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O Laboratorio Chimico e o Colégio de Jesus

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra distribui-se por dois edifícios: o Laboratorio Chimico, recuperado já durante o Séc. XXI, e o Colégio de Jesus, que alberga grande parte das colecções científicas da Universidade de Coimbra. Os dois edifícios foram desenhados pela Casa do Risco, sob orientação do engenheiro militar e tenente-coronel William Elsden, que se salientou como director das Obras da Reforma da Universidade de Coimbra levada a cabo pelo Marquês de Pombal. 

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Fig. 1: O complexo jesuítico no séc. XVIII, antes da intervenção Pombalina. À esquerda o Colégio de Jesus, à direita o Colégio das Artes. O Refeitório é o edifício em segundo plano, à direita, e tem ligação directa aos dois colégios (gravura do Séc. XVIII, Museu Nacional Machado de Castro)

Elsden foi fundamental na criação e remodelação dos edifícios da Universidade iluminista, mas foi com o Bispo D. Francisco de Lemos (1735-1822), nomeado Reitor da Universidade de Coimbra em 1770 e Reformador da mesma Universidade em 1772, que a nova mentalidade iluminista se instalou. Os novos Estatutos da Universidade [1] foram publicados logo em 1772 e nenhum lente em exercício antes dessa data viu reconduzidas as suas funções. Para leccionar na nova universidade, Pombal trouxe para Coimbra Domenico Vandelli (1730-1816), Doutor em Medicina pela Universidade de Pádua, nomeado Lente de História Natural e Química em 1772; o Padre Monteiro da Rocha (1734-1819), nomeado Lente de Matemática em 1772 e de Astronomia em 1773; Giovanni Antonio Dalla Bella (1730-c.1823), da Universidade de Pádua, nomeado Lente de Física Experimental em 1772; Michele Antonio Ciera, engenheiro de Piemonte, nomeado Lente de Astronomia em 1772.
O Laboratorio Chimico foi construído para o ensino da Química, entre 1773 e 1777, materializando a ideologia iluminista do ensino experimental da ciência. Domenico Vandelli foi o seu primeiro Director. Tomé Rodrigues Sobral (1759-1829), que sucedeu a Vandelli, alargou as potencialidades do Laboratório quando o adaptou temporariamente ao fabrico de pólvora para as tropas defensoras da cidade, na sequência da ocupação e saque de Coimbra pelas tropas napoleónicas em 1 de Outubro de 1810, ficando conhecido como o “mestre da pólvora”.
No decurso das obras de adaptação do Laboratorio Chimico a Museu, os trabalhos arqueológicos revelaram que o edifício do Séc. XVIII fora construído aproveitando a sala do refeitório que servia o complexo dos colégios Jesuítas do séc. XVI, composto pelo Colégio de Jesus e pelo Colégio das Artes.
A intervenção trouxe à luz, intactas, algumas provas da utilização do edifício pelos jesuítas: várias janelas e um púlpito, bem como as fundações das cozinhas. Os elementos encontrados foram integrados na recuperação do edifício: o púlpito, uma janela conservada com a cantaria original, duas janelas no fundo da sala e o vigamento do tecto, do qual se manteve o desenho e os tirantes originais. 

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Fig. 2: Parede interior do Laboratorio Chimico onde se identifica o púlpito e uma janela do refeitório jesuíta. (fotografia de Emanuel Brás)

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Fig. 3: O Laboratorio Chimico, depois da intervenção do Séc. XXI (fotografia de Emanuel Brás)

O projecto de arquitectura, da responsabilidade dos arquitectos João Mendes Ribeiro, Carlos Antunes e Desirée Pedro, viu reconhecida a sua qualidade com a atribuição dos Prémios de Arquitectura Diogo de Castilho em 2007 e ENOR em 2009. O Museu da Ciência foi o vencedor do Prémio Micheletti 2008, que distingue o melhor e mais inovador museu europeu do ano em ciência, técnica e indústria.

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Fig. 4: O Colégio de Jesus (fotografia de Gilberto Pereira)

O Colégio de Jesus, face a face com o Laboratorio Chimico, alberga hoje as colecções de física, zoologia, geologia, mineralogia e paleontologia. O edifício que chegou aos nossos dias é a reconstrução do antigo Colégio de Jesus, estabelecido em 1542 pela Companhia de Jesus. A intervenção pombalina entre 1773 e 1775 adaptou o colégio de modo a tornar-se um edifício universitário, que passou a albergar os equipamentos destinados ao ensino experimental das ciências.

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Fig. 5: O Gabinete de História Natural (fotografia de Gilberto Pereira)

Com este espírito foram criados no edifício o Gabinete de História Natural e o Gabinete de Física Experimental, no quadro da Faculdade de Filosofia então criada, preservados no Colégio de Jesus até aos nossos dias, e ainda o Hospital e o Dispensatório Farmacêutico, no quadro da Faculdade de Medicina.

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Fig. 6: O Gabinete de Física (fotografia de Gilberto Pereira)

A reforma criou ainda o Jardim Botânico e o Observatório Astronómico. O Jardim Botânico é ainda hoje um dos tesouros da cidade de Coimbra. Já do Observatório Astronómico pombalino nada resta. Foi demolido nos anos 40 do Séc. XX, durante as obras de requalificação da Universidade, por ordem expressa de Salazar, com o polémico objectivo de deitar abaixo aquela excrescência do Observatório Astronómico para deixar intacto aos olhos encantados o panorama maravilhoso do Mondego, das Lágrimas, da quinta das Canas, do Seminário, das encostas de tristes oliveiras... [2].

O projecto do Museu da Ciência compõe-se de duas fases: a primeira consistiu na requalificação e adaptação do Laboratorio Chimico à função museológica; a segunda irá requalificar o edifício do antigo Colégio de Jesus.



[1] Estatutos da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1772
[2] Salazar, António de Oliveira - Discursos e Notas Políticas, II: 1935-1937. Coimbra Editora, Coimbra, 1937