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1. Uma colecção antes do museu? O núcleo de armas de serpe e morrão dos séculos XV-XVII

1. Uma colecção antes do museu? O núcleo de armas de serpe e morrão dos séculos XV-XVII

A história das colecções museológicas que viriam a constituir a secção de antropologia do Museu de História Natural pré-data a formação do próprio museu. Esta afirmação é baseada na existência de um núcleo constituído por 39 espingardas de mecha (21 das quais restauradas) e 54 canos respectivos[2]

A única hipótese quanto à origem destas armas foi avançada em 1872, por Simões de Carvalho, na Memória Histórica da Faculdade de Philosophia (1872: 213-214). Ao descrever o Museu de História Natural da Universidade, Carvalho refere: na primeira [galeria] estão algumas antiguidades, grande porção de armas, que se diz terem servido no glorioso cerco de Diu. A existência deste núcleo de armas no Museu de História Natural da Universidade, bem como a sua hipotética procedência (Cerco de Diu, 1546) volta a ser referida uns anos mais tarde por Belchior da Cruz num artigo intitulado Arcabuzes de serpe e morrão, publicado na Revista Portvgália (Cruz, 1899-1903:603), mas sem acrescentar informações concludentes. Permanecem até hoje desconhecidos os motivos da incorporação deste núcleo de armas antigas na Universidade de Coimbra e no Museu de História Natural, que só viria a ser constituído em 1772, bem como a razão que conduz à sua permanência na secção de antropologia formalmente constituída no final do século XIX. A documentação analisada não permite sustentar ou afastar a hipótese sugerida, nem ajuda a explicar a função que esta colecção pode ter tido no contexto da Universidade. A sua existência no Museu só começa a ser documentada ao longo do século XIX, através dos inventários antigos[3]. Particularmente no de 1829, são enumeradas 60 Espingardas antigas com cronhas, e fechos: estes são instrumentos por meio dos quaes isca aceza se chegava ao ouvido da espingarda. Faltão-lhes as varetas; no de 1850, surgem 42 Espingardas de murrao e 48 Canos d'armas antigas e no de 1881 46 armas de fogo, antigas. Adiciona-se posteriormente a esta colecção, um conjunto de 5 espingardas de pederneira (4 restauradas), de fabrico inglês, que muito provavelmente terão ter pertencido ao Corpo Militar Académico de Coimbra e sido utilizadas durante as Guerras Peninsulares (1807-1814). Se as primeiras duas referências nos inventários parecem reportar-se exclusivamente às espingardas de mecha, a entrada no inventário de 1881 poderia já incluir estas espingardas de pederneira[4]. Tendo em conta a datação provável associada ao fabrico e utilização destas armas, trata-se do núcleo museológico mais antigo, carecendo ainda de um estudo mais apurado que ajude a melhor contextualizar a sua incorporação e percurso institucional particularmente no contexto do Museu de História Natural. 

Pormenor da Espingarda de mecha ANT.2010.3.19.

Pormenor da Espingarda de mecha ANT.2010.3.19.

Pormenor da inscrição no cano da Espingarda de mecha ANT.2010.3.19.

Pormenor da inscrição no cano da Espingarda de mecha ANT.2010.3.19.

Pormenor da Espingarda de pederneira ANT.2010.3.1.

Pormenor da Espingarda de pederneira ANT.2010.3.1.

Inscrição «JPR» (João Príncipe Regente) da Espingarda de pederneira ANT.2010.3.4.

Inscrição «JPR» (João Príncipe Regente) da Espingarda de pederneira ANT.2010.3.4.



[2] As armas de mecha foram substituídas no séc. XV pelas de serpe ou morrão, mas só no séc. XVI se começou a usar este novo processo de inflamação de pólvora (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, 1960: 117), fabricadas e usadas entre os séculos XV e XVII. Tratam-se de armas de cano longo, de carregamento pela boca, cujo processo de funcionamento se baseava numa torcida ardente que, ao ser aproximada da caçoleta por pressão do gatilho, transmitia o fogo ao interior do cano.

[3] Apresentados e analisados neste texto.

[4] A colecção de armas de fogo antigas foi alvo de um estudo na década de 1980, sob a responsabilidade do então conservador Henrique Coutinho Gouveia e do Arquitecto Armando Almiro Canelhas (especialista em armas antigas). Este trabalho levou à elaboração de um plano de restauro e consequente recuperação de uma parte da colecção pelo Sr. António Luís, então funcionário do Museu Militar de Lisboa. Apenas em 2010 foi realizada a numeração e inventário definitivo da colecção.