Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

3. A dinâmica museológica do século XIX: os primeiros inventários

A partida da corte para o Brasil (1807-1808) e a consequente perda de incentivo da Coroa no que respeita à realização de expedições e à constituição de colecções condicionam as primeiras décadas do século XIX, marcadas por um abrandamento da incorporação de objectos no Museu de História Natural da Universidade.

Do ponto de vista da dinâmica museológica interna, os inventários mais antigos actualmente conhecidos datam do século XIX. Estes documentos são importantes para perceber não só a evolução dos conteúdos propriamente ditos do Museu, como também a evolução da sua classificação e da sua disposição no espaço. A catalogação das colecções do Museu de História Natural ter-se-á iniciado pelo menos em 1814 quando foi ponderada a necessidade de uma bibliotheca especial para cada estabelecimento e de um catalogo scientifico do museu (Carvalho, 1872: 86). Não obstante, a primeira relação de inventário conhecida data de 1829, mais de cinquenta anos após a criação do Museu de História Natural. Designado como Sala 5ª - Espingardas antigas. Armas e utensílios dos Índios. Madeiras, cascas, raízes e outros productos vegetaes, consiste no arrolamento enviado em 14 de Outubro de 1829 a José Joaquim Barbosa, doutorado pela Faculdade de Filosofia em 1818 e à data responsável pelo Gabinete de História Natural (Gouveia 1983:11; Martins 1985:117)[7]. O documento refere que os objectos se encontravam então na quinta sala do Museu, pendurados e junto às paredes e arrumados em estantes, estando os objectos agrupados em três categorias: Antiguidades (referente ao núcleo de armas antigas supra referido), Utensílios dos Índios (ocupando a 5ª, 6ª e 7ª estantes) e Produtos Vegetais (ocupando a 1ª estante).

Em 1842 está em preparação um novo processo de inventariação. Carvalho refere que o Director do Museu foi autorizado a fazer as despesas necessárias para o arranjo do catalogo e inventario do seu estabelecimento. Poucos anos mais tarde, em 1849, o próprio Simões de Carvalho é encarregado de dirigir o inventario geral do museu de historia natural (1872: 94; 118). Nesse mesmo ano, quebrando o ritmo praticamente nulo de incorporações ao longo da primeira metade do séc. XIX, a Faculdade de Filosofia lança uma proposta “às autoridades e agentes consulares no Ultramar, a fim de se obter remessas de productos para o Museu”, acompanhada de “instruções para a colheita preparações, acondicionamento e transporte” elaboradas para o efeito (Carvalho, 1872: 118), não sendo no entanto conhecidos resultados directos dessas iniciativas.

O novo Inventário do Gabinete de História Natural[8] surge então em 1850, assinado a 30 de Julho pelo respectivo Director, Fortunato Rafael Pereira de Sousa. Neste documento é discriminado o conteúdo das dez salas que constituíam o Museu, cabendo agora a 8ª sala às: Antiguidades. Objectos raros e curiosos, tanto da Arte como da Natureza. Producçoens vegetaes da América e da África. Num pequeno apêndice aparecem listados objectos da África Oriental que posteriormente foram identificados como tendo sido oferecidos em 1850 por João Pedro da Costa Coimbra. Tal como o inventário anterior, este está organizado em grupos sendo indicado o número total de objectos, não referindo doadores nem datas de aquisição (Gouveia, 1983: 12; Martins 1985: 118). A análise comparativa dos inventários de 1829 e 1850 traduz uma inexistência de alterações no que respeita à instalação das colecções estando os objectos e produtos vegetais distribuídos por sete armários.

Seria preciso esperar três décadas para surgir finalmente o Inventário dos objectos existentes na collecção ethnographica do Museu em Novembro de 1881[9], com o qual passa a dispor pela primeira vez de uma relação em que os objectos são designados como “etnográficos” e na qual surgem numerados tanto colectivamente como individualmente, citando em alguns casos a proveniência, o ano e o doador. Não são dados quaisquer elementos informativos sobre a disposição dos objectos no espaço do Museu. Constata-se, em relação a 1850, um aumento do acervo em resultado da oferta de colecções enviadas por alguns governos coloniais de Macau e Angola, remetidas respectivamente por José Alberto Homem da Cunha Corte Real, Secretário-Geral do Governo de Macau e Timor e Alfredo Augusto Pereira de Melo, Governador de Benguela[10].

Precisamente entre 1879 e 1882, várias remessas de objectos e produtos de Macau e Timor deram entrada na Universidade de Coimbra, em resultado de recolhas comissariadas pelo Governo desta província, que tinha como principal objectivo tornar conhecidas as qualidades, aplicações e preços dos produtos com potencial industrial e comercial, por sua vez resultantes dos laços estabelecidos com a Universidade através da figura de Júlio Henriques, então Director do Museu e Jardim Botânico. O objectivo de Henriques era reforçar a vocação de botânica económica do Museu através da incorporação de produtos vegetais manufacturados. Como o número de objectos existentes no Museu de História Natural que se poderiam adequar a este efeito era, segundo reporta, “muito pouco e de não grande qualidade” (Henriques, 1883: 60), Henriques envia pedidos às administrações coloniais para a expedição de remessas.

Corte Real, que se tinha formado em Coimbra, recebeu entusiasticamente estes pedidos reconhecendo de imediato a utilidade científica das colecções que se propunha formar e obtendo o apoio do Governador Joaquim José da Graça (Martins, 1999: 248). Nos relatórios publicados no Boletim da Província de Macau e Timor em 1880[11] e 1882[12], Corte Real alude precisamente ao facto de Júlio Henriques lhe ter escrito solicitando espécies da flora de Macau e de outra ordem de objectos, por mais insignificantes que parecessem, pequenas amostras de esteiras, tecidos, chapéus entre outros. Ainda que inicialmente as recolhas tivessem sido dirigidas apenas a Macau (1880), a Comissão de Corte Real acabou por estender a obra a Timor[13] (1882) cuja riqueza era tão ou mais urgente tornar conhecida.

Embora exista troca de correspondência de 1879 entre Corte Real e Henriques dando conta de diligências para a recolha e o envio de plantas para Coimbra, tanto quanto sabemos só em 1880 são enviadas as primeiras remessas de Macau[14], para o Museu Colonial de Lisboa (entretanto formado em 1871) e para o Museu do Jardim Botânico de Coimbra. Apesar do catálogo referir o total de 578 artefactos, a análise minuciosa da colecção indica tratar-se de um número bastante superior uma vez que agrupa com um só número vários objectos. Em Março de 1882 são expedidos para os Muzeus do Reino (Corte Real, 1883: 17) cerca de 248 exemplares de Timor e 91 de Macau incluindo, não só espécies botânicas, como também artefactos elaborados com matérias naturais daquelas regiões[15].

Em Coimbra, as remessas de Macau e Timor foram posteriormente divididas, consoante a sua natureza, pelos vários gabinetes do Museu de História Natural, tal como afirma Henriques: Além dos objectos que se encontram no Museu Botânico, outros muito importantes foram offerecidos para o Museu de História Natural, taes como aves e outros animais, armas, mineraes… (Henriques, 1883: 65).

No que diz respeito aos objectos “etnográficos”, a colecção de Corte Real inclui várias categorias de objectos, como móveis, bengalas, gaiolas, chapéus, aparelhos de pesca e outros, fabricados em fibras locais como bambu, rota[16], junco, ola, algodão e linho, para além de outras variedades. 

Carrinho de bambu. ANT.M.170

Carrinho de bambu. ANT.M.170 José Alberto H. C. Corte Real. Séc.XIX

Travessa para cabelo de tartaruga

Travessa para cabelo de tartaruga. ANT.T.22. José Alberto H. C. Corte Real. Séc.XIX



[7] Documento manuscrito existente no arquivo das colecções de antropologia. Ver anexo nº1. Trata-se de um documento parcial que de facto apenas indica os conteúdos da referida sala. Desconhece-se as outras partes do documento que descreveriam as restantes salas do Museu.

[8] Documento manuscrito existente no arquivo das colecções de antropologia. Ver anexo nº2.

[9] Documento manuscrito existente no arquivo das colecções de antropologia. Ver anexo nº3.

[10] Segundo o Júlio Henriques, foi enviada para o Museu Botânico pelo seu amigo Júlio Pereira de Mello uma curiosa colecção de “armas, manipansos, fructos e obras de madeira que em Benguela tinha sido reunida por Alfredo Pereira de Mello e que este destinava para o Museu”; a maior parte destes objectos foi depois remetida por Henriques para o Museu de História Natural (Henriques, 1881-1882: 252).

[11] Boletim da Província de Macau e Timor, Suplemento ao nº 26 de 28 de Junho de 1880.

[12] Boletim da Província de Macau e Timor, Suplemento ao nº 9 de 8 de Março de 1882.

[13] A Relação de objectos enviados para Coimbra (1882) demonstra que a recolha incidiu maioritariamente sobre os três reinos da natureza, recaindo apenas cerca de 34% sobre espécimes etnográficos.

[14] Remessas enviadas pelo navio Índia e respectivo catálogo que acompanhou a colecção. (http://bibdigital.bot.uc.pt/obras/UCFCTBt-JH-ConDa242-CORREA-JA1/UCFCTBt-JH-ConDa242-CORREA-JA1_item1/P1.html)

[15] Até 1896, ano em que se viria a autonomizar, Timor fazia parte da Província de Macau.

[16] Corte Real destaca pelo papel que desempenhavam e pela multiplicidade de funções duas matérias-primas: a rota e o bambu.