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Breve história do Instituto de Coimbra

Os primeiros anos do IC serviram, principalmente, para alicerçar a instituição de acordo com os objetivos que haviam sido definidos aquando da sua fundação, afirmando-se de forma autónoma à AD. Aspirava tornar-se um “centro aglutinador e ‘mãe do conhecimento’ da cultura dialética das ideias a nível de Coimbra” (Xavier, 1992, p. 27). Para estes intentos contribuíram a garantia de financiamento da publicação do jornal científico e literário e a posse definitiva das instalações no Colégio de S. Paulo, o Apóstolo[2], através da portaria governamental de 5 de setembro de 1853, e a aprovação dos seus estatutos pelo decreto de 26 de dezembro de 1859, assinado por Fontes Pereira de Melo.

Colégio Real de S. Paulo

A maioria dos associados efetivos do IC acumulava as funções de professor na Universidade, enquanto muitos dos sócios correspondentes tinham realizado os seus estudos em Coimbra. Todos os presidentes do IC foram professores catedráticos da UC, tendo muitos deles desempenhado funções dirigentes na estrutura universitária, como diretor de faculdade, Vice-Reitor e Reitor. A título de exemplo, foram Reitores da UC: Augusto da Costa Simões (1892-98), António Santos Viegas (1890-92, 1906-1907) e Filomeno da Câmara Melo Amaral (1911-20). Francisco de Castro Freire foi Vice-Reitor (1876-83), Jerónimo José de Melo foi Diretor da Faculdade de Medicina (1864-67) e Francisco Costa Lobo foi Diretor da Faculdade de Ciências (1930-33) e do Observatório Astronómico (1922-45). O Presidente do IC tinha uma repercussão muito significativa na vida da academia, em particular através dos contactos estabelecidos com outras instituições e do recrutamento de novos sócios, muitas vezes resultantes das suas próprias relações pessoais. Por outro lado, o estatuto auferido pela chefia do IC é demonstrado pelo prestígio académico das individualidades que desempenharam estas funções.

Ao longo da sua longa história o IC foi presidido por cinco matemáticos (fig. 2). E, nos últimos 81 anos da sua existência, foi dirigida por matemáticos durante 58 anos. Entre os sócios fundadores encontra-se Francisco de Castro Freire (1809-1884), professor da Faculdade de Mathematica das disciplinas de Astronomia, Foronomia, Cálculo Integral, Cálculo de Variações, Mecânica de Sólidos, Geometria Descritiva, Geometria Analítica e Mecânica Racional. Entre os seus trabalhos destacam-se os Elementos de mechanica racional dos sólidos (Coimbra, 1853), Manual do agrimensor (Paris, 1866) e a Memória histórica da Faculdade de Matemática nos cem anos decorridos desde a reforma da Universidade em 1772 até o presente. Freire foi eleito presidente do Instituto em 1859, cargo que viria a ocupar novamente entre 1877 e 1884.

Matemáticos presidentes

Figura 2 – Matemáticos presidentes do Instituto de Coimbra ao longo da sua história.

O mais longevo e um dos mais destacados presidentes do IC foi Francisco Miranda da Costa Lobo (1864-1945). Entre as cadeiras que ensinou contam-se as de Cálculo Diferencial e Integral, Álgebra Superior, Astronomia, Mecânica Celeste, Astronomia Prática, Física Matemática e Geometria Descritiva. É muito vasta a sua obra científica, reconhecida internacionalmente, destacando-se os artigos sobre fenómenos solares, tendo publicado alguns deles n’O Instituto. Sócio efetivo do IC em 13 de dezembro de 1884 - e mais tarde sócio honorário - presidiu à instituição entre 1913 e 1945. Em 1955 foi publicado n’O Instituto o elogio histórico a Francisco da Costa Lobo e seu Filho Gumersindo da Costa Lobo. Os autores deste elogio foram dois matemáticos: o então presidente do IC, Diogo Pacheco de Amorim e Manuel dos Reis.

Em 5 de março de 1873, por deliberação numa sessão da III Classe, foi criada uma secção de Arqueologia. Os trabalhos desta secção previam a realização de explorações arqueológicas a fim de se recolherem objetos relevantes, que, juntamente com outros cedidos por instituições ou particulares, deveriam constituir uma coleção que servisse de recheio a um museu, situado numa sala do rés do chão do Colégio de S. Paulo o Eremita (Castro, 1874, p.89), não muito longe do Colégio de S. Paulo, O Apóstolo. Este museu foi adquirindo importância com o avolumar de objetos, o que levou à prossecução de novas explorações, que incidiram especialmente nas povoações de Condeixa, Montemor-o-Velho, Tentúgal, Ançã, S. Marcos e na própria cidade de Coimbra (idem, p.92). O Museu de Antiguidades, confiado à secção de Arqueologia do IC, só foi oficialmente inaugurado em 26 de abril de 1896. O acervo deste museu foi o ponto de partida do Museu Nacional Machado de Castro, criado por decreto-lei de 26 de maio de 1911, que, portanto, hoje é mais do que centenário.

Primeira sala do Museu de Antiguidades

Primeira sala do Museu de Antiguidades do Instituto de Coimbra

O IC sempre conviveu bem com o poder político, sempre procurando o melhor relacionamento com este, mesmo em momentos em que muitos dos seus sócios não se reviam nos regimes então vigentes. Aponte-se o caso de Bernardino Machado, que foi presidente do IC de 1896 a 1907, num período muito conturbado da monarquia, no qual já se fazia sentir a ação do movimento republicano que ele integrava. Em contrapartida, após a revolução republicana, seria Costa Lobo, um monárquico, a assumir em 1913 o cargo de Presidente do IC. As duas presidências foram contrastantes: enquanto Machado procurou uma maior intervenção social do IC, materializada com os cursos populares de 1898, já Costa Lobo procurou estabelecer contactos com individualidades académicas, nacionais e internacionais, privilegiando as relações académicas, o que terá suscitado a designação de “Clube dos Lentes” atribuída pelos estudantes ao IC. Mais notória foi a proximidade entre o IC e o Estado Novo, que concedeu várias benesses à associação coimbrã, como a concessão regular de subsídios por parte da Junta de Educação Nacional e do Secretariado da Propaganda Nacional, apesar de a inclinação política do IC nunca ter sido oficialmente declarada.

Se a fundação da AD brotou de um espírito cooperativo entre as classes docente e estudantil, trabalhando ambas em conjunto num espírito igualitário, a dissenção que ocorreu aquando da criação do IC, em 1852, protagonizada, maioritariamente, por professores, gerou um sentimento de animosidade dos estudantes para com o “Clube de Lentes”. Em 1861 formou-se, por iniciativa estudantil, o Clube Académico, ao qual foram cedidas parte das instalações do colégio de S. Paulo Apóstolo, onde passou a coabitar com o IC e com a Nova Academia Dramática. Já em 1868, por altura da transferência do IC para as novas instalações no Colégio de S. Paulo Eremita, ocorreu a fusão entre o Clube Académico e a Academia Dramática, que deu origem à Associação Académica e Dramática. Finalmente, em 1887, esta associação passa a designar-se Associação Académica de Coimbra (AAC). A AAC, depois de várias mudanças, acabou em 1913 por ocupar o rés do chão do Colégio de S. Paulo Eremita, espaço que ficou vago após a implantação da República, com a extinção do Museu de Antiguidades do IC e a criação do Museu Nacional Machado de Castro, no Paço Episcopal.

Colégio de S. Paulo Eremita

Colégio de S. Paulo Eremita, na Rua Larga, ou “A Bastilha” segundo a tradição académica, demolido na década de 1940 a fim de permitir a construção dos Departamentos de Química e de Física.[3]

Os estudantes voltaram a reencontrar os lentes do IC, partilhando o mesmo edifício. Contudo, a precariedade das instalações da AAC, no rés do chão, contrastava com o fausto das salas e gabinetes do primeiro andar ocupado pelo IC. O mal-estar entre estudantes e professores veio a agudizar-se nos anos seguintes, culminando no célebre episódio da “tomada da Bastilha”: após a organização de um comité para reforçar as suas reclamações, a AAC tomou a decisão de se apoderar do edifício, o que sucedeu na madrugada de 25 de novembro de 1920. Todos os móveis e livros foram então transportados para o piso superior, tendo sido dado conhecimento dessa ação estudantil à cidade, através do toque dos sinos da Universidade e do som de foguetes e morteiros, que durou todo o dia. A ação foi também comunicada por telegramas ao Presidente da República, ao governo e ao Reitor da Universidade. Esta ação de protesto ficou como símbolo da luta contra a opressão e a tirania em Coimbra, sendo ainda hoje festejada pelos estudantes.

Por ocasião do quarto centenário da instalação definitiva da Universidade em Coimbra, em 1937, decidiu o IC colaborar, ativamente, nas comemorações através da publicação de um volume da revista O Instituto, totalmente dedicado à Universidade, e a organização de uma sessão solene onde se poriam em “evidência os íntimos laços que unem a Universidade e o Instituto de Coimbra, e que as recentes direções (…) teem procurado estreitar fortemente” (Lobo, 1942, p. 728). Nessa sessão solene estiveram presentes, para além de Costa Lobo, presidente do IC, de João Duarte de Oliveira, Reitor da Universidade de Coimbra, e dos colaboradores da publicação comemorativa, o Reitor da Universidade do Brasil, Pedro Calmon, e os consócios do IC, Georges Le Gentil e Hubert Gillot, respetivamente das Universidades de Paris e Estrasburgo.

A presidência de Costa Lobo, para além da mais prolongada (de 1913 a 1945), foi também a mais dinâmica em toda a vida do IC. Esta afirmação é confirmada pelo número de volumes publicados da revista O Instituto (46 volumes), pela participação do IC em congressos relevantes em território nacional e estrangeiro, pelas conferências realizadas nas suas instalações e pelos associados estrangeiros do IC eleitos ao longo deste período, alguns dos quais visitaram Coimbra a convite da direção do IC, como Monsenhor Sebastian Nicotra, antigo colaborador do Papa Leão XIII, Frank Dyson, astrónomo real da Grã Bretanha, Monsenhor Alfred-Henri-Marie Baudrillart, reitor do Instituto Católico de Paris, etc. O IC colaborou na organização de congressos internacionais no nosso país, como os congressos mistos das Associações Portuguesa e Espanhola para o Avanço das Ciências em Coimbra, em 1925, e em Lisboa, em 1932.

Anselmo Ferraz de Carvalho (1878-1955), professor da Faculdade de Ciências, sucedeu a Costa Lobo quando este faleceu em 1945. Embora com uma personalidade mais discreta, Ferraz de Carvalho fez-se também notar na atividade do IC. No entanto, alguma da dinâmica da presidência de Costa Lobo prolongou-se ao longo da presidência de Ferraz de Carvalho, que se estendeu até 1954, mantendo-se sempre o ritmo da publicação de O Instituto

Alguns meses após o falecimento de Costa Lobo concretizou-se um dos seus sonhos, que foi a transferência da sede do IC para a sua localização derradeira, no antigo edifício da Imprensa da Universidade, no n.º 1 da Rua da Ilha, para onde também se transladou a lápide atrás referida e onde hoje ela ainda se encontra.

O evento de maior relevância da presidência de Anselmo de Carvalho foi o Centenário do IC, comemorado em 1953 numa sessão especial realizada a 20 de dezembro. O volume 115 da revista O Instituto foi um número comemorativo onde se incluíram as alocuções realizadas nessa sessão. Contrastando com os votos de renascimento e vida longa para a sociedade académica conimbricense, este evento marcou o início de um processo descendente que iria prolongar-se ao longo das três décadas seguintes.

Anselmo Ferraz de Carvalho

Anselmo Ferraz de Carvalho (então Presidente do IC) discursa na sessão comemorativa do centenário do IC em 1953[4]


A Ferraz de Carvalho sucedeu Diogo Pacheco de Amorim em 1955, professor de Matemática da Faculdade de Ciências, que se manteve na presidência até 1975, já após a Revolução dos Cravos. A instabilidade social e política que se sentia impossibilitava quaisquer tentativas de revigorar o IC, que sentia então grandes dificuldades financeiras e já se encontrava num estado de evidente decadência, demonstrada não só pela grande dificuldade em obter financiamento para a publicação regular da sua revista como também pelo estado deplorável de degradação das suas instalações. A perda de prestígio da instituição deu origem a comentários pouco abonatórios, circulando por Coimbra a frase “Corre bruto, senão fazem-te sócio do Instituto” (Xavier, 1992, p. 183).



[2] Este edifício encontrava-se no local onde hoje se localiza a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Foi demolido em 1882 para aí se construir o novo Teatro Académico.

[3] Retirado de “A velha alta…desaparecida” (1984), pp. 34 e 35.

[4] Fotografia pertencente ao espólio do Instituto de Coimbra.