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O observatório astronómico da Universidade de Coimbra (1772-1837)

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A ideia de criar um Observatório Astronómico surge desde logo nos Estatutos Pombalinos (1772) a propósito da Faculdade de Mathematica e da respectiva cadeira de Astronomia (4º ano). A sua criação tinha dois objectivos distintos, a leccionação e o desenvolvimento da ciência astronómica. Os Estatutos Pombalinos encaravam a ciência como a força motriz para uma mudança de mentalidades essencial à modernização do país e a astronomia desempenhava um papel fundamental pelas “consequências tão importantes ao adiantamento geral dos conhecimentos humanos, e à perfeição particular da Geografia, e da Navegação”. Por isso mesmo o Observatório Astronómico era representativo desse modo de ver a ciência, constituindo simultaneamente um meio para o seu desenvolvimento. Através dele Portugal sintonizar-se-ia com a Europa científica do seu tempo – “Tem merecido em toda a parte a atenção dos Soberanos, fazendo edificar Observatórios magníficos, destinados ao progresso da Astronomia.” Contudo, apesar dos Estatutos estipularem desde logo a edificação do Observatório a verdade é que só em 1799 a Universidade se vê dotada com este estabelecimento científico.

O papel e a prática astronómica que se requeriam para o Observatório (traçados logo nos Estatutos e depois reforçados no seu regulamento, C.R. de 4-12-1799) prendem-no a uma dicotomia muito própria: por um lado como observatório universitário e por outro como observatório nacional. Um programa astronómico que lhe confere a característica de observatório nacional, envolvendo-o na elaboração e publicação das Efemérides Astronómicas – “Para o Meridiano do Observatório, e para uso dele (assim como se pratica nos mais célebres da Europa) se calculará a Efeméride Astronómica, a qual igualmente possa servir para uso da Navegação Portuguesa” –, e alguns aspectos que, também, o caracterizam como observatório universitário: a leccionação, onde os alunos deveriam ter aulas práticas – “fazendo-se adquirir aos Ouvintes o hábito, e prontidão necessária nos Cálculos Astronómicos, e na prática das observações [...]”[2]; e a investigação científica dos professores, para que “trabalhem com assiduidade em fazer todas as Observações […], para se fixarem as Longitudes Geográficas; e rectificarem os Elementos fundamentais da mesma Astronomia” [Estatutos 1772, v.3 p.213].

No que diz respeito à actividade do Observatório Astronómico, só a partir de 1799 este passa a ser um verdadeiro estabelecimento científico. Até meados da década de 1780 o observatório interino, que havia sido construído por volta de 1775-77, desempenhara quase em exclusivo uma função pedagógica, servindo principalmente como estabelecimento de ensino prático. A partir de meados/finais dessa década o observatório vê-se dotado do acervo instrumental que lhe permite passar a outro patamar: o de estabelecimento científico. Porém enfrentava um grave problema, a falta instalações para as necessárias e diversas valências ao seu pleno funcionamento.



[1] Adaptado de Fernando B. Figueiredo [1012, no prelo]. A criação do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra (1799) e o estabelecimento do seu programa científico, Actas do Colóquio ‘Espaços e Actores da Ciência em Portugal (XVIII-XX)‘, FCSH-UNL 

[2] “[...] Para isso distribuirá os discípulos em turmas, que lhe assistirão no Observatório pelos seus turnos […] e lhes ensinará o uso dos Instrumentos, fazendo muito por formá-los na precisão, e delicadeza escrupulosa, que distingue os Grandes Observadores, úteis ao progresso da Astronomia” [Estatutos 1772, v.3 p.195, 203]; “com o cuidado expresso de distinguir e não deixar interferir as aulas e a prática lectiva com as observações e práticas astronómicas quotidianas do Observatório” [C.R 4-12-1799, §.9].