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Conhecimento da diversidade vegetal tropical

Através dos contactos estabelecidos com os governantes e fazendeiros, nomeadamente em S. Tomé[5]  aquando dos ensaios da cultura da quina, Júlio Henriques criou laços de amizade que contribuíram para o seu interesse em estudar a flora espontânea daquela ilha e dos restantes territórios africanos. E se, inicialmente, recebia apenas material enviado pelos fazendeiros, algum tempo depois, a “rede” que havia estabelecido com os fazendeiros e governadores-gerais estendeu-se a farmacêuticos, médicos, oficiais do exército, padres e outros indivíduos que se encontravam a cumprir comissões nas mais diversas regiões ultramarinas (especialmente em África), alguns deles membros da Sociedade Broteriana[6].
O professor Júlio Henriques foi, juntamente com o Governador da Ilha de S. Tomé, Custódio de Borja, o grande impulsionador da Exploração Botânica da ilha de S. Tomé[7]  realizada em 1885 pelo jardineiro-chefe do Jardim Botânico de Coimbra, Adolpho Frederico Moller, com o objectivo de efectuar herborizações naquela ilha (Carrisso e Quintanilha, 1929-30; Carrisso, 1934). Moller desempenhou a sua tarefa com muita eficiência e êxito e, para além de ter colhido espécimes de plantas de todos os grupos vegetais em S. Tomé, preparou ainda um colector, Francisco Dias Quintas, que deu continuidade a este trabalho em S. Tomé e na ilha do Príncipe[8]  após o seu regresso a Coimbra (Carrisso, 1934). Os estudos realizados sobre o material colhido por Moller e, posteriormente, por Quintas permitiram realizar enormes progressos no conhecimento da flora de S. Tomé (Carrisso, 1934). Em 1903, tendo já completado 65 anos e, apesar de todas as dificuldades inerentes às viagens naquela época, Júlio Henriques deslocou-se a S. Tomé para colher mais exemplares para herbário, observar o habitat e estudar a distribuição das plantas espontâneas e cultivadas da ilha (Coutinho, 1929-30). Depois do regresso a Coimbra intensificou as suas pesquisas sobre a ilha de S. Tomé resultando na monografia “A Ilha de S. Tomé sob o ponto de vista histórico-natural e agrícola”, publicada em 1917, no volume 27 do Boletim da Sociedade Broteriana.

Para além das colheitas realizadas na Ilha de S. Tomé, chegava também a Coimbra, remetido por diversos colectores, material proveniente de outros territórios africanos: de Angola (José d’Anchieta, Capello e Ivens, Francisco Newton, Reverendo Antunes e Dekindt, Sisenando Marques, John Gossweiler, Jacinto A. de Sousa, D. Maria Chaves, etc.), de Cabo Verde (João Cardoso Júnior[9], A. Barjona), de Moçambique (em particular as colheitas realizadas pelo médico e Director dos Serviços de saúde de Moçambique, Dr. Manuel Rodrigues Pereira de Carvalho, mas também por Francisco Quintas, por Rodrigues Braga e pelo Bispo de Moçambique, D. António Barroso) e da Guiné (Jacinto A. de Sousa, Manuel Rodrigues de Carvalho)[10] (Carrisso, 1934). Júlio Henriques recebeu também espécimes provenientes de Macau, Timor e Índia.

Estudar todo este material que chegava a Coimbra era tarefa que só poderia ser empreendida se ali existisse um grupo de taxonomistas a trabalhar sob a orientação de Júlio Henriques, à semelhança do que acontecia em Kew, Berlim ou Paris. Infelizmente, a situação em Coimbra era bastante diferente. Júlio Henriques dispunha de apenas um naturalista, Joaquim de Mariz, que estava totalmente absorvido com o estudo da flora de Portugal, onde ainda havia muito trabalho a fazer (Fernandes, 1982). Júlio Henriques ultrapassou esta limitação recorrendo a especialistas, principalmente estrangeiros, aos quais enviava colecções dos diversos grupos vegetais para que estes as estudassem e determinassem. Este objectivo foi alcançado e Júlio Henriques foi publicando no Boletim da Sociedade Broteriana os catálogos com as determinações dessas colecções, onde iam surgindo géneros, espécies e variedades novas para a Ciência (Carrisso, 1934).
O contributo de Júlio Henriques para o conhecimento da diversidade vegetal tropical é claramente visível através dos inúmeros trabalhos que publicou sobre a flora dos diferentes territórios africanos no Boletim da Sociedade Broteriana (1ª série, 1880-1920). O estudo destas publicações e da sua relevância para o conhecimento da diversidade vegetal destas regiões é analisada de seguida.
Embora a maioria dos trabalhos vise o estudo da flora de determinado território em particular, existem alguns que estudam plantas colhidas em diversas regiões. Há artigos que estudam material colhido por um determinado colector (contendo plantas colhidas em várias regiões), outros são referentes a determinado grupo vegetal específico ou o catálogo engloba colheitas realizadas por vários colectores (em diferentes regiões).
No volume 3 (1884) está publicado o catálogo das “Plantas colhidas por F. Newton na Africa occidental” que é composto por 124 espécies de plantas colhidas por Francisco Newton em diversas regiões da costa ocidental de África e determinadas por Júlio Henriques com o auxílio de especialistas estrangeiros, entre os quais, Winter, Nylander, Nordsted, Flahault, Wittrock, Hackel, Baker e Ridley. Por sua vez, no volume 16 (1899) encontra-se o trabalho “Subsidios para o conhecimento da flora da Africa occidental. Catalogo das plantas colhidas por Agostinho Sizenando Marques, subchefe da expedição portugueza às terras de Muata-Iamvo” que é composto por um catálogo de 221 espécies resultante da expedição comercial à região de Muata-Iamvo (África austro-central) da qual Agostinho Sisenando Marques foi encarregado. Júlio Henriques foi auxiliado pelos botânicos alemães Engler, Schumann, Gilg, Gürke e Pax na identificação das espécies africanas.
Nos volumes 10 (1892) e 13 (1896) encontram-se os trabalhos “Compostas da Africa portugueza I e II”, da autoria de Hoffmann, onde são descritas 165 espécies colhidas em várias regiões de África, por Welwitsch, Cappelo e Ivens, Anchieta, F. Newton, João Cardoso Júnior, Sisenando Marques, Manuel Rodrigues de Carvalho, F. Quintas, Braga, pelo Reverendo Antunes e pelo Prelado de Moçambique. A primeira parte apresenta a descrição de 57 espécies e a segunda de 108 espécies de compostas africanas. O trabalho “Lichenes africani a cl. J. A. Cardoso ins. S. Nicolai et S. Jacobi, F. Quintas Lourenço Marques et in agro Moçambicensi determinatione R. R. Emeriae Episcopi lecti” foi publicado no volume 12 (1894) e é composto por um catálogo de 36 espécies de líquenes determinadas por Nylander, resultantes das colheitas de Cardoso Júnior em Cabo Verde e do bispo de Emeria e F. Quintas em Moçambique. Por sua vez, no volume 21 (1904/1905), Saccardo apresenta o trabalho “Fungi aliquot africani lecti a cl. A. Moller, I. Newton et A. Sarmento” onde descreve 40 espécies de fungos colhidas, entre outros, por Moller (S. Tomé), Isaac Newton (Guiné) e A. Sarmento (Moçambique).

Nos volumes 3 (1884) e 4 (1886) foram publicados o artigo “Explorações botanicas nas possessões portuguezas” que descreve as explorações botânicas de F. Newton, M. Rodrigues de Carvalho, Cardoso Júnior, Capello e Ivens, J. Gomes da Silva, A. Moller e F. Quintas e o artigo “Explorações botanicas na Africa” que faz referência à travessia do continente africano realizada por Capello e Ivens, à exploração realizada por F. Newton na África ocidental, às explorações botânicas de José d’Anchieta na região de Benguela e às colheitas realizadas pelo médico Manuel Rodrigues Pereira de Carvalho em Moçambique.

Foram ainda publicados os seguintes catálogos: “Contribuição para o estudo da flora d’algumas possessões portuguezas. Plantas colhidas na Africa occidental por F. Newton, Capello e Ivens, M. R. Pereira de Carvalho e J. Cardoso” (volume 4, 1886), trabalho composto por 148 espécies colhidas por F. Newton, Capello e Ivens, Rodrigues Pereira de Carvalho e Cardoso Júnior e determinadas com o auxílio de Ridley e Hoffmann; “Contribuições para o estudo da flora da costa occidental d’Africa” (volume 5, 1887), composto por 85 espécies colhidas por D. Maria José Chaves em Boma e F. Newton em S. Tomé, Príncipe e Ajudá e determinadas por Júlio Henriques com a colaboração de Nylander, Stephani, Hackel, Ridley e Baker; “Contribuições para o conhecimento da flora d’Africa. Catalogo de plantas da Africa Portugueza colhidas por M. R. de Carvalho (Zambezia); J. Cardoso (Cabo Verde); F. Newton (Ajudá e Angola); F. Quintas (Principe); J. Anchietta (Quindumbo); D. Maria J. Chaves (Congo); padre J. M. Antunes (Huilla)” (volume 7, 1889), catálogo constituído por 141 plantas colhidas por M. R. de Carvalho na Zambézia (Moçambique), por Cardoso Júnior em Cabo Verde, por F. Quintas no Príncipe, por D. Maria Chaves no Congo, por F. Newton em Ajudá e Angola, por J. d’Anchieta no Quindumbo (Angola) e pelo padre J. M. Antunes na Huíla (Angola) e determinadas com o auxílio de Hoffmann, Cogniaux e Rolfe; “Catalogo de Plantas da África Portugueza colhidas por Capello e Ivens (Angola); F. Quintas (Ilha do Principe e S. Thomé)” (volume 9, 1891), que contém 40 espécies de plantas colhidas em Angola por Capello e Ivens e nas ilhas de S. Tomé e do Príncipe por F. Quintas, determinadas por Hoffmann e Rolfe e ainda o trabalho “Contribuição para a flora africana. Catálogo de plantas africanas” (volume 17, 1900) composto pelo catálogo das criptogâmicas vasculares, monocotiledóneas e algumas dicotiledóneas de diversas localidades, tanto da costa oriental como da ocidental da África tropical, colhidas por Capello e Ivens (travessia do continente africano), J. A. de Sousa (costa ocidental), F. Newton, D. Maria Chaves, Paulo Amado, pelos Reverendos Antunes e Dekindt e Anchieta (Angola), F. Quintas e Rodrigues Braga (Moçambique). Os botânicos de Berlim, sob a direcção de Engler, colaboraram com Júlio Henriques na identificação destas 437 espécies.
A ilha de S. Tomé foi a região acerca da qual Júlio Henriques mais trabalhos publicou. Nos volumes 4 (1886), 5 (1887) e 10 (1892) foram sucessivamente publicados catálogos da flora de S. Tomé, resultantes das colheitas de A. Moller e F. Quintas. Júlio Henriques contou com o auxílio de diversos especialistas como Baker, Müller, Stephani, Winter, Nylander, Agardht, Nordstedt, Hauck, Flahault, Ridley, Oliver, Engler, Hoffmann, Schumann, C. de Candolle, Cogniaux, Planchon, Lindau e Pax, entre outros, no estudo destas plantas. O catálogo “Contribuições para o estudo da flora d’Africa. Flora de S. Thomé. Catalogo das plantas cryptogamicas” é composto por 361 espécies de criptogâmicas; por sua vez o trabalho “Contribuições para o estudo da flora d’Africa. Catalogo da flora da Ilha de S. Thomé” estuda as 92 espécies gimnospérmicas e monocotiledóneas e 353 espécies de dicotiledóneas são estudadas no catalogo “Contribuição para o estudo da flora d’Africa. Catalogo da flora da Ilha de S. Thomé”.

Além destes catálogos, diversos outros trabalhos foram publicados no Boletim, nomeadamente estudos sobre fungos. No volume 7 (1889), Saccardo e Berlese publicaram o catálogo “Mycetes aliquot guineenses a clar. Moller et F. Newton lecti in ins. S. Thomae et Principis” com a descrição de 24 espécies de fungos colhidas por A. Moller e F. Newton em S. Tomé e no Príncipe. Ainda no volume 7, Bresadola e Roumeguère publicaram o trabalho “Nouvelles contributions à la Flore mycologique dês Iles Saint-Thomé et du Prince recueillies par MM Ad. F. Moller, F. Quintas et F. Newton” onde descrevem 82 espécies de fungos colhidos por Moller, F. Quintas e F. Newton nas ilhas de S. Tomé e do Príncipe. No volume 9 (1891), J. Bresadola, publicou o trabalho “Contributions à la Flore Mycologique de l’Ile de S. Thomé” onde descreve 26 espécies de fungos colhidos por A. Moller na ilha de S. Tomé e no volume 11 (1893), P. A. Saccardo, publicou o trabalho “Sistens aliquot fungillos lusitanicos e guineenses”, apêndice do artigo “Florula Mycologica Lusitanica sistens contributionem decimam ad eamdem floram nec non conspectum fungorum omnim in lusitania hucusque observatorum”, onde descreve 14 espécies de fungos, 8 delas provenientes de S. Tomé.
Por sua vez, no volume 7 (1889), Augusto Nobre publicou o estudo “Recherches histologiques sur le Podocarpus Mannii” sobre o Podocarpus Mannii, uma conífera da ilha de S. Tomé, com base em material colhido por Moller perto da Lagoa Amélia, a 1400 m de altitude. No volume 8 (1890) foi publicado o artigo “Musci novi Insularum Guineensium” de V. F. Brotherus com a descrição de 27 espécies novas de musgos colhidos por F. Quintas nas ilhas de S. Tomé e do Príncipe. Ainda no volume 24 (1908/1909) foi publicado o trabalho “Plantae Insulae St. Thomae” onde são descritas três espécies da ilha de S. Tomé, duas por Veríssimo de Almeida e Sousa da Câmara e uma por A. Cogniaux.
A monografia “A Ilha de S. Tomé sob o ponto de vista histórico-natural e agrícola”, publicada no volume 27 (1917), apresenta um estudo muito detalhado sobre a ilha de S. Tomé com base nos dados que Júlio Henriques recolheu quando a visitou em 1903, nos trabalhos publicados nos volumes anteriores do Boletim e num grande volume de publicações de outros autores sobre diversos aspectos desta ilha. Este trabalho divide-se nos seguintes capítulos: 1) Resumo histórico da ilha, 2) Posição geográfica e orográfica, 3) Estrutura geológica, 4) As rochas de S. Tomé[11], 5) Clima, 6) A Fauna, 7) A Flora, 8) A Agricultura, 9) A Floresta e 10) Um problema (relacionado com um achado arqueológico). Na parte final desta extensa obra encontra-se o “Catalogo das espécies de animais e plantas até hoje encontradas na ilha de S. Tomé”, sendo a parte relativa à fauna baseada em publicações de autores estrangeiros e nacionais e a parte relativa à flora uma revisão, com correcções e algumas adições, ao que já havia sido publicado nos volumes anteriores do Boletim. Para a determinação das espécies vegetais de S. Tomé, Júlio Henriques, contou com a colaboração de inúmeros botânicos estrangeiros (Winter, Bresadola, Roumeguère, Berlese, Nylander, Nordstedt, Hariot, Stephani, Muller, Hackel, C. de Candolle, Cogniaux, os botânicos do Jardim Botânico de Berlim, dos Jardins de Kew e do Museu de História Natural de Paris) e portugueses (Veríssimo de Almeida e M. Sousa da Câmara).
Embora S. Tomé tenha sido a ilha que despertou maior interesse a Júlio Henriques, a flora dos outros territórios africanos também foi estudada como se pode ver pela análise dos seguintes trabalhos. A flora de Angola foi estudada por Cogniaux, Rolfe, Schumann e Baker, no volume 11 (1893), resultando no trabalho “Plantae africanae novae” que descreve 12 espécies colhidas em Angola por Sisenando Marques e por Welwitsch. A flora de Cabo Verde foi estudada no catálogo “Contribuição para o estudo da flora d’Africa. Enumeração de plantas colhidas nas Ilhas de Cabo Verde por J. A. Cardoso Junior” (volume 13, 1896), catálogo que dá a conhecer o notável trabalho realizado por Cardoso Júnior nas diversas ilhas deste arquipélago. 

Júlio Henriques contou com o auxílio de Christy, Bolle, Brotherus, Nylander e Askenasy na determinação das espécies. Este trabalho divide-se em 2 partes: a primeira composta por um catálogo de 204 espécies e a segunda com a descrição de 153 espécies de algas, com o título de “Énumération des Algues des iles du Cap Vert”. O artigo de Hackel “Espécie nova da flora das Ilhas de Cabo Verde: Chloris nigra, Hackel” (volume 21, 1904/1905) apresenta a descrição de Chloris nigra Hackel., uma espécie nova de gramínea encontrada nas ilhas de Cabo Verde. Relativamente a Moçambique, foi publicado no volume 6 (1888) o trabalho “Apontamentos sobre a flora da Zambezia. Exploração do medico M. Rodrigues de Carvalho” onde é feita uma breve descrição acerca da viagem à Zambézia inferior realizada por M. Rodrigues de Carvalho e se apresenta o catálogo das criptogâmicas e monocotiledóneas, composto por 70 espécies. No estudo das espécies deste catálogo, Júlio Henriques contou com o auxílio de Stephani, Baker, Hackel e Ridley.
Através da análise do seu espólio epistolar verifica-se que Júlio Henriques esteve ainda ligado ao processo de contratação do técnico agrícola suíço, John Gossweiler, pelo Governo de Angola, em 1903, que, de acordo com Fernandes (1993), durante a sua longa permanência ao serviço daquela província organizou um extenso herbário com mais de 15 mil números e contribuiu para o desenvolvimento agrícola daquela região.



[5] Muitos dos fazendeiros de S. Tomé com quem Júlio Henriques mantinha contacto, quando em Portugal, faziam questão de se deslocar a Coimbra para o visitar e de lhe descrever a exuberante vegetação daquela ilha (Fernandes, 1982).

[6] A Sociedade Broteriana foi fundada por Júlio Henriques em 1879 e foi assim denominada “em honra do notável naturalista” Félix de Avellar Brotero, como ele próprio refere no volume 1 do Boletim da Sociedade Broteriana (1880). À semelhança das Sociedades Botânicas de outros países teve como objectivo estudar a flora portuguesa, promovendo a formação de herbários locais, cujos exemplares seriam determinados no Herbário da UC onde existiam os meios necessários à correcta determinação dos espécimes (livros, Herbário de Willkomm, etc.). Esta sociedade tinha como membros todos aqueles que desejavam contribuir para um melhor conhecimento da flora de Portugal continental e ultramarino, entre eles, professores do ensino superior, secundário e primário, alunos dos cursos de botânica, párocos de cidades e aldeias, oficiais do exército, horticultores, botânicos amadores, etc. (Quintanilha, 1975). Como se pode verificar pelas palavras do próprio Júlio Henriques no Boletim da Sociedade Broteriana (volume 1, página 3): “Em todas as nações cultas o estudo da flora occupa a attenção de muitos naturalistas, e póde dizer-se que em todas ha numero consideravel de obras descritivas de incontestavel valor. Portugal tem feito excepção a essa regra. Além dos trabalhos do dr. Brotero pouco mais há. O nosso paiz tem sido explorado botanicamente mais por extrangeiros do que por nacionaes. (…) Muitas difficuldades porém se oppõem ao desenvolvimento dos trabalhos botanicos, que exigem meios pecuniarios, educação especial e elementos variados para estudo. Parte d’essas difficuldades podem ser vencidas vantajosamente por meio da associação, e por isso tentei em 1879 a formação d’uma sociedade, cujos membros se auxiliassem mutuamente trocando entre si os productos das suas herborisações e dando para o herbário da universidade um certo numero de plantas em paga do trabalho que ahi poderia ser feito para a exacta determinação das especies e distribuição dos exemplares colhidos pelos socios.". Aos sócios que viviam no continente juntaram-se outros residentes nas ilhas e nos territórios ultramarinos e começaram a chegar a Coimbra espécimes de herbário das mais variadas regiões do globo. Desta forma, o Herbário Português, constituído pelos espécimes de Portugal continental e territórios ultramarinos, aumentou progressivamente. À medida que os exemplares de plantas iam chegando e aumentando em número, Júlio Henriques e o seu naturalista, Joaquim de Mariz, verificaram a existência de muitas novidades para a flora de Portugal continental e ultramarino. Foi nesse contexto que Júlio Henriques fundou o Boletim da Sociedade Broteriana, publicação anual, aberta à colaboração dos sócios e de botânicos portugueses e estrangeiros, onde eram dadas a conhecer essas novidades. Até à data da sua jubilação publicaram-se 28 volumes desta revista, correspondendo à 1ª série desta publicação. A esta, seguiu-se uma 2ª série, inicialmente sob a direcção de Luís Carrisso e Aurélio Quintanilha, que perdura até aos dias de hoje. Luís Carrisso fundou ainda, em 1930, as Memórias da Sociedade Broteriana e, em 1935, o Anuário da Sociedade Broteriana.

[7] Para mais informações acerca da Exploração Botânica de S. Tomé por A. Moller, consultar: Henriques, Júlio Augusto. 1886. Exploração Botanica de S. Thomé. Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, 1: 6-9., e as publicações analisadas nesta comunicação.

[8] E posteriormente em Moçambique onde chegou a ocupar o lugar de colector no distrito de Lourenço Marques (Fernandes, 1993).

[9] Para mais informações sobre este colector, ver: Pereira, Joaquim Tomaz Miguel. 1985. Notas Bio-Bibliográficas sobre alguns colectores do antigo Ultramar Português. Anuário da Sociedade Broteriana, 51: 85-114.

[10] Para que este material chegasse nas melhores condições possíveis, J. Henriques, publicou no volume 6 (1888) do Boletim da Sociedade Broteriana, o artigo “Processo de preparação de plantas nas regiões equatoriais” com o objectivo de auxiliar os exploradores na difícil tarefa de preparar bem as plantas nas regiões quentes e húmidas.

[11] Capítulo da autoria do professor de Geologia da UC Dr. Anselmo Ferraz de Carvalho.