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As Ciências da Vida

A instituição mais representativa dos estudos de Biologia em Coimbra é o Jardim Botânico. Embora tenha a sua génese na Reforma Pombalina de 1772, o seu propósito inicial era muito menos ambicioso do que o extenso e emblemático jardim de que hoje os visitantes podem desfrutar, sendo até considerado o “pulmão” de Coimbra. São vários os artigos publicados n’O Instituto que contam a história do Jardim Botânico da UC, surgindo em épocas distintas autores como José Maria de Abreu (1855), Júlio Augusto Henriques (1876), António José Teixeira (1889) e Anselmo Ferraz de Carvalho (1918). Com efeito, a ideia inicial do Marquês de Pombal de criar um modesto horto botânico, concretizada em 1774, foi-se alargando ao longo dos anos por ação intermitente de insignes nomes da ciência portuguesa. As restrições financeiras foram sempre um obstáculo. O Jardim Botânico só assumiu verdadeira relevância com o plano de obras estabelecido por Brotero. Félix de Avelar Brotero (1744-1828), então emigrado em Paris. O seu nome foi proposto pelo reitor da UC, em 1791, à Rainha D. Maria I, para lhe ser confiado o ensino de botânica e agricultura. Durante os vinte anos em que Brotero permaneceu em Coimbra, coube-lhe, para além do ensino, a direção do jardim conimbricense no qual aplicou os seus vastos conhecimentos da organização dos jardins botânicos europeus.

Após a saída de Brotero, o Jardim Botânico da UC entrou num período de decadência, subsistindo à custa de esmolas ou devido à intervenção esporádica de alguns protetores, como foi, por exemplo, o naturalista australiano Friedrich Martin Josef Welwitsch (1806-1872), que viria a radicar-se no nosso país. Tendo conduzido e participado em várias expedições científicas, com o intuito de recolher plantas, nos Açores, Cabo Verde e Angola, ofereceu algumas das suas coleções ao Jardim Botânico (Abreu, 1855). Uma nova era surgiu em 1866 com a conclusão das estufas e com a contratação do botânico e horticultor alemão Edmond Goeze (1838-1929), que realizou uma missão à ilha de S. Miguel a fim de trazer uma valiosa coleção de plantas raras que viriam a ornamentar a nova estufa (Goeze, 1871). Foi também nesta década que se estabeleceram frutuosas relações com os jardins de Paris, Kew, Hamburgo e Berlim (Carvalho, 1918, p. 270).

Em 1874, foi a vez de Júlio Augusto Henriques (1838-1928) assumir a direção do Jardim Botânico e lhe dar o formato bastante próximo do que podemos vislumbrar nos dias de hoje. Tornou-o útil não apenas para o ensino da botânica mas também para a agricultura, com olhos voltados para as colónias. Um exemplo foi a plantação, promovida pelo Jardim Botânico de Coimbra, de quinas nas possessões portuguesas ultramarinas, nomeadamente a sua transferência das regiões de onde estas plantas são originárias, na América tropical (especialmente das florestas virgens da Venezuela, Equador Peru e Bolívia), para ilhas africanas, como a de S. Tomé. O silvicultor Bernardino Barros Gomes (1839-1910), licenciado em Filosofia pela UC, publicou em 1872 um folheto onde descrevia os trabalhos realizados por holandeses e ingleses em plantações destas plantas na ilha de Java, apresentando os preceitos que foram seguidos. Invocou semelhante possibilidade para a respetiva cultura nas possessões portuguesas africanas, sendo para isso necessária a sua criação prévia no Jardim Botânico de Coimbra de modo a ensaiar a sua aclimatização às “terras de África” (Henriques, 1876, pp. 186). O valor medicinal da casca destas plantas, de onde era possível obter os alcaloides quinina e cinchonina, que tinham propriedades antipiréticas, analgésicas e eram eficazes no tratamento do paludismo, justificava completamente a sua plantação e comércio. Os estudos químicos das propriedades febrífugas das quinas remontavam ao início do século, principalmente a partir dos trabalhos de Bernardino António Gomes, o primeiro a isolar a cinchonina em 1812, como já foi mencionado. Esta descoberta chegou, inclusivamente, a gerar polémica, desvelada nas páginas do Jornal de Coimbra entre 1812 e 1819, assumindo-se Thomé Rodrigues Sobral como principal autor das críticas a Bernardino António Gomes. Defendeu o primeiro que o princípio “febrífugo” deveria ser concebido como resultado de uma união química natural de vários princípios componentes das quinas (Costa, 1984, pp. 83-85). Entre 1867 e 1871 foram semeadas várias espécies de cinchonas em Coimbra, cujas sementes foram provenientes dos jardins botânicos de Kew, de Paris e até da Austrália (Henriques, 1876, p. 187). Estas sementes produziram muitas plantas que foram plantadas em viveiros nas ilhas de S. Tomé e de Santo Antão (esta última no arquipélago de Cabo Verde). Foi publicada n’O Instituto uma descrição dos ensaios da cultura de quinas na ilha de S. Antão, em 1875, da autoria de Francisco Frederico Hopffer (1828-1919) (Hopffer, 1876).

A ação de Júlio Henriques não se limitou, porém, ao Jardim Botânico. Ele é considerado o percursor das ideias de Charles Darwin em Portugal, através da sua dissertação para o ato de conclusões magnas, de 1865, onde recorreu às provas que abonavam a teoria darwiniana para responder à questão: As espécies são mudáveis? No ano seguinte, regressou ao mesmo tema na sua dissertação para concurso e aplicou-o ao ser humano, num trabalho intitulado Antiguidade do Homem. A admiração que Júlio Henriques nutria por Darwin vem demonstrada na publicação de uma sua tradução de um artigo do botânico franco-suiço Alphonse de Candolle na revista O Instituto. O artigo, que tem por título C. Darwin: causas do successo de seus trabalhos e importancia d'elles, vem acompanhado por uma nota de Júlio Henriques onde se pode ler:

“Tem uma importância de primeira ordem tudo quanto diz respeito a Darwin, inquestionavelmente um dos naturalistas de maior vulto da epocha atual: por isso me dei ao trabalho de verter para a nossa linguagem o artigo muito notável que na Revista Scientifica de Genebra publicou o sr. A. de Candolle, nome respeitabilíssimo para quantos cultivam as sciencias naturaes. D’esta forma o nosso jornal presta culto ao sábio inglez” (vide Candolle, 1883, p. 344).

Sobre o darwinismo merece uma menção Albino Augusto Giraldes de Moraes (1826-1888), professor catedrático da UC. Frequentou os cursos de Matemática e de Medicina, que não viria a concluir, optando pelo curso de Filosofia que concluiu com uma dissertação inaugural sobre a Constituição física da atmosfera (1859). Em 1879 realizou uma conferência perante o Grémio Literário Conimbricense a que deu o título O Darwinismo ou a origem das espécies. O conteúdo da sua comunicação foi publicado num de quatro opúsculos com o nome genérico de Questões de philosofia natural (notas e apontamentos). Os restantes folhetos versaram a química (Lei dos isómeros da série Cn H2n+2, 1878) e a zoologia (Catálogo das aves de Portugal existentes atualmente no museu de Coimbra, 1879; Nomenclatura Zoographica, 1881). Um excerto da sua conferência sobre o darwinismo foi também publicado n’O Instituto no ano da morte de Albino Giraldes (Giraldes, 1888).

Júlio Henriques também desempenhou um papel essencial na reforma do ensino da botânica (Coutinho, 1918), o qual desejou complementar com outras obras suas: o Museu Botânico (Henriques, 1882) e o Herbário. O próprio descreveu o funcionamento da aula de Botânica em 1892, evidenciando a realização de trabalhos práticos pelos alunos que, apesar de não serem obrigatórios, eram executados assiduamente e devidamente valorizados na avaliação (Henriques, 1892). Com a participação inicial de vinte sócios, Júlio Henriques presidiu à fundação da Sociedade Broteriana, em 1880, instituição que iniciou, em 1882, a publicação do seu Boletim, um periódico científico que se haveria de manter ao longo de 27 volumes. No ano em que se completavam oitenta anos da sua publicação, o volume 65.º d’O Instituto foi-lhe dedicado.

No que respeita à botânica e à zoologia, são abundantes n’O Instituto artigos que abordam a catalogação de seres vivos, com particular incidência nas espécies existentes em Portugal e nas colónias ultramarinas. Alguns desses artigos resultam de missões científicas levadas a cabo por naturalistas portugueses e estrangeiros. Um exemplo já referido foi a expedição de Friedrich Welwitsch a Angola (Gomes, 1863). São também recorrentes os trabalhos de Adolpho Frederico Moller (1842-1920), silvicultor que desempenhou funções na Administração Geral das Matas do Reino (1860) e inspetor do Jardim Botânico de Coimbra (1873). Moller notabilizou-se pela exploração científica da ilha de S. Tomé onde, ao longo de quatro meses, recolheu várias centenas de espécies zoológicas e exemplares botânicos.

Outros autores que desenvolveram estudos publicados n’O Instituto foram: José Lopes Vieira (1862-1907), bacharel em Filosofia na UC, em 1887, e engenheiro silvicultor pela École Nationale Supérieur des Forêts, em Nancy, França; Manuel Paulino de Oliveira (1837-1899), professor catedrático de Zoologia na UC; os alemães Gustav Niessl von Mayendorf (1839-1919), George Winter (1848-?) e o austríaco Félix Von Thümen (1839-1892), três micologistas que desenvolveram estudos dos cogumelos em Portugal, publicando as respetivas séries num conjunto de trabalhos intitulados Contributiones ad floram mycologicam lusitanicam.

Em 1925, o Jardim Botânico da UC e os seus anexos (herbários, museu, biblioteca e laboratórios) passaram a denominar-se Instituto Botânico Júlio Henriques, que era presidido por Luís Wittnich Carrisso (1886-1937). Luís Carrisso foi o sucessor de Júlio Henriques à frente da cadeira de Botânica e participou em três expedições científicas em Angola, na última das quais viria a falecer, vítima de síncope cardíaca. Foi também a convite de Luís Carrisso que, em 1919, Aurélio Quintanilha regressaria a Coimbra. Aurélio Pereira da Silva Quintanilha (1892-1987) é, provavelmente, o mais famoso biólogo português do século XX. Após ter frequentado a Escola do Exército e Faculdade de Medicina, optou pelo curso de Ciências Histórico-naturais, na Faculdade  de Ciências de Lisboa, antes de ingressar como primeiro assistente da Faculdade de Ciências da UC. Em Coimbra, colaborou com Júlio Henriques na publicação do Boletim da Sociedade Broteriana, tendo-se doutorado em 1926. Ainda realizaria um estágio de três anos na Alemanha, entre 1928 e 1931, mas os seus trabalhos na UC seriam precocemente interrompidos em 1935 em virtude da sua expulsão por motivos políticos. Com apenas 43 anos, Aurélio Quintanilha viu-se obrigado a emigrar, fixando-se em França até 1941. Impossibilitado de trabalhar em Portugal Continental, por imposição do Estado Novo, aceitou o convite para organizar e dirigir os serviços do Centro de Investigação Científica Algodoeira, sedeado em Lourenço Marques, Moçambique. Permaneceu nestas funções até 1975.