Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Jacinto de Sousa e a viagem científica

Recorde-se que para a mentalidade científica da época, as viagens científicas aos mais avançados centros europeus das diversas especialidades eram assumidas como uma das etapas mais relevantes para o desenvolvimento da ciência em Portugal (Pereira e Pita, 2006). No entanto, a formação do professor e homem de ciência não se fazia somente nas visitas a estabelecimentos científicos como laboratórios e observatórios, mas igualmente na participação em expedições científicas para observação e estudo de fenómenos naturais. Em resultado da consulta que o Conselho da Faculdade fez ao rei (19 de Maio de 1860) para que nomeasse uma comissão de homens competentes que fosse tomar parte nos trabalhos das expedições científicas, que por toda a parte se preparavam para ir estudar no leste de Espanha (Cabo de Oropesa) o eclipse total de 18 de Julho de 1860, foi Jacinto de Sousa nomeado (13 Junho de 1860), enquanto lente em exercício na cadeira de Física, para integrar tal comissão (Carvalho, 1872). Enquanto se encontrava em Espanha, Jacinto de Sousa recebeu autorização para, assim que acabassem os trabalhos do eclipse, seguir em viagem e visitar os principais observatórios e institutos de Espanha, França, Bélgica e Inglaterra (Sousa, 1877). Apesar de não ter sido devidamente planeada e preparada, tal como se depreende das suas palavras no notável relatório que escreveu (Sousa, 1862) (Fig. 2), esta viagem aos estabelecimentos científicos europeus viria a mostrar-se decisiva na criação do futuro observatório physico-meteorologico de Coimbra, mas igualmente no futuro académico e pessoal de Jacinto de Sousa.

Tendo nascido no Funchal a 3 de Janeiro de 1818, Jacinto de Sousa entra relativamente tarde na universidade, pois somente com 26 anos é que se matricula nas faculdades de Matemática e Filosofia (1844/45), onde obtém o bacharel em Matemática e a formatura em Filosofia em 1850. Neste mesmo ano matricula-se na Faculdade de Direito onde conclui a formatura em 1855. Acabava no entanto de completar 40 anos quando, no início de Janeiro de 1858, se doutorou na Faculdade de Filosofia (Carvalho, 1872). Durante os seus estudos terá sido preceptor dos filhos do Duque de Palmela. Foi ainda comendador da Ordem de Cristo e da Ordem da Rosa do Brasil (Simões, 1880; Santos, 1995).

Figura 1. Jacinto de Sousa (1818-1880)

Figura 1. Jacinto de Sousa (1818-1880).

Percebemos pelas palavras do Jacinto de Sousa, que o mesmo não era, por altura da sua viagem científica aos observatórios europeus, um especialista em Meteorologia e Magnetismo Terrestre, quando nos diz: ”Cumprindo-me, como professor e director de Physica, e em virtude da resolução da Faculdade, estabelecer aqui um Observatorio physico-meteorologico, empreguei o pouco tempo e forças, que me restavam das minhas ocupações, no estudo da Meteorologia e do Magnetismo terrestre, objectos especiaes para onde nenhum incentivo me tinha antes dirigido sériamente”. Apesar destas palavras, as várias considerações e críticas que tece ao longo do seu relatório sobre os mais variados aspectos dum observatório, sugere que, se Jacinto de Sousa não era propriamente um especialista, era já pelo menos um conhecedor competente das questões relacionadas com as observações meteorológicas e magnéticas. Lembremos que já em 1858, talvez logo após a sua admissão na Faculdade como professor de Física, Jacinto de Sousa tinha visitado o observatório meteorológico da Universidade de Granada em Espanha.

Na sua viagem, Jacinto de Sousa segue por Madrid, Paris, Bruxelas, Londres e Kew. Em Madrid visita o Observatório Astronómico onde é recebido pelo director Antonio Aguilar Y Vela (1820-1882). Para além da secção astronómica, este observatório possuía ainda uma secção meteorológica, sem, contudo, se ocupar do magnetismo terrestre ou tão pouco da electricidade atmosférica. Relativamente pouco impressionado com o que tinha visto em Madrid, parte para Paris onde se cruza com o colega e amigo Matias de Carvalho (1832-1910) e com o Visconde de Paiva (1819-1868), que lhe proporciona a visita mais aguardada em Paris, justamente ao Observatório Astronómico, então dirigido pelo “sábio” Urbain Le Verrier (1811-1877). Talvez ainda ofuscado pelas luzes de Paris, “onde tudo apparecia como em um sonho oriental”, Jacinto de Sousa fica profundamente desiludido e desgostoso com a pobreza das secções de meteorologia e magnetismo, “onde esperava achar muito que ver e estudar”. Desapontado, Jacinto de Sousa segue viagem para Bruxelas, onde acabará por se demorar apenas cinco dias. Com uma carta de recomendação de Matias de Carvalho, dirigiu-se ao Observatório de Bruxelas onde é recebido pelo fundador e director, Adolphe Quetelet (1794-1974). Depois de tecer generosíssima apreciação ao reconhecido trabalho científico de Quetelet, Jacinto de Sousa refere que aquele “soube evitar algumas desvantagens que apresenta o Observatorio de Bruxelas, e obter alli resultados que outro observador, menos adestrado, não poderia talvez alcançar em taes condições. Quem hoje vir o Observatório de Bruxelas na parte meteorologica e magnetica, sem estar prevenido pelos grandes trabalhos que de lá tem sahido, dirá que atravessa uma epocha de decadencia”.

Talvez a pronunciar o peso e a excelência dos observatórios que viria a visitar na região de Londres (Greenwich e Kew), Jacinto de Sousa obtém cartas de introdução a G.B. Airy (1801-1892), E. Sabine (1788-1883) e Balfour Stewart (1828-1887), do próprio ministro plenipotenciário em Londres, Francisco de Almeida Portugal (1797-1870). Não podemos deixar de respigar as palavras de Jacinto de Sousa quando nos diz: “Achei, em fim, em Greenwich um Observatório completo. Havia bastante que ver e muito que estudar na simplicidade e disposição harmónica dos diversos órgãos daquela poderosa máquina, onde coisa alguma é alheia às profundas investigações que ali se ocupam os sábios Airy e Glaisher”. Para além do sentido imediato desta afirmação, existe um outro que, do ponto de vista da história da ciência, nos parece verdadeiramente interessante pela interpretação que empresta ao ideário científico da época, e que é necessariamente a comparação do observatório a uma poderosa máquina de ciência. Nisto se reflecte a abordagem mecanicista dos fenómenos da natureza, cujas engrenagens era possível (e necessário) desencantar através do instrumento, servido como meio de produção do saber. É assim que, ao longo das últimas 25 páginas do seu relatório, Jacinto de Sousa nos arrasta para dentro do maquinismo dos observatórios de Greenwich e Kew. Aqui pouco ou nada escapa ao seu apurado olhar, onde descreve os pavilhões nas formas e dimensões, os instrumentos nas posições, composições e funções, detendo-se nos parafusos, nas roldanas, estribos e manivelas, nos nónios, nas lentes e espelhos, nas barras e agulhas magnéticas, nas engrenagens de relojoaria dos cilindros registadores e na impressão do papel fotográfico, nos vapores de nafta e na luz das lâmpadas de gás. 

Figura 2. Frontispício do relatório de Jacinto de Sousa

Figura 2. Frontispício do relatório de Jacinto de Sousa.

Mas como refere na introdução do seu relatório, Jacinto de Sousa não se limitou a visitar os estabelecimentos puramente científicos, tendo visitado os museus de belas-artes e antiguidades, os jardins botânicos, os monumentos históricos, os arsenais e as catedrais, “tudo quanto podia revelar o gôsto, costumes, industria, riqueza e força do paiz” em que se achava. E em jeito de justificação, diz-nos: “Se não me engano, porém, a ciência prática vive e manifesta-se em tudo isso”; denunciando aqui um espírito culto, onde convivem o romantismo e o racionalismo, ainda não cindido pela especialização técnica e científica que desde o início do século vinha a talhar. Senão, apreciemos o belo trecho romântico, onde Jacinto de Sousa nos deixa a sentir a sua entrada em Londres pelo Tamisa: 

“A grande extensão d’este poderoso rio, as elevadas fábricas, de aspecto funebre, que bordam suas tristes margens; o espesso nevoeiro através do qual se póde apenas enxergar a sombra vaga de seus giganteos contornos; o silencio maravilhoso que reina por entre esses extensos bosques de navios; a melancholia, a solemnidade, o grandioso, a obscuridade de todos os objectos, preparam o viajante para a contemplação de severas magnificencias.”

 Já na parte final do seu relatório, Jacinto de Sousa refere-se ao encontro que manteve em Londres com Sabine, dando conta nomeadamente do vivo interesse que este mostrou ter pelo projecto de Coimbra; logo se prestando a auxiliar a sua realização ao superintender a construção dos instrumentos magnéticos, e obtendo da Associação Britânica para o Avanço da Ciência a aceitação para a verificação e determinação das respectivas constantes no Observatório de Kew. Jacinto de Sousa acabaria por referir a Sabine como “uma das mais valiosas acquisições” que fez em Inglaterra. Lembremos que Sabine granjeava à data enorme influência e notoriedade científica, tendo sido, como já referimos, um dos principais responsáveis pela Cruzada Magnética que impulsionou uma rede mundial de observatórios. No plano teórico, lembramos somente que Sabine tinha estabelecido em 1852 a relação entre a actividade geomagnética e o ciclo solar.