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Situação das observações meteorológicas e magnéticas em Portugal na primeira metade do séc. XIX

Segundo Machado (1929), as primeiras observações meteorológicas feitas na cidade do Porto, no ano de 1792, foram da responsabilidade do médico José Bento Lopes, que as fez publicar no Ano Médico (Tomo 1, 1796). De acordo com Peixoto e Ferreira (1986), Adrien Balbi (1782-1848) ter-se-á referido (no seu Essai statistique sur le royaume de Portugal et d'Algarve, 1822) a Bento Lopes como “o primeiro médico português que publicou as observações meteorológicas à arte de curar”. Com efeito, como tem sido reconhecido por vários autores (Peixoto e Ferreira, 1986; Santos, 1990), no final do séc. XVIII, e especialmente na primeira metade do séc. XIX, foi a classe médica quem mais se dedicou ao conhecimento das condições meteorológicas. Peixoto e Ferreira (1986) aludem a este interesse, informando-nos que a partir de 1812 as observações meteorológicas aumentaram grandemente entre a comunidade médica, mormente fomentadas por determinações legais sobre saúde pública. O reconhecimento da importância das observações meteorológicas na medicina do séc. XIX está bem reflectido na tese médica que Joaquim Guilherme Gomes Coelho (porventura mais conhecido pelo seu pseudónimo de romancista, Júlio Dinis: 1839-1871) defendeu na Escola Médico-Cirúgica do Porto em 1861 sob o título: Da importância dos estudos meteorológicos para a medicina e especialmente de suas aplicações ao ramo operatório. Também Ricardo Jorge (1858-1939), um dos maiores nomes do higienismo português oitocentista, escreveu (no seu conhecido estudo, Demografia e Higiene da Cidade do Porto, 1899) que "em 1854 o estado se decidiu a cortar o vergonhoso atraso da Meteorologia nacional pela criação em Lisboa do Observatório do Infante D. Luiz”.

Refira-se ainda que as observações meteorológicas de Marino Miguel Franzini (1779-1861), consideradas as mais completas e extensas (1816-1855) em Portugal na primeira metade do séc. XIX, foram realizadas no interesse de “estudar atentamente o estado da saúde pública em Lisboa e a influência que nela exerce a constituição atmosférica”. Não obstante todos os esforços individuais, as observações meteorológicas feitas à época foram no essencial realizadas fora de qualquer quadro institucional que lhes garantisse continuidade e qualidade; tendo Franzini constituído a única grande excepção, levando Guilherme Pegado (1803-1885) a considerá-lo “o fundador da meteorologia portuguesa” (Peixoto e Ferreira, 1986).

Entretanto, na Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, entre 1812 e 1820, Constantino Botelho de Lacerda Lobo (1754-1820) faz as primeiras observações meteorológicas no Gabinete de Física; tendo estas sido publicadas no Diário de Coimbra e no Essai statistique sur le royaume de Portugal et d'Algarve (Peixoto e Ferreira, 1986; Santos, 1990). Embora as observações meteorológicas de Lacerda Lobo tenham sido consideradas as primeiras a terem sido realizadas em estabelecimento oficial, apresentam um valor reduzido (especialmente a temperatura e a humidade) devido ao facto de terem sido obtidas no interior do gabinete e em horário variável (Santos, 1990; Leonardo et al., 2011).

Haveríamos ainda de esperar mais de três décadas antes do primeiro observatório meteorológico português entrar em funcionamento na Escola Politécnica de Lisboa. Sob a direcção de Guilherme Pegado, professor de Física experimental e Matemática daquela escola, o Observatório Meteorológico do Infante D. Luís começou a funcionar regularmente em Outubro de 1854. Também sob a direcção de Guilherme Pegado, refira-se que por esta altura já então funcionava (desde Agosto de 1853) o Serviço Náutico-Meteorológico português (Ferreira, 1940). Uma das primeiras preocupações de Guilherme Pegado, enquanto director do Observatório D. Luís, foi estabelecer uma rede nacional de postos meteorológicos, tendo para o efeito publicado as respectivas Instruções em Novembro de 1856. Os primeiros postos cujas observações (relativas aos anos 1861-1863) se publicaram nos Annaes do Observatorio (Vol. 2, 1863-1864) foram os de Campo Maior, Porto e Guarda. Estabelecendo-se assim o início da primeira rede nacional de observações meteorológicas que, sob a orientação e apoio do Observatório D. Luís, rapidamente se alargou (1865) aos postos de Angra de Heroísmo, Funchal e Cidade da Praia (Ilha de Santiago, Cabo Verde) (Annaes, Vol. 3, 1865). Entretanto, desde 1857 que o Observatório D. Luís colaborava com o serviço da meteorologia internacional, sendo que os “avisos” que recebia (por telegrafia eléctrica) eram publicados na imprensa; em 1864 figuravam no Boletim Internacional mais de 50 observatórios, entre eles os de Lisboa, Porto, Moncorvo, Guarda e Campo Maior (Peixoto e Ferreira, 1986).

Porém, em Coimbra seria somente no final de 1844 que a Faculdade de Filosofia começa a preocupar-se com a instalação das observações meteorológicas. Assim, e de acordo com Carvalho (1872), o então Conselho da Faculdade resolveu que “se instaurassem as observações meteorologicas no gabinete de physica”, tendo, neste sentido, aprovado a instrução de que “as observações meteorologicas serão feitas diariamente no gabinete de physica ás 9 horas da manhã, ao meio dia e ás 3 horas da tarde desde 1 de Janeiro de 1845, e continuarão sem interrupção alguma”. Não obstante esta resolução, não há conhecimento que se tenha levado a cabo quaisquer trabalhos, pois, em 1853 volta o Conselho da Faculdade a aprovar a mesma proposta (Carvalho, 1872), agora com a diferença de que as observações venham a ser publicadas mensalmente no jornal O Instituto. De facto, no 2.º volume deste jornal (1854) iniciou-se a publicação das Observações Meteorológicas no Gabinete de Física da Universidade de Coimbra. No entanto, sugerindo ainda precariedade de condições, foram apenas publicadas as observações de Janeiro de 1854 a Janeiro de 1856. Desta forma, mostravam-se ainda infrutíferos os esforços empregados pela Faculdade de Filosofia e por alguns dos seus professores para estabelecer em Coimbra observações meteorológicas verdadeiramente úteis. Como mais tarde justificaria Sousa (1877), “sem local próprio, sem instrumentos de confiança e aferidos, sem pessoal certo e remunerado, era impossível alcançar resultados, pelo número, pelo valor e pela sua regular periodicidade, profícuos para a ciência”. Foi neste quadro de dificuldades que em Março de 1860 a Faculdade de Filosofia da Universidade Coimbra recorreu ao governo de Sua Majestade, o rei D. Pedro V (1837-1861), dirigindo-se-lhe nos seguintes termos (Carvalho, 1872). 

«Senhor! Ha annos que o estudo da meteorologia e da physica do globo é geral empenho dos sábios da Europa e do novo mundo. A observação da temperatura e da pressão atmospherica, da velocidade e direcção dos ventos, da quantidade de chuva, do estado do céo, do magnetismo terrestre, e de diversos outros phenomenos, proseguida com ardor por notaveis associações scientificas, tem produzido ricas series de factos, de que, em varios paizes, e particularmente na Allemanha e na Belgica, se tem sabido tirar importantes consequencias  theoricas, a par das mais uteis applicações practicas.»
Todos os governos se esmeram em proteger esta especie de cruzada, á qual - inda bem - Portugal não é já completamente extranho.
Porém, Senhor, o nosso paiz pode, sem grande sacrificio, dar um contingente mais poderoso do que esse, com que actualmente concorre, para uma obra, que tanto enobrece o seculo actual; e não só pode, mas deve, se quizer, um dia, colher dos trabalhos meteorologicos as vantagens que nações mais adiantadas vão já colhendo e hão de colher para o futuro, e que nós, de modo algum, podemos derivar de um unico estabelecimento de meteorologia situado no littoral […].
[…] Attenta a pouca extensão que occupamos na costa da Europa, poderiamos tão util como facilmente emprehender um estudo d’esta ordem, o qual viria a adquirir a mais subida importancia, se auxialiados pela telegraphia eletrica, e de accordo com o reino visinho, chegassemos a ter em toda a peninsula um systema de observações simultaneas.
Coimbra, pela sua posição central, séde da Universidade, onde se ensinam as sciencias physicas, mathematicas, e naturaes, onde existe um observatorio astronomico, é incontestavelmente o ponto em que melhor assenta, e em que mais economicamente se pode realisar a fundação d’um observatorio meteorologico, que tal nome mereça na actualidade.  
A falta d’este estabelecimento juncto da primeira instituição scientifica do paiz é de ha muito sentida pela Faculdade de Philosophia […].
[…] O Conselho da Faculdade de Philosophia confia que Vossa Magestade lhe assegurará a realização de um projecto, que promette tudo em beneficio do paiz, e que nos não deixa ficar indifferentes no meio do movimento scientifico de que estão animadas todas as nações cultas.»

O pedido e a exposição da Faculdade de Filosofia acabou por receber o melhor acolhimento por parte do rei D. Pedro V e do seu governo, pois, passados somente cerca de três meses, o director do Gabinete de Física, Jacinto António de Sousa (1818-1880) (Fig. 1), recebeu autorização para visitar estabelecimentos científicos europeus com o objectivo de encontrar um modelo para o futuro observatório de Coimbra. Embora se desconheça qual terá sido o envolvimento pessoal do rei nesta questão, é sabido que as questões da higiene urbana e da saúde pública foram das suas grandes preocupações. Estas tinham sido particularmente vincadas poucos anos antes, em duas ocasiões marcantes da vida do jovem monarca: a primeira, aquando dos flagelos epidémicos de cólera (1853-1856) e febre-amarela (1856-1857) em Lisboa (relatando-se que durante esses anos, o monarca, em vez de se refugiar, percorria os hospitais e demorava-se à cabeceira dos doentes); a segunda, por ocasião da morte prematura da sua mulher, a rainha D. Estefânia (1837-1859), levada por uma angina [2]. Assim, reconhecida que era a importância do conhecimento das condições atmosféricas nos estudos epidemiológicos e sanitários, somos levados a crer que o rei considerou pessoalmente da mais alta importância a proposta que lhe fora apresentada, dando-lhe, por conseguinte, imediato provimento.
Antes de prosseguirmos viagem com Jacinto de Sousa, da leitura atenta do requerimento do Conselho da Faculdade de Filosofia sobressai um aspecto merecedor de uma breve análise, pelas implicações que reflecte no quadro das relações institucionais. O facto do Conselho da Faculdade não se referir explicitamente ao Observatório D. Luís, e, simultaneamente, se apresentar como a primeira instituição científica do país, sugere, ainda que especulativamente, um sentimento de rivalidade institucional relativamente à Escola Politécnica de Lisboa e respectivo Observatório Meteorológico. Adicionalmente, o texto aponta ainda a intenção da Faculdade recuperar protagonismo, ao sugerir que o futuro observatório de Coimbra poderia vir a instituir-se como coordenador duma futura rede meteorológica ibérica.