Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Júlio Henriques: contributo para o conhecimento da diversidade vegetal e desenvolvimento agrícola nos PALOP

[1]
No final do Renascimento, a Universidade de Coimbra (UC) enfrentava uma crise que se prolongou até à Reforma Pombalina de 1772. As áreas das Ciências Físicas, Naturais e Médicas eram as disciplinas mais afectadas: não existiam laboratórios; nem colecções de minerais, animais, herbário ou um local onde os alunos pudessem estudar as plantas vivas. Os livros estavam desactualizados e os métodos de ensino eram bastante antiquados. Foi nesse contexto que o Marquês de Pombal implementou a chamada Reforma Pombalina e nomeou os italianos Dalla-Bella e Domenico Vandelli para os lugares de professor de Física e de Química e História Natural, respectivamente. O grande interesse de Vandelli pela Botânica justifica ter-lhe sido entregue a tarefa de delinear o Jardim Botânico de Coimbra[2]. Conseguiu também obter subsídios e bolsas para os alunos mais interessados realizarem herborizações pelo país (ex: Serra da Estrela, Serra do Gerês, etc.) e entusiasmou os alunos brasileiros a organizarem colecções no seu país (Fernandes, 1991).
Vandelli preparou alguns dos seus alunos com intuito de participarem nas chamadas “Viagens Philosophicas”. Entre eles destacaram-se Alexandre Rodrigues Ferreira na expedição ao Brasil (1783-1792), Manuel Galvão da Silva na expedição a Goa e Moçambique (1783-1793), Joaquim José da Silva na expedição a Angola (1783-1808) e João da Silva Feijó na expedição a Cabo Verde (1783-1797); todos eles fizeram colheitas e organizaram importantes colecções naturais (Simon, 1983). Estas expedições foram uma iniciativa pioneira no contributo da UC para o conhecimento científico dos territórios ultramarinos, tal como recomendavam os estatutos da UC (ver nota 2).
O sucessor de Vandelli – Félix de Avellar Brotero – nomeado em 1791 para o lugar de professor da recém-criada cadeira de Botânica e Agricultura e autor da Flora Lusitanica (1804) estudou também espécies oriundas dos territórios ultramarinos, nomeadamente do Brasil. A título de exemplo, descreveu um género novo, Araujia, com a espécie A. sericifera e espécies novas dos géneros Passiflora, Callicocca e Erythrina (Fernandes, 1982; 1993).
Após a jubilação de Brotero em 1811, e devido às invasões francesas e à guerra civil entre liberais e absolutistas que conduziram o país a uma débil situação económica, a investigação na área da Botânica sofreu uma redução acentuada, nomeadamente no que diz respeito aos trabalhos sobre os territórios africanos.
Em 1866, Júlio Henriques foi nomeado lente substituto extraordinário da Faculdade de Filosofia da UC (Fernandes, 1991). Este professor que adoptava nas suas aulas livros modernos e mais adequados aos cursos, foi também a primeira pessoa em Portugal a divulgar os trabalhos de Charles Darwin, nomeadamente na sua dissertação do Acto de Conclusões Magnas, em 1865, intitulada As espécies são mudáveis?. Nesta dissertação de título sugestivo manifesta o seu apoio à teoria da selecção natural sendo, por isso, considerado como o primeiro darwinista a manifestar as suas opiniões entre a conservadora comunidade académica portuguesa (Pereira et al., 2007).

Foi com Júlio Henriques, quase cem anos após as “Viagens Philosophicas”, que o interesse científico pelo estudo dos territórios portugueses ultramarinos, nomeadamente africanos, ressurgiu.
Esta comunicação tem como objectivo divulgar o contributo de Júlio Henriques para o progresso da agricultura tropical e para o conhecimento da diversidade vegetal dos territórios africanos, através da análise dos seus trabalhos sobre estes dois temas.



[1] Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
[2] Como inscrito nos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772 (volume 3, página 266): “ No lugar, que se achar mais proprio, e competente nas vizinhanças da Universidade, se estabelecerá logo o dito Jardim: Para que nelle se cultive todo o genero de Plantas; e particularmente aquellas, das quaes se conhecer, ou esperar algum prestimo na Medicina, e nas outras Artes; havendo o cuidado, e providencia necessaria, para se ajuntarem as Plantas dos meus Dominios Ultramarinos, os quaes tem riquezas immensas no que pertence ao Reino Vegetal.” (https://bdigital.sib.uc.pt/bg1/UCBG-R-44-3_3/UCBG-R-44-3_3_item1/index.html)