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As Ciências da Terra

A atividade mineira e metalúrgica em Portugal remonta aos romanos e desde essa época sempre se têm explorado os recursos minerais do nosso país. Francisco Marques de Sousa Viterbo (1845-1910), formado em Medicina na Escola Médico-cirúrgica do Porto, decidiu antes dedicar-se à arqueologia e à história, tendo publicado n’O Instituto numerosos artigos sobre estes temas. Num deles, debruçou-se sobre a história das artes e indústrias metálicas em Portugal, fazendo a resenha das várias explorações mineiras que foram surgindo no nosso país até ao fim do século XIX e dos seus protagonistas. Pela análise da sua memória verificamos que, apesar de ter tido alguma importância a pesquisa do ouro em minas e nas areias dos rios Tejo e Mondego, tal trabalho estava totalmente abandonado no final do século XIX (Viterbo, 1903, p. 699). As razões prendiam-se com a elevada despesa de extração, comparativamente à diminuta percentagem de ouro, e com uma maior atenção dada às riquezas naturais deste metal em algumas colónias. Em Moncorvo eram exploradas jazidas de ferro, apesar de algumas restrições resultantes da escassez de combustível para alimentar os fornos necessários à extração deste metal (idem, p. 697). Também surgem referenciadas as minas de Portalegre e de Avelar. Para além do ferro, foram também exploradas no nosso país minas de cobre e estanho, metais usados a partir do século XVI na produção de bronze (Pinto et al., 2007, p. 529).

O interesse científico pela metalurgia em Portugal intensificou-se a partir do final do século XVIII, nomeadamente a partir da reforma da Universidade em 1772. Vicente Coelho de Seabra, no seu livro Elementos de Química publicado entre 1788-90, para além das propriedades químicas e físicas dos metais descreveu alguns procedimentos metalúrgicos e docimasistas. Para Vicente Seabra, a metalurgia, vista como a “arte” de extrair, fundir, purificar e misturar metais, era um ramo essencial da Química, ao passo que a docimasia era a “arte” de, através de procedimentos laboratoriais, detetar e determinar a quantidade e proporção dos metais existentes nos minérios (Pinto et al., 2007, p. 531). Também Domingos Vandelli publicou várias memórias entre 1789-92, onde abordou o tema dos recursos minerais em Portugal e nas suas colónias e uma sobre a Casa da Moeda (idem, pp. 532-533).

No sentido de dar cumprimento a uma recomendação estabelecida nos Estatutos Pombalinos, nomeadamente a escrita de recursos pedagógicos que servissem de suporte aos cursos das Faculdades, o então 1.º lente substituto da cadeira de Física e discípulo de Vandelli, Manuel José Barjona (1758-1831), assumiu a tarefa de elaborar um manual de metalurgia. Esta área encontrava-se integrada na disciplina de Química, lecionada a partir de 1791 por Thomé Rodrigues Sobral. Os Elementos de Metalurgia foram publicados em 1798.[20] Estava dividido em duas partes: a primeira lidava com a metalurgia e a segunda era relativa à docimasia e montanística.[21] Na primeira parte eram tratadas na generalidade as substâncias metálicas conhecidas, os processos metalúrgicos usados e os respetivos instrumentos. Não era feita qualquer referência à atividade metalúrgica ou mineira em Portugal nem ao livro de Vicente Seabra.

Em 1801, a maior ênfase dada à exploração mineira teve repercussões no ensino da Universidade, levando à criação da cadeira de Metalurgia, o que obrigou ao rearranjo da cadeira de Química, pois ambas se desenvolviam no Laboratório Chymico (Ferreira, 1998, p. 51). Para lente da nova cadeira foi designado José Bonifácio de Andrada e Silva, um estrangeirado que tinha passado os dez anos anteriores na Europa, tendo adquirido prestígio internacional como mineralogista. Andrada da Silva foi pensionário da Academia Real das Ciências, tendo estudado em Paris com os professores Balthasar-Georges Sage (1740-1824), René Just Hauy (1743-1822) e Antoine-Francois Fourcroy (1755-1809), após a conclusão dos bacharelatos em Filosofia (1787) e Leis (1788) na UC. Durante o período passado em Paris, que coincidiu com a fase inicial da revolução francesa, terá tido contacto com o próprio Lavoisier. Em 1892 frequentou a Escola de Minas de Freigberg, na Saxónia, onde estudou geologia com o alemão Abraham Gottlob Werner (1749-1817), desenvolvendo amizade com Alexander von Humbolt. Visitou muitas minas da Saxónia, da Turíngia, da Boémia e do Tirol. Visitou as academias italianas de Milão e Pádua, onde assistiu a lições de Alexandro Volta, partindo em 1796 para a Suécia e a Noruega. Nos estudos que realizou das jazidas locais nestes países, caracterizou novas espécies minerais às quais deu nome, nomeadamente o caso já mencionado do mineral petalite no qual foi descoberto e isolado, em 1817, um novo elemento químico – o lítio (Ferreira, 1998, pp. 55-56).

Foi por intervenção de Andrada da Silva que foi criado na Faculdade de Filosofia um Gabinete de Metalurgia. Também em 1801, surgiu o Laboratório Real de Química na Casa da Moeda de Lisboa, como secção da Universidade de Coimbra, tendo sido Andrada da Silva o seu primeiro diretor (Pinto et al., 2007, p. 540). Em 1804, iniciou-se uma cadeira de Docimasia, cursada em Lisboa na Casa da Moeda a cargo de João António Monteiro (1769-1834), que cedo largou o lugar para ir estudar para a Europa, onde permaneceu e se notabilizou nos estudos cristalográficos (Ferreira, 1992, p. 88-89).

Andrada da Silva nunca publicou nenhum trabalho na área da metalurgia. Sendo natural do Brasil, regressou à sua pátria em 1819, onde teve uma intervenção decisiva no processo de independência. Já Manuel Barjona, que tinha sido preterido na ocupação das cátedras de Metalurgia e de Docimasia, veio a assumir a cadeira de Mineralogia e Zoologia em 1813. Em 1823 publicou o primeiro livro escrito em português sobre mineralogia – Taboas Mineralógicas. Conotado com o movimento liberal, chegou a estar preso na cadeia da Universidade, situada sob a Biblioteca Joanina, desde junho de 1828 a dezembro de 1829, após o qual foi julgado, absolvido e exonerado administrativamente da Universidade (Ferreira, 1998, pp. 71-77).

Em 1836, deu-se a extinção da Intendência Geral de Minas e Metais do Reino, seguindo-se um período de estagnação da atividade mineira em Portugal, que se prolongou até aos anos cinquenta. No ano de 1853 apenas duas minas eram exploradas: S. Pedro da Cova (antracite) e Braçal (chumbo) (Cruz, 2000).

Após a reforma das Faculdades de Filosofia e Matemática de 1836, foi criada a cadeira conjunta de Mineralogia, Geognosia e Metalurgia, que ficou entregue a Roque Joaquim Fernandes Thomaz (1807-71) até à sua jubilação em 1857. A este seguiu-se uma das figuras mais versáteis e multifacetadas da Universidade do século XIX, José Maria de Abreu. Este professor da Faculdade de Filosofia foi substituto de quase todas as cadeiras da Faculdade no período de 1841 e 1855. Como lente, iniciou-se na Química e, após passar pela Mineralogia, Geognosia e Metalurgia de 1857-59, assentou a sua carreira de catedrático na Agricultura, onde permaneceu até à sua morte em 1871. Foi o único sócio do IC que ocupou cargos nas três classes. Para além das suas incursões na meteorologia, tendo sido o iniciador das observações meteorológicas no Gabinete de Física, na telegrafia elétrica, com um artigo publicado n’O Instituto (referido anteriormente), e de várias intervenções nas obras realizadas na Faculdade, distinguiu-se também pela sua atividade política, como deputado pelo Partido Regenerador, e pela sua vasta obra no âmbito da instrução pública. 

A importância da indústria metalúrgica motivou o envio de Matias de Carvalho e Vasconcelos, em 1857, em missão científica à Europa, mandatado pelo Conselho da Faculdade de Filosofia. No primeiro relatório, que enviou para Portugal, dissertou sobre magnetismo terrestre e meteorologia, descrevendo as suas visitas a vários observatórios europeus, enquanto os relatórios seguintes foram dedicados à Metalurgia. O segundo relatório de Matias de Carvalho centrou-se na análise de ligas metálicas, especialmente as ligas usadas na produção de moedas (Vasconcelos, 1858b).

O início de uma nova fase no progresso da Geologia em Portugal foi marcado pela criação, em 1857, da Comissão Geológica de Portugal. A esta iniciativa ficou ligado o nome de Carlos Ribeiro (1813-1882), um proeminente engenheiro militar e geólogo português. Sócio do IC, desde a sua fundação, e amigo de Costa Simões, foi no primeiro volume de O Instituto que Carlos Ribeiro publicou os seus Estudos Geológicos do Buçaco (1852). Estes estudos consistem na correspondência entre Carlos Ribeiro e o então vice-presidente da Sociedade Geológica de Londres, Daniel Sharpe, onde se discutia a possibilidade de obter carvão industrial sob os depósitos secundários de grés e calcário. Nas suas cartas, Carlos Ribeiro descrevia as suas explorações e achados, e acompanhava-as com fósseis recolhidos no local, recebendo em troca aconselhamentos e pareceres do ilustre geólogo inglês. Estes estudos seriam também publicados nos Proceedings of the Geological Society, sob o título On the Carboniferous and Silurian Formation on the neighborhood of Bussaco in Portugal by Senor Carlos Ribeiro with notes and description of Animal Remains by Daniel Sharpe. Refira-se que, entre 1850 e 1852, Carlos Ribeiro era engenheiro da companhia Farrobo e Damazio, concessionária das minas de carvão e pedra do Buçaco e cabo Mondego (Loureiro, 1882, p. 195). A estes estudos geológicos, seguiram-se muitos outros realizados em várias regiões portuguesas.

A partir dos trabalhos de levantamento geológico realizados e, em conjunto com Nery Delgado, Carlos Ribeiro publicou em 1878 uma Carta Geológica de Portugal que foi a primeira tentativa de elaboração de um mapa geológico de conjunto nacional. Joaquim Filippe Nery da Encarnação Delgado (1835-1908) foi um incansável companheiro de Carlos Ribeiro e também um pioneiro da Geologia em Portugal e profundo conhecedor da paleontologia, tendo descoberto e classificado alguns dos mais antigos restos orgânicos encontrados no nosso país (nomeadamente a fauna câmbrica de Vila-Boim). Sucedeu a Carlos Ribeiro na direção da Comissão Geológica e elaborou uma nova carta geológica de Portugal, na escala de 1:500 000, publicada em 1899, em coautoria com Paul Choffat. Léon Paul Choffat (1849-1819) foi um geólogo suíço que viajou a Portugal em 1878 para estudar a estratigrafia e a paleontologia dos terrenos jurássicos. Apesar de a visita ter sido, inicialmente, pensada como temporária, Choffat acabou por se estabelecer no nosso país.

Em 1902, Anselmo Ferraz de Carvalho assumiu o lugar de lente catedrático de Geologia, cadeira que regeu até 1911. O seu interesse pela Geologia seria renovado em 1919 quando se tornou diretor do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da UC. Aproveitando a verba disponibilizada pelo museu, efetuou várias explorações geológicas, destacando-se a sua missão às ilhas de S. Tomé e Príncipe em 1928. Para além do interesse geológico, uma preocupação evidente incidia sobre observações geomagnéticas. Mas esta preocupação não se limitava a Coimbra, havendo a necessidade de obter cartas magnéticas rigorosas de Portugal e da Península Ibérica. Foi este o conteúdo de um ofício dirigido por Ferraz de Carvalho ao Reitor da UC em 14 de março de 1923, onde se alertava que o nosso país figurava em branco na carta magnética europeia (Santos, 1995). Apenas em 1926, e depois de terem sido adquiridos um teodolito magnético (de Chasselon) e um indutor terrestre (de Sartorius), foi possível dar início aos trabalhos de campo nesta área. Munido também de uma barraca modelo, isenta de materiais magnéticos, e acompanhado por dois funcionários, Ferraz de Carvalho percorreu regiões do continente, em geral no verão, aproveitando também para fazer colheitas geológicas. Os resultados deste trabalho foram apresentados no congresso luso-espanhol, realizado no Porto em 1942, numa memória com o título Magnetismo terrestre em Portugal.

Terminamos esta exposição com o nome de um outro sócio efetivo do IC e professor da Faculdade de Ciências da UC, José Custódio de Morais (1890-1985). Tinha concluído o doutoramento em Matemática em 1914 quando já era assistente da Faculdade de Ciências e astrónomo do Observatório Astronómico. Após alguns anos como professor no Liceu José Falcão, em Coimbra, voltaria a matricular-se na Faculdade de Ciências, desta vez para se doutorar em Ciências Histórico-Naturais, em 1923, com uma dissertação sobre Classificação de Cristais. Natural da Marinha Grande, Custódio Morais dedicaria grande atenção às características geomorfológicas desta região, tendo escolhido como tema da sua tese de concurso a professor catedrático Algumas rochas ígneas do Distrito de Leiria.



[20] Uma edição fac-similada deste livro foi publicada pela Universidade de Coimbra em 2001. Inclui uma versão em português revista e comentada por Martim Portugal Ferreira (Barjona, 2001).

[21] Trata da extração e fusão dos metais e exploração dos respetivos depósitos minerais.