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A fundação do Instituto de Coimbra

Apesar do aparente estado de estagnação da investigação científica na instituição universitária antes da regeneração, que expomos através do relato, que julgamos imparcial, do futuro D. Pedro V, algumas inovações iam germinando em instituições parauniversitárias que juntavam estudantes e professores combatendo algum atavismo que se fazia sentir. Um exemplo foi a Academia Dramática (AD), criada em 1836, onde alunos e professores preparavam e exibiam peças teatrais. Os estatutos da nova academia, aprovados em 4 de dezembro de 1840 pelo ministro do reino Rodrigo da Fonseca Magalhães, previam a existência de três conservatórios (Dramático, de Música e de Pintura), que passaram a designar-se Institutos e que se viriam a fundir numa única entidade conhecida por “Instituto”. Ao Instituto incumbia a realização de trabalhos literários e artísticos, sendo por isso constituída por indivíduos versados nas artes de declamação, música, pintura e literatura, na sua maioria lentes da UC. 

Os atritos e afrontamentos que foram surgindo entre os membros do Instituto e os restantes elementos da AD originaram uma dissensão, efetivada pela comissão que dirigia o Instituto em 1851, constituída por José Maria de Abreu (Presidente), Luís José de Vasconcelos Azevedo Silva Carvajal (relator), José Carlos Massa (secretário), Jacinto Augusto de Sant’ana e Vasconcelos e Jacinto António de Sousa (vogais). Esta elaborou um Projeto de Estatutos do Instituto de Coimbra que previa, no artigo 2.º, a “independência daquela associação de outra qualquer.” A nova sociedade académica foi iniciada a 3 de janeiro de 1852, com a aprovação em Assembleia-geral dos novos estatutos que declaravam como objetivos “a cultura das ciências, belas letras e belas artes.” Com a fundação do “novo” Instituto de Coimbra (IC) incorporou-se uma área vocacionada para a cultura das ciências.

Toda a história do IC se entrelaçou com a história da UC, não sendo possível “dar conta da vida desta instituição científica isolando-a da Universidade de Coimbra, onde as suas raízes vão colher constantemente a seiva que o vivifica, e a todo o momento lhe fornece novas e pujantes forças” (Lobo, 1937, p. 6). Alguns consideraram o IC um “rebento juvenil” da alma mater que era a antiga Universidade (idem, p. 9). Exemplos de sociedades científicas e literárias que nascem e prosperam no seio de Universidades não são muito frequentes. O exemplo do IC afigura-se, por isso, um caso particular de uma associação que surgiu com uma identidade que se confundia com a da Universidade de Coimbra em cujo seio tinha nascido. 

O IC compreendia três classes, que tinham de ser escolhidas pelos seus associados, designadamente: I Classe - Ciências morais e sociais, dedicada aos assuntos relacionados com a economia e o direito; II Classe – Ciências Físico-matemáticas, que englobava todas as ciências naturais e exatas; e III Classe – Literatura, belas letras e artes, composta pelas secções de literatura, literatura dramática e belas artes.

De facto, a existência de uma sociedade científica e literária não era realmente nova no panorama nacional. A Academia Real das Ciências de Lisboa, fundada em 1779, aliou desde logo as ciências da observação e do cálculo às belas letras, promovendo o “convívio entre literatos e homens da ciência” (Agudo, 2010). Esta perspetiva científico-literária da Academia das Ciências de Lisboa manteve-se na sua reforma de 1851 com a existência de duas classes, a primeira dedicada às ciências matemáticas, físicas e naturais (hoje Classe de Ciências) e a segunda para as ciências morais, políticas e belas letras (hoje Classe de Letras). Como, em Portugal, sempre se valorizou a erudição literária em relação à cultura científica, os trabalhos puramente científicos eram tratados com alguma desconfiança pela maioria da população dita erudita, que não possuía a formação adequada para os compreender. Neste aspeto, também o IC pretendia contribuir para a aproximação entre as “duas culturas”, juntando num único periódico a poesia e a literatura com memórias de caráter marcadamente científico. Desta forma, seria combatida a “aristocracia da sciencia”, impedindo que esta se cobrisse com os “véus do mistério” e fazendo com que ela comunicasse “em linguagem facil, despidas do apparato das escholas, as noções fundamentaes de todas as sciencias, aos que não podem profundamente cultival-as” (Sampaio, 1852).

A primeira reformulação dos estatutos originais, de 3 de Janeiro de 1852, surgiu nos já referidos estatutos de 1860. Em Assembleia geral de 4 e 7 de Junho de 1882 foram aprovadas alterações dos estatutos, onde se destacou a descrição da medalha de prata a ser usada pelos sócios efectivos. Esta teria a inscrição – Instituto de Coimbra 1852, de um lado e a insígnia da sociedade no outro, com a legenda Auro Pretiosior[1], devendo ser usada suspensa de um duplo colar de prata.

Colar com a insígnia do Instituto de Coimbra.

Colar com a insígnia do Instituto de Coimbra




[1] Locução latina com o significado de mais precioso do que o ouro, numa clara alusão ao conhecimento.