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4. O final do século XIX: a divisão disciplinar do Museu e o incremento das colecções etnográficas

O aparecimento de novos ramos de conhecimento nos finais do século XIX e a sua institucionalização universitária determinou em grande medida a criação e desenvolvimento diferenciado de museus dedicados a cada disciplina científica. Paralelamente, a primeira fase de exposições universais, industriais e coloniais tinha-se iniciado em Londres em 1851 intensificando-se à medida que se caminha para o final do século, traduzindo sobretudo as preocupações e os esforços de cada nação no que respeita ao progresso económico, mas tendo como consequência fundamental o reforço das colecções museológicas (Gouveia, 1983: 22). A história museológica e científica da Universidade de Coimbra vai reflectir especialmente estas duas grandes tendências no final do séc. XIX.

No que diz respeito à especialização disciplinar e à sua tradução na gestão das colecções pertencentes ao Museu de História Natural, verificam-se as primeiras transferências internas logo em 1870 quando o Museu Botânico começou a ser instalado no Colégio de S. Bento e, em 1873, quando alguns objectos referidos como antiguidades transitam para o Museu da Secção Archeologica do Instituto (Gouveia, 1983: 16). A criação de uma secção antropológica na Faculdade de Filosofia é mencionada em 1877 num texto de apresentação da Universidade de Coimbra na Exposição Universal de Paris (1878), elaborado pelo Visconde de Villa Maior (Comissário Real da participação portuguesa na exposição)[17]

Com Bernardino Machado a antropologia virá a ser pela primeira vez institucionalizada no contexto universitário português. A proposta de criação da cadeira de antropologia, à qual deveria ser anexada a respectiva secção do Museu, dirigida pelo respectivo Professor, foi apresentada na sessão de 8 de Junho de 1883 da Câmara dos Senhores Deputados. Tornou-se efectiva em 1885, em Carta de Lei, juntamente com a constituição formal das quatro secções do Museu de História Natural da Universidade: Zoologia, Botânica, Mineralogia e Antropologia, dirigidas pelos professores das disciplinas correspondentes (Diário do Governo, 1885)[18]. A cadeira de Anthropologia, Paleontologia Humana e Archeologia Prehistórica é criada em substituição da de Agricultura e Economia Rural, tornando-se Bernardino Machado responsável pela respectiva secção. Esta nova estrutura, assente na especialização disciplinar e museológica, abolia formalmente a direcção geral do Museu da Faculdade de Filosofia, acentuando significativamente a ligação entre as colecções e o ensino de cada cadeira (Gouveia, 1983: 18).

O período que corresponde à direcção da secção de antropologia por Bernardino Machado, que se estenderá até 1907, caracterizou-se por um acentuado incremento na incorporação de colecções. Neste sentido, a realização da Exposição Insular e Colonial Portugueza de 1894 no Palácio de Cristal no Porto foi um acontecimento chave que Bernardino Machado soube capitalizar. Em consequência desta exposição foram incorporados mais de mil objectos provenientes maioritariamente de Angola e de Moçambique (Martins, 1985: 126). Em consonância com as perspectivas científicas e económicas dos finais do séc. XIX a iniciativa acentuava os sectores “comercial, industrial e agrícola, destinada a fazer conhecer, o mais exactamente possível, o estado de adiantamento actual sob qualquer daqueles aspectos, tanto das nossas colónias como das ilhas adjacentes” (Catálogo, 1894: XXIV). 

A incorporação de objectos e produtos oriundos da Exposição portuense foi, como já referido, consequência da acção de Bernardino Machado mas também em grande medida de Júlio Henriques. O objectivo deste professor continuava a ser a obtenção de produtos manufacturados provenientes das regiões tropicais para o Museu Botânico para organizar uma colecção demonstrativa da utilidade das matérias-primas vegetais (Henriques, 1888: VI-VIII). A Bernardino Machado se deve a inclusão de algumas colecções importantes patentes na Exposição, das quais se destaca a obtenção entre 1896 e 1897, por compra e doação, de 562 objectos da colecção de Alberto Correia, maioritariamente de Angola[19]. Uns anos mais tarde, em 1897, Bernardino Machado torna-se responsável pelo sucesso na obtenção de uma colecção constituída essencialmente por armas provenientes de Angola e Guiné, de António E. Ferreira Mesquita, segundo está documentado na correspondência endereçada por este em 1896 que permite identificar os objectos.

Desenho de artefactos da Guiné. Anexo à carta dirigida a Bernardino Machado por António E. F. de Mesquita. Ilha Brava, 29 de Novembro de 1896.

Desenho de artefactos da Guiné. Anexo à carta dirigida a Bernardino Machado por António E. F. de Mesquita. Ilha Brava, 29 de Novembro de 1896.

Talvez em resposta ao elevado número de incorporações e a uma correspondente necessidade de actualização dos inventários, em 1897 começa a ser publicado na revista O Instituto sob o título Catálogo do Museu Ethnographico da Universidade de Coimbra um inventário detalhado dos objectos então existentes no museu, incluindo a maioria dos entrados até à data. O autor do inventário é Adolpho Frederico Moller, jardineiro chefe interino do Jardim Botânico. Apesar de incompleto (porque exclui as colecções do Brasil, Macau e Timor), este trabalho segue um critério geográfico, agrupando 1221 objectos de Cabo Verde, Guiné, Dahomé e Ajudá[20], Ilha do Príncipe e de S. Tomé, Congo Francês[21] e parte da colecção de Angola, de acordo com as características funcionais. Moller atribuiu-lhes ainda um número individual, designação, dimensões, grupo étnico, proveniência, ano de aquisição e nome do anterior proprietário.

Nesta época, as instalações ocupadas pela secção de antropologia, ainda localizada no Colégio de Jesus, nomeadamente as salas de exposição das colecções, são conhecidas através de dois conjuntos fotográficos. Segundo Gouveia (1985: 502), o primeiro foi executado para a apresentação da Universidade no Congresso Pedagógico realizado em Madrid (1892), tendo o segundo sido realizado pelo fotógrafo lisboeta A. Bobone em 1899 para a representação da Universidade na Exposição Universal de Paris de 1900.

Imagem duma das salas de etnografia do Colégio de Jesus. A. Bobone.

Imagem duma das salas de etnografia do Colégio de Jesus. A. Bobone

É possível identificar nesta imagem algumas espingardas de serpe e de morrão (núcleo antigo) dispostas sequencialmente junto ao tecto enquanto outros objectos se encontram dispostos em conjuntos temáticos exibidos em panóplia tendo subjacente uma preocupação estética.

A transição para o séc. XX foi indubitavelmente um período de forte incremento das colecções etnográficas do Museu de História Natural. Se, em 1878, “a Ethnographia repartia-se no Museu por apenas 12 metros de estantes”, como afirmava Júlio Henriques (1911:2-5), “à data da implantação da República ocupavam as collecções ethnographicas estantes de 63 metros, já muito insuficientes; e as colecções anthropologicas, começadas já depois de 1885, mal cabem em quatro salas”[22].

Entre 1897 e 1905 Bernardino Machado, em ofícios dirigidos ao Reitor, propõe inclusivamente a ampliação do museu: Havendo toda a conveniência em ampliar os locais do Museu de Ethnografia para que possa expor-se proveitosamente à vista de alunos e visitantes o numeroso material de estudo que elle hoje já possue…, utilizando-se o edifício da Igreja de S. Boaventura e respectivo claustro (Miranda, 1985:210).



[17] Villa Maior, 1877: 311.

[18] «Artigo 1º - É supprimida na Faculdade de Philosophia da Universidade de Coimbra, a cadeira de agricultura, zootechnia e economia rural, bem como o ensino da arte de minas.

§ 1º - É creada em substituição d’aquella cadeira de Antropologia, Paleontologia Humana e Archeologia Prehistorica. (…)

Artigo 2º - O Museu de História Natural da Universidade compõe-se de quatro secções, a saber: secção de Botânica, secção de Zoologia, secção de Mineralogia e de Geologia e secção de Anthropologia e Archeologia Prehistoria.

§ 1º - A cada uma dessas secções pertence a uma direcção independente e separada, exercida pelo professor da respectiva cadeira (…) (Diário do Governo, 1885).

[19] O coleccionador Alberto Correia participou na Exposição Insular e Colonial já depois do seu regresso definitivo de Angola, onde vivera cerca de cinco anos como funcionário dos caminhos-de-ferro. O catálogo dessa realização inclui observações feitas por este expositor acerca dos diferentes produtos artificiais dos indígenas que apresentou, em que transcreve diversos passos do livro “Angola e Congo”, que F. A. Pinto publicara em 1888 (Gouveia, 1983: 25, nota 2).

[20] Actual Benim.

[21] Território actualmente compreendido entre a República do Congo, o Gabão e a República Centro-Africana.

[22] Por “colecções antropológicas”, Júlio Henriques referia-se às colecções de antropologia física constituídas por iniciativa de Bernardino Machado, na mesma altura da fundação da cadeira de antropologia, designadamente as colecções de crânios de Timor (1883), a colecção de cabeças frenológicas (1890), colecções osteológicas humanas identificadas das três Escolas Médicas (1898-1903), entre outras (Rocha, 1995: 9-15). Uma vez que a dinâmica institucional recente condicionou a concepção e gestão diferenciada destas colecções em relação às colecções etnográficas, aquelas não foram consideradas neste texto.