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Introdução

O presente texto tem como objectivo enquadrar historicamente uma significativa diversidade de colecções que integram o acervo museológico de antropologia na Universidade de Coimbra, actualmente sob tutela do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. Enquanto trabalho de síntese, pressupõe uma espécie de continuidade histórica que resulta acima de tudo de uma interpretação selectiva e documentada dos eventos e da sua relevância. O principal desafio deste exercício está na compreensão das modalidades de classificação destes objectos e no desvelar das suas trajectórias antes e depois da incorporação museológica na Universidade de Coimbra, sendo fundamental reconhecer que as colecções não se encontram todas igualmente documentadas e estudadas. O entendimento destes objectos como “científicos” não é de todo unívoco, apesar de estarmos perante colecções universitárias. Quer isto dizer que, com algumas excepções, se considerarmos a história pré-museológica de muitas das colecções que compõem o anteriormente designado Museu Antropológico da Universidade de Coimbra, verificamos que a sua constituição nem sempre obedeceu àquilo que poderíamos chamar “princípios científicos” (sistematicidade, coerência teórico-demonstrativa, unicidade). Não obstante, a sua transformação em objectos museológico-universitários pode ser considerada suficiente para os revestir desse novo estatuto. Ou seja, depois de entrarem no Museu, estes objectos passaram efectivamente a ser, neste caso, “etnográficos”: isto é, instrumentos que suportam a construção não só de teorias antropológicas historicamente situadas, como também da própria identidade disciplinar e institucional. Particularmente na Universidade de Coimbra, a designação “Museu Ethnographico” começa formalmente a ser utilizada apenas a partir de 1881, sendo que as colecções que compõem o acervo, como se irá ver, podem eventualmente recuar até ao século XVI[1].
A abordagem aqui proposta é acima de tudo inclusiva - na medida em que se optou por não excluir colecções cujos critérios de constituição, incorporação e utilização museológica se pudesse julgar menos “científicos” e/ou menos claros – e breve – porque apenas se destacam algumas colecções, remetendo-se para a tabela no anexo nº 4 a indicação de todo o acervo incorporado até 1933. Deste modo, a perspectiva que aqui se apresenta procura traçar uma continuidade do percurso museológico das colecções, assumindo as contradições emergentes de uma abordagem menos normativa, isto é, que não propõe uma grelha de leitura estritamente focada numa pré-definição de “ciência” ou de “colecção científica universitária”, seleccionando para esse efeito exclusivamente os elementos materiais que a evidenciariam.



[1] A complexidade da história da antropologia em Coimbra, primeiro enquanto ciência natural do homem e depois também enquanto ciência colonial, não é objecto deste texto. Para um estudo recente sobre a história da antropologia em Coimbra ver, por exemplo, Santos (2005).