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Relações científicas

Em 1942, num contributo para o volume comemorativo do centenário da mais antiga revista científica e literária, O Instituto, o General Ferreira Martins sublinhava o ativo papel do Instituto de Coimbra no intercâmbio intelectual:

Basta percorrer os 99 volumes da sua Revista O Instituto, onde se encontra a mais variada colaboração de autores nacionais e estrangeiros das mais diversas nacionalidades, para se compreender quanto esta antiga instituição, meramente particular, tem contribuído para o intercâmbio intelectual, fonte perene de benefícios para o estreitamento das relações culturais entre as nações civilizadas do mundo (O Instituto, 100: 48-49).

Vivia então o Instituto os últimos anos da presidência de Francisco Miranda da Costa Lobo, que, sem dúvida, constitui o ponto alto daquela academia no tocante a relações científicas.

Para a academia, o intercâmbio intelectual emerge como um dos meios de divulgação das novidades científicas e de incentivo à investigação. Naturalmente, a sua essência projeta-a para o exterior, pois uma instituição deste cariz deixaria de fazer sentido se permanecesse fechada sobre si mesma. De um modo concreto, esta atualização dos conhecimentos processa-se através de relações desenvolvidas com entidades de vária ordem e da colaboração dos seus sócios, individualmente.

É um facto que as primeiras e mais consistentes e duradouras relações estabelecidas pelo Instituto se deram com a Universidade de Coimbra, à qual se encontra intimamente ligado. Todavia, à medida que o Instituto foi admitindo figuras de mérito reconhecido entre os seus membros, provenientes de outros meios, então esta academia foi alargando horizontes, a nível nacional e internacional. Com efeito, a vitalidade de uma academia revela-se pela ação dos respetivos sócios, sendo através deles que se estabelecem as ligações externas. Este fator verifica-se em especial na admissão de sócios pertencentes a outras academias e instituições, transportando consigo as experiências desses organismos e facilitando a troca de saberes. Por entre as dificuldades iniciais de consolidação desta academia, os dirigentes apelavam à “coadjuvação de muitos sábios eminentes do país e estrangeiros” para a dinamização dos trabalhos da sociedade (O Instituto, 5: 1). 

O primeiro relatório do Instituto, lido em sessão solene de abertura a 19 de dezembro de 1852, acentuava de maneira categórica que a vida do Instituto “devia ser, primeiro que tudo, uma vida de relação”, mantida em especial por intermédio da revista, que ligaria o Instituto a todo o país, e até ao estrangeiro. A revista constituía, portanto, “um elemento para a realização dos seus projetos e um testemunho da sua atividade e dos seus serviços” (O Instituto, 1: 196-197). Assim foi que, passados dez anos, o relatório da Direção apresentado em sessão de assembleia geral a 2 de janeiro de 1863 concluía: o Instituto de Coimbra havia “granjeado relações amigáveis com associações nacionais e estrangeiras”. Nesse mesmo relatório, a Direção destaca as ligações que naquele momento a empenhavam mais: “A Direção do Instituto [do biénio 1861-1862], considerando que as relações sociais são sempre um poderoso incentivo para o engrandecimento dos corpos coletivos, resolveu contraí-las com algumas sociedades literárias nacionais e estrangeiras, e estreitá-las com aquelas que com o Instituto tivessem já comércio de letras; e de todas devem extremar-se a Academia Real das Ciências e o Instituto Geográfico e Histórico do Rio de Janeiro, pelo interesse que têm mostrado na prosperidade e adiantamento do Instituto” (O Instituto, 11: 249-250).

Quanto ao jornal do Instituto, é de notar que ele publica, desde o primeiro volume, uma “Revista literária e bibliografia estrangeira”, e, para além disso, inclui nas suas páginas traduções de artigos ou excertos de textos científicos impressos em revistas do exterior. Desde cedo, publica igualmente notícias dos trabalhos apresentados em academias e universidades estrangeiras. Por outro lado, menciona as relações literárias com Espanha e França estabelecidas pela Universidade de Coimbra, envolvendo associados do Instituto. Na verdade, pelo menos nas suas primeiras décadas, a revista O Instituto assumiu-se como lugar privilegiado de publicação dos estudos desenvolvidos pelo corpo docente da Universidade, bem como de estatísticas e assuntos administrativos desta instituição. Neste contexto encontramos, em alguns volumes, relatórios de comissões científicas compostas de professores da Universidade, enviadas a nações da Europa para se inteirarem dos progressos da ciência e da técnica e, no regresso, introduzirem e idealmente melhorarem esse saber.

Depois, a revista O Instituto começa também a acolher artigos de sócios estrangeiros. Alguns dedicavam os seus trabalhos ao Instituto de Coimbra, como por exemplo o estudo de Enrique del Castillo y Alba sobre a literatura dramática ibérica dos sécs. XV-XVII, publicado nos volumes 21-23 d'O Instituto (1875-1876). Salienta-se um conjunto de artigos resultantes da colaboração de investigadores de Botânica da Universidade e sócios do Instituto, entre os quais Júlio Augusto Henriques e Adolfo Frederico Moller, com investigadores estrangeiros. Encontra-se neste caso o catálogo de cogumelos do solo português, iniciado por Felix von Thümen e continuado por G. von Niessl e Georg Winter (vols. 27, 28, 31, 32 e 34).

Uma diferente perspetiva permite confirmar a alta relevância do papel da revista no incremento das relações científicas e culturais do Instituto de Coimbra. Trata-se da sua função de instrumento de troca num programa de permutas que possibilitava o preenchimento do gabinete de leitura do Instituto com as mais conceituadas revistas científicas e literárias de Portugal e de vários pontos do globo. Essa foi uma preocupação consignada pelos Estatutos, desde a fundação da sociedade, ou seja, constituir uma biblioteca orientada para as necessidades dos seus membros, disponibilizando a estes e a assinantes externos um gabinete de leitura com informação atualizada.

Em 1860, a Direção do Instituto, presidida por Francisco de Castro Freire, procurava estreitar relações com a Academia Real das Ciências de Lisboa, através do envio da revista O Instituto. Por sua vez, a Academia ofereceu, anos depois (1875), uma valiosa coleção de livros para a biblioteca do Instituto, incluindo volumes das Memórias da Academia, da Portugaliae Monumenta Historica, da História dos estabelecimentos científicos de José Silvestre Ribeiro, do Jornal de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais, entre outros. Em sinal de agradecimento, a Direção de Luís da Costa e Almeida resolveu, no ano seguinte, enviar uma coleção d'O Instituto à Academia. Esta, aliás, repetiu a oferta de livros ao Instituto em outras ocasiões.

Em sentido inverso, o Instituto era alvo de solicitações por parte de diversos organismos para que lhes fosse enviada a sua revista. Registemos apenas alguns: o Centro Promotor de Instrução Popular de Coimbra (em 1877), o Museu Nacional do Rio de Janeiro (em 1887), a Associação Carlos Ribeiro, do Porto, a Sociedade João de Deus, de Abrantes (em 1890), a Société Scientifique du Chili (em 1896), a Yale University (em 1911).

Por propostas individuais de sócios, por solicitações dirigidas ao Instituto ou deste para as organizações, acordava-se a permuta da revista O Instituto por uma outra publicação em série. Quando em 1926 foi divulgada a relação dos periódicos permutados, os números e os títulos evidenciavam-se pela quantidade e pela qualidade, indiciando o elevado prestígio alcançado pelo Instituto. Cerca de quatro dezenas de revistas eram portuguesas; delas destacamos A águia, o Boletim da Agência Geral das Colónias, o Boletim do Instituto de Criminologia, o Boletim da Sociedade Broteriana, o Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, A Medicina contemporânea, a Revista de Guimarães e a Revista militar.

Depois, chegavam revistas da Alemanha, da Bélgica, de Espanha (o país que enviava o maior número de títulos), da França, da Inglaterra, da Itália, da Rússia, da Suécia, da Argentina, do Brasil, do Chile, da Colômbia, de Cuba, do Equador, dos Estados Unidos, da Nicarágua, do Uruguai, da Venezuela e do Japão. Os títulos permutados remetem para as associações com as quais o Instituto se relacionava, como é o caso da Société des Bollandistes, da Bélgica, através da Analecta Bollandiana, especializada em hagiografia cristã; do Instituto Ibero-Americano de Hamburgo, através da Iberica; da Sociedad Cientifica Argentina, com os seus Anales; a Academia Brasileira de Letras, do Rio de Janeiro; diversas entidades espanholas, como a Real Academia de la Historia, a Sociedad de Estudios Vascos ou a Sociedad Castellonense de Cultura, que enviavam os respetivos boletins; ou ainda a Smithsonian Institution, dos EUA, através dos seus relatórios anuais.

Os repertórios seguintes acrescentavam ainda um grande número de títulos, cumprindo o desejo da Direção de Francisco Miranda da Costa Lobo, expresso no relatório de 1926: “A Direção do Instituto de Coimbra julga poder assegurar, aos seus sócios, em breve prazo, um mais extenso intercâmbio com instituições e sociedades científicas do estrangeiro” (O Instituto, 73: 799). Sintetizando, verificamos que esse intercâmbio se realizava, em geral, com academias, universidades e seus institutos ou departamentos, bibliotecas e museus, associações profissionais, entidades estatais, outras sociedades de índole diversa.

Podemos observar nas listas publicadas o reflexo das propostas dos associados. O lente da Faculdade de Matemática António José Teixeira, em 1890, diligenciou e obteve “a troca de vários jornais de Lisboa com o jornal do Instituto”; quatro anos depois, foi Assis Teixeira, professor da Faculdade de Direito, que apontou “a conveniência de se tornar o Instituto conhecido em Lisboa”, referindo-se certamente a O Instituto, pois indicou o nome de um livreiro para servir de intermediário[63]. Sabemos, por exemplo, que o intercâmbio com a Real Academia de la Historia teve origem nos contactos de um sócio comum, Antonio Sánchez Moguel, catedrático de Literatura, que propôs àquela a permuta do seu Boletín pel'O Instituto, solicitação essa que foi atendida e comunicada ao Instituto em 1894. 

Em sessão de assembleia geral de 20 de outubro de 1926, o classicista Carlos Simões Ventura propôs e foi aprovado o alargamento da permuta de O Instituto a mais revistas de filologia e linguística. Neste sentido, entre os novos títulos declarados em relatórios posteriores encontramos a revista A língua portuguesa, os Archives néerlandaises de phonétique expérimentale (Harlem) ou ainda Ce fastu? (Udine), o boletim mensal da Sociedade Filológica Friulana. Aliás, a Sociedade Holandesa de Ciências, de onde provêm aqueles Archives, tomou ainda a iniciativa de oferecer ao Instituto de Coimbra as obras completas do astrónomo Christiaan Huygens e alguns volumes dos Archives néerlandaises de physiologie de l'homme et des animaux.

Alguns anos mais tarde, em 1935, o subsídio concedido pela Junta de Educação Nacional para a publicação de O Instituto testemunhava o reconhecimento público da vitalidade da revista, que nessa altura era permutada com mais de 200 periódicos. Com o advento da Grande Guerra, parte dessas relações foram interrompidas, havendo o cuidado de as retomar terminado o conflito.

A realização de conferências, um dos meios estatuídos, como vimos, pelo Instituto de Coimbra, para o cultivo das ciências, letras e artes, pode ser considerada como um indicador do estado das relações intelectuais da academia. Incluimos aqui conferências, congressos, serões literários e homenagens, por meio dos quais se divulgou a ciência e a técnica, os estudos literários e estéticos, ou se assinalou algum acontecimento ou personalidade de relevo. Deste modo, pretendemos sublinhar os esforços de colaboração exercidos pelo Instituto de Coimbra neste domínio, que se evidenciam quer nas iniciativas internas quer na participação em eventos externos.

É percetível, na organização destes encontros, a vontade de estreitar relações não só com a Espanha mas bem assim com o Brasil, a França e a Inglaterra. Aliás, no que diz respeito a este último país, houve por parte da Direção de Costa Lobo uma intenção declarada de fomentar as relações Portugal-Inglaterra, com diversas sessões dedicadas a preencher esse objetivo. Entre elas, registamos as conferências de 1926 sobre a cultura inglesa, contando com a presença do embaixador de Inglaterra, Sir Lancelot Carnegie. Em 1930, o diplomata inglês era Sir Francis Lindley, homenageado em sessão solene do Instituto, que contou com uma conferência do Conde de Vila Flor sobre as relações entre Inglaterra e Portugal. 

Seis anos depois, realizou-se outra sessão de comemoração das relações entre os dois países, onde se falou desta ligação nas suas múltiplas vertentes (literária, política, científica e comercial), através das palavras de Costa Lobo, Charles Wingfield (embaixador), Anselmo Ferraz de Carvalho, Diogo Pacheco de Amorim e outros oradores. Destacamos ainda a sessão de homenagem a homens de ciência ingleses, em 1942, a que assistiu o Ministro da Inglaterra em Lisboa, John Balfour, e onde Costa Lobo discorreu sobre os astrónomos ingleses Herschel e Lord Rosse, e Anselmo Ferraz de Carvalho sobre a influência dos estudos de física de Lord Kelvin na Geologia. No ano seguinte, o astrónomo diretor do Observatório de Greenwich, Harold Spencer Jones, realizou no Instituto uma conferência sobre a determinação da distância da Terra ao Sol.

No que diz respeito à colaboração francesa, ela manifestou-se em especial na homenagem prestada pelo Instituto a Alfred Baudrillart, reitor do Instituto Católico de Paris e membro da Academia Francesa, sócio honorário do Instituto de Coimbra, em fevereiro de 1930. A sessão congregou altas individualidades, como o Ministro de França, Eugène Pralon, ou o reitor interino da Universidade de Coimbra, Luís Carrisso. O homenageado conferenciou sobre “Science et religion, 1880-1930”. 

Passando à colaboração do Instituto em encontros realizados por outras entidades, ela era normalmente resultante de convites dessas mesmas entidades, ou processava-se por intermédio de sócios individualmente. De seguida, observamos alguns casos que exprimem este tipo de relações culturais do Instituto. O Congresso Nacional da Tuberculose realizado em Coimbra em 1895 contava na sua lista de presidentes honorários o nome de Francisco José da Silva Basto, da secção médica do Instituto de Coimbra. Esta secção foi ainda convidada para participar no Congresso Nacional de Medicina que se realizou em Lisboa em 1897, respondendo positivamente. Em 1898, Sousa Viterbo representou o Instituto no centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia. Também em 1898, o Instituto esteve presente em Lisboa no Congresso de Higiene através do professor Daniel de Matos. Em 1901, o presidente Bernardino Machado encarregou Augusto Fuschini de representar o Instituto no Congresso Colonial, para o qual fora convidado pela Sociedade de Geografia de Lisboa. 

Podemos afirmar que a revista, sobretudo, e os encontros científicos correspondiam aos meios de maior visibilidade da ação desta academia de Coimbra e que de forma imediata alcançavam um mais vasto público. No entanto, o intercâmbio com outras academias processava-se por diferentes formas, por vezes menos publicitadas mas não de menor importância. Nesta categoria inserimos a intervenção na resolução de questões técnico-científicas, a cooperação com outras sociedades, designadamente a nível nacional e internacional. Mais uma vez, os sócios representavam um papel preponderante nas relações com outras academias e universidades a que pertenciam, e esse tipo de contactos foi progredindo à medida que o Instituto consolidava a sua posição. Assim, surgiam de diversas origens propostas ou pedidos de colaboração com o Instituto. 

Com a Sociedade de Geografia de Lisboa se estabeleciam frequentes relações, que ultrapassavam em muito o âmbito bibliográfico. Aliás, esta associação oficiou de imediato a sua instalação definitiva, em 1876, ao que a academia de Coimbra respondeu do seguinte modo: “bom é que hoje, possuidores ainda de excelentes colónias em diversas partes do mundo, concorramos com as lidas pacíficas do progresso e da civilização para a sua progressiva prosperidade. E isto devemos esperar das virtudes cívicas e conhecimentos científicos de VV. Ex.as e dos outros seus consócios que são fiadores dos bons serviços que pode (...) e há de prestar ao país a benemérita Sociedade de Geografia de Lisboa”. 

Nesse mesmo ano, o presidente da Comissão Permanente de Geografia, organismo então criado pelo Ministério da Marinha e Ultramar com o intuito de defender os interesses portugueses nos territórios coloniais, enviou um pedido de cooperação ao Instituto. A Direção deste resolveu, como resposta, enviar à Comissão dois exemplares d’O Instituto, oferecer as colunas deste jornal para qualquer publicação literária e científica e prestar-lhe todo o auxílio possível nas pesquisas histórico-geográficas[64]. Criada no Porto uma Sociedade de Geografia Comercial (presidida por Oliveira Martins), poucos anos depois (1880), também esta participou ao Instituto a sua instalação e pediu o estabelecimento de relações.

De especial relevo foi a participação do Instituto na discussão do problema da adoção de um meridiano universal, convidado para esse efeito pela Sociedade de Geografia de Lisboa, em dezembro de 1882. O parecer do Instituto foi elaborado por Rodrigo Ribeiro de Sousa Pinto, então diretor do Observatório Astronómico, nomeado pela Direção. No documento remetido à Sociedade de Geografia em janeiro de 1883, o lente da Faculdade de Matemática enuncia duas soluções possíveis: uma delas aponta o Observatório de Greenwich ou o de Washington como referência para o meridiano, pela tradição já estabelecida e pela excelência desses dois observatórios; a outra indica a eventualidade de se escolher um ponto qualquer do globo, embora nesse caso se torne necessário medi-lo na distância a um observatório bem posicionado. Foi também por intermédio do relacionamento com a Sociedade de Geografia que o Instituto aderiu ao manifesto patriótico decorrente do ultimato inglês, em 1890. Em 1925, discutiu-se no Instituto o movimento nacional pró-colónias, concluindo-se pela adesão aos trabalhos da comissão de defesa das colónias da Sociedade de Geografia.

Do estrangeiro provinham contactos importantes, como foi o caso do Padre Ignacio Puig, que em 1936 comunicou ao Instituto a instalação do Observatório de San Miguel, na Argentina, do qual era diretor, ao que a academia conimbricense resolveu responder com a permuta d'O Instituto com as publicações daquele Observatório. E se, em 1860, nos primeiros anos de vida do Instituto, a Direção manifestava um especial interesse em abrir relações com o Brasil, a verdade é que não faltaram ocasiões, nas décadas posteriores, de se materializar essa intenção. Neste caso registam-se iniciativas individuais, como a do sócio Gastão de Bettencourt que, em 1946, propôs ocupar-se no Brasil das relações culturais deste país com o Instituto. Um outro sócio, desta vez correspondente em Itália, o orientalista Enrico Gerardo Carpani, agradecendo a sua nomeação, propõe o estabelecimento de um intercâmbio de publicações científicas com a Università Cattolica del Sacro Cuore de Milão. Para além disso, nessa mesma carta, datada de 29 de janeiro de 1946, dirigida ao presidente do Instituto, Carpani questiona quais as entidades científicas e culturais com que o Instituto se relaciona, para que se examinasse a possibilidade de dar curso a novos contactos e tornar mais vivas as relações culturais entre Portugal e Itália. 

No mesmo ano, a secretária-geral da Société des Gens de Lettres de França e administradora da Maison de Poésie, Madame George-Day, eleita associada correspondente do Instituto, propõe o fomento de relações entre as duas associações, referindo as que já tinham sido encetadas com outros países. Ainda em 1946, a Real Academia Galega manifestou interesse em desenvolver relações culturais com o Instituto, por intermédio do professor Ogando Vázquez e do Instituto de Enseñanza Media de Lugo, ao qual pertencia. Esta academia galega convidava então o Instituto de Coimbra a tomar parte na homenagem às letras portuguesas projetada para esse ano, em Lugo. 

Da correspondência remetida ao Instituto de Coimbra assinalamos ainda a carta do cônsul geral da Costa Rica em Portugal, João Anastácio Gomes, em 31 de março de 1895, pedindo à Direção um contributo para a secção portuguesa do Museu Pedagógico que o Governo da República da Costa Rica pretendia criar. O auxílio poderia consistir em “qualquer escrito ou objeto” relacionado com métodos de ensino, regulamentos, relatórios de instrução, etc.

Do Instituto partiu o incentivo para a constituição de outras sociedades, como aconteceu em 1897, durante a presidência de Bernardino Machado. Em 4 de abril desse ano, o catedrático da Faculdade de Filosofia presidiu à reunião preparatória dos sócios fundadores da Sociedade de Antropologia de Coimbra, onde foi aprovado o projeto de estatutos. Aqueles eram na sua maioria igualmente sócios do Instituto. Esta academia serviu também, mais tarde, de sede das reuniões da secção de Coimbra da Sociedade Portuguesa de Biologia, constituída em 1927, incluindo alguns sócios do Instituto (cf. O Instituto, 74: 355). Anos depois, em sessão de assembleia geral de 14 de novembro de 1932, “Alberto Pessoa anunciou a constituição da secção de Coimbra do Grupo Nacional aderente ao Comité Internacional de História das Ciências, e propôs que o Instituto autorizasse a instalação e funcionamento da Secção” no seu edifício, o que foi aprovado (O Instituto, 84: 639). Desta forma, o Instituto tomava parte e mantinha um relacionamento muito próximo nas associações que trabalhavam no nosso país para o cultivo das ciências.

As relações científicas e culturais do Instituto de Coimbra intensificaram-se vivamente durante a presidência de Francisco Miranda da Costa Lobo, que se estendeu de 1913 até 1945. O período foi longo mas todo ele preenchido de uma forte ação, principalmente no contexto científico, a nível nacional e internacional. Em grande parte, esse dinamismo ficou a dever-se à figura de Costa Lobo. Reconhece-se ao longo do seu trabalho uma constante preocupação com a abertura da comunidade científica ao intercâmbio de saberes, contactando ele próprio com eminentes personalidades do mundo académico de especial relevo no estrangeiro. Tornou-se assim membro de diversas sociedades de renome, como a Royal Astronomical Society, de Londres, o Bureau des Longitudes, de Paris, ou a Real Academia de Ciências de Madrid, tendo ainda recebido o prémio Janssen da Academia das Ciências de Paris (1926).

A presidência de Costa Lobo colocou o Instituto no roteiro da comunidade científica internacional, participando nos eventos mais marcantes daquele período. Nesse aspeto, beneficiou o Instituto da extensa rede de amizades de Costa Lobo, assim como das comissões que desempenhou em representação não apenas do Instituto mas ainda da Universidade e do Governo português.

Entre os factos de maior relevo encontra-se a criação da Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências e suas relações com a congénere espanhola, que se concretizaram primeiro na presença nos congressos espanhóis e depois na realização conjunta dos Congressos Luso-Espanhóis para o Progresso das Ciências, iniciada no Porto em 1921. Foi em 1917 que começou a tomar forma a Associação Portuguesa, impulsionada por Gomes Teixeira, reitor da Universidade do Porto e primeiro diretor da Associação, e Costa Lobo, que logo nesse ano, no congresso de Sevilha, comunicaram aos colegas espanhóis a recente formação e procuraram estreitar relações. De acordo com os seus Estatutos, esta Associação constituía-se como uma federação de sociedades científicas, entre as quais constava o Instituto de Coimbra. Quando se realizou em Coimbra o terceiro Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências, em 1925, o Instituto prestou todo o apoio à organização[65]

Costa Lobo deu conta n'O Instituto da sua missão como representante do Governo e do Instituto de Coimbra na fundação da União Matemática Internacional, no Congresso de Estrasburgo em 1920, bem como no Congresso de Toronto em 1924. A origem desta corporação processou-se do seguinte modo: na conferência de Bruxelas de julho de 1919 foram aprovados os estatutos de um órgão geral, o Conseil International des Recherches, reunindo as academias científicas de vários países, instalando-se em dependência diferentes organismos especiais, como a União Astronómica Internacional ou a União Internacional para a Bibliografia e Documentação. Os matemáticos formaram nessa ocasião uma união provisória, convocando um congresso para setembro de 1920. Aí, em Estrasburgo, foram aprovados os estatutos da Union Mathématique Internationale. Costa Lobo apresenta uma exposição detalhada da sua missão, de como decorreu o congresso, do seu programa, das suas observações em Estrasburgo, nomeadamente da respetiva Universidade. São publicados na revista (vols. 67-68) alguns discursos, conferências e depois os Estatutos da União Matemática Internacional. 

Acresce até a percentagem de livros recebidos de além-fronteiras. As próprias instituições de ensino intensificaram as ligações com o Instituto de Coimbra, associado à Universidade. Assim, em 1917 recebeu um convite do reitor da Universidade Central de Madrid para visitar aquele estabelecimento. De facto, no ano seguinte, Costa Lobo dava conta da “amável receção” que tivera em Madrid, especialmente pela Real Academia de Jurisprudência, presidida por Antonio Maura, e pelo Instituto Nacional de Previdência, presidido por José Marvá, sublinhando que “as atenções que lhe dispensaram (...) são devidas (...) à muita consideração de que o Instituto goza” (O Instituto, 65: 177).

A Academia Francesa convidou o Instituto a participar no seu terceiro centenário, em 1935. O sócio representante nestas celebrações foi o próprio presidente Costa Lobo, que no volume 88 da revista deu conta da sua viagem, enumerando as cerimónias organizadas, descrevendo os lugares visitados e referenciando os mais ilustres participantes, de França e de outras nações. A comitiva portuguesa integrava igualmente Luís Carrisso, em representação da Universidade de Coimbra, e Moses Amzalak, pela Academia das Ciências de Lisboa. Destacou neste relatório as palavras de Alfred Baudrillart e as do presidente da Academia Gabriel Hanotaux, referindo ainda a simpatia demonstrada ao nosso país.



[63] Livro de Atas da Direção, 3 de dezembro de 1890 e 20 de abril de 1894.

[64] Livro de Atas da Direção, sessões de 8 e 25 de maio, 18 e 27 de novembro de 1876.

[65] O Arquivo do Instituto de Coimbra contém, sobretudo na série da Correspondência, um relevante conjunto documental relativo à Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências, decorrente do envolvimento da academia ou de membros da Direção, como Joaquim de Carvalho, na organização dos congressos.