por si mesmo caiu. Mas, como para estas duas sociedades eram acanhadas as salas, e pouca comodidade oferecia o colégio de S. Paulo, tomou pois a sociedade a resolução, por iniciativa do seu presidente, o sr. dr. António Augusto da Costa Simões, então deputado em cortes, de pedir ao Governo de Sua Majestade o colégio dos Paulistas” (O Instituto, 19: 46). 

Os livros de contabilidade apresentam despesas que atestam a introdução de jogos e lazer no Instituto a partir de fevereiro de 1867. Uma vez que Costa Simões se refere a essa circunstância afetando a sua presidência, afigura-se mais provável que date de 1867 o início da mesma. Os documentos referidos trazem mais uma achega para a determinação dos nomes que constituem esta Direção: Manuel de Oliveira Chaves e Castro e Carlos Maria Gomes Machado assinam como secretários. Foi possível ainda averiguar o nome de Francisco Cabral Metelo e Nápoles como diretor da secção recreativa, segundo notícia do Jornal de Coimbra de 30 de janeiro de 1869.

Costa Simões, de facto, lamentaria mais tarde que a sua passagem pelo Instituto ficasse associada a uma orientação menos edificante. No discurso que proferiu na inauguração do Museu de Antiguidades, em 1896, referiu-se assim à sua presidência:

Quanto a reformas durante a minha presidência no Instituto, desejei-as, é verdade, e pugnei por elas; mas não pude consegui-las a tempo, como eu as desejava. A corrente das influências nessa época era no sentido de se organizar uma secção recreativa no Instituto. Depois de ter combatido esta ideia, condescendi em aceitá-la, sob expresso compromisso duma profunda reforma da nossa missão principal: com o melhoramento e amplitude da nossa revista; com a leitura de instrutivas memórias originais; com palestras literárias entre os sócios; com conferências e discussões públicas de assuntos mais importantes; com o devido aperfeiçoamento das disposições da nossa biblioteca; e finalmente com a precisa ampliação, por trocas e por outros meios, do nosso gabinete de leitura. Infelizmente porém a parte recreativa – de jogos de vaza, bilhar, etc., e concomitante conforto dum serviço de serões familiares – ia absorvendo pouco a pouco toda a atividade dos sócios; e perdida a esperança de realizar as minhas aspirações, lavrei o meu protesto com o abandono da presidência. E foi este o único facto da minha passagem por esse cargo de que resultou algum proveito, se foi ele o que motivou a seguinte e próxima reconsideração, desistindo-se da secção recreativa, e voltando os trabalhos do Instituto ao bom caminho, donde nunca deveriam ter-se desviado (O Instituto, 43: 270-271).

Na verdade, este homem deixou o seu nome associado a vários momentos importantes, quer da Universidade quer do município que a acolhe: administrador dos Hospitais da Universidade (1870-1885), presidente da Câmara Municipal de Coimbra (1856-1857), apresentou o primeiro projeto de abastecimento e canalização de água a Coimbra; foi também reitor da Universidade (1892-1898). Fez viagens científicas na Europa, nomeadamente, por portaria de 18.8.1864 foi incumbido de uma missão científica, visitando Faculdades e Escolas de Medicina de vários países entre 1864 e 1866; e novamente em 1878 e em 1891. Fundou a primeira Escola de Enfermagem portuguesa (1881 – Escola dos Enfermeiros de Coimbra). Publicou, entre outras, História do Mosteiro da Vacariça e da Cerca do Buçaco oferecida ao Instituto de Coimbra (1855), Notícia dos banhos de Luso: apontamentos sobre a história, melhoramentos e administração destes banhos (1859), Elementos de fisiologia humana com histologia correspondente (1864), O ensino prático na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (1880).

O rol das despesas de fevereiro de 1867 é suficiente para conceber o tipo de atividades que se praticavam no Instituto por estes anos (Livro da receita e despesa do Instituto de Coimbra 1861- 1874):

Renda das casas da rua do Cosme 48$000
Conserto e limpeza das ditas 15$255
Despesa com a armação e conserto do bilhar 11$915
1 dúzia de cadeiras 13$200
2 jogos de dominó 2$300
4 cadeiras e canapé de verga 11$300
9 campainhas 4$800
1 escrivaninha 1$080
2 pastas para escrever $960
1 escova para mesa $720
5 escarradeiras de lata 2$000
6 ditas brancas de louça 4$320
Ao marceneiro por conta da mobília 62$700
1 dúzia de xícaras brancas e 2 açucareiras(?) 1$000
6 copos de cerveja 2$000
2 açucareiras de cristal 2$000
3 dúzias e meia de xícaras 8$750
1 colher de prata de açúcar 1$370
6 copos de água 1$800
1 jogo de bandejas 11$720
2 dúzias de botijas 2$880
Serviço de lata para cozinha 3$330
Pano cru para panos de cozinha $480
4 capachos a 100 $400
1 jogo de xadrez 2$800
1 jogo de casse tête 1$000
1 jogo de voltarete 4$000
1 jogo de assalto $800
1 moldura $400
1 jogo de damas 1$800
6 fosforeiras a 200 1$200
6 cinzeiros $680
1 bacia $130
Gratificação ao arrendatário 2$000
Despesa com a fábrica do gás 22$600
Gás consumido neste mês 5$800
Ordenado ao guarda 10$500
Ordenado ao contínuo 7$900

Por sua vez, os elementos de receita constantes do livro mencionado permitem-nos conjeturar a data em que cessou este tipo de atividades lúdicas no Instituto. A partir de julho de 1871 deixa de aparecer o saldo do diretor mensal, um cargo que surgiu associado à gestão da casa de jogos, e em dezembro do mesmo ano regista-se a receita da venda do bilhar, 160$000.

José Teixeira de Queirós Almeida de Morais Sarmento (1816-1879) sucedeu a Costa Simões, eleito a 23 de janeiro de 1869, juntamente com Joaquim José Pais da Silva Júnior (vice-presidente), António Fortunato da Cunha Vieira de Meireles (1º secretário), Júlio César de Sande Sacadura Bote (2º secretário), Augusto Carneiro (1º vice-secretário), António João de França Bettencourt (2º vice-secretário) e Francisco António Alves (tesoureiro). Apesar de não haver registo de eleições, tudo leva a crer que o mesmo presidente tenha sido reeleito, governando então de 1869 a 1872. Havia já exercido os cargos de secretário e vice-diretor da Classe de Ciências Físico-Matemáticas e era, profissionalmente, lente de Mecânica Racional na Universidade. Em 1870-1874 desempenhou funções de deputado, e era também fidalgo da casa real e comendador da Ordem de Cristo.

O que se sabe sobre este período da presidência de José Teixeira de Queirós pouco ultrapassa as funções de rotina e a eleição de sócios. Percebe-se, nos livros de receita e despesa, que ainda funcionavam os jogos, pelo menos o bilhar, mas a atividade foi reduzindo, até desaparecerem as referências deste cariz, o que vem situar o fim daquela fase recreativa no período da Direção de José Teixeira de Queirós, tal como havia testemunhado Costa Simões. Em contrapartida, retoma-se em 1871 a publicação da revista, interrompida desde 1867.

Quando é eleito Joaquim José Pais da Silva Júnior (antigo vice-presidente), que apenas governou no biénio 1873-1874, um novo impulso é transmitido à vida do Instituto. Aumenta o número de sócios eleitos e, por outro lado, este presidente incentiva as classes a reavivarem-se. Atravessa a presidência de Pais da Silva Júnior um dos principais momentos da história do Instituto de Coimbra, a saber, a criação da Secção de Arqueologia e a organização do Museu Arqueológico, que encontraram bom acolhimento por parte da Direção. Começam nesta altura as conferências com um caráter sistemático, a partir da intervenção de Fernando de Melo em 1873.

Junto com o presidente, encontravam-se a formar esta Direção o vice-presidente João José de Mendonça Cortês, o 1º secretário Júlio César de Sande Sacadura Bote, o 2º secretário Augusto Filipe Simões, o 1º vice-secretário Augusto Mendes Simões de Castro, o 2º vice-secretário Luís Guedes Coutinho Garrido e o tesoureiro Francisco de Paula Santa Clara.

Joaquim José Pais da Silva Júnior (1832-1907) era doutor (1854) e lente (1855) da Faculdade de Direito (Processos Civis, Processo Comercial e Criminal); foi membro da comissão de reforma da administração dos campos do Mondego (1866), da comissão para a extinção dos pântanos e arrozais no distrito de Coimbra (1867) e de outras comissões, presidente da Sociedade Filantrópico-Académica de Coimbra e conselheiro (1880). Exerceu funções de redator da Revista de legislação e jurisprudência.

Sucede-lhe João José de Mendonça Cortês (1836-1912), igualmente apenas por um biénio, 1875-1876. É mais um lente de Direito, da cadeira de Finanças, doutorado em 1861. Também deputado, chegou a Ministro da Justiça em 1869, par do reino e ministro de Estado honorário; em 1876, foi encarregado de reorganizar os arquivos do Tribunal de Contas, mais tarde tornou-se juiz conselheiro da mesma instituição (1879); dedicou-se ainda aos estudos matemáticos e mecânicos, realizando algumas invenções práticas, nomeadamente no âmbito da aplicação da eletricidade. O vice-presidente desta Direção era Luís da Costa e Almeida, os secretários Manuel de Jesus Lino, José Epifânio Marques, Augusto Mendes Simões de Castro e António de Assis Teixeira de Magalhães, o tesoureiro António dos Santos Pereira Jardim. 

Uma nota distintiva deste presidente é a preocupação com o bom funcionamento da biblioteca, tendo procedido ele próprio à catalogação das suas espécies. Para mais, a biblioteca do Instituto viu-se grandemente incrementada neste período, com ofertas e permutas. Outra importante iniciativa desta Direção foi a solicitação ao Governo, apoiada pelo reitor da Universidade, de um aumento de subsídio para a composição e impressão d’O Instituto (inalterado desde 1853), argumentando que os trabalhos das classes, a que se juntaram os da Secção de Arqueologia, já não dispunham de espaço suficiente na revista para todos. Para além disso, precisavam de aumentar as dimensões do jornal para poderem cumprir o projeto de publicar valiosos inéditos da Biblioteca da Universidade (Livro de Atas da Direção do Instituto, sessão de 25 de maio de 1876).

Segue-se o longo período da Direção de Francisco de Castro Freire, após o que lhe sucede, para apenas um mandato, em 1885-1886, o lente da Faculdade de Filosofia António dos Santos Viegas (1837-1914). Introduziu novas teorias e processos no ensino da Física, foi reitor da Universidade de Coimbra (1890-1892, 1906-1907), diretor do Observatório Meteorológico e Magnético da mesma Universidade (1880-1914). Encarregue por portaria de 24.10.1866, em 1866-1867 fez viagens científicas a Madrid e a Paris para estudar os processos da Física Experimental, com vista à reorganização do ensino das ciências e sua aplicação na indústria; por portaria de 1.8.1870 foi nomeado para visitar observatórios astronómicos com o objetivo de colher elementos para a observação do eclipse solar de 22 de dezembro de 1870; em 1881 representou Portugal no Congresso e Exposição de Eletricidade em Paris, sendo nessa altura nomeado cavaleiro da Legião de Honra pelo governo francês.

Por motivos não explicitados, apenas a 12 de dezembro de 1885 se dá a primeira assembleia geral presidida por António dos Santos Viegas. Nela se elegeram sócios os exploradores Brito Capelo e Roberto Ivens, com o título de honorários, por aclamação, proposta por Fernando de Melo. No que respeita a reuniões da Direção, por sua vez, a presença de António dos Santos Viegas foi assídua. Destaca-se como o período de contratação e distribuição das novas insígnias do Instituto, medalha e colar, para o que contava com correspondentes em Lisboa e Porto.

O eminente botânico Júlio Augusto Henriques ocupou o lugar da presidência do Instituto de Coimbra por dois biénios, de 1887 a 1890. Apesar de se ter formado primeiro em Direito (1859), doutorou-se depois em Filosofia (1865), com a tese “As espécies são mutáveis?”. Tornou-se lente de Botânica na Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, diretor do Jardim Botânico (1874), do Herbário e Biblioteca do Instituto Botânico (1918-1922), naturalista do Museu, Laboratório e Jardim Botânicos. Foi o fundador da Sociedade Broteriana (1880), juntamente com o Boletim da mesma sociedade. Alguns dos títulos que publicou são Agricultura colonial: meios de a fazer progredir (1901), Esboço da flora da Bacia do Mondego (1913), A Ilha de S. Tomé sob o ponto de vista histórico-natural e agrícola (1917).

A presidência de Júlio Augusto Henriques ficou marcada pela realização de obras no edifício do Colégio dos Paulistas, com vista a uma conveniente instalação do Museu de Arqueologia e do gabinete de leitura. Com efeito, as medidas tomadas neste período denotam uma maior atenção da Direção de Júlio Augusto Henriques às questões arqueológicas. Por exemplo, em dezembro de 1889, a Direção resolveu pedir autorização para extrair os capitéis do antigo Convento de Celas que haviam sido cedidos ao Instituto, porque o conjunto ameaçava desmoronar-se. Mais uma vez, a Direção solicita ao Governo um aumento do subsídio para a impressão d’O Instituto, pretendendo além disso autorização para reimprimir gratuitamente o volume 10, que se achava esgotado e obstava assim à venda de coleções completas (Livro de Atas da Direção, 14.12.1889).

Atravessou esta Direção o conflito anglo-português culminante no Ultimato de 1890, o que motivou uma das escassas ocasiões em que o Instituto se desviou da conceção veiculada pelo seu fundador, Adrião Forjaz, de não se imiscuir em assuntos políticos. Desta vez, porém, o caso agitou de tal forma os vários setores da nação que o próprio Instituto não ficou alheio. Não só aderiu ao protesto patriótico da Sociedade de Geografia de Lisboa (sessão da Direção de 19.2.1890), mas também nomeou em assembleia geral (8.2.1890) uma comissão encarregada de redigir, em nome do Instituto, um protesto contra o procedimento da Inglaterra com Portugal no dia 11 de janeiro de 1890, comissão essa formada por Manuel de Azevedo Araújo e Gama, Assis Teixeira (proponente), Filomeno da Câmara Melo Cabral, José Joaquim Pereira Falcão e Júlio Augusto Henriques.

Entrou de seguida José Pereira de Paiva Pita (1840-1922), que no biénio anterior fora vice-presidente. Formado em Teologia, doutor em Direito (1870) e lente de Direito Comercial e Civil; foi juiz, secretário da Faculdade de Direito (1877), reitor do Colégio dos Órfãos de São Caetano de Coimbra, professor de Teologia no Seminário da mesma cidade, governador do Bispado de Elvas (1873) e provedor da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra (1903-1905). Publicou Questões transitórias do Direito Civil português (1870) e Breve memória do Seminário Diocesano de Elvas (1878).

Este presidente viu-se confrontado com o “estado lamentável” em que se encontravam as finanças do Instituto: o défice era considerável, os empregados não recebiam havia três meses, e estavam 90 mensalidades de sócios em dívida. Por isso, foi necessário tomar medidas, que incluíram até um contributo monetário de cada um dos membros da Direção. Foi então resolvido que:

1º Cada um dos membros da direção empreste ao Instituto 2.500 réis, emitindo-se para isso 8 a 10 obrigações que depois serão sorteadas e satisfeitas uma em cada mês;
2º Aos sócios remissos aplique-se a disposição do art. 63 nº I do Regulamento, para o que desde já o 2º secretário expedirá os respetivos ofícios, avisando urbanamente cada um deles;
3º Organize-se uma lista completa dos sócios existentes, depois de excluído algum que se recuse ao pagamento, e publique-se esta lista no jornal do Instituto, sendo depois anualmente publicadas as modificações da mesma, para deste modo bem se apurar o número dos sócios atuais;
4º Observe-se temporariamente, até nova deliberação, o seguinte horário para abrir e fechar o edifício do Instituto: abertura às 9h, encerramento às 18h, exceto nas vésperas de feriado em que se conservará aberto até às 20h;
5º Contando que vai sair do serviço do Instituto o empregado Guilherme José, não será provido o seu lugar enquanto não melhorarem as condições financeiras, sendo outro criado encarregue da guarda da casa, de acender as luzes e restantes serviços internos, fazendo-se a cobrança por pessoa [estranha] com quem se ajuste uma remuneração por este trabalho (cf. Livro de Atas da Direção, 25.10.1891).

O presidente propôs ainda uma outra medida destinada a equilibrar as contas: em reunião da Direção a 13 de dezembro de 1891, lançou a ideia de se colocarem anúncios na revista, estando em mira a negociação com uma casa espanhola. Passado um ano, porém, as negociações não chegaram a avançar (Livro de Atas da Direção, 14.12.1892). Na coleção d’O Instituto continuava incompleto o volume 10, o que obstava à sua venda, faltando, para mais, um cobrador e distribuidor da revista. 

Entretanto, por falecimento dos dirigentes, a Secção de Arqueologia e o Museu estavam “em grande abandono” (ibidem), decidindo-se nomear interinamente Júlio Augusto Henriques para conservador do museu e para tomar as medidas necessárias. Apesar das dificuldades, não deixou esta Direção de renovar as assinaturas de periódicos estrangeiros.

Durante estes anos, revelou-se muito empenhado o sócio efetivo e diretor da Classe de Ciências Físico-Matemáticas José Epifânio Marques (1831-1908), lente de Medicina e clínico nos hospitais da Universidade. Foi também diretor do gabinete de leitura, tesoureiro da Secção de Arqueologia e secretário da Direção. Não surpreende, pois, que tenha sido eleito presidente para o biénio 1893-1894, e depois reeleito para 1895-1896. Mantiveram-se nestes dois biénios o vice-presidente, António de Assis Teixeira de Magalhães, o 1º secretário, António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, e o 2º secretário, Francisco Miranda da Costa Lobo.

A primeira intervenção de José Epifânio Marques, na sessão de tomada de posse, a 15 de janeiro de 1893, foi para solicitar a coadjuvação de todos na direção e administração do Instituto. Prosseguiu nas medidas destinadas ao saneamento financeiro e a reabilitar o Museu. Por já estar reimpresso o volume 10, abriu-se a possibilidade de organizar coleções completas d’O Instituto. Mais uma vez, resolveu-se solicitar ao Governo um aumento do subsídio para a sua publicação, com o propósito de a acrescentar em cada número com uma secção de arqueologia e inéditos. A representação, entregue em julho de 1894 por intermédio do conselheiro Bernardino Machado, pedia a elevação do subsídio anual de 150$000 para 200$000. 

Para além das dificuldades financeiras já descritas, ainda tiveram que negociar com a herdeira do tesoureiro Abílio Augusto da Fonseca Pinto, que faleceu em exercício em 1893, a restituição do saldo pertencente ao Instituto e que estava em poder de seu pai. Outra medida colocada em prática foi o envio a todos os sócios correspondentes de um convite para assinarem O Instituto, por um preço de 2$000 réis.

Por motivos alheios à sua atuação, Epifânio Marques viu-se forçado a apresentar a demissão da Direção eleita em 26 de janeiro de 1895, na assembleia geral de 24 de maio de 1896. Era o culminar da polémica levantada dois meses antes em torno da ortografia adotada na revista, e que envolveu, naturalmente, a demissão da comissão de redação[45]. O voto de louvor que a assembleia endereçou à Direção demissionária demonstra que os seus serviços foram apreciados e que não estavam em causa as suas qualidades de gestão mas apenas uma divergência de opiniões.

Seja como for, o episódio deu azo a que subisse ao lugar de presidente da Direção do Instituto uma das mais emblemáticas figuras que naquela cadeira se sentaram, o pedagogo e político Bernardino Machado. O cunho pessoal deste homem ficou bem marcado pelos largos anos que presidiu ao Instituto, desde 1896 até 1908. Doutor em Filosofia (1876) e professor catedrático da mesma Faculdade em 1879, havia já sido Ministro das Obras Públicas (em 1893-1894) quando entrou para a presidência do Instituto. Pedirá mais tarde a exoneração de catedrático da Universidade de Coimbra, em solidariedade com os estudantes da greve académica de 1907. Integrou o Governo Provisório da 1ª República, em 1910, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, foi presidente do Ministério em 1914 e em 1921, Presidente da República Portuguesa em 1915-1917 e em 1925-1926. 

Ressalta de imediato, a partir da assembleia geral de 4 de julho de 1896, mês e meio depois de ter sido eleito, a grande quantidade de sócios admitidos, quer honorários, quer efetivos, quer correspondentes. Entre eles, pela primeira vez, e logo na primeira nomeação de sócios, mulheres que acedem ao grémio do Instituto. São elas Maria Amália Vaz de Carvalho e Carolina Michaëlis de Vasconcelos (honorárias), Amélia Janny e Domitila Hormizinda Miranda de Carvalho (efetivas). Há que registar os obreiros que, juntamente com Bernardino Machado, operaram esta modificação. A Direção de 1896 completava-se com Manuel de Azevedo Araújo e Gama como vice-presidente, Afonso Costa como 1º secretário, Basílio Augusto Soares da Costa Freire como 2º secretário, Manuel Joaquim Teixeira como 1º vice-secretário, Luís dos Santos Viegas como 2º vice-secretário, Joaquim de Mariz era o tesoureiro.

Os interesses científicos do presidente refletiram-se nas atividades do Instituto e no rumo dado à revista, no sentido de privilegiar questões pedagógicas e antropológicas. Por exemplo, na sessão de 28 de janeiro de 1899 ouviu-se uma palestra sobre o plano geral da reforma do ensino. A organização dos cursos populares é o expoente máximo da transposição dos ideais propugnados pelo presidente para a atividade do Instituto. Outro sinal foi o do íntimo relacionamento do Instituto com a Sociedade de Antropologia, constituída em grande parte por sócios do Instituto, e dispondo de uma sala para reuniões por este cedida.

Logo após a sua eleição, a Direção presidida por Bernardino Machado decidiu promover a reconstituição das classes, que estavam há muito estagnadas. A Secção de Arqueologia, em particular, vive na Direção de Bernardino Machado o seu período áureo. Logo em junho de 1896, a Direção do Instituto concede-lhe um subsídio mensal de 5 mil réis, para serviços de limpeza, conservação e arrumo do Museu. Em relação ao restante edifício (salas, biblioteca, livros, móveis, etc.), foram também realizadas reformas materiais e contratou-se um seguro dos livros e mobília. As despesas de reinstalação provocaram um défice de 60$000 nas contas da Secção de Arqueologia, em 1899, em vista do que a Direção do Instituto avançou com 10$000 réis e o presidente ofereceu os restantes 50$000 réis.

Acentuou-se, com a Direção de Bernardino Machado, a união com a comunidade académica, manifestada em saraus oferecidos pelo Instituto aos alunos laureados da Universidade. Mas também se alargou consideravelmente o relacionamento com o exterior, através da eleição de grande número de sócios, incluindo correspondentes estrangeiros, com especial destaque para figuras da área do ensino e da pedagogia, não só de Portugal mas também de Espanha.

Em assembleia geral de 19 de dezembro de 1908, António de Assis Teixeira de Magalhães (1850-1914) é eleito presidente para o biénio 1909-1910. Sócio efetivo desde 1873, Assis Teixeira revelara-se bastante interventivo na atividade do Instituto, tanto nas classes como na Direção, onde já tinha sido secretário e vice-presidente. Havia recebido o título de Conde de Felgueiras em 1907, era doutor e lente da Faculdade de Direito, na especialidade de Finanças, destacando-se também como redator da Revista de legislação e jurisprudência

A primeira preocupação da Direção de Assis Teixeira foi tomar conhecimento do estado financeiro da sociedade e implementar medidas de poupança, que incidiram sobretudo na revista. Assim, aprovou a redução da tiragem d’O Instituto de 900 para 750 exemplares, porque destes ainda sobravam mais de 50 para o arquivo. Nesta mesma sessão de 18 de fevereiro de 1909, resolveu suspender de imediato o envio da revista aos sócios que não pagassem as quotas. Em contrapartida, decretou um aumento do salário do guarda e do amanuense que trabalhavam para o Instituto.

Por outro lado, alterou a política de eleição de sócios que vinha sendo seguida na Direção anterior. Ou seja, mediante proposta do presidente, decidiu-se que dali em diante não se dispensaria nenhuma das formalidades exigidas pelos Estatutos. Em particular, no caso de admissão motivada por diplomas académicos, restringiu-se o critério de aceitação aos candidatos que tivessem obtido diplomas de classificação em dois anos do curso segundo o regime antigo, ou em seis cadeiras segundo o regime atual (Livro de Atas da Direção, 18.2.1909). Esta Direção realizou ainda melhoramentos nos espaços da sede, apoiou o Museu de Antiguidades e promoveu conferências, mas logo no biénio seguinte sai eleito um novo presidente, também ele apenas por dois anos.

O lente de Medicina Filomeno da Câmara Melo Cabral liderou a Direção de 1911-1912, acompanhado de Guilherme Alves Moreira como vice-presidente, José Alberto dos Reis como 1º secretário, Luís dos Santos Viegas como 2º secretário, José Lobo de Ávila Lima como 1º vice-secretário, Manuel Joaquim Teixeira como 2º vice-secretário e Joaquim de Mariz como tesoureiro.

Filomeno da Câmara Melo Cabral era doutor em Medicina (1870), lente de Histologia, Fisiologia Geral e Anatomia, diretor do Gabinete de Histologia e Fisiologia Experimental (1882-1911). Foi médico e diretor do hospital de Vale das Furnas, Açores (1872), e mais tarde administrador dos hospitais da Universidade de Coimbra (1911-1915), encarregado de várias missões científicas (em 1885 viajou a Espanha para estudar a epidemia de cólera) e provedor da Misericórdia de Coimbra (1886-1888). Após a passagem pelo Instituto chegou ao posto de reitor da Universidade de Coimbra (1919-1921).

Para além do facto de se ter promovido a eleição de todos os cargos das classes (o que nem sempre acontecia) e da admissão de sócios, dois vetores sobressaem desta Direção. O mais original traduziu-se na cedência da coleção do Museu de Antiguidades do Instituto ao novo Museu Machado de Castro, decisão tomada por solicitação do Conselho de Arte e Arqueologia da 2ª circunscrição do país, em reunião de 8 de agosto de 1912. O outro tem a ver com o problema que se arrastava da dívida à Imprensa da Universidade, causada pelo facto de o subsídio do Governo não ser suficiente para cobrir as despesas de edição d’O Instituto. Desta vez, a Direção seguiu a sugestão comunicada pela administração da Imprensa da Universidade no sentido de se reduzir uma folha de impressão em pelo menos 6 dos 12 números anuais da revista (Livro de Atas da Direção, 22.1.1912).

De seguida foi eleito o mais marcante presidente da história do Instituto de Coimbra, Francisco Miranda da Costa Lobo. Assumiu a presidência a 23 de janeiro de 1913 e nela se manteve até morrer, em 1945. Passou mais de 32 anos na Direção do Instituto, e não se pode dizer, de forma nenhuma, que tenha sido um período estanque.

Francisco Miranda da Costa Lobo era doutor em Matemática (1885) e professor da mesma Faculdade (1893); astrónomo, diretor do Observatório Astronómico e depois da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra (1930); fundador (1917) e presidente da Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências. Foi ainda governador civil de Coimbra (1889) e deputado pelo partido progressista (1905, 1906, 1908). Fundou e dirigiu a Gazeta nacional (1891-1894) e publicou, entre outras, Resolução das equações indeterminadas (1885), Les nouveaux instruments spectrographiques de l'Observatoire astronomique de l'Université de Coimbra (1887), Atmosferas e temperaturas astrais: novas bases para física geral (1916), A ação marítima dos portugueses (1929). Enquanto diretor do Observatório Astronómico, a ele se deve a instalação do espectro-heliógrafo, instrumento adaptado às observações solares, que permitiu a troca de informações com outros observatórios europeus, e a fundação dos Anais do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra.

Com este presidente, o Instituto entra numa fase de expansão, com o envolvimento em diversas frentes, com um funcionamento pleno, consolidando o seu estatuto de academia científica e literária, que agora não apenas se afirmava internamente mas até a nível internacional. Também é certo que muita desta projeção que o Instituto adquiriu com Costa Lobo ficou a dever-se à interligação com a Universidade, agilizada pelos cargos que o presidente aí desempenhou.

Na tomada de posse do segundo biénio (25 de abril de 1915), a Direção avançou “um programa de realização segura e útil ao prestígio do Instituto, sendo seus pontos fundamentais as conferências científicas por sócios nacionais e estrangeiros e as comunicações científicas a inserir na revista”. Para além disto, o 1º secretário, Carneiro Pacheco, sugeriu que se desse “a máxima publicidade a todos os atos que possam interessar a vida científica do Instituto, quer na revista quer pela imprensa diária” (Livro de Atas da Direção, sessão de 25 de abril de 1915).

Um outro aspeto desta presidência tem a ver com as ligações à política, que nem sempre se configuraram tão inofensivas como era tradição. Por vezes, surgiam associadas a acontecimentos de grande impacto, como quando Costa Lobo propôs que fossem nomeados sócios honorários os chefes de Estado e as figuras que se notabilizaram entre os aliados, no final da 1ª Grande Guerra Mundial (assembleia geral de 28.11.1918). Para além disso, denotam alguns artigos de Costa Lobo na revista as suas posições nacionalistas e imperialistas.

Sem embargo, Costa Lobo transformou-se num presidente idolatrado, que a assembleia de sócios quis proclamar honorário logo em 1921, ainda em pleno exercício, resolvendo por acréscimo colocar o seu retrato na sede, em homenagem e agradecimento pelos serviços prestados ao Instituto (assembleia geral de 25.7.1921). Nem por isso a Direção de Costa Lobo abrandou o passo. Em dezembro do mesmo ano, dava conta à assembleia dos esforços empregues para melhorar as condições financeiras da academia. Para este efeito, decidiu atualizar os valores das quotas dos sócios, passando a dos efetivos a 1 escudo mensal e a dos correspondentes a 10 escudos anuais. Foi o secretário Diogo Pacheco de Amorim quem chamou a atenção para esta urgência, em vista da progressiva desvalorização da moeda (assembleia geral de 4.1.1923).

Segundo Anselmo Ferraz de Carvalho, a presidência de Costa Lobo “conseguiu romper o isolamento a que o Instituto ia sendo arrastado, trazendo para o seu grémio nomes consagrados de Portugal e do estrangeiro, dominou obstáculos financeiros que pareciam irremovíveis e promoveu, com o maior êxito, numerosas conferências” (O Instituto, 105: III). A lista de sócios admitidos por intermédio desta Direção é, em termos comparativos, das mais extensas na história do Instituto, sobressaindo nela a forte componente estrangeira. Muitas destas nomeações resultam dos contactos reunidos por Costa Lobo nos diversos eventos em que participou, conseguindo inclusivamente trazer alguns colegas da comunidade científica internacional a Coimbra, para realizarem conferências no Instituto. Foram os casos do astrónomo Lucien d'Azambuja, do Observatório de Meudon, de Gabriel Koenigs, do Instituto de França, ou do matemático Rudolf Fueter.

É um aspeto distintivo desta presidência a menção repartida por várias sessões de assembleia geral da leitura de correspondência enviada por diversas sociedades científicas do estrangeiro. Por um lado, em França criou-se nesta época um núcleo, uma espécie de delegação do Instituto, integrando sócios daquela nação, muitos do Instituto de França, presidindo-a Alfred Baudrillart. Por outro, é declarada a preferência de Costa Lobo pelas relações luso-britânicas, propondo inclusivamente, em assembleia geral de 20 de outubro de 1926, que o Instituto promovesse, por meio de conferências e da revista, a difusão da cultura inglesa em Portugal, o que realmente se concretizou.

Para o final da presidência de Costa Lobo, tomou forma mais uma manifestação do dinamismo que esta Direção imprimiu no percurso da academia. Foi resolvido, em assembleia geral de 2 de janeiro de 1940, criar alguns serviços especiais, associados principalmente à redação da revista, merecendo realce as secções “Publicações e sumário do movimento científico mundial”, “Informações sobre assuntos económicos e científicos”, “Propaganda” e “Movimento legislativo científico e literário”.

O reconhecimento do valor desta ação manifestava-se no apoio material que sucessivos governos lhe concediam, culminando no Decreto do Governo de 6 de fevereiro de 1929, que declara o Instituto de Coimbra uma instituição de utilidade pública. Decorrente da proposta dos Ministros das Finanças e da Instrução Pública, respetivamente, António de Oliveira Salazar e Gustavo Cordeiro Ramos, o decreto fundamentava-se no pressuposto de que o Instituto prestava relevantes serviços à nação, independentes de exploração comercial, e no de que o Estado devia prestar todo o apoio a este tipo de instituições[46]

Por outro lado, atravessou uma situação difícil, decorrente da extinção da Imprensa da Universidade, em 1934, com as consequências que acarretou para a revista e outras publicações do Instituto que estavam em curso. Para contornar a situação, resolveu-se, por instâncias do sócio A. G. da Rocha Madahil, recorrer à Tipografia Popular da Figueira da Foz, que durante alguns anos teve o encargo da edição da revista, passando depois para a Coimbra Editora. Não foi, no entanto, perdido o apoio do Estado, uma vez que, em assembleia geral de 29 de julho de 1935, o presidente comunicava que a Junta de Educação Nacional havia concedido um subsídio de mil escudos para a publicação d’O Instituto.

Foi também na presidência de Costa Lobo que se preparou e aprovou a reforma dos Estatutos, “justificada pela necessidade de ajustar a associação à vida atual, de que é exemplo o facto de há muitos anos se cobrar 25$00 de cota semestral a cada sócio, havendo necessidade de acompanhar tanto quanto possível a subida do custo de vida” (assembleia geral de 21 de dezembro de 1937 – O Instituto, 93: 494).

O prestígio do Instituto enfatizava-se não apenas a nível científico, mas também nos meios artísticos. É neste sentido que Costa Lobo, em assembleia geral de 31 de janeiro de 1939, chama a atenção para “o entusiasmo com que no estrangeiro tem sido recebida a atuação do Instituto, manifestada até por importantes ofertas de valiosas obras de arte, salientando a contribuição do escultor Marcel Sandoz, bem conhecido nos meios artísticos internacionais, e do notável pintor e cientista Nicholas de Roerich”. Por isso, não admira que os sócios fizessem questão de louvar o presidente, “incansável na expansão e valorização do Instituto de Coimbra em Portugal e no estrangeiro” (O Instituto, 94: 95).

Ao que parece, tudo isto era obtido sem prejuízo da contabilidade. Segundo o relatório que o tesoureiro Amadeu Ferraz de Carvalho apresentou em assembleia geral de 6 de dezembro de 1943, o Instituto, apesar de dispor de escassos recursos, conseguiu satisfazer todos os seus compromissos, publicar anualmente dois volumes da revista, e ainda outras publicações ocasionais. Também é certo que os bons ares do Instituto atraíram donativos que muito auxiliaram as contas. Foi o caso dos contributos de Ricardo Espírito Santo (década de 1940), Marquês de Faria (1928) e António Augusto de Carvalho Monteiro (1918), daí que tenham sido agraciados com o título de beneméritos.

Apesar de reeleito a 22 de dezembro de 1944, Francisco Miranda da Costa Lobo não voltou a presidir às reuniões. Faleceu poucos meses depois, sendo substituído (como prescrevem os estatutos) pelo vice-presidente, Anselmo Ferraz de Carvalho. Este professor da Faculdade de Ciências, sócio honorário desde 1935, seria depois eleito para o biénio 1947-1948, e reeleito sucessivamente, ocupando a presidência do Instituto até 1954, falecendo a 26 de fevereiro do ano seguinte. Ao longo destes anos, Diogo Pacheco de Amorim ocupou sempre a vice-presidência, de onde ascenderia depois ao lugar cimeiro.

Anselmo Ferraz de Carvalho nasceu a 14 de dezembro de 1878, em Tondela. Doutorou-se em Filosofia (1901), com a tese “Fenómenos magneto-óticos”, tornou-se lente da Faculdade de Filosofia (depois da de Ciências) da Universidade de Coimbra desde 1902 até 1948 (Antropologia, Mineralogia, Geologia, Geografia e Física do Globo), passando a ensinar também Geografia na Faculdade de Letras a partir de 1911. Foi diretor do Observatório Meteorológico e Magnético (mais tarde designado Instituto Geofísico da Universidade de Coimbra) desde 1914, do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, e da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra (1933-1939); chegou a vice-reitor da mesma Universidade. Entre outras funções, representou Portugal na Secção de Sismologia da União Geodésica e Geofísica Internacional (1923), e presidiu ao Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências realizado no Porto em 1942.

Coube-lhe a extrema responsabilidade de sustentar a elevada posição em que o anterior presidente colocara o Instituto, mais do que qualquer outro, e não desapontou. Uma das primeiras propostas de Anselmo Ferraz de Carvalho (assembleia geral de 19.7.1945) foi que se agilizasse a reunião diária dos sócios, pelo valor que tinham estas reuniões para a intensificação da vida do Instituto. No entanto, a configuração das listas de sócios admitidos mudou de imediato, tornando-se visível uma maior proporção de efetivos, ao contrário da Direção anterior, que propunha principalmente correspondentes, muitos estrangeiros.

Foi novamente atualizada a quota de sócios, que se estava a tornar insuficiente para colmatar as despesas, passando a cobrança para três vezes por ano da quantia de 25$00 (assembleia geral de 1.7.1947). Porém, como as despesas continuavam a subir, foi aprovado novo aumento a 15 de fevereiro de 1949, passando para 100$00 (anuais).

Anselmo Ferraz de Carvalho deu sequência ao imenso trabalho de Costa Lobo, não deixando cair o Instituto. Dinamizou as conferências, os estudos e outras sessões do Instituto, orientou a passagem da academia para o novo edifício na Rua da Ilha, manteve o nível de interesse da revista, promoveu as relações nacionais e estrangeiras, renovou o grupo dos sócios. Para esse efeito, contou com o importante apoio do secretário Gumersindo Sarmento da Costa Lobo, filho do anterior presidente e também ele muito empenhado no sucesso do Instituto. O método que adotava era sobretudo o contacto com sábios estrangeiros e portugueses, obtendo deles um contributo para o desenvolvimento do Instituto (cf. reunião da Direção de 18.12.1946 – O Instituto, 110: 165).

Por sua vez, este presidente atuou com maior afinco sobre a biblioteca, na passagem para o novo edifício, providenciando a sua reorganização, inventário, catalogação e encadernação (reunião da Direção de 3.12.1948). Por outro lado, coube-lhe a sorte de ser o presidente em exercício no centenário da academia, comemorado de acordo com as suas diretivas. Neste âmbito, o presidente conseguiu congregar o apoio de diversas individualidades e de entidades que não deixaram passar em silêncio o centenário de uma das mais antigas academias do país.

Apesar de ter sido presidente do Instituto durante cerca de vinte anos, não se conservou qualquer registo oficial de eleição/reeleição de Diogo Pacheco de Amorim. Anselmo Ferraz de Carvalho faleceu a 26 de fevereiro de 1955, de modo que, ou estava ainda em exercício e foi substituído, ou então houve antes uma eleição de Pacheco de Amorim. Apenas as capas da revista nos vão informando da composição da sua Direção, desde o volume 117 (1955) até ao 136 (1973). Nos primeiros anos, Diogo Pacheco de Amorim foi acompanhado por João Pereira da Silva Dias na vice-presidência, como secretários Francisco Teixeira de Queirós, Joaquim de Carvalho, Aristides de Amorim Girão, Alberto Moreira da Rocha Brito, Torquato Brochado de Sousa Soares, Luís Reis Santos, Francisco de Sousa Nazaré, e o tesoureiro José Campos de Figueiredo.

Diferentemente da presidência de Costa Lobo, a longevidade da liderança de Pacheco de Amorim não foi acompanhada de constante vigor. Ao contrário, transformou-se num ato de penhora do futuro do Instituto. Se, no começo, ainda se prossegue mais ou menos ao mesmo ritmo, para as décadas de 60/70 vão-se apagando os focos de luz, apenas de quando em quando emitindo uma clareira. É importante registar que o secretário Joaquim de Carvalho faleceu em 1958, perdendo assim o Instituto um dos membros mais empenhados na sua prosperidade.

É certo que a revista continuou a sair com regularidade, mas o seu conteúdo perdia progressivamente a dinâmica e a diversidade. É certo igualmente que esta Direção promoveu um dos mais altos momentos da história do Instituto, a comemoração do quinto centenário da morte do Infante D. Henrique (1961), no âmbito da qual se entregaram as insígnias do Instituto ao Presidente da República do Brasil. É ainda certo que esta Direção efetuou a indispensável reforma dos Estatutos, que se encontravam bastante desfasados, mediante proposta redigida pelo secretário Arnaldo de Miranda Barbosa, em 1966.

Para além disto, porém, o que resta afigura-se escasso para vinte anos de governação. Ainda se fizeram algumas conferências, mas a um ritmo mais brando. Até a eleição de sócios esteve praticamente suspensa, realizando-se muito espaçadamente. Neste capítulo, todavia, há que reconhecer o mérito desta Direção, quando resolve, em junho de 1955, organizar o ficheiro de sócios do Instituto, elaborando uma circular remetida a cada um deles, onde se solicitava o envio de uma fotografia e dos dados relativos à categoria, data de admissão, nome completo, profissão, nacionalidade e endereço.

Quando sobrevem o 25 de Abril de 1974, o Instituto estava praticamente inerte. O presidente encontrava-se recolhido na sua terra natal, Monção (Minho), pelo que indicam as cartas que lhe são dirigidas neste período, pedindo-lhe para assinar documentos institucionais. Estaria o vice-presidente Guilherme Braga da Cruz em posição de vigilância. Mas não era ainda a hora do fim.


Com Luís de Albuquerque, o Instituto renasceu. Vários testemunhos apontam-no como o “salvador” da academia. Nas palavras de Orlando de Carvalho (seu sucessor), Luís de Albuquerque

evitou a dissolução do “Instituto de Coimbra”, grémio que, pelas excelentes instalações que possuía e pelo enquistamento em que caíra nos últimos anos do regime, apesar da sua notável tradição novecentista, corria o risco de se perder na voragem das “ocupações” e dos radicalismos do tempo. Pressentindo isto, Luís de Albuquerque antecipou-se e, com a sua habitual diplomacia, conseguiu que o Prof. Braga da Cruz, Vice-Presidente em exercício, reconhecesse a eleição de novos sócios e, finalmente, os novos corpos gerentes eleitos pela nova assembleia. Fora Luís de Albuquerque escolhido para Presidente do Instituto, verificando-se a transferência de poderes sem qualquer incidente. O seu prestígio científico, pessoal e político não permitia nenhuma dúvida sobre a credibilidade da Direção, a que Luís de Albuquerque presidiu até 1982. Não é de mais encarecer o sentido da conjuntura e da preservação dos valores históricos-culturais de que Luís de Albuquerque deu prova também nessa emergência (Luís de Albuquerque, 1993: 35).

Luís Guilherme Mendonça de Albuquerque (1917-1992) foi, com efeito, uma personalidade de grande mérito científico e cívico. Licenciado em Ciências Matemáticas (1939) e em Engenharia Geográfica (1940) pela Universidade de Lisboa, doutorou-se (1959) em Matemática pela Universidade de Coimbra e tornou-se professor da Faculdade de Ciências da mesma Universidade (desde 1940), onde chegou a presidente do Conselho Diretivo (1974, 1976-1978) e a vice-reitor da Universidade de Coimbra (1978-1982). Foi também governador civil de Coimbra (1974-1976) e diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (1978-1987). Doutor honoris causa em História pela Universidade de Lisboa, em 1985, tem uma vasta obra publicada, onde sobressaem os escritos sobre os descobrimentos portugueses.

Presidiu ao Instituto entre 1975 e 1982. Mediou apenas uma semana entre a sua eleição de sócio efetivo (21 de julho) e a sua eleição de presidente (30 de julho de 1975). De acordo com os Estatutos de 1966, as eleições eram agora por períodos de três anos, de maneira que Luís de Albuquerque exerceu dois mandatos. Acompanhou-o, no primeiro triénio, o vice-presidente Joaquim Vitorino Namorado, uma figura que veio influenciar o funcionamento da academia.

Junto com Luís de Albuquerque, haviam sido eleitos sócios efetivos em 21 de julho de 1975 vários nomes que vieram renovar os corpos da sociedade, não deixando de acusar o empenhamento político próprio da época. Na Direção eleita em 30 de julho de 1975, encontrava-se como tesoureiro uma das figuras que, até ao fim, pugnaram pela sobrevivência do Instituto, Jaime Alberto do Couto Ferreira, professor da Faculdade de Economia. Após a eleição, Guilherme Braga da Cruz mostrou-se satisfeito por entrever que “a nova Direção iria dar o seu melhor para garantir a continuação e o revigoramento do prestígio desta velha agremiação cultural, de tão fundas e honrosas tradições”; Luís de Albuquerque respondeu que “o propósito da nova Direção era justamente o de, revitalizando e animando o Instituto de Coimbra, defender firmemente o seu prestígio e projeção, dentro das tradições de independência que o têm norteado” (O Instituto, 139: 248).

Luís de Albuquerque prosseguiu na renovação das fileiras de sócios, promovendo a eleição de grande número de efetivos. A intervenção de Joaquim Namorado tem que ser olhada em complemento das suas funções de principal dinamizador do núcleo de Coimbra da Associação de Amizade Portugal - República Democrática Alemã (RDA). É certamente de sua proposta a eleição de sócios de origem soviética ou da RDA, bem como a sua presença em Coimbra, para conferência ou simples visita. Em todo o caso, esta íntima ligação com a Associação favoreceu as diversas atividades que conferiram uma extraordinária vitalidade ao Instituto, num período curto mas produtivo. Realizaram-se conferências, sessões de cinema, concertos, exposições, atividades educativas, requalificou-se a biblioteca, recebeu-se a visita de várias personalidades, reativou-se a revista.

Não foi, naturalmente, uma época isenta de dificuldades. O problema maior era o mau estado do edifício, a que se juntavam as restrições financeiras crónicas. Apesar disso, “a nova Direção procurou, ao longo do triénio, não só consolidar o Instituto, alargando o número de sócios efetivos, como abri-lo ao mundo exterior, alargando o número de sócios correspondentes e organizando iniciativas culturais com projeção na cidade e fora dela” (O Instituto, 139: 249).

A 17 de fevereiro de 1982 é eleito o último presidente do Instituto de Coimbra, Orlando Alves Pereira de Carvalho. Era licenciado em Ciências Histórico-Jurídicas (1948) e em Ciências Político-Económicas (1949), doutor em Direito (1968, Critério e estrutura do estabelecimento comercial), professor (desde 1948, mas com interrupções, por suspensão ou até prisão por motivos políticos) da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (Direito Romano, Direitos Reais, Direito Processual Civil, Direito Comercial, Teoria Geral do Direito Civil, Filosofia do Direito e do Estado), onde foi presidente do Conselho Pedagógico (1986/87), do Conselho Diretivo (1987/95) e do Conselho Científico (1995/97). Para além de redator da Revista de legislação e jurisprudência, colaborador da revista Vértice e poeta, foi secretário de Estado da Reforma Educativa (I Governo Provisório, 1974) e membro do Conselho Mundial da Paz.

Acompanharam-no, no triénio 1982-1984, José Nuno Dias Urbano (vice-presidente), Luís Carlos Gama Pereira (secretário), Jaime Alberto do Couto Ferreira (tesoureiro), Carlos Manuel Laranjeiro Silva e Carlos José de Sousa Guimarães (vogais). A presidência de Orlando de Carvalho constituiu uma espécie de epílogo na história do Instituto. Chegou com o intuito de prolongar a campanha do anterior presidente: “Apesar da acentuada escassez de meios, esta direção pretende intensificar as relações entre os seus sócios, as relações com instituições congéneres portuguesas e estrangeiras, e dinamizar a vida cultural, local e nacional” (Livro de Atas da Assembleia Geral, 17.2.1982). 

Com efeito, logo em março de 1982, a Direção do Instituto solicitava ao governador civil do distrito de Coimbra uma lista das diversas instituições culturais da região, tendo em vista estabelecer contactos com elas (Cópias da Correspondência Expedida, 8.3.1982). Na mesma altura, solicita ao presidente da Câmara Municipal de Coimbra apoio financeiro para cobrir as despesas do programa projetado para o triénio, incluindo a organização de um ciclo de conferências, exposições e a encadernação de volumes da biblioteca. O pedido seria, no entanto, indeferido.

Para tentar cobrir as deficiências financeiras, a Direção propôs, e a assembleia reunida em dezembro de 1983 aprovou, o aumento da quota anual dos membros efetivos e correspondentes do Instituto para 1000$00. Foi possível ainda realizar obras no edifício, assim como publicar os volumes 139 e 140/141 da revista.

A última eleição de que há registo data de 18 de abril de 1985, constituindo-se assim a Direção para o triénio 1985-1987: presidente Orlando Alves Pereira de Carvalho, vice-presidente Fernanda Aragão Aleixo Neves de Oliveira (a primeira mulher na Direção do Instituto), secretário Fernando Jorge Coutinho de Almeida, tesoureiro Jaime Alberto do Couto Ferreira, vogais Carlos Manuel Laranjeiro Silva e Carlos José de Sousa Guimarães. Apesar da falta de documentos, tudo indica que Orlando de Carvalho exerceu a presidência até ao ano da sua morte, 2000[47].

Naquele ano de 1985, ressaltam as preocupações com o estado financeiro do Instituto. O tesoureiro Jaime Ferreira informava que o saldo de 85767$70 (resultante de quotas e do que sobrara do subsídio para a publicação do volume 140/141) somente serviria para cobrir “as despesas correntes e de manutenção do Instituto… mas não mais do que isso” (Livro de Atas da Assembleia Geral, 20.6.1985). Haviam sido efetuados gastos com a limpeza do edifício, após as obras no seu interior. Debatiam-se, para mais, com recibos de eletricidade para pagar, o que se devia à transferência do fornecimento de energia elétrica dos Serviços Municipalizados para a EDP.

Programava-se publicar mais um volume da revista, correspondente a 1982-1983, afirmando o presidente que o Governo concedera um subsídio de 500 contos. Esse volume, porém, não chegou a ser publicado. Joaquim Namorado propôs que se elaborasse um plano de atividades do Instituto que pudesse servir de suporte a um pedido de financiamento endereçado a entidades como o Ministério da Cultura, o Governo Civil ou a Câmara Municipal.

Depois disto, o que resta são apontamentos sobre estas e outras questões, revelando que ainda se lançavam ideias para a realização de cursos, palestras, colóquios, para a captação de sócios e para alinhavar o próximo volume da revista. Parece, porém, que não passaram de apontamentos.

Segue-se a síntese possível da constituição da Direção do Instituto de Coimbra ao longo dos anos. Estatutariamente, os diretores das classes faziam parte da Direção. Como estes vão registados no capítulo Classes, não os repetimos aqui.



[45] A comissão de redação encarregada de superintender a publicação do volume 43, de 1896, que integrava António Augusto Gonçalves, António Garcia Ribeiro de Vasconcelos (1º redator), António José Teixeira de Abreu, Francisco José de Sousa Gomes e Joaquim Mendes dos Remédios (secretário), decidiu uniformizar a ortografia da revista, fazendo com que todos os textos apresentassem o mesmo modo de escrever. Anteriormente, portanto, cada artigo saía à luz na ortografia adotada pelo autor, resultando daí uma disparidade de formas de escrita dentro de cada volume. Para acabar com esta “vergonhosa incoerência de grafias”, que, no seu entender, só trazia descrédito à academia, a comissão de redação decretou a uniformização da ortografia, com base no modelo etimológico. Em particular, António de Vasconcelos considerava oportuno que o Instituto promovesse o debate a nível nacional: “Nenhuma corporação científica em Portugal havia ainda olhado para problema de tanta gravidade. Não ficaria bem ao Instituto tomar a iniciativa duma reforma da linguagem, tão deturpada sempre pela ignorância, e muitas vezes pela petulância e má fé?” (A questão, 1896: XI). Advertidos os autores, começaram os redatores, em janeiro de 1896, a praticar a ortografia etimológica. No entanto, levantaram-se vozes dissonantes, ou porque não concordavam com o modelo escolhido ou porque pretendiam manter a sua própria ortografia, e o assunto foi levado à Direção. Os membros da comissão de redação, perante as críticas, apelaram a um debate científico da questão, disponibilizando as páginas da revista para o efeito. Nas reuniões da Direção, faltou o apoio aos redatores, vários sócios manifestaram desacordo com as suas opções (nomeadamente, Assis Teixeira, Costa Lobo, Paiva Pita, Eugénio de Castro e Júlio Henriques). Para dissolver o impasse, Bernardino Machado elaborou, em meados de maio, uma proposta conciliatória, segundo a qual a Direção nomearia uma comissão para definir sobre bases científicas a nova ortografia da revista, composta de seis membros, três propostos pela Direção e três pela comissão, cujas decisões se comprometeriam ambas as partes a acatar. Contudo, a proposta não chegou a ter efeito e logo depois a Direção apresentava a demissão, em assembleia geral de 24 de maio de 1896. A comissão de redação entendeu que cessava igualmente o seu mandato por demissão da Direção que a nomeara. Com a nova Direção presidida por Bernardino Machado, entra também uma nova comissão de redação, que atua a partir do nº 6 (jun. 1896) do volume 43. É composta por Afonso Costa (secretário), Bernardo Aires, José Frederico Laranjo (1º redator), Luciano António Pereira da Silva e Manuel de Azevedo Araújo e Gama. Quanto à ortografia, tudo voltou ao anterior estado. Para mais pormenores sobre esta polémica, ver A questão orthographica e o Instituto de Coimbra: documentos e explicações. Coimbra: Typ. França Amado, 1896 (que, é preciso ter em conta, apresenta a perspetiva de António de Vasconcelos e seus pares) e sobretudo as sessões da Direção de 22 e 28 de março (Livro de Atas) e a assembleia geral de 24 de maio de 1896.

[46] Diário do Governo, II série, 26 de fevereiro de 1929.

[47] Assim nos afirmou Jaime Alberto do Couto Ferreira, numa entrevista, a 15 de março de 2012.