Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

2. A criação do Museu de História Natural e as colecções do séc. XVIII

As reformas protagonizadas pelo Marquês de Pombal na Universidade de Coimbra, concretizadas na publicação dos Estatutos em 1772, dão origem a novas perspectivas de encarar e construir a ciência criando-se as Faculdades de Matemática e de Filosofia Natural. Nesta última, constituíram-se como organismos anexos o Museu ou Gabinete de História Natural, o Jardim Botânico, o Gabinete de Física Experimental e o Laboratório Químico. Como os restantes organismos, o Museu era considerado indispensável para a investigação e ensino das ciências naturais a que a reforma concedia particular importância (Gouveia, 1983: 3): nenhuma cousa pode contribuir mais para o adiantamento da História Natural do que à vista contínua dos objectos, que ela comprehende, a qual produz ideias cheias de mais força, e verdade, do que todas as Descripções as mais exactas, e as figuras mais perfeitas: He necessário para ficar dignamente o Estudo da Natureza no centro da Universidade, que se faça huma Collecção dos Productos que pertencem aos três Reinos da mesma Natureza (Estatutos 1772)[5]. O Museu, após a sua instalação em 1775 no Colégio de Jesus, viria a ocupar as salas do piso superior, incluindo uma sala de aula em anfiteatro e as salas dedicadas aos três ramos da história natural: mineralogia, botânica e zoologia (Gouveia, 1983: 14). Trata-se de um período, segundo Gouveia (1983: 5), em que se sobrepõe a influência de motivações associadas aos gabinetes das épocas anteriores (raridade e exotismo) às preocupações de análise e observação próprias do espírito científico naturalista que começava a emergir. 

É neste contexto que, por determinação régia de 1801, foi estabelecido um programa de correspondência entre o Real Museu da Ajuda e a Universidade de Coimbra, mediante o qual é enviada, em 1806, uma remessa pluridisciplinar de objectos e espécimes para o Museu de História Natural (França, 1922: 87). Na Relação dos Produtos naturais e industriaes que deste Real Museu se remetterão para a Universidade de Coimbra em 1806[6], contam-se 117 objectos de várias proveniências, incluindo África (93), Ásia (16), Índia (1), Nova Hespanha (2) e Perú (5).



Polvorinho em chifre. ANT.Br.84.Índia. Séc.XVIII

Polvorinho em chifre. ANT.Br.84.Índia. Séc.XVIII



Vaso sepulcral. ANT.90.10.265. Peru. Séc.XVIII

Vaso sepulcral. ANT.90.10.265. Peru. Séc.XVIII



No entanto, o enfoque da transferência incide sobre a recolha efectuada por Alexandre Rodrigues Ferreira, entre 1783 e 1792, no decurso da Viagem Philosophica à Amazónia, oriundos maioritariamente do Brasil (321 objectos).

A Relação de 1806 foi metodicamente organizada em torno de sucessivas categorias funcionais indicando, quase sempre e com precisão, sobretudo no que respeita ao Brasil, o local de proveniência, materiais, aspectos particulares da confecção e o correspondente número de exemplares, com a supervisão e o rigor de Ferreira ao introduzir no texto a correcção do que considerava menos claro. As primeiras descrições incidem sobre a temática do vestuário marcando a diferença do uso consoante os sexos e revelando interessantes aspectos da tramitação de produtos entre os Gentios da Parte Superior do Rio Branco e os Hollandezes de Surinam. O grupo dos Ornatos dos Gentios; e de alguns Indios Civilisados é bastante numeroso, 146 objectos, dos quais 130 são geográfica e cronologicamente bem diferenciados na Viagem, já que recolhidos entre o “Gentio” dos rios Negro, Branco e Madeira, mas também, do “Gentio” Bororó do Rio Paraguay. O capítulo Farças e Mascaras para os Bayles merece especial atenção por se referir a um dos mais notáveis grupos da recolha, persistindo 13 desses objectos embora a Relação não especifique o quantitativo transferido. Pelo breve apontamento que se lhes refere, este conjunto terá vindo para Coimbra antes de 1806: Foram as que ja se remetterão, feitas de entrecascas das Arvores; as quaes lhes servem de papellão, para o pintarem, e fazerem delle as Figuras de varios Animáes.

É consagrada ao Aparelho de tomar tabaco do Gentio do Rio Negro a mais extensa e pormenorizada explicação quanto à descrição dos objectos, materiais, componentes e utilização. Destacamos o Banquinho para assento dos Indios do dito Rio [Rio Negro], de uso exclusivamente masculino e associado às práticas xamanísticas locais, ainda hoje utilizado (Areia et al., 1991(a): 145). O conjunto Armas de Tiro, os Arcos e as Frechas, sendo um dos mais numerosos foi elaborado com algumas preocupações de pormenor, especialmente as Zarabatanas (Areia et al., 2004: 47-48).

A Relação de 1806 coloca interrogações quanto à correspondência numérica entre os objectos mencionados e os existentes. No entanto, é um suporte de trabalho importantíssimo não só para a construção de pontes entre o acervo da antropologia e o espólio alexandrino transferido para a Universidade de Coimbra como pela identificação das colecções “científicas” mais antigas de que vem a dispor o desenvolvimento da história natural e da disciplina antropológica na Universidade de Coimbra.

Banco cerimonial. ANT.Br.22. Alexandre Rodrigues Ferreira. Séc.XVIII

Banco cerimonial. ANT.Br.22.
Alexandre Rodrigues Ferreira. Séc.XVIII

Tanga de missangas. ANT.Br.91 Alexandre Rodrigues Ferreira. Séc.XVIII

Tanga de missangas. ANT.Br.91
Alexandre Rodrigues Ferreira. Séc.XVIII



[5] Dominico Vandelli, ao ser empossado como professor da cadeira de História Natural, torna-se também o primeiro responsável pelo Museu.

[6] Documento 26A cujo original pertence ao Arquivo do Museu Bocage, propriedade do Museu Nacional de História Natural.