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O Instituto e a Universidade de Coimbra

Tal como tem sido aludido ao longo destas páginas, o Instituto de Coimbra é uma academia praticamente indissociável da Universidade, no seio da qual nasceu. Vimos no capítulo “Origens do Instituto” que este surgiu no meio académico, impulsionado por indivíduos que tinham como laço comum a Universidade de Coimbra e que, paralelamente aos estudos universitários, se reuniam em grupos ancorados naquela instituição de ensino superior. Esta origem para sempre marcou a substância do Instituto de Coimbra, que foi, até aos últimos dias, uma academia científica enraizada naquela centenária Universidade.

Já em 1937 o diretor da Biblioteca Municipal de Coimbra, José Pinto Loureiro, ao prefaciar o primeiro volume de índices da revista O Instituto, que o próprio organizou, aludia à inevitabilidade de trazer a lume as relações com a Universidade, na hora de historiar o Instituto: “quando chegar a hora de ser trazido a público o relato circunstanciado da sua vida, e das suas estruturais ligações com a Universidade, nele avultarão, como num políptico glorioso, os mais eminentes nomes que ecoaram em Portugal durante o século XIX e primeiro quartel do século XX, e imorredoiramente sobressaíram no professorado, na política, nas letras, nas ciências e nas artes, bem como brilhantes personalidades estrangeiras de reputação mundial” (p. VI).

Esse nó manifesta-se, imediatamente, na composição das sucessivas Direções do Instituto, todas elas constituídas por indivíduos provenientes da Universidade de Coimbra, na grande maioria professores. Ora, uma tal formação dos órgãos de gestão do Instituto, associada à sua localização, configuram os fatores decisivos da perfeita relação entre o Instituto e a Universidade, de tal forma que, apesar de autónomo, o Instituto era muitas vezes olhado como parte integrante da Universidade. Assim, não surpreende que esse relacionamento tenha sido, em geral, harmónico, até porque o Instituto constituía uma espécie de extensão universitária, capaz de completar a missão da Universidade. Pode-se dizer que, aparentemente, o Instituto deixou de ter cabimento quando as alterações estruturais na Universidade foram promovendo a sua autossuficiência em termos de investigação e de função cultural. Ou seja, em concreto, a difusão dos centros de investigação e suas publicações, e a associação de estruturas culturais na Universidade terão progressivamente esvaziado de conteúdo e de significado a missão do Instituto, mas isso precisamente na medida em que ele estava demasiado “colado” à Universidade.

Vejamos, pois, em tópicos concretos, qual era a medida dessa dependência. Quando percorremos os edifícios que alojaram o Instituto de Coimbra, percebemos que todos eles estiveram, de uma forma ou de outra, ligados à Universidade ou a ela pertencentes. A partir daí, são frequentes as menções de agradecimento à reitoria pela cedência de espaços ou pelo auxílio no seu melhoramento. No tempo em que o Instituto morou no Colégio dos Paulistas, várias foram as concessões da Universidade relativas ao edifício. Vejamos algumas. Em 1875, a Universidade cede ao Instituto todas as salas do primeiro andar em troca do último andar, onde se encontrava a coleção de jornais (Livro de Atas da Direção, 5 de julho de 1875). Em 1887, a Direção agradecia ao reitor da Universidade o arranjo do telhado do edifício (idem, 29 de janeiro de 1887). 

Igualmente nas várias alterações efetuadas à sede por altura da renovação do museu ficou registada a colaboração do reitor da Universidade. De facto, o reitor Costa Simões assumiu a responsabilidade de entregar ao Instituto, em 1898, as salas que restavam para que todo o edifício ficasse na posse da academia, propondo a sua utilização para o alargamento do museu. Este período, coincidente com a presidência de Bernardino Machado, caracteriza-se ademais por uma maior proximidade com a vida académica, em particular nos saraus oferecidos pelo Instituto aos estudantes da Universidade.

Apesar de todas as intervenções, o Colégio dos Paulistas continuava a carecer de obras, como se declara na ata da reunião da Direção de 26 de fevereiro de 1910: o 1º secretário falou da “necessidade urgente de várias reparações no edifício do Instituto, tais como consertos dos telhados, do soalho do salão, dos caixilhos das janelas”, resolvendo-se pedir ao reitor da Universidade para “mandar fazer esses consertos pela verba das obras universitárias, como se tem feito outras vezes, atendendo a que o edifício pertence à Universidade” (Livro de Atas da Direção). De qualquer modo, tanto pela insuficiência do espaço como pela vontade de cooperação, o certo é que por muitas ocasiões foi a Sala dos Capelos da Universidade emprestada para conferências e sessões comemorativas do Instituto. Contudo, neste caso, não é apenas uma questão de espaço, é claramente o realizar de um interesse comum, uma vez que, em grande número destas sessões, encontrava-se na mesa um representante da reitoria, quando não o próprio reitor, fossem ou não efetuadas na sede do Instituto.

Por sua vez, o Instituto manifestou adesão a diversas iniciativas da Universidade, associando-se a esta em homenagens ou comemorações. Por exemplo, em 1918 foi resolvido contribuir para a consagração que a Universidade de Coimbra planeava tributar ao eminente botânico Júlio Henriques (que, aliás, fora presidente do Instituto), dedicando-lhe um número completo da sua revista. Nessa mesma data, o Instituto beneficiou de uma missão científica de professores de Medicina de Espanha, em visita à Universidade conimbricense, através de uma conferência de Gómez Ocaña, o líder da missão, sobre “El criterio fisiologico aplicado a los sucesos humanos”.

A maior demonstração de amizade ocorreu na colaboração do Instituto nas comemorações do 4º centenário da instalação definitiva da Universidade em Coimbra. Na assembleia geral em que a colaboração foi decidida, a 4 de abril de 1936, vários sócios tomaram a palavra para se pronunciarem sobre o assunto, nomeadamente, Anselmo Ferraz de Carvalho, Diogo Pacheco de Amorim, Joaquim de Carvalho, Rocha Brito, Rocha Madahil, Pinto Loureiro, Vergílio Correia e Gumersindo da Costa Lobo. Os oradores referiram-se ao facto de o Instituto ter sido criado “por iniciativa dos professores da Universidade de Coimbra que constantemente lhe têm dado valioso e eficaz apoio” (O Instituto, 90: 386), e que também o Instituto se havia empenhado para elevar o prestígio da Universidade. Decidiu-se que a colaboração do Instituto consistiria sobretudo numa sessão solene e numa publicação incidindo sobre a evolução científica da Universidade em conjunto e nos seus vários ramos. Na prática, esta publicação efetuou-se na 1ª parte do volume 92 d’O Instituto.

Uma prova inequívoca da íntima conexão entre Instituto e Universidade provém do facto de, em dezembro de 1859, a Classe de Ciências Morais e Sociais ter decidido admitir como sócios alunos da Universidade que se destacassem por mérito literário e científico, sem necessidade da prova regulamentada (Livro de Atas da Classe de Ciências Morais e Sociais, sessão de 10 de fevereiro de 1859). Neste contexto da atividade das Classes, deve-se recordar que muitos dos temas lançados para debate estavam relacionados com a organização dos estudos na Universidade. 

Nada mais expressivo do que a proposta apresentada por um sócio à Classe de Ciências Físico-Matemáticas, em sessão de 2 de dezembro de 1874, para que n’O Instituto “se publicassem regularmente os extratos das sessões à semelhança do que se pratica no estrangeiro, a fim de se tornar público que os professores da Universidade, fora das horas destinadas ao ensino oficial, também se entretinham com trabalhos de reconhecida utilidade” (Livro de Atas da Classe de Ciências Físico-Matemáticas). Ou seja, o que esta proposta, que a Classe aprovou, sugere tem a ver com duas coisas: de um lado, o modo como é formulada dá a entender que o Instituto de Coimbra é uma academia de professores da Universidade; de outro, entende esta academia como um complemento do trabalho universitário desses professores. Não é por acaso que o Instituto chegou a ser apelidado de “Clube dos Lentes”.

Publicando-se O Instituto por muitos anos na Imprensa da Universidade, também por essa via se propiciavam os laços entre ambos. A revista foi solicitada pelo reitor da Universidade para servir este estabelecimento na troca com outras publicações, imprimindo-se para esse efeito mais alguns exemplares (Livro de Atas da Direção, 18 de novembro de 1889). Em boa parte, era a revista O Instituto que congregava os interesses não só de professores mas também dos alunos mais aplicados, como via de publicação dos seus trabalhos. 

A partir do momento em que, pela portaria de 5 de setembro de 1853, uma parte da revista teria que ficar reservada para o Conselho Superior de Instrução Pública e para a Universidade, os responsáveis do Instituto procuraram “converter esta obrigação numa verdadeira vantagem, estreitando o mais possível as relações do Instituto com aqueles estabelecimentos”. Nesse sentido nas diferentes faculdades foram “nomeadas comissões para coligirem e reverem trabalhos já feitos, ou fazerem-nos de novo”, para serem publicados. O auxílio era mútuo, visto que “muitos artigos que dali recebemos ainda não teriam visto a luz pública tão desafrontadamente se o Instituto não existisse” (O Instituto, 3: 238). Ou seja, O Instituto revelou-se muito útil para os investigadores da Universidade, no sentido de divulgarem numa revista que adquiriu grande prestígio os resultados dos seus estudos e pesquisas[66]. No caso dos formandos, é de assinalar que O Instituto publicou alguns trabalhos e mesmo teses e dissertações de alunos.

O Instituto assumiu-se, em particular durante a presidência de Bernardino Machado, como uma academia que premiava os melhores alunos da Universidade, admitindo-os no seu grémio. Esse pormenor é notado pelo diário O conimbricense ao noticiar a eleição de sócios. Por exemplo, entre os efetivos votados em novembro de 1901, encontravam-se “todos os estudantes da Universidade que foram classificados no ano letivo findo com partidos, prémios e accessits” (O conimbricense, 26.11.1901).

Considerando o núcleo dos associados do Instituto aquele que é composto pelos sócios efetivos, que são os que, de acordo com os Estatutos, intervêm na organização e direção do Instituto, na medida em que o seu voto é o que conta nas assembleias gerais, e sabendo que os efetivos eram, por norma, residentes em Coimbra, compreende-se que o Instituto manifestasse esta tendência de se aproximar da Universidade. Esses sócios efetivos são, a maioria, professores das várias faculdades, e isso desde o princípio ao fim da história da academia, porque, de facto, o Instituto era uma academia de intelectuais, e porque estes, numa cidade como Coimbra, pertenceriam ou teriam passado pela Universidade. Esta fazia de Coimbra, precisamente, um dos centros intelectuais do país, e daí que emergisse a ideia de dotá-la também de uma academia científica e literária, à imagem das de Lisboa, e mesmo das europeias. Em síntese, as condições específicas do ambiente coimbrão levaram à combinação de Instituto e Universidade, saindo ambos reforçados.



[66] É um dado que observaremos com mais pormenor no capítulo O Instituto.