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5. As primeiras décadas do séc. XX

A reforma dos Estudos Universitários de 1901 divide as cadeiras da Faculdade de Filosofia em duas secções: Sciencias Physico-Chimicas e Sciencias Historico-Naturais. A Antropologia passa a ser a 10ª cadeira do Curso Geral da Faculdade de Filosofia, Secção Sciencias Historico-Naturais, estando a ela ligado o Museu Antropológico definido como estabelecimento anexo à Faculdade Philosophia (Areia et al, 1991: 92)

Bernardino Machado vem a pedir, em 1907, por razões políticas, a exoneração do cargo de professor catedrático, sendo substituído por Eusébio Tamagnini, cujos interesses académicos conduziriam à secundarização da etnografia ao longo de toda a primeira metade do século XX em prol de um desenvolvimento pragmático da antropologia física (Porto, 2009: 86).

As três maiores colecções incorporadas já no séc. XX foram: a comprada a José Maria Carvalho e Rego (1902), proveniente de Moçambique e constituída essencialmente por adornos, instrumentos musicais e armas gentílicas (245 objectos); e as colecções oferecidas por Francisco Xavier Cabral de Moncada (1902) e José Pinto Meira (1916), ambas de Angola, incluindo esculturas, cachimbos, caixas de rapé, adornos, pentes, utensílios de cozinha, cestaria, símbolos do poder.

Em 1902, nota-se que a existência de colecções etnográficas não servia apenas à investigação, através da sua inclusão nos trabalhos de iniciação à investigação na cadeira de Antropologia. Várias fotografias de objectos foram publicadas pelos alunos nas «Dissertações para a cadeira de Anthropologia».

Ilustração do trabalho Indústria -Moçambique, elaborado por Carlos Acciaioli da Fonseca Themudo para a cadeira de Antropologia, 1902.

Ilustração do trabalho Indústria -Moçambique, elaborado por Carlos Acciaioli da Fonseca Themudo para a cadeira de Antropologia, 1902

Após a resignação de Bernardino Machado, Tamagnini passa a dirigir o Museu de Antropologia (1907-1950) direccionando a sua actividade para a investigação incidindo, como ele próprio afirmara, no ensino da Antropologia Física (Tamagnini; Serra, 1942: 7). Tamagnini elabora e publica um Programa de Antropologia dividido entre «Antropologia Zoológica» (que inclui secções como "Morfologia comparada das raças humanas" ou "Paleontologia dos Primatas") e «Antropologia Etnológica» (dividido em três secções "O grupo Euro-asiático; sua extensão e variabilidade; subdivisão de Kolmann", "Origens europeias" e "Problemas sociais").

Um dos elos mais importantes entre esta linha de actuação e o estudo das colecções foi concretizado com o «Curso Livre de Etnografia Colonial» (1912-1913), programado e leccionado por Barros e Cunha, que procurava promover a investigação das populações das colónias de África, Índia, Macau e Timor pela importância do conhecimento exacto da etnografia dos indígenas das colónias quanto à sua composição étnica e etnografia: costumes, religiões, artes, linguística, etc. sendo as colecções etnográficas um recurso para o estudo do plano a leccionar (Tamagnini; Serra, 1942). 

Em 1911, com a reforma da Universidade de Coimbra, as Faculdades de Matemática e Filosofia deram lugar à Faculdade de Ciências, ficando o Museu Antropológico associado a esta Faculdade. A transferência das colecções etnográficas do Colégio de Jesus para o de S. Boaventura (Rua Larga), onde irá permanecer durante cerca de 40 anos, viria a ocorrer já nos finais da segunda década do séc. XX.

Nos anos seguintes regista-se um significativo crescimento do acervo do Museu devido à incorporação das colecções pertencentes a Horácio Paulo Menano (1923), José Francisco Nazaré (1924), Eduardo Gomes Martins Cardoso (1927) e à recolha de Luiz Wittnich Carrisso (1927), todas provenientes de Angola e Moçambique.

Pela relevância de que se revestiram as Missões Botânicas levadas a cabo por Carrisso, professor de botânica da Universidade de Coimbra, realizadas entre 1927 e 1937, a Angola, destaca-se particularmente a primeira uma vez que resultou num aumento do espólio com interesse etnográfico enriquecido, por vezes, com documentação iconográfica contida no inventário que testemunha a transferência de 78 objectos para o Museu Antropológico[23]. Desconhece-se a data e o autor deste documento, pressupondo-se que a colecção terá sido organizada no Jardim Botânico e, posteriormente, transferida para a antropologia. Este facto advém da observação feita na nota de rodapé escrita a vermelho, com caligrafia diferente, referindo que os dígitos inscritos naquela cor foram colocados com base nos números de inventário atribuídos[24] no Catálogo das colecções etnográficas, publicado em 1955 (Amorim; Morais, 1955). A análise deste manuscrito sugere-nos o destaque das armas de caça e cerimoniais, perfazendo um total de 44%, sendo que 26% incluem-se na categoria de arcos e flechas, utensílios mágico-religiosos e o conjunto de cinco máscaras recolhidas no Nordeste da Lunda, em madeira e entrecasca de árvore batida. Carrisso apenas descreve a forma como o toucado da máscara Mwana Pwo é obtido: o cabelo aglomerado com argila vermelha e óleo de rícino forma pequeninas massas ovóides e esféricas, penteado que imita com fidelidade o das mulheres Cokwe. Um outro raro e excelente exemplar, máscara Nkaki, da etnia Lwalwa, proveniente da região do Kasai apresenta uma forte linguagem visual com a característica marca edjindula o kankolo, tacha de latão à guisa de botão no topo do nariz, tipicamente um símbolo Nkaki. Dada a importância atribuída ao emprego de cachimbos de água para fumar makanya, Carrisso desenhou uma mutopa descrevendo algumas das partes componentes[25]. É utilizado colectivamente em audiências públicas, primeiramente fumado pelos chefes e depois pelos súbditos, entre anciãos, amigos ou parentes ou em rituais onde o adivinho oferece baforadas ao espírito do seu ngombo ya cisuka para que ele se revele propício à sessão (Bastin, 2010: 223).

Máscara ritual. Nkaki. ANT.Ang.270. L. Carrisso

Máscara ritual. Nkaki. ANT.Ang.270. L. Carrisso

Desenho de L. Carrisso (1927)

Desenho de L. Carrisso (1927)

Mutopa. ANT.Ang.166. L. Carrisso

Mutopa. ANT.Ang.166. L. Carrisso

   

[23] No documento da Relação de 1927 foram incluídos dois Muquiches, apesar de terem sido recolhidos aquando da Missão Académica realizada em 1929.

[24] Note-se que nem sempre esta numeração está correcta em relação aos objectos recolhidos por Carrisso.

[25] Segundo Carrisso os termos foram aplicados “segundo a língua quioca de Saurimo”.