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A actividade lectiva e cientifica do OAUC. A criação da cadeira de Astronomia prática (1801) e as aulas práticas no OAUC

No que concerne às aulas de astronomia (na sua componente prática) é evidente que o estabelecimento do OAUC (1799) traz também mudanças significativas. A partir de 1799 o ensino da disciplina de Astronomia sofre uma significativa mudança, cerca de 16 meses depois da entrada em funcionamento do OAUC procede-se a uma reforma curricular do 4º ano deixando a Astronomia de ser ensinada numa única cadeira e passando a sê-lo em duas. Pela C.R. de 1-4-1801 a primitiva cadeira de Astronomia é desdobrada em duas cadeiras autónomas, cada uma com um professor respectivo: uma de Astronomia Teórica e outra de Astronomia Prática [AUC IV-1ªE-8-3-4]. A justificação desta reestruturação é apresentada logo no preâmbulo do referido documento régio: “visto que pela sua vastidão não podem ser compreendidos nas lições delas com a extensão e profundidade que convém”. Imponham-se novos desafios à Faculdade de Matemática e ao ensino de algumas matérias que esta reestruturação tenta resolver[25].

A criação da cadeira de Astronomia Prática é, no nosso entender, uma consequência directa da própria criação do OAUC e da necessidade que se lhe impõe de começar a desenvolver uma sólida actividade científica de modo a cooperar com os trabalhos dos Observatórios europeus congéneres. Pretendia-se que os poucos alunos que chegavam ao 4º ano do curso adquirissem um sólido conhecimento e formação astronómica, para os empregar mais tarde, se isso fosse seu desejo, no trabalho teórico e prático do OAUC[26]. Ficava assim definido que na cadeira de Astronomia Teórica se faria o estudo da mecânica celeste, mencionando-se explicitamente o estudo dos “últimos descobrimentos das desigualdades seculares”, matéria fundamental para o suporte teórico das tabelas e efemérides astronómicas e que Laplace (1749-1827) havia tratado no 2º volume do seu Mécanique Celeste (1799) e que depois desenvolveria e aprofundaria no 3º volume (1802). Na cadeira de Astronomia Prática tratar-se-ia da teoria e uso dos instrumentos astronómicos, bem como dos cálculos e métodos das reduções das observações e especialmente “do cálculo das Tábuas Astronómicas em todas as suas partes” [C.R. 1-4-1801]. No que diz respeito ao horário das aulas, a Carta Régia deixava-o à consideração do Reitor[27]

No que diz respeito aos compêndios a mesma carta régia mandava que se fizessem “[desde] logo suplementos aos Compêndios até agora adoptados, enquanto não se formarem outros mais completos ao nível dos conhecimentos actuais”. Na Astronomia Teórica seria então usado o Mécanique Celeste de Laplace e na de Astronomia Prática continuaria a ser adoptado, cerca de 20 anos mais, o compêndio de Lacaille (1713-1762) (só em 1823 se adoptará o compêndio de Jean-B. Biot (1774-1862)[28]). Sobre as efectivas aulas práticas, observações e cálculos astronómicos, não se encontra, infelizmente, suporte documental algum que no-lo revele com pormenor. Porém não seriam muito distintos dos trabalhos e observações astronómicas que os alunos da Academia Real da Marinha efectuavam no seu Observatório da Marinha[29], pois tratam-se de observações e cálculos fundamentais para qualquer futuro astrónomo e piloto da marinha, e que compreendiam: determinações da altura do Sol; determinação das suas ascensões rectas e declinações; cálculo de distâncias de estrelas ao Sol; alinhamento e ocultações de estrelas; determinação dos instantes de emersões e imersões dos eclipses dos satélites de Júpiter; determinação da latitude e longitude do observatório; rectificação de instrumentos e regulação das pêndulas[30].

   

[25] Esta reestruturação de 1801 também introduz uma outra cadeira no currículo do ‘curso mathematico’, a cadeira de Hidráulica, cuja criação foi fortemente motivada pelos desafios que se colocavam com a obra do encanamento do rio Mondego para a qual o Governo havia solicitado parecer científico à própria Faculdade [Figueiredo 2011, pp.190-196].

[26] Embora segundo o novo regulamento do OAUC as aulas práticas de Astronomia devessem decorrer de modo a não interferirem com a actividade principal dos astrónomos, os melhores alunos, sob supervisão, podiam participar nas actividades observacionais quotidianas do OAUC, com o objectivo expresso de “nesse exercício se habilitarem melhor para serem providos nos lugares, que vagarem”.

[27] Segundo parece reservou-se inicialmente o horário das 9h:30m-11h:30m para a cadeira de Astronomia Prática e o das 15h:30m-17h:30m para a de Astronomia Teórica, mas este seria mudado a pedido dos alunos: “Representam a V. Exa. os Estudantes do 4º ano Matemático cujo número é composto de um representante e cinco voluntários que tendo duas aulas uma de Astronomia Prática que principia à nove horas e meia, e acaba às onze da manhã, e outra teórica desde as três e meia até às cinco da tarde devendo para cumprir qualquer delas fazerem uma séria aplicação para que o quantas muitas vezes não chega o tempo, gastando-se uma parte dele nas vindas e idas ao Real Observatório, lugar das mesmas Aulas, e sendo o meio mais próprio para evitar isto a mudança da Aula de Astronomia Teórica para as onze e meia da manhã, tempo em que finaliza a de Astronomia Prática; e como para isto obtiveram o consentimento do respectivo Lente, que atendendo à evidente comodidade dos seus Alunos anuiu dar a esta hora as suas Lições, e tem disto esta Aula, como modernamente criada não tem hora senão a que V. Ex.ª lhe apresar, por isso pede a V. Ex.ª se digne transferir a Aula de Astronomia Teórica para a hora em que finalizar a de Astronomia Prática [s.d.]” [BGUC Ms. 2530, nº.36].

[28] Para a cadeira de Astronomia foram adoptados desde logo (em 1772): o Leçons Elémentaires d'Astronomie Géometrique et Physique (Paris, 1746) de Lacaille, e o Astronomie (1764) de Lalande [Figueiredo 2011, pp.82-86, 131-136].

[29] A Academia Real da Marinha, fundada em 1779, tinha como objectivo formar os futuros oficiais da Armada e para o efeito ministrava um curso de três anos, onde se ensinavam matérias de matemáticas puras e aplicadas, astronomia e náutica (trigonometria esférica, navegação teórica e prática). O Observatório Real da Marinha foi criado em 1798, “destinado à prática de instrumentos de observação astronómica como meio de preparação dos futuros oficiais da Marinha” [Reis 2009, p.30].

[30] “Diário de exercícios práticos que se tiveram no Real Observatório da Marinha” [ANB Códice 807 NP], com a informação remetida pelo Inspector do Observatório da Marinha, Pedro Mendonça de Moura (1745-?), ao Ministro da Marinha, D. Rodrigo de Sousa Coutinho (1745-1812), informando-o sobre o progresso das aulas e outros assuntos da Academia da Marinha.