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Algumas notas biográficas, históricas e sociais

Fig. 1

Joaquim Augusto Simões de Carvalho, filho do farmacêutico Joaquim Simões de Carvalho e  D. Mariana Ludovina Simões de Carvalho, nasceu em Coimbra (SIMÕES DE CARVALHO, s.d.). Segundo as notas biográficas publicadas no Anuário da Universidade de Coimbra para o Ano lectivo de 1902-1903, consta da sua certidão de idade que foi baptizado a 29 de Julho de 1821 na freguesia de Santiago em Coimbra, o que concorda com a entrada da Enciclopédia Portuguesa Brasileira que aponta a data de 18 de Julho de 1821. No entanto, no artigo necrológico do mesmo Anuário, Júlio Henriques indica em nota de rodapé que a verdadeira data de nascimento é 17 de Julho de 1822 (HENRIQUES, 1903). Tomaremos como boa esta última referência, que só poderá ser confirmada com a consulta do seu registo de nascimento. 

Matriculou-se pela primeira vez nas faculdades de Matemática e Filosofia em 7 de Outubro de 1836, com catorze anos. Nesse ano atingiu-se um máximo de inscrições no curso de Filosofia (186 estudantes) depois de ter havido um mínimo em 1830 (26 estudantes) e um máximo anterior em 1826 (185 alunos) (CARVALHO, 1872, p. 78). Para estas flutuações contribuiu, como é bem conhecido, o facto de nos anos de 1828 a 1834, terem decorrido as Guerras Liberais, nas quais muitos académicos e estudantes se empenharam vivamente.  Durante essa altura a Universidade esteve frequentemente fechada (CARVALHO, 2002).
Formou-se em Filosofia a 26 de Junho de 1841. Realizou o seu acto de repetição (primeiro dos grandes actos) em 18 de Julho de 1842, fez provas de exame privado a 26 e doutorou-se a 31 do mesmo mês de Julho, pouco tempo depois de ter completado 20 anos.  No ano seguinte concorreu a um lugar vago na Faculdade de Filosofia e, embora, segundo as fontes citadas, fosse o mais novo dos candidatos ficou em primeiro lugar.  No entanto, o concurso foi anulado, segundo Júlio Henriques, sob um fútil pretexto que apenas serviu para encobrir maquinações políticas. O sistema de concursos vigente foi nessa altura substituído por um sistema de provas de grande dificuldade a que chamaram oposição longa (HENRIQUES, 1903; SIMÕES DE CARVALHO, s.d.). Para realizar essas provas, Simões de Carvalho, matriculou-se como doutor adido em 18am44 e só em 1849 obteve a nomeação de professor opositor (ver CARVALHO, 1850). Durante o tempo que durou as provas de oposição, matriculou-se também na Faculdade de Medicina e obteve a graduação em 1848, mas nunca exerceu clínica.  Em 1852 foi nomeado demonstrador, em 1855 lente substituto e mais tarde, em 1959, catedrático, tendo jubilado em 1879 (HENRIQUES, 1903).

Simões de Carvalho, ao longo da vida não só participou activamente na vida académica, como manteve uma razoável actividade cívica (HENRIQUES, 1903). Por exemplo, em 1847, com José Maria de Abreu e outros participa na criação do jornal O Observador que protesta contra os maus tratos praticados pelos Cartistas contra os Setembristas (BRAGA, 1903, p. 464). 

O visconde de Vila-Melhor na sua exposição sucinta (VILA-MELHOR, 1877) diz que a Universidade de Coimbra que em 1834 e nos anos imediatos parecia tão próxima da Ruína, nunca abandonou a senda do progresso (...) e animada pelos esforças de muitos dos seus professores, foi sucessivamente melhorando o seu ensino (...). Simões de Carvalho contribuiu com certeza para esse resultado.

Contemporâneos de Simões de Carvalho, mas com maior antiguidade na Faculdade, foram António Sanches Goulão (1805-1857, doutor em 1835), Manuel Marques de Figueiredo Junior (1808-1889, doutor em 1836), Antonino José Rodrigues Vidal (1808-1879, doutor em 1837), Pedro Norberto Correia Pinto d'Almeida (1806-1849, doutor em 1837), José Maria de Abreu (1818-1871, doutor em 1839), Joaquim Júlio Pereira Carvalho (1816-1871, doutor em 1839), Manuel dos Santos Pereira Jardim (posteriormente 1º visconde de Monte-São, 1818-1887, doutor em 1839) e Miguel Leite Ferreira Leão (1815-1880, doutor em 1840). Manuel Martins Bandeira (?-1862), doutorado em 1817 e, segundo Simões de Carvalho (CARVALHO, 1872, p. 261), seria um professor dotado de grandes qualidades, orientou o doutoramento de José Maria Abreu e de Simões de Carvalho. Em 1844 foi reformulado o curso de Filosofia, sendo introduzida, como parte da segunda cadeira, um curso de Filosofia Química de que Simões de Carvalho foi encarregue em 1848, enquanto Miguel Leite Ferreira Leão era responsável pelo Química Inorgânica. Este curso servirá de base às suas provas de oposição (CARVALHO, 1850).
Uma última nota sobre aspectos sociais. António Sanches Goulão, lente muito dotado de Física, segundo Simões de Carvalho (Carvalho, 1872, p. 320), que havia ajudado Simões de Carvalho a corrigir e melhorar as Lições de Filosofia, morreu em 1857, deixando a família em dificuldades económicas. Na Memória Histórica, Simões de Carvalho, aproveita para referir como a vida dos lentes, que só viviam dos seus ordenados, era difícil (CARVALHO, 1872, p. 320-322). Manifesta também bastante apreço por Pedro Norberto d'Almeida e pelo seu livro de 1836, Filosofia Especulativa (D'ALMEIDA, 1836) que provocou na altura uma azeda polémica entre o autor e António Sanches Goulão, feroz opositor das especulações de Pedro Norberto (CARVALHO, 1872, p. 324).  Citando ainda a Memória Histórica (CARVALHO, 1872, p. 324), só a intervenção dos colegas impediu que o pleito literário degenerasse em libelo escandaloso.