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O acervo instrumental e o programa astronómico do OAUC

A real prática astronómica de um observatório está, obviamente, ligada ao acervo instrumental que este possui, ou, para sermos mais precisos, devemos afirmar que é o acervo instrumental de um observatório que dita o seu programa observacional; ou seja, a sua real e efectiva prática astronómica. Como atrás afirmámos um dos motivos que leva, nos finais da década de 1780, à resolução do problema da inexistência, na Universidade, de um verdadeiro Observatório Astronómico tal qual os Estatutos estabeleciam, é o património instrumental que ao longo dos anos foi sendo adquirido e cujo núcleo fundamental se encontrava por essa altura praticamente reunido. O observatório interino se servia para que “os estudantes [pudessem] nele tomar as Lições da Astronomia Prática”, não servia com certeza para que os professores e os astrónomos nele trabalhassem. Este edifício provisório não reunia nem as necessárias condições materiais para uma verdadeira prática observacional, nem, pelas suas pequenas dimensões, as condições suficientes para uma efectiva e desejada investigação científica. Servia quando muito, e possivelmente com várias condicionantes, para a guarda de alguns dos instrumentos astronómicos. Porém os sucessivos projectos para o edifício definitivo, que a partir de 1788 vão sendo delineados, contemplam todos os requisitos de um verdadeiro estabelecimento científico: espaços específicos para arrumação dos instrumentos, bem como para a sua instalação definitiva em salas e locais próprios para a observação. O definitivo OAUC (1799) organiza-se em vários espaços diferenciados: salas de aula, salas de observação, gabinetes, salas de instrumentos (nas plantas dos projectos (1790-1792) especifica-se mesmo as salas do Mural, do Sector e do Zénite), biblioteca, quarto de dormir e sala de jantar. A organização do espaço do OAUC responde às exigências práticas da própria praxe observacional, ou seja o espaço de observação disciplina o próprio espaço no qual se inscreve. 

O grande programa astronómico dos finais do século XVIII e primeiras décadas do XIX concentra-se em torno da mecânica celeste, caracteriza-se por uma constante busca de precisão na posição dos astros, principalmente os do sistema solar e das estrelas, de modo a contribuir para a melhoria da teoria newtoniana e das ferramentas matemáticas que compreendem os fenómenos celestes[16]. Neste processo contínuo – de desenvolvimento dos métodos instrumentais de observação, redução das observações e refinamento da teoria –, a astronomia prática desenvolve-se essencialmente em torno da medição angular das ascensões rectas e das declinações dos astros que passam no meridiano dos observatórios. A astronomia observacional não é por si própria investigação mas fornece, isso sim, dados observacionais para o astrónomo teórico. Esta necessidade de dados leva a que os observatórios se apetrechem com instrumentos cada vez mais precisos ocupando os telescópios meridianos, os instrumentos de passagens, os sectores, os telescópios reflectores e os quadrantes murais o cerne instrumental de qualquer observatório bem apetrechado da época. A grande preocupação do astrónomo do século XVIII é a recolha sistemática e precisa das posições dos astros, principalmente dos corpos dos sistema solar e das posições estelares. O essencial para o astrónomo é medir e essas medições exigem instrumentos cada vez mais precisos (os telescópios e lunetas por si só não o fazem). A astronomia prática tornou-se a rotina principal de qualquer observatório oitocentista, uma rotina que se renovava continuamente numa procura de uma maior exactidão observacional e na busca de novos métodos de instrumentação e observação. Este programa foi a base de um progresso triunfante para a ciência astronómica e esteve na base do desenvolvimento de uma verdadeira indústria de instrumentos astronómicos, onde os fabricantes ingleses passam a ocupar, a partir da década de 1720 um lugar de destaque, consequência dessa demanda de exactidão e precisão. 

O núcleo duro instrumental de um típico observatório do século XVIII ancorava-se então num conjunto de meia dúzia de instrumentos imprescindíveis ao desenvolvimento da astronomia meridiana. No centro deste grupo está o quadrante mural que se torna a quintessência do observatório oitocentista [Turner 2002][17]. Juntamente com o quadrante mural, outros instrumentos compõem esse núcleo essencial de instrumentos muito precisos. No verbete “Observatoire”, que Lalande escreve para a Encyclopédie Méthodique, lá estão especificados esses instrumentos indispensáveis: “un quart de cercle mobile [...], une lunette méridienne [...], un mural [...], une bonne lunette achromatique de 3 à 4 pieds, montée sur un pied parallactique [...], pendule & le compteur” [Encyclopédie Méthodique (mat.) 1784-89, t.II p.481] . Também o astrónomo Antoine Darquier (1718-1802), director do Observatório de Toulouse, especifica quais os instrumentos necessários para habilitar um observatório para um efectivo estudo dos céus, “[Avec les instruments ci-dessus détaillés, un observateur exercé & laborieux pourra faire beaucoup d'observations utiles]: 1º un quart de cercle de cuivre [...]; 2º un bon instrument de passages de deux pieds [...]; 3° une bonne pendule à secondes, à verge simple ou composée [...]; 4° un compteur, vous savez que c'est un mouvement de pendule simple qui marque les minutes, se sonne les secondes, 5° une lunette ordinaire de deux pieds [...]; 6° un petit quart de cercle de 18 à 20 pouces de rayon [...]; 7° une lunette de 7 à 8 pieds, ou un télescope à réflexion de 18 pouces au moins” [Darquier 1786, pp.5-7]. 

O núcleo instrumental fundamental do OAUC está bem identificado na planta final de 1792: ‘Observatorio Conimbricense (1792)’ (fig.9), onde se mostra a localização específica das salas para esses instrumentos: quadrante mural – 'Fundamentum Quadranti Murali destinatum ubi interim Quadrans mobilis tripedalis, opus Troughtoni absolutissimum'; instrumento de passagens – 'Fuandamentum pro Telescopio Meridiano acromático Cel. Dollondi'; luneta paralática – 'Podium australe, ubi Columna pro Instr. Parallat. cl. W. Cary'; sector – 'Ichnographia plani superioris, ubi Sector G. Adams decempedalis, quem ternae columnae limbo ortu respiciente, ad occidentem verso, ternae aliae sustinent'; bem como três pêndulas e ainda pequenos telescópios – 'speculae minores'. O Observatório de Coimbra não chegou a ter um quadrante mural fixo mas tinha quartos-de-círculo, onde se destaca o quadrante portátil de Troughton[19]. O quarto-de-círculo, munido de micrómetro ou retículo romboidal, acabará por ser o instrumento mais versátil e de mais amplo uso nos observatórios, suplantando o quadrante Mural que é difícil de fabricar, difícil de instalar e acima de tudo muito caro, sendo incomportável para o orçamento da maior parte dos Observatórios[20].

Fig. 9

Fig. 9 Pormenor da planta [fig.8] do OAUC - «Observatorium Conimbricense […1792]» [OAUC G-006]


Como se vê o OAUC possuía os principais instrumentos que constituem no século XVIII o cerne instrumental de um completo observatório astronómico, e por isso fundamentais para o estabelecimento de um efectivo programa observacional astrométrico[21]. Efectivamente o arsenal instrumental do OAUC coloca-o a par dos bons observatórios europeus desta época e o seu programa científico (delineado na C.R. de 4-12-1799, §§.7-10) sintoniza-o em absoluto com o programa da ciência astronómica dos grandes observatórios internacionais da altura[22].



[16] “L'Astronomie, considérée de la manière la plus générale, est un grande problème de Mécanique, dont les éléments des mouvements célestes sont les arbitraires; sa solution dépend à la fois de l'exactitude des observations et de la perfection de l'analyse, et il importe extrêmement d'en bannir tout empirisme et de la réduire à n'emprunter de l'observations que les données indispensables” [Laplace 1878-82, v.1 p.i].

[17] Este instrumento, que já ocupa, é certo, nos grandes observatórios árabes da época medieval, mais tarde no observatório de Tycho Brahe (1546-1601) e depois no de Greenwich com Flamsteed um papel de relevo, assume no século XVIII uma primazia tornando-se o primeiro de uma nova classe de instrumentos muito precisos. É a partir do quadrante mural de 8 pés feito por George Graham (1673-1751), em 1725, para uso de Halley (1656-1742) no Observatório de Greenwich, que o modelo se desenvolve, tornando-se então a partir daí quase omnipresente nos Observatórios (veja-se [Learner 1981, pp.52-72]).

[18] E são também estes os instrumentos que Lalande dedica dois capítulos no seu Astronomie (1771): “des instruments d'astronomie (Cap. XIII)” [Lalande 1771-81, v.2 pp.722-830] e “de l'usage des instruments & de la pratique des Observations (cap. XIV)” [Lalande 1771-81, v.3 pp.1-82].

[19] Numa das plantas para o Observatório do Castelo há uma com um quadrante: “Risco do Quadrante Mural copiado do que se acha no Real Observatório da Vila de Greenwich, com a descrição da construção, uso dele em observações astronómicas” [BNRJ Inv. 1.093.803AA n.X].

[20] Vejam-se [Turner 2002] e [Brooks 1991].

[21] São também estes os instrumentos que os Estatutos de 1772 já especificam como os que deveriam provir a “Colecção de bons Instrumentos do Observatório da Universidade”: “um Mural, feito por algum dos melhores Artífices de Europa; e um bom sortimento de Quadrantes; de Sectantes de diferentes grandezas; de Micrómetros; de instrumentos de Passagens; de Máquinas Paraláticas; de Telescópios; de Níveis; de Pêndulas [...] e de tudo o mais necessário a um Observatório, em que se há-de trabalhar eficaz, e constantemente no Exercício das Observações, e progresso da Astronomia” [Estatutos 1772, v.3 p.214].

[22] Adrien Balbi em visita (1808) ao OAUC afirma que para além de bem construído e bem situado, “il était aussi trés-bien fourni d'instrumens” [Balbi 1822, v.2 p.95]; também Lalande já o havia elogiado: “Nous avons reçu encore une description de l'Observatoire de Coimbre, par laquelle on voit qu'il y a des instrumens considérables; un secteur de dix pieds, une lunette méridienne de cinq pieds, un quart-de-cercle de trois pieds et demi, divisé à Londres par Troughton.” [Lalande 1803, pp.871-872].