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Sedes

As itinerâncias do acaso levaram a que o património do extinto Instituto regressasse ao local de partida. Ou seja, atualmente, o espólio desta academia encontra-se na Biblioteca Geral da Universidade, a qual se situa sobre as fundações da antiga Faculdade de Letras, e esta, por sua vez, fora erguida sobre as ruínas do Colégio Real de São Paulo Apóstolo, primeira sede do Instituto de Coimbra. Mandado edificar por D. João III em 1549, supõe-se que no ano seguinte ter-se-á iniciado a construção, de um edifício que se destinava a alojar clérigos indigentes a estudar na Universidade. O mesmo rei, nesse sentido, ordenou, por carta de 23 de outubro de 1562, que o prédio fosse incorporado na Universidade, ainda antes da sua inauguração solene, a 2 de maio de 1563. Serviu, para mais, de Colégio secular de doutores e licenciados que se propunham aceder ao magistério universitário.

Com o terramoto de 1 de novembro de 1755, sofreu sérios danos, que em breve levaram reparação. Chegada a época da implantação do liberalismo, foi, como tantos outros, atingido pelo decreto de extinção das ordens religiosas, e no seguimento entregue à Universidade, por portaria de 27 de outubro de 1836. Dois anos mais tarde, a Nova Academia Dramática recebe o antigo Colégio para aí se instalar, juntamente com o seu teatro, mediante autorização da Universidade. Realizaram-se obras de adaptação do claustro a sala de espetáculos, após o que se inaugurou o Teatro Académico, a 24 de junho de 1839.

Por carta de lei de 15 de setembro de 1841, legalizava-se a concessão definitiva do usufruto do edifício, de que a Nova Academia Dramática tomou posse (da parte principal) em 8 de março de 1842. Algumas secções do prédio, como anexos e pequenos quintais, permaneceram em plena posse da Universidade que, aliás, viu reforçado o seu direito de propriedade sobre o Colégio por decreto de 21 de novembro de 1848. Outras associações académicas estiveram nele instaladas, como é o caso da Assembleia Académico-Filarmónica de Coimbra (com estatutos promulgados em 1844), que usava igualmente o Teatro Académico para dar os seus espetáculos; ou ainda, anos depois, o Clube Académico de Coimbra, fundado em 1861, e que em 1866 se fundiu com a Academia Dramática.

Naturalmente, o Instituto, dissidente da Academia Dramática, encontrou naquele Colégio a mais imediata hipótese de se instalar, embora consciente de que, quando surgisse oportunidade, o mais sensato seria mudar para um espaço próprio, que cortasse qualquer tipo de dívida para com o órgão de onde proveio. De início, pois, o Instituto teve de socorrer-se da boa vontade dos responsáveis da Academia Dramática. Seguindo as Atas do Conselho desta Academia, verificamos que, logo em março de 1852, o presidente do Instituto (Adrião Forjaz) oficia ao Conselho a pedir uma concessão interina do Gabinete de Leitura, “enquanto se não terminasse o contrato com a Assembleia Académica”, outra associação que no momento se achava ali alojada. Aquele acedeu ao pedido, sendo a concessão temporariamente gratuita, “pagando o referido Instituto a esta Academia Dramática, desde a definitiva extinção da Assembleia Académica, com a prestação razoável que então se convencionará, isto no caso de a Academia Dramática não precisar do referido gabinete” (Livro de Atas do Conselho da Academia Dramática, sessão de 17 de março de 1852).

Ao que parece, ter-se-á extinto a Assembleia Académica logo no mês seguinte, uma vez que, em sessão de 28 de abril de 1852, se menciona a “Assembleia hoje substituída pelo Instituto de Coimbra”. Com efeito, a Academia Dramática discutia naquela sessão como administrar as dívidas e os bens deixados pela Assembleia Académica, decidindo ficar com as suas instalações, no mesmo Colégio, das quais fazia parte o Gabinete de Leitura solicitado pelo Instituto (e que provavelmente constituía então o seu único chão), de modo que se resolveu participar ao Instituto que, caso pretendesse continuar a usufruir do espaço, ficaria obrigado a entregar à Academia Dramática a quantia de 24 mil réis anuais, pagos aos trimestres.

A estratégia da Direção do Instituto parece ter sido a de guardar silêncio, pois a Academia Dramática viu-se constrangida a enviar um ofício ao Instituto exigindo uma resposta acerca do arrendamento do gabinete, passados quase dois meses. Até ao fim de 1852, continua a não haver registo de uma resposta. Mesmo assim, o Conselho da Academia julgou atendível o pedido que o Instituto lhe endereçou de empréstimo do salão para uma sessão solene a 19 de dezembro de 1852. No entanto, geraram-se certas desavenças quanto ao uso de cadeiras pertencentes à Academia Dramática (sessão do Conselho de 11.3.1853). A situação vai-se mantendo mais ou menos equilibrada, até que o Instituto obtém a concessão de uma parte do Colégio, por portaria de 5 de setembro de 1853.

Esta disposição, que responde em simultâneo a duas necessidades da academia emergente, veio participada ao vice-reitor da Universidade de Coimbra, depois de assinada pelo ministro e secretário de estado dos Negócios do Reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães. Resulta da solicitação que o Instituto enviou à rainha D. Maria II para que se imprimisse na tipografia da Universidade, por conta do Estado, O Instituto, e para que lhe fosse atribuído um local para as suas sessões. A resposta do Governo baseia-se nestas premissas:

- é necessário promover e difundir os conhecimentos científicos e literários;

- o edifício do Colégio de S. Paulo é suficiente para alojar a Academia Dramática e o Instituto de Coimbra;

- a comunhão de espaço favorece a coadjuvação científica e literária entre estas duas associações.

E assenta nos seguintes documentos:

- as ponderações feitas pelo Conselho Superior de Instrução Pública em 15 de junho de 1852, e pelo vice-reitor da Universidade no ofício de 18 de junho de 1853;

- o art. 169 da lei de 20.9.1844, que autoriza o Governo a mandar imprimir nas imprensas nacionais de Lisboa e Coimbra os jornais necessários para se promover o progresso e aperfeiçoamento de todos os elementos científicos, literários e artísticos; e o art. 168 da mesma lei, que autoriza o Governo a colocar os estabelecimentos literários e científicos nos edifícios nacionais mais apropriados aos seus usos.

Ordenando assim que:

1º Na tipografia da Universidade seja impresso, por conta do Estado, o jornal do Instituto, pela despesa anual de 150$000 réis, mediante as seguintes condições:

- que o papel para a impressão do jornal seja fornecido pelo Instituto;

- que metade das colunas do jornal seja reservada para a parte oficial do Conselho Superior de Instrução Pública e das Faculdades, e para o movimento dos hospitais da Universidade, sua receita e despesa, e para outras indicações mencionadas no art. 107 da lei de 20.9.1844;

- que esta concessão e suas cláusulas durem enquanto a publicação não se desviar dos fins úteis com que é criada e o Conselho Superior de Instrução Pública não criar um jornal próprio.

2º Na parte disponível do edifício do Colégio de São Paulo seja definitivamente estabelecido o Instituto de Coimbra, sem que a este seja cobrada a renda com que até agora tem contribuído.

Desde logo, a Academia Dramática opõe-se acerrimamente (sessão de 26.10.1853), por considerar a dita portaria contrária à carta de lei de 15 de setembro de 1841, nomeadamente no artigo 19º, que afirma: “É concedido à associação intitulada Nova Academia Dramática (enquanto se reger por Estatutos aprovados pelo Governo) o usufruto do edifício do Colégio de S. Paulo” (Estatutos, 1849: IV). Observando que, na verdade, o Instituto não paga qualquer renda, o Conselho reúne de urgência a 27 de janeiro de 1854, queixando-se do “modo desleal” e “maquinações” com que o Instituto de Coimbra, inquilino de algumas salas da Academia Dramática, tentava “esbulhá-la” da posse das ditas salas, procurando apropriar-se da melhor parte do edifício do Colégio de São Paulo. Pelo que ficou registado neste Livro de Atas do Conselho, parece que o Instituto de Coimbra não chegou a pagar nada à Academia Dramática, e, por outro lado, mesmo depois da portaria de 5.9.1853, o espaço continuava insuficiente e obrigava o Instituto a pedir o empréstimo de salas à Academia.

Por ocasião da visita do rei D. Luís I e da rainha D. Maria Pia de Saboia a Coimbra, em dezembro de 1863, a Direção do Instituto colheu a oportunidade para solicitar de Sua Majestade uma nova casa, dirigindo-lhe uma representação, que o jornal A liberdade publica, a 17 de setembro de 1863. De acordo com o articulista, “o Instituto de Coimbra, que hoje conta no seu seio as ilustrações maiores nacionais, e muitas estrangeiras, que muitos serviços prestam à instrução do país, e à boa morigeração dos estudiosos mancebos da Universidade, por ocasião da felicitação que dirigiu a El Rei e Rainha D. Maria Pia, expôs a necessidade de casa para o Instituto poder exercer condignamente o seu importante mister em prol da instrução e educação pública, lembrando um edifício, que hoje serve de depósito a livros de livrarias findas”. Esse edifício seria, precisamente, a próxima sede do Instituto, o Colégio de São Paulo Eremita, ou Colégio dos Paulistas, situado a curta distância daquele onde residia. Em resumo, a alegação que o presidente do Instituto, Jerónimo José de Melo, apresentou e entregou ao Ministro do Reino na presença do rei baseava-se em dois argumentos: a necessidade de um edifício condigno para uma academia científica que deseja expandir-se, e o proveito que se retiraria de distribuir aqueles livros pelos estabelecimentos que deles obteriam vantagem, em vez de repousarem inutilizados. O jornal acrescenta que “o Ex.mo ministro foi no dia imediato, apenas se levantou, ver a casa indicada, e assegurou ao presidente da direção que tomava na mais séria consideração a requisição do Instituto” (A liberdade, 13.12.1863).

Essa “casa indicada” viria a ser uma morada de longa duração, entre as que mais tempo abrigaram o Instituto. Esperaria quase cinco anos depois daquela solicitação, mas alcançaria os seus intentos. Situado na Rua Larga, o Colégio de São Paulo Eremita foi o último colégio a ser fundado em Coimbra. A sua origem data da concessão de edifícios na Rua Larga aos religiosos da Ordem de S. Paulo I, Eremita, por D. João V, confirmada depois da reforma pombalina, por provisão de 27 de setembro de 1779, para aí fundarem um colégio. Já depois de começarem as obras, o Colégio foi incorporado na Universidade pela provisão de 28 de maio de 1782. Não chegou a ser construído na totalidade: permaneceu inconcluso até à sua demolição em 1949. Com a extinção das ordens religiosas, passou para a posse do Estado em 1834 e, por portaria de 27 de outubro de 1836, foi cedido à Universidade. O decreto de 21 de novembro de 1848 reconhece o direito de propriedade da Universidade de Coimbra sobre ele e destina-o ao Conselho Superior de Instrução Pública. De facto, a partir desta data até 1859 nele funcionou este organismo, extinto pela lei de 7 de junho desse ano.

Por portaria de 10 de outubro de 1859, o edifício do Colégio foi destinado a depósito dos livros dos extintos conventos e colégios e para prisão académica. Efetivamente serviu o primeiro objetivo, mas não chegou a servir de prisão. Mais tarde, uma nova portaria, de 10 de janeiro de 1867, dava destino aos livros nele armazenados, autorizando o reitor a guardar aqueles que não existissem na Biblioteca da Universidade, ficando os restantes condenados à venda em hasta pública (Rodrigues, 1990: 240). Sendo assim, o espaço ficava livre para a entrada do Instituto, o que sucedeu por ordem da portaria de 5 de junho de 1868, cedendo a Universidade, com autorização do Governo, o andar nobre do Colégio dos Paulistas, que se tornou, assim, a segunda sede do Instituto. A intervenção do presidente António Augusto da Costa Simões terá sido decisiva para a benesse (O Instituto, 43: 260). Eis o conteúdo da portaria:

Ministério do Reino – Direção-Geral de Instrução Pública – 2ª Repartição – Lº 27-nº 502. Foram presentes a Sua Majestade os ofícios do Conselheiro Vice-Reitor da Universidade de Coimbra de 29 de maio e de 2 de junho remetendo as petições da Direção do Instituto de Coimbra, em que a mesma Direção solicita que lhe seja concedido estabelecer a sua sociedade nas salas do Colégio dos Paulistas onde atualmente se acham os livros do Depósito, destinados para a Biblioteca da Universidade, oferecendo ceder as três saletas que ocupa no edifício do antigo Colégio de S. Paulo, para nelas serem colocados os ditos livros até se poder verificar a sua remoção para a Biblioteca, assim como a fazer a despesa necessária com a transferência requerida; e conformando-se o mesmo Augusto Senhor com as informações do Prelado e do Lente Bibliotecário, há por bem anuir à petição do Instituto pela forma indicada, cedendo este as saletas para a colocação dos livros, e correndo por ele não só as despesas com a remoção, mas também a das estantes novas ou da mudança das próprias estantes em que atualmente se acham, conforme parecer mais acertado.O que assim se participa ao Conselheiro Vice-Reitor da Universidade de Coimbra para seu conhecimento e efeitos devidos.
Paço em 5 de junho de 1868. Conde de Ávila.

Pouco depois, em 1870, foram vendidos ao livreiro francês Demichelis os livros dos colégios extintos, ficando o rés do chão do edifício definitivamente desocupado. Assim se possibilitou a realização de obras nessa divisão, a expensas da Universidade, que era a proprietária do domínio útil do edifício, para a instalação do Museu de Arqueologia do Instituto. Com efeito, em 1873, o reitor, Visconde de Vila Maior, autorizou a instalação do Museu do Instituto em duas salas do pavimento inferior do edifício do Colégio de S. Paulo Eremita.

Enquanto morador deste edifício, o Instituto acedeu a partilhar o espaço com associações científicas e recreativas que o solicitaram. No final de 1877 e princípio de 1878, a Sociedade de Estudos Médicos de Coimbra pediu para as suas reuniões o andar superior do edifício do Instituto. Antes de assinar o contrato, a Direção do Instituto quis assegurar-se de que as divisões eram convenientemente esteiradas pela Sociedade, de forma a não perturbar os leitores da biblioteca. Após negociações, a Direção do Instituto autoriza a Sociedade de Estudos Médicos a sediar-se no Colégio de São Paulo, na condição de poder ser despejada no caso de o Instituto necessitar do espaço. Duas cláusulas do contrato, que aqui destacamos, informam-nos de que a iluminação do edifício se fazia por candeeiros a gás (“6. A Sociedade de Estudos Médicos terá contador e bicos de gás especiais”) e que o Instituto tinha a intenção de colocar o prédio no seguro (“7. A Sociedade de Estudos Médicos pagará metade do seguro anual que o Instituto fizer do edifício no valor de 3 contos de réis, e da sua mobília no valor de um conto e quinhentos mil réis”) (Livro de Atas da Direção, 27.2.1878).

Na mesma época, o edifício do Instituto chegou a ser palco de leilões de livros, geralmente de antigos sócios, como foi o caso do leilão dos livros do falecido João António de Sousa Dória, autorizado pela Direção em 15 de novembro de 1879. Existem pelo menos sete catálogos de leilões que se realizaram na sede do Instituto, o primeiro de 1877, para vender os livros de Francisco da Fonseca Correia Torres, cónego tesoureiro-mor da Sé de Coimbra e sócio do Instituto, e o último de 1887, destinado a leiloar 809 espécies pertencentes ao 2º Visconde de Vila Maior, Júlio Máximo de Oliveira Pimentel (1809-1884), igualmente sócio do Instituto[43].

Esta foi apenas uma situação transitória, que terá levado alguns dissabores à Direção do Instituto, que resolveu, assim, a 6 de novembro de 1880, “que para o futuro se não concedesse licença para no edifício do Instituto se fazerem leilões de livros ou de qualquer outra coisa” (Livro de Atas da Direção). Como acabámos de ver, porém, a medida ainda levou algum tempo a ser implementada. Não só os leilões, mas também o teatro que se fazia numa parte do Colégio, começavam a incomodar alguns sócios, que opinavam que seria mais conveniente o Instituto administrar todo o edifício. Para isso, era necessário convencer o reitor da Universidade da justiça das suas pretensões, e foi o que deliberaram fazer, em sessão de 11 de dezembro de 1880: “ponderou-se a conveniência de ser absolutamente proibido o teatro que existe nos baixos do edifício do Instituto, assim como de obter do reitor a concessão da casa habitada atualmente por uma mulher que está quase moribunda no mesmo edifício” (ibidem). Esta alusão a uma habitante pode hoje soar estranha a quem conhecer a Rua Larga e a zona do polo principal da Universidade de Coimbra, mas naquele tempo era uma zona de habitação, da qual muitos moradores foram desalojados para as obras da Cidade Universitária, em meados do século XX.

O teatro pertencia à Sociedade Recreativa das Famílias, que, tomando conhecimento daquela intenção, requereu para continuar a utilizar a parte do Colégio onde se achava instalada. A Direção do Instituto resolveu fazer-lhe a concessão apenas até 1 de outubro de 1881, devendo a partir daí a Sociedade libertar o espaço, “e que, em convenção escrita pelos requerentes, estes se obrigassem a participar a Epifânio Marques, com a antecipação de três dias, os dias de espetáculo e os de ensaio, para deixarem de funcionar no caso de serem esses dias destinados a serviço do Instituto incompatível com aquele” (Livro de Atas da Direção, 30.1.1881). A Sociedade Recreativa, no entanto, desrespeitou o prazo, pois que o Instituto se viu obrigado a intimar os diretores da mesma para entregarem as chaves e desocuparem a parte do Colégio de que usufruíam até ao dia 26 de novembro daquele ano (Livro de Atas da Direção, 10.11.1881).

Há que mencionar, por fim, outras instituições a quem o Instituto emprestou uma parte do espaço do antigo Colégio de São Paulo Eremita, e com as quais, necessariamente, conviveu. Em 1894, regista-se a concessão provisória de uma sala à Sociedade Filantrópico-Académica; em 1898, a recém-criada Sociedade de Antropologia obtém uma sala para as suas reuniões.

A propósito de um pedido da Faculdade de Letras endereçado ao Instituto no princípio de 1912, desvenda-se um pouco a forma como o Instituto e os seus sócios se relacionavam com o espaço onde residiam, através da seguinte resposta ao pedido (Livro de Atas da Direção, 6.2.1912):

Havendo apenas “uma única entrada para o edifício e, dentro deste, para o corredor para onde abrem todas as salas do Instituto, tornando-se assim inevitável o encontro constante dos alunos da Faculdade de Letras […] com os sócios que ainda hoje frequentam assiduamente a casa e se têm mantido no exato e escrupuloso cumprimento das suas obrigações estatuídas”;

Essa “promiscuidade, com o natural ruído, necessariamente embaraçaria o livre exercitar dos direitos desses sócios, que têm todo o jus a encontrar-se inteiramente à vontade no mútuo convívio de uns com outros; e, por outro lado, prejudicaria provável e sensivelmente os serviços das aulas que a douta Faculdade de Letras pretende fazer funcionar nas salas das revistas científicas, salas pequenas, com acesso direto para o corredor comum”;

“A direção do Instituto e o pessoal de guarda ficariam inteiramente privados de exercer qualquer fiscalização sobre os indivíduos frequentadores do Instituto”;

“A direção resolve, por voto unânime, não anuir aos desejos do diretor da Faculdade de Letras”.

Não obstante, no ano seguinte, a Direção acaba por anuir ao pedido do reitor da Universidade de cedência à Faculdade de Letras de dois gabinetes para instalação do Laboratório de Psicologia Experimental (sessão da Direção de 31.1.1913).

Por outro lado, o Colégio dos Paulistas foi, como vimos, o local de instalação do Museu de Arqueologia – depois de Antiguidades – do Instituto, para o qual várias intervenções se empreenderam, com o apoio quer da Universidade quer da Direção das Obras Públicas do Distrito, para além das contribuições individuais de sócios. Mas não só o espaço do Museu se foi melhorando, também a sala de conferências, as salas de leitura, corredores, etc. receberam intervenções, como se pode verificar percorrendo as atas da Direção. Em 1898, o reitor concedia ao Instituto as últimas salas do Colégio, com o objetivo de se alargar o Museu de Antiguidades, planeando-se uma intervenção no edifício. O projeto e o orçamento das obras foram elaborados por Franco Frazão, diretor das obras públicas do distrito, e o engenheiro João Teófilo da Costa Góis, diretor do serviço dos edifícios públicos do distrito (cf. assembleia geral de 4.6.1898). Em 1913, depois de transferida a coleção do Instituto para o Museu Machado de Castro, o Senado Universitário decide alojar no rés do chão deste Colégio a Associação Académica de Coimbra, o que se efetua em 1914. Em 1915 realizaram-se obras no edifício, bem documentadas nos papéis de despesa do Instituto (pagamento a trabalhadores e material de construção).

Saliente-se, por fim, que, enquanto ali esteve o Instituto, o arruamento conheceu três denominações: primeiro Rua Larga, em 1868 recebe o nome de Rua do Infante D. Augusto e, em 1911, muda o topónimo para Rua Cândido dos Reis – sendo que, atualmente, se chama de novo Rua Larga.

A chegada dos estudantes da Associação Académica haveria de despoletar uma nova transferência física do Instituto. Ocorreu na sequência do episódio chamado de Tomada da Bastilha, que relataremos brevemente. Tendo sido atribuído à Associação Académica de Coimbra, em 1913, o rés do chão do Colégio de São Paulo Eremita, passando deste modo a partilhar o prédio com o Instituto de Coimbra, que usufruía do andar superior e águas furtadas, em consequência de vagar o inferior por transferência da coleção arqueológica para o novo Museu Machado de Castro, fez-se a instalação, vindo a Académica de uma peregrinação por casas arrendadas ali na alta de Coimbra. A casa nova, concedida por iniciativa do reitor Guilherme Alves Moreira, voltava a juntar, como bem nota Alberto de Sousa Lamy, o Instituto com esta associação de estudantes, originária da Academia Dramática (cf. Lamy, 1990: 202).

Porém, a Académica não ficou totalmente satisfeita com o presente, pois “As instalações dos estudantes eram acanhadas, não oferecendo o rés do chão condições mínimas de higiene e de comodidade” (idem: 216). Os estudantes acabaram por conseguir a promessa de entrega do 1º andar, o que ficaria condicionado, naturalmente, à obtenção de novas instalações para o Instituto. De acordo com António de Vasconcelos, essa possibilidade chegou a ser discutida com o presidente do Instituto, Costa Lobo, que, juntamente com os restantes membros da Direção, asseverou não se opor à mudança. Costa Lobo terá dito que 

era o primeiro a reconhecer que a Associação Académica não tinha um edifício adequado, e que não havia a possibilidade de o adquirir na conjuntura presente com a verba que para esse fim havia sido concedida pelo Governo. Nestas condições, era até desejo seu cooperar para que a Associação Académica ficasse com todo o edifício do antigo Colégio dos Paulistas, mas que a Sociedade de que era Presidente, e que estava prestando, dizia, os melhores serviços ao país, não tinha recursos para obter edifício, onde se instalasse, e que se lhe afigurava portanto justo que a Junta Administrativa tomasse a seu cargo a instalação do Instituto em qualquer parte do edifício da Universidade, que estivesse disponível, e que custeasse as despesas necessárias para essa instalação.

António de Vasconcelos alega também que “Já a esse tempo o Presidente do Instituto sondara as disposições do Diretor do Museu de Machado de Castro, que de boa vontade concordaria, se isso fosse necessário, na instalação do Instituto na casa do arco do Bispo, anexa ao Museu, que facilmente, e com pequenas e rápidas obras, se adaptaria a esse mister” (Vasconcelos, 1987: 292-293).

No entanto, o tempo foi passando, e os estudantes da Associação Académica cansaram-se de esperar: “Na madrugada de 25 de novembro de 1920, uma quinta-feira, um grupo de 40 estudantes, em assalto noturno e burlesco ao 1º andar do Colégio dos Paulistas, apoderou-se das instalações do Instituto de Coimbra ou Clube dos Lentes” (Lamy, 1990: 216). Toda a cidade ficou a conhecer o feito, que “foi festejado com repiques de sino na Torre, gaiteiros, filarmónicas e foguetes” (Soares, 1985: 60). O reitor era então Filomeno da Câmara Melo Cabral, que poucos anos antes havia presidido à Direção do Instituto. Segundo se conta, o reitor geriu a situação com bonomia e tranquilidade: “O Dr. Filomeno da Câmara, velho e bondoso reitor, perdoou aos estudantes e transferiu o Instituto de Coimbra para o Arco do Bispo, junto ao Museu Machado de Castro” (Lamy, 1990: 218).

Em relação à forma como o assalto teve lugar, existem testemunhos contraditórios, uns abonam a favor dos estudantes, outros nem tanto. De acordo com Artur Ribeiro (2002: 156), a tomada do 1º andar do Colégio dos Paulistas terá sido ordeira, porque o objetivo do grupo era obter a casa e não vandalizá-la: “ocupado o primeiro andar do edifício, um dos cuidados prioritários foi o de reunir os móveis, livros e outro património pertencente ao Instituto de Coimbra e acondicionar tudo num único espaço devidamente resguardado e selado, não dando azo a qualquer reclamação dos seus proprietários nesse sentido”. 

No entanto, um outro depoimento refere que se perdeu documentação do Instituto neste ato de rebelião. Numa carta enviada por Humberto Cruz ao antigo secretário António Gomes da Rocha Madahil, em resposta a um pedido de informações sobre um sócio eleito em 1901, o escriturário do Instituto comenta: “Como V. Exª sabe, o arquivo e biblioteca foram seriamente mutilados com o assalto da bastilha, sendo difícil encontrar correspondência muito atrasada, no entanto vai fazer-se uma busca na papelada que se salvou mas que ainda não foi possível ao nosso arquivista a sua ordenação” (Cópias da Correspondência Expedida, 8.2.1966).

A solução que emergiu foi alojar o Instituto no Arco do Bispo, antigo arco de Coimbra, situado sobre a Couraça dos Apóstolos. Segundo F. A. Martins de Carvalho (1942: 185-186), “foi edificado pelos anos de 1800, pelo Bispo Conde de Coimbra, D. Francisco de Lemos Faria Pereira Coutinho, com o fim de sobre ele estabelecer uma comunicação entre as dependências do paço episcopal e a sumptuosa igreja do antigo Colégio dos Jesuítas, que em 1772 passou para a posse do cabido e a servir de Sé Catedral”. Esta seria, portanto, a terceira sede do Instituto de Coimbra, desde novembro de 1920, em consequência de uma evacuação forçada. De acordo com Anselmo Ferraz de Carvalho (O Instituto, 108: 2-3), foi por intervenção de António Augusto Gonçalves que o Instituto se transferiu para o Arco do Bispo: “a Associação Académica veio instalar-se nas salas do Instituto que ficaram devolutas pela transferência do Museu de Antiguidades para o Paço Episcopal. Os estudantes, que tinham sido despojados da casa que para eles se ia construindo, tomaram violentamente posse de todo o edifício do Instituto de Coimbra, que assim estava condenado a desaparecer, perdendo-se a sua rica biblioteca. António Augusto Gonçalves salvou-o, promovendo o seu estabelecimento em salas anexas ao Museu Machado de Castro”. Também Augusto Nobre, Ministro da Instrução, e Guilherme Moreira, antigo reitor, mereceram um agradecimento especial do presidente Costa Lobo pelo apoio que prestaram às negociações da transferência da sede (assembleia geral de 13.2.1921). Por aqui se vê que o Instituto teve que batalhar para obter a concessão deste edifício (cf. sessão da Direção de 25.2.1923). 

Antes de ser demolido, em 1950, o Arco do Bispo sofreu diversas intervenções para melhoramento do espaço ao longo das décadas de 1920 e 1930, comprovadas por documentos de despesa do Instituto. No relativo pouco tempo que permaneceu no Arco do Bispo, registe-se o plano de obras a realizar na biblioteca proposto por Alberto Pessoa (cf. sessão da Direção de 20.3.1928). Em 1932, obras importantes se concluíram no Arco do Bispo, que o presidente solicitara com insistência desde 1925, agradecendo à Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais a intervenção no processo (cf. assembleia geral de 14.11.1932). 

Apesar de provisórias, as instalações do Arco do Bispo foram ocupadas por mais tempo do que as sequentes. De facto, a quarta sede do Instituto de Coimbra, situada no edifício do antigo Colégio de São Bento, ao Bairro de Sousa Pinto, do lado oposto mas ainda na alta da cidade, apenas albergou a academia por uma década. Começou a ser edificado este colégio em 1576 e teve uma igreja que foi sagrada em 1634, perdurando até à década de 30 do século XX. Tal como os demais, o Colégio seria entregue à Universidade pela portaria de 27 de outubro de 1836. Este edifício foi, por decreto de 21 de novembro de 1848, incorporado no Jardim Botânico (reafirmado por portaria de 13 de agosto de 1860). No ano seguinte, é ali instalado um quartel militar, até que a portaria de 24 de março de 1854 vem autorizar o arrendamento parcial do edifício a um estabelecimento de ensino particular do sexo masculino, afastando dali o quartel.

Por decreto de 30 de julho de 1869, instala-se neste edifício o Liceu Nacional de Coimbra (transferido do Colégio das Artes). O espaço era partilhado com os serviços de botânica e agricultura da Faculdade de Filosofia. Em 1914, o Liceu recebe o nome de José Falcão. Em 1936, este funde-se com o Liceu Júlio Henriques, dando origem ao Liceu D. João III e passando para novas instalações na Avenida Afonso Henriques. Em 1938, continuava a albergar serviços e instalações do Botânico e, provisoriamente, o Liceu feminino Infanta D. Maria e, de novo, uma secção do masculino de D. João III.

Em 1939, o Instituto obtém concessão do espaço para se instalar, custeando obras de reparação, de acordo com documentos de despesa, em fevereiro de 1939. A boa nova havia sido comunicada em assembleia geral de 12 de novembro de 1936 pelo presidente Costa Lobo, declarando que “o Ministro da Educação Nacional, António de Faria Carneiro Pacheco, resolveu, sem solicitação, conceder ao Instituto de Coimbra uma instalação condigna e que para esse fim dispunha de uma parte do rés do chão e de uma parte do 1º andar do edifício de S. Bento”. O presidente realçou as virtualidades desta concessão ao Instituto, “para poder instalar a sua magnífica biblioteca e as centenas de revistas que anualmente recebe por troca com a sua, para receber condignamente os seus visitantes e dar realização às conferências”. Como forma de reconhecimento, decidiu-se eleger sócio honorário Carneiro Pacheco.

Por esta altura, devido à influência de Costa Lobo, estão ativos núcleos do Instituto, formados por sócios estrangeiros, em Madrid e em Paris, que se reúnem e prestam especial apoio à missão desta academia no exterior. Para o núcleo de Paris, pelo menos, foi disponibilizado um espaço de concentração, segundo se depreende da informação dada pelo presidente em assembleia geral de 8 de julho de 1939: “o Instituto e os seus sócios dispunham presentemente de um magnífico palácio em Paris, na Rua Casimir Perrier, 21, para reuniões oficiais e particulares, devido à bondade do ilustre Ministro da Finlândia, Mr. Frick Ehoströen” (O Instituto, 94: 501).

Não ultrapassou dez anos a sua localização no Bairro de Sousa Pinto, uma vez que, em 1948, tanto o Instituto como o liceu feminino de lá saíram. Em 1965, conclui-se a instalação do Instituto de Antropologia numa parte do Colégio de São Bento, aquele que ainda hoje podemos visitar, juntamente com o Instituto Botânico.

O Instituto foi contemplado pela construção da Cidade Universitária empreendida pelo Estado Novo, cabendo-lhe a sorte de habitar o antigo edifício da Imprensa da Universidade, na Rua da Ilha, junto à Sé Velha. Enquanto casa da Imprensa, foi projetado por Guilherme Elsden e Teodoro Marques Pereira da Silva, na segunda metade do século XVIII. Em 1942, o arquiteto Humberto Reis projetou, com o engenheiro António Alves de Sousa, a modificação das escadas e instalações sanitárias do edifício. Segundo Nuno Rosmaninho, “Em 2 de março [de 1945] teve início a reconversão interior do edifício da Imprensa da Universidade a sede de O Instituto, dirigida por Alberto José Pessoa. As obras concluíram-se em 15 de maio de 1948” (Rosmaninho, 2006: 325). O Relatório Geral da Cidade Universitária de Coimbra (1960), citado pelo mesmo autor, descreve os espaços resultantes da remodelação: “uma sala de conferências com 106 lugares, uma sala de leitura e reunião, uma sala de convívio dos sócios, gabinete do Presidente, do Secretário e da Revista, três salas de museu e depósito de livros” (Rosmaninho, 2001, II: 46). 

A transferência começou em março, e o novo salão do Instituto acolheu a primeira conferência a 12 de maio de 1948. Nessa sessão em que Luís de Almeida Braga apresentou “Dom João Valera e as letras portuguesas do seu tempo”, o presidente do Instituto vincou que a “conferência se realizava já na nova casa destinada à nova sede, que, porém, ainda não estava concluída, faltando principalmente o mobiliário”. Ferraz de Carvalho aproveitou para agradecer ao engenheiro Reis Gonçalves, da Comissão das Obras da Cidade Universitária, que se achava ali presente, a atenção que dedicara às necessidades de infraestrutura do Instituto (O Instituto, 111: 414). 

A tomada de posse oficial da nova sede efetuou-se a 16 de outubro de 1948 (idem: 423): o Ministro das Obras Públicas, Frederico Ulrich, fez a entrega da nova sede do Instituto, na presença do Ministro da Educação Nacional, Pires de Lima, do reitor da Universidade de Coimbra, Maximino Correia, e do presidente do Instituto de Coimbra, Anselmo Ferraz de Carvalho. Após uma visita às instalações pelos ministros e sua comitiva, seguiu-se uma sessão especial, onde tomou primeiro a palavra o presidente do Instituto, manifestando satisfação por se ter resolvido o problema da sede da academia, “que tinha passado por diversas vicissitudes, ficando o Instituto de Coimbra finalmente dotado de instalação própria e condigna”. Agradeceu aos ministros em seu nome e no do Instituto, e também à Comissão Administrativa da Cidade Universitária. Pediu ainda que fosse “desafrontado o edifício, demolindo as velhas casas que se encontravam na sua frente”, o que beneficiaria também a Sé Velha (idem: 424). 

Remetendo-se em especial ao Ministro da Educação, o presidente sublinhou que o Instituto contava cerca de 600 sócios e recebia um subsídio de apenas 600$00 mensais; e que por isso precisava de maior auxílio para se manter “todo este belo mobiliário, para que os sócios possam frequentar as salas do Instituto e para que, depois de devidamente catalogadas, sejam encadernados os volumes de tantas revistas que enriquecem a nossa biblioteca”. A esta inauguração assistiram muitos sócios, incluindo os membros da Direção, professores da Universidade e as autoridades civis e militares (idem: 424-425).

Em 1954, terá sido palco de uma “Segunda Tomada da Bastilha”, desta vez apenas revestindo um caráter simbólico. Segundo Alberto de Sousa Lamy (1990: 274), «Pelas 4 horas da manhã, de 4 de abril de 1954, um grupo de estudantes assaltara o Instituto de Coimbra, pressionando o Governo na construção da nova sede da Associação Académica de Coimbra, na Praça da República. A Assembleia Magna decidiu-se sair do edifício, “o que fez com o Reitor (dr. Maximino Correia) à frente, como ele pediu. Pela Rua da Ilha, e até à Sé Velha todos passaram por entre alas da polícia da PSP e da PIDE”»[44]

Quando o Colégio dos Paulistas foi demolido, a Associação Académica teve que se transferir para o Colégio dos Grilos, em 1949, para dar lugar às obras da Cidade Universitária. Descontentes com o espaço, os estudantes manifestaram-se, a 4 de abril de 1954, ocupando de novo as instalações do Instituto, que já se encontrava na Rua da Ilha. Desta vez, a situação resolveu-se sem perdas para o Instituto: «a ocupação do Instituto não durou mais do que aquela noite. O então Reitor, Prof. Doutor Maximino Correia, deu a sua garantia aos estudantes de que os estudos sobre a nova sede da “Associação” seriam apressados. Prometeu… e cumpriu. Poucos meses depois, foi apresentado à Direção da Associação Académica o projeto da nova sede que, aprovada, viria a ser entregue aos estudantes em 1963» (Ribeiro, 2002: 163). Trata-se do edifício que ainda hoje alberga a Associação Académica de Coimbra, junto à Praça da República.

O prédio da Rua da Ilha foi, com o do Colégio dos Paulistas, aquele onde o Instituto mais tempo se demorou. Naquele permaneceu até à sua extinção. Porém, a casa da Rua da Ilha deu grandes preocupações aos responsáveis, porque necessitou com muita frequência de obras de reparação. Existem documentos que apontam para obras no edifício do Instituto logo em 1951. E, desde 1961 pelo menos, surgem no mesmo conjunto documentos de despesa de serviços feitos no telhado do edifício, onde, sem dúvida, mais se notou a insuficiência, a ponto de danificar volumes da biblioteca. De facto, são frequentes as despesas de conserto do telhado deste edifício, sofrendo, ao que parece, de graves infiltrações.

Aliás, terá sido a degradação do edifício uma das causas da extinção do Instituto. Com efeito, a Direção que entrou no pós 25 de Abril, com Luís de Albuquerque à cabeça, esforçou-se por retomar a atividade da academia, que nos anos anteriores havia abrandado, apontando como uma das maiores dificuldades os problemas da estrutura:

Apesar dos graves problemas de instalação com que se defrontou e para que o presidente chamou repetidamente a atenção nos sucessivos relatórios das atividades do Instituto que remeteu às instâncias competentes – o estado deplorável da cobertura do edifício e da instalação elétrica, além da falta de um sistema de aquecimento e de desumidificação que obste à deterioração das traseiras do prédio, situadas abaixo do solo, com perigo iminente para o respetivo recheio, designadamente os depósitos de livros e revistas –, a nova Direção procurou, ao longo do triénio, não só consolidar o Instituto, alargando o número de sócios efetivos, como abri-lo ao mundo exterior, alargando o número de sócios correspondentes e organizando iniciativas culturais com projeção na cidade e fora dela (O Instituto, 139: 248-249).

Ainda se fizeram obras (as últimas registadas datam de dezembro de 1983), mas estas só vieram agravar a situação financeira do Instituto. Os documentos relativos a uma intervenção em 1996 são emanados do gabinete técnico da reitoria da Universidade, respondendo mais a uma necessidade desta do que do próprio Instituto. De qualquer modo, o memorando refere-se a obras de conservação do Instituto de Coimbra, que pretendiam repor as condições necessárias à utilização do edifício. Para esse efeito, propunham-se tratar das principais deficiências: “as infiltrações provenientes da cobertura e as humidades ascendentes provenientes do terreno de fundação” (Arquivo do Instituto de Coimbra, Obras de conservação no Instituto de Coimbra, Memória descritiva e justificativa, 1996). A partir daqui, todavia, o edifício da Rua da Ilha serviria finalidades alheias ao Instituto de Coimbra.



[43] Para mais informações sobre este assunto, vd. Jorge Peixoto – Para a história do comércio do livro em Portugal: leilões em Coimbra no século XIX. Coimbra: Arquivo Coimbrão, 1970 (sep. de Arquivo coimbrão, vol. 25).

[44] Lamy cita Arlindo Pinto Gonçalves, “A Segunda Tomada da Bastilha” in Jornal de Coimbra, 23.12.1987; e Fernando Luís Mendes Silva, “Assim nasceram as instalações da Associação Académica de Coimbra” in Jornal de Coimbra, 4.5.1988.