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Conclusão

Nos séculos XIX e XX, o Museu de História Natural da Universidade de Coimbra recebeu diversas colecções em consequência não só de expedições científicas, como também em resultado das redes pessoais e institucionais estabelecidas ao longo do tempo. Assim, as colecções aqui analisadas tanto resultam de processos de recolha sistemáticos com fins científicos como não. Colecções privadas, designadamente as que estiveram patentes nas exposições universais e coloniais, vieram a ser incorporadas no contexto museológico universitário de Coimbra, transformando-se assim em acervos científicos.

Foram inquestionáveis as marcas deixadas pela actuação de determinadas personalidades ao contribuírem para a história e percurso das colecções antropológicas da Universidade de Coimbra: Alexandre Rodrigues Ferreira foi um dos mais destacados naturalistas da sua época, por formação académica e pela prática profissional projectada nos seus escritos e no vastíssimo espólio colectado no decurso da Viagem Philosophica (1783-1792); Júlio Henriques, segundo o qual um Jardim Botânico deveria reunir uma colecção demonstrativa da utilidade das matérias primas vegetais, endereçou pedidos às administrações coloniais para o envio de remessas que acabaram por se traduzir num aumento dos acervos das várias secções do Museu de História Natural; José Alberto H. C. Corte Real, natural de Coimbra e formado em Direito pela mesma Universidade, cujo empenho e dinâmica o levou a reconhecer a proposta que lhe foi apresentada por Júlio Henriques reunindo amostras das riquezas que abundavam em Macau e Timor de modo a conseguir o melhor para ser exposto nos museus; Bernardino Machado, promotor da criação da cadeira de Antropologia (1885), soube igualmente tirar partido das redes pessoais e institucionais para reforçar e ampliar o “Museu de Ethnographia”; Luiz Wittnich Carrisso, sucessor de Júlio Henriques, deu a conhecer, sob diversas perspectivas, o designado «país de além-mar» demonstrando o potencial científico disponível nos territórios coloniais.

A pesquisa histórica que permite contextualizar melhor as dinâmicas que nortearam a recolha destas colecções, na maioria alicerçadas por redes que incluíam ex-alunos e docentes da Universidade Coimbra, sendo um trabalho aberto à discussão e em constante progresso, permite-nos perspectivar as contingências da construção de saberes antropológicos associados a objectos cuja classificação e função deve ser compreendida tanto a partir da sua vida pré como pós museológica. O período que vai da constituição do Museu de História Natural da Universidade no século XVIII até ao primeiro terço do século XX, permanece um período notável da história da ciência museológica em Coimbra uma vez que se torna possível captar uma certa continuidade no que respeita ao ritmo de incorporações e concomitante desenvolvimento científico e disciplinar. A apresentação da colecção de armas antigas, que antecede a formação do museu, teve como objectivo desestabilizar esta continuidade que firma a história do Museu apenas a partir da sua constituição formal, fazendo-a recuar e incluir as interrogações associadas à incorporação e função museológica da referida colecção. Por outro lado, à medida que se avança nas primeiras décadas do século XX, esta continuidade voltaria a ser abalada, com o museu universitário perdendo progressivamente a capacidade de acompanhar os desenvolvimentos científicos das disciplinas correspondentes, ainda que pontualmente desempenhando outro tipo de funções no contexto da Universidade.

A exploração da complexidade das razões subjacentes a esta afirmação, bem como as constantes reformulações institucionais que o Museu tem sofrido, extravasam o âmbito cronológico deste texto e como tal ficam como mote para uma reflexão crítica acerca do papel actual das colecções científicas e dos museus universitários.