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A Física

No que respeita à evolução da Física em Portugal desde 1852, os primeiros nomes são os de Jacinto António de Sousa e de José Maria de Abreu. Pertenceram ambos à comissão que elaborou, em 1851, o primeiro projeto de estatutos do IC. Terá sido por sua influência que se concretizou uma viragem nos objetivos da nova instituição, surgida da AD. Assim, à promoção da cultura das belas letras e artes, aliava-se a promoção da ciência. A dedicação à ciência e, nomeadamente, à Física, destes dois antigos alunos e professores da UC é visível na realização das observações meteorológicas no Gabinete de Física em 1853, publicadas n’O Instituto, que vieram a estar na origem do projeto do Observatório Meteorológico e Magnético em Coimbra, concretizado devido à ação de Jacinto de Sousa em 1863. O debate que antecedeu este projeto surgiu também nas páginas d’O Instituto, onde interveio também uma outra figura da ciência em Portugal - Matias de Carvalho e Vasconcelos.

Foi da autoria de José Maria de Abreu o artigo sobre telegrafia elétrica, cuja publicação, iniciada em 1855, ocorreu quase simultaneamente com a instalação dos primeiros postos telegráficos em Portugal, tendo sido um outro sócio do IC, José Vitorino Damásio, o grande impulsionador desta tecnologia em Portugal (Leonardo et al., 2009b). O interesse pela telegrafia elétrica no seio do IC é evidenciado pela escolha de temas para debate na II classe da sociedade coimbrã em 1859. O desenvolvimento da telegrafia elétrica e a ligação por cabos elétricos de todo o mundo civilizado veio a desencadear a uniformização das unidades das grandezas elétricas e magnéticas, debatida no Congresso Internacional de Eletricidade de Paris em 1881. António dos Santos Viegas representou Portugal neste congresso e, na sequência dele, foi pedido pelo governo um parecer à Faculdade de Filosofia, que seria publicado n’O Instituto em 1885. Neste ano, Santos Viegas era Presidente do IC. O referido parecer foi favorável à adoção em Portugal das unidades propostas no congresso de 1881 e nas conferências que se sucederam nos anos de 1882 e 1884. A importância do tema das Unidades Elétricas levou Santos Viegas a propor o respetivo estudo ao seu aluno, Henrique Teixeira Bastos, cuja dissertação inaugural para o ato de conclusões magnas foi concluída em maio de 1884. Este último veio ter uma ação de relevo no IC como Vice-diretor da II Classe e membro da comissão de redação d’O Instituto, tendo inclusivamente regido cursos populares em 1898 (Assembleia-Geral de 4 junho de 1898).

Santos Viegas não teve abundante produção científica, mas a sua ação como professor e orientador, de alunos de doutoramento revela o papel que ele teve no desenvolvimento da Física em Coimbra. A exiguidade do pessoal do Observatório Meteorológico e Magnético (OMM), que se repercutia no trabalho deste estabelecimento em 1864, levou Santos Viegas a participar ativamente na organização dos dados meteorológicos obtidos, traduzidos nos quadros e gráficos publicados nas Observações Meteorológicas no Observatório. A ajuda providenciada por Santos Viegas a Jacinto de Sousa foi essencial para a manutenção dos trabalhos do observatório, que foram agraciados em 1878 na Exposição Internacional de Paris. Foi Santos Viegas a personalidade escolhida para diretor do Observatório Meteorológico, em 1880, após a morte de Jacinto de Sousa. Santos Viegas permaneceu diretor deste estabelecimento durante 34 anos, com a exceção dos períodos em que ocupou o lugar de Reitor da UC. Nestes períodos foi substituído, interinamente, pelos seus discípulos António Meireles Garrido e Teixeira Bastos. Para além da aquisição de novos instrumentos para determinações magnéticas e meteorológicas, Santos Viegas foi pioneiro na introdução das observações sismológicas em Portugal. Em 1891, ajudou na aquisição de um primeiro sismógrafo para o OMM (um aparelho Angot B, N.º 5388, construído na casa Breguet), que se manteve em funcionamento até 1914/15. Embora nunca tenha aplicado métodos de previsão do tempo, encarregou Bernardo Aires do seu estudo em 1892. Aires foi secretário do IC, tendo também participado nos cursos populares de 1898.

Teixeira Bastos desenvolveu um dos primeiros estudos portugueses sobre a teoria eletromagnética da luz na sua dissertação de concurso para o magistério, em 1885. No Gabinete de Física da Faculdade de Filosofia começaram a realizar-se experiências com descargas elétricas em 1850. Quando os raios X foram descobertos no final de 1895, este gabinete já possuía todo o equipamento necessário para a produção da nova radiação, tendo sido iniciados ensaios em Coimbra que resultaram na obtenção das primeiras fotografias radiográficas, apenas alguns meses depois da publicação do artigo de Röntgen. Teixeira Bastos escolheu O Instituto para publicar uma memória onde descreveu a nova radiação e onde relatou toda a investigação sobre esse assunto efetuada em Coimbra. Foi também de pronto explorada a aplicação desta tecnologia ao diagnóstico médico, sendo experimentada esta potencialidade nos Hospitais da Universidade. Teixeira Bastos delegou o estudo mais pormenorizado das Oscilações Elétricas no seu aluno Velado Pereira da Fonseca, também ele sócio efetivo do IC. A sua dissertação foi publicada em duas partes em 1897. Em simultâneo, coube a outro aluno de Teixeira Bastos, Álvaro da Silva Basto, como tema da sua tese de doutoramento, estudar as descargas elétricas e os raios catódicos, assim como as propriedades dos raios X. 

Pereira da Fonseca incluiu na sua tese um capítulo sobre a aplicação das ondas hertzianas, produzidas por oscilações elétricas, na telegrafia sem fios, descrevendo o dispositivo que vinha sendo desenvolvido pelo italiano Marconi. Contudo, realçou também as vozes críticas da nova tecnologia de comunicação, designadamente os problemas de sintonização entre emissor e recetor.

Por esta altura, o mundo encontrava-se ligado por cabos telegráficos, ocupando o nosso país uma posição central nesta rede. Junto a Lisboa, na estação do cabo submarino de Carcavelos, desembocavam o cabo proveniente das ilhas britânicas, que seguia para Gibraltar e Norte de África, e o cabo de ligação à Madeira e depois ao Brasil, atravessando o Atlântico Sul. Já em 1893, tinha sido inaugurado o cabo de ligação aos Açores, muito importante para a transmissão das observações meteorológicas. Todavia, os avanços significativos conseguidos através do sistema de Marconi vieram a traduzir-se num interesse crescente pela TSF, um interesse também sentido em Portugal. Em 1903, seria Silva Basto a publicar um trabalho n’O Instituto intitulado Os fenómenos e as disposições experimentais de telegrafia sem fios, que tinha por fito disseminar os aperfeiçoamentos realizados por Marconi, demonstrando a vantagem da TSF para as comunicações entre navios e a costa.

Não é bem conhecida a influência concreta dos vários artigos dedicados à telegrafia na aplicação destes métodos de comunicação no nosso país. Todavia, a escolha d’O Instituto como meio de comunicação revela a intenção dos seus autores em estimular a adoção das novas descobertas em Portugal. Um exemplo notável do papel d’ O Instituto foi também o de Adriano Paiva, autor da telescopia, cuja visão pioneira do conceito de televisão vai sendo reconhecida mundialmente.

Na primeira memória de Teixeira Bastos, sobre os raios X, surgiu já uma referência à descoberta de Henri Becquerel, uma das primeiras citações sobre a radioatividade em Portugal. Rapidamente foi percebida a relevância desta nova radiação e o seu impacto no estabelecimento de novos modelos atómicos. Demonstrativo desta perceção foi a publicação na revista do IC da tese de João de Magalhães sobre o rádio e a radioatividade em 1906.

Tendo sido o OMM da UC o precursor nacional dos estudos sismográficos, Santos Viegas cuidou de não descurar a área, procurando aperfeiçoar os respetivos serviços. O sismógrafo de Angot terá funcionado com alguma regularidade, o que se comprova pela aquisição de papel fotográfico para o sismógrafo e uma anotação com data de 24 de abril de 1901 registando um tremor de terra em Lisboa e no Algarve, apesar de os resultados não terem vindo a lume em qualquer publicação. Verificou-se, na transição de século, que a sensibilidade e a velocidade de registo deste aparelho não eram suficientes para sustentar uma secção de sismologia, pelo que, em 1900, Santos Viegas promoveu a aquisição de um sismógrafo Milne, de pêndulo horizontal, ao Observatório de Kew, na Inglaterra, instrumento que chegou a Portugal no ano seguinte. Embora as obras de construção de um pavilhão tenham sido logo iniciadas, a instalação do novo aparelho, que registava movimentos sísmicos da direção este-oeste (E-W), apenas foi concluída em 1904. Como aconteceu com outras instalações científicas nacionais dessa época, as limitações derivadas da falta de pessoal técnico para tabular com regularidade os registos impediu, nos anos seguintes, a publicação dos resultados. Apenas em 1908 se conseguiu obter os serviços de um recém-graduado na Faculdade de Filosofia da UC, Egas Fernandes Cardoso e Castro (1885-?). Este bacharel foi admitido como praticante extraordinário sendo, no ano seguinte, encarregado da nova secção de sismologia. Embora não remunerado, o trabalho de Egas de Castro permitiu a publicação das observações sísmicas de 1909. Estas vieram juntar-se às observações meteorológicas e magnéticas que já tinham sido compiladas ao longo das quatro décadas anteriores, suscitando a alteração do nome da publicação anual do OMM (Observações Meteorológicas, Magnéticas e Sísmicas…, 1910). Com a criação da secção de sismologia, ficou mais completa a investigação na área das ciências geofísicas em Coimbra. A participação de Egas de Castro foi devidamente destacada por Santos Viegas.

Santos Viegas

Santos Viegas (ao centro) e os seus colaboradores no Observatório Meteorológico, Magnético e Sismológico da UC (Observações Meteorológicas, Magnéticas e Sismológicas, 1914).

Por coincidência, foi também em 1909 que ocorreu o sismo mais forte sentido na Península Ibérica no século XX. Este abalo veio relançar o debate sobre a necessidade de criar um serviço nacional de sismologia. O intenso tremor de terra teve o seu epicentro próximo da vila de Benavente, mas os seus efeitos devastadores fizeram-se sentir numa vasta região, na margem sul do Tejo, cerca de 40 km a montante de Lisboa. Registaram-se 47 mortos e os danos patrimoniais foram consideráveis: cerca de 40% dos edifícios de Benavente ruíram, tendo de ser demolidos e só 20% sofreram danos menores. O sismógrafo de Coimbra foi o único em território português a registar este evento. Egas de Castro tomou a seu cargo o estudo deste tremor de terra com vista a calcular a profundidade do hipocentro. Este trabalho foi publicado num artigo n’O Instituto, em novembro de 1909, com o título de Geodynamica tellurica. Não tendo garantido o apoio da Comissão de Estudos Sísmicos, recentemente criada, Egas de Castro recorreu à imprensa para compilar uma relação de 125 localidades (na sua maioria nacionais, mas incluindo algumas espanholas), com as respetivas distâncias a Benavente, distribuídas por graus entre IX e IV.

Após a implantação da República em 1910, assumiu a presidência do IC uma figura ligada aos meios republicanos, Filomeno da Câmara Melo Cabral, que ocupou o cargo de reitor da UC em 1911. No entanto, a nova fase da vida do IC iniciou-se com a presidência de Francisco Costa Lobo, em 1913. Apesar de monárquico, Costa Lobo parecia estar imbuído dos ideais republicanos quando apostou na “internacionalização” do IC, conseguida através da captação de sócios estrangeiros do e estímulo das relações internacionais, em especial com a Inglaterra. Deu início a ciclos sucessivos de conferências a partir de 1915. O dinamismo que sempre marcou a ação de Costa Lobo já havia sido demonstrado com o início de uma secção de astrofísica no Observatório Astronómico da UC.

A atividade do Observatório Astronómico tinha sido tema de muitos artigos que surgiram n’O Instituto, sendo os seus diretores também sócios da sociedade coimbrã. Foi, contudo, com Costa Lobo que essa ligação se estreitou em virtude deste ter acumulado a presidência do IC com a de diretor do Observatório. Nas variadas visitas ao estrangeiro, Costa Lobo era também apresentado como representante do IC, aproveitando sempre para convidar várias personalidades estrangeiras a visitarem Coimbra, a associarem-se ao IC e a publicarem artigos na respetiva revista. Embora a revista já fosse permutada com várias publicações estrangeiras, este intercâmbio intensificou-se então, surgindo muitos artigos de autores portugueses escritos em língua francesa.

A Astronomia, os fenómenos solares e a espectroscopia estelar foram temas que mereceram alguma atenção n’O Instituto desde os seus primeiros anos de publicação. Em 1854/55 surgiu a notícia sobre os primeiros registos fotográficos para estudo da constituição física do Sol, realizados por Thomaz Wood usando uma câmara escura.[7] Alguns anos depois (1859-1860), viria a ser publicado um resumo de uma comunicação de Hervé Faye apresentada na Academia das Ciências de Paris referindo-se às expetativas do uso da fotografia nas observações astronómicas.[8] Nesta época a espectroscopia solar começava a dar os primeiros passos, e este avanço da ciência também foi noticiado n’O Instituto.[9] Já sob a direcção de Costa Lobo, em 1916, foi dado destaque à palestra proferida no Congresso Valladolid de 1915 por Victoriano Fernández Ascarza, astrónomo do Observatório espanhol de Madrid.[10] A primeira metade da comunicação, intitulada Astrofísica, foi dedicada aos fenómenos solares, suscitando em Coimbra o interesse por eles. No ano seguinte foi publicado um outro artigo de Ascarza.[11]

Em 1925 foi criada no Observatório Astronómico da UC uma secção dedicada à astrofísica e, em particular, ao estudo dos fenómenos cromosféricos solares. Esta área de investigação tornou-se possível graças à instalação de um espectroheliógrafo, instrumento que permite obter imagens monocromáticas da cromosfera solar. O novo aparelho, semelhante ao existente no Observatório de Meudon (Paris), permitiu trocar observações entre os dois observatórios. A pesquisa integrou uma campanha mundial de monitorização dos fenómenos solares. Tal desenvolvimento da astrofísica em Portugal teve, sem dúvida, como principal mentor Francisco Miranda da Costa Lobo. Neste projeto, Costa Lobo contou, porém, com o apoio de Henri Deslandres, diretor do Observatório de Meudon, e de Lucien D’Azambuja, assistente deste. O espectroheliógrafo, considerado um instrumento essencial para o estudo do Sol, decalcava o de Meudon, em funcionamento desde 1908 e um dos mais avançados no mundo. Através da cooperação com Paris, o equipamento de Coimbra foi sendo melhorado em paralelo com as inovações introduzidas no instrumento de Meudon, permanecendo ainda hoje operacional. O sucesso desta iniciativa deveu-se à rede de contactos internacionais de Costa Lobo, em particular à sua participação em vários congressos como representante do IC, da UC e do governo português. Um protagonista importante deste projeto foi Gumersindo Sarmento de Costa Lobo, filho de Francisco Costa Lobo, que, após ter realizado um estágio em Meudon em 1923, teve papel relevante na instalação do espectroheliógrafo, dinamizando a investigação subsequente. Os resultados obtidos em Coimbra entre 1929 e 1944 foram publicados nos Anais do Observatório Astronómico da UCFenómenos solares. Os espectroheliogramas foram também partilhados com Meudon, permitindo colmatar lacunas nas observações deste, e encaminhados para Zurique a fim de integrarem o Bulletin for character figures of solar phenomena, publicação da União Astronómica Internacional que, a partir de 1928, recolhia observações solares de vários observatórios mundiais. A cooperação então iniciada com Meudon permanece ainda hoje, passados mais de 80 anos. (Leonardo et al., 2011a).

O inglês Sir Frank Watson Dyson, então diretor do Observatório de Greenwich, participou, em 26 de novembro de 1931, na comemoração da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e do IC em honra de Sir Isaac Newton, tendo publicado n’O Instituto o artigo intitulado Newton's geometrical proof of the attraction of a sphere on an external particle.[12] Em 1949, quatro anos após a morte de Costa Lobo, teve lugar uma série de conferências no edifício-sede do IC sobre os mais recentes desenvolvimentos da física solar, organizada pelo seu filho, o também matemático Gumersindo Costa Lobo, com a participação de Lucien D’Azambuja, acompanhado pela sua esposa e assistente Marguerite D’Azambuja. O autor do obituário de Costa Lobo no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society of London,[13] Frederick John Stratton, publicou em 1946 n’O Instituto um artigo sobre estrelas novas e supernovas,[14] e em 1953 foi dada à estampa o estudo intitulado Contours of emission bands in the spectra of Novae.[15] Refira-se também um artigo do sueco Yngve Öhman, publicado em 1949, sobre as recentes investigações astronómicas baseadas na polarização da luz.[16]

Em 1969 o matemático Alberto Simões da Silva (n. 1927), que procedeu à reinstalação do espectroheliógrafo, passando das instalações do Observatório do Instituto Geofísico[17] na Cumeada para o novo Observatório Astronómico em Santa Clara, descreveu sucintamente a atividade científica aí realizada, realçando a publicação dos 13 volumes dos Anais do Observatório de Coimbra – fenómenos solares.[18] Com a exceção dos dois primeiros, esses volumes tinham sido publicados por Manuel dos Reis, o Diretor do Observatório que sucedeu a Francisco da Costa Lobo. São de Simões da Silva os últimos artigos de Astronomia publicados n’O Instituto que abordaram o estudo das órbitas de estrelas duplas visuais.[19]

Foi também em 1925 que se realizou em Coimbra o terceiro congresso conjunto das Associações Portuguesa e Espanhola para o Avanço das Ciências, onde Carvalho Brandão fez uma sua comunicação sobre os métodos de previsão do tempo (e também onde Brandão conheceu o aluno de Matemática, António Gião, que se haveria de notabilizar como geofísico). Anselmo Ferraz de Carvalho era, então, vice-presidente do IC para além de ter sucedido a Santos Viegas na direção do Observatório Meteorológico e Magnético, que passou a ter a designação de Instituto Geofísico de Coimbra. Dois anos depois, Ferraz de Carvalho convidou o norueguês Jacob Bjerknes para proferir uma palestra perante o IC. Nela Bjerknes proselitou uma estação meteorológica internacional, nos Açores, para participar no esforço europeu de previsão do tempo. A comunicação de Bjerknes foi publicada n’O Instituto, com o título de Les bases scientifiques et techniques de la prévision du temps et le rôle du Portugal à ce rapport, tendo o seu autor sido eleito sócio correspondente da sociedade conimbricense na Assembleia-Geral de 2 de junho de 1927. Bjerknes iniciou por ressalvar a importância da previsão do tempo para países marítimos como a Noruega e Portugal, apesar das incertezas deste tipo de previsões quando comparadas com as previsões astronómicas. O sucesso das previsões estava, intimamente, associado ao conhecimento do estado inicial, o que exigia conhecer a temperatura, pressão, humidade, etc. de cada ponto da atmosfera, desde o Equador até aos pólos. Para tal, era imprescindível um sistema de estações, espalhadas por todo o globo, que emitissem, por TSF, dados atmosféricos. Na altura funcionavam em Portugal quatro destas estações - Porto, Coimbra, Lisboa e Faro - estando mais duas, da Berlenga e cabo S. Vicente, prestes a entrarem em funcionamento. Uma vez que as novas condições do tempo se deslocavam, geralmente, de Oeste para Este, as estações dos países ocidentais como a Islândia, Reino Unido e Portugal eram os principais avant-gardes da Europa contra as tempestades que se aproximavam da costa Oeste, mas mesmo assim insuficientes.

A resolução do problema estaria na introdução de emissores TSF a bordo de navios transatlânticos que permitissem a emissão regular de dados meteorológicos ao longo da sua travessia do oceano. Todas estas transmissões deveriam ser recolhidas por estações, localizadas estrategicamente de forma a cobrir vastas áreas geográficas, que as retransmitiam para os serviços meteorológicos europeus. Evidentemente que os arquipélagos da Madeira e Açores seriam localizações essenciais, considerando mesmo Bjerknes que a estação mais importante seria sempre a dos Açores. Mais tarde designada de estação meteorológica do Atlântico, a estação açoriana ficou operacional em 1929, uma novidade anunciada no Congresso Meteorológico Internacional que teve lugar em Copenhaga nesse ano. O General Delcambre, quando se encontrava em Copenhaga, recebeu um telegrama de Paris relatando que a Estação Meteorológica dos Açores tinha enviado um “meteograma” com 81 grupos de 5 algarismos cada, relacionados com as observações realizadas “a bordo dos vapores que sulcavam o Atlântico.” Na Comissão de Serviços Sinópticos do congresso, Delcambre salientou o altíssimo serviço prestado à ciência por Portugal, que classificou como um dos factos mais importantes para o progresso da Meteorologia no último século, acrescentando que ele marcava o início de uma nova era, pois a estação dos Açores era o fecho da vasta organização internacional que servia de base à navegação aero-transatlântica. (Leonardo et al., 2011b)

Ao longo da presidência de Costa Lobo sucederam-se, no IC, muitas outras conferências de reputados cientistas estrangeiros, com relevo para a evolução da Física no nosso país. Para além da de Bjerknes (1927), as dos astrónomos reais britânicos Frank Dyson (1931) e Spencer Jones (1943), a do astrofísico francês Lucien D’Azambuja (1925), a do matemático russo Nikolay Krylov (1927), a do matemático francês Gabriel Koenigs (1925) e a do matemático suíço Rudolf Fueter (1932). A intenção de fomentar ligações entre Portugal e a Inglaterra foi particularmente clara durante a presidência de Costa Lobo, sendo organizadas sessões comemorativas do centenário da morte de Isaac Newton, em 1931, e de homenagem a homens da ciência ingleses, em 1942 (Ferreira, 2011, p. 12).

Terminamos a nossa análise da evolução da Física contando um caso em que a ação do IC, especificamente a de Costa Lobo, foi negativa. Tal aconteceu no que respeita à receção da teoria da relatividade de Einstein. A oposição declarada de Costa Lobo a essa teoria poderá talvez explicar a ausência de astrónomos portugueses na expedição de Eddington à ilha do Príncipe, em 1919. Costa Lobo não esteve sozinho nessa oposição. Foi n’O Instituto que Gago Coutinho publicou um extenso artigo, tentando refutar a teoria da relatividade restrita, em 1926. A exótica Teoria Radiante, que Costa Lobo propunha como uma alternativa à teoria da relatividade, surgiu com grande destaque no periódico coimbrão, desde a sua primeira referência, em 1917, até à sua última e muito rebuscada versão em 1937. As ideias de Einstein ficaram, praticamente, arredadas da revista do IC e algo de semelhante terá sucedido na UC até 1929. Esta situação motivou algumas críticas de conservadorismo científico ao IC.



[7] Constituição physica do Sol. O Instituto. Vol. III (1854-1855), p. 182.

[8] Eclipse total em 18 de Julho de 1860. Extracto das communicações feitas por M. Faye á Academia das Sciencias de Paris. O Instituto. Vol. VIII (1859-1860), p. 386-390.

[9] Sciencias physicas e mathematicas. O Sol segundo os descobrimentos recentes de MM. Kirchhoff e Bunsen. R. dos dois mundos. - Por A. Laugel. O Instituto. Vol. XII (1863-1864), p. 127-130.

[10] Ascarza, Victoriano F. - Astrofísica: discurso inaugural da 2.ª secção no Congresso de Valladolid de 1915. O Instituto. Vol. LXIII (1916), pp. 23-38; 130-138; 177-186.

[11] Ascarza, Victoriano F. - La transmisibilidad atmosférica para la radiación solar: investigación de una fórmula que exprese la ley de sus variaciones. O Instituto. Vol. LXIV (1917), pp. 122-137.

[12] DYSON, Frank Watson - Newton's geometrical proof of the attraction of a sphere on an external particle. O Instituto. Vol. LXXXIII (1932). pp. 137-139.

[13] STRATTON, F. J. - Obituary Notices - da Costa Lôbo, Francisco Miranda, Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, 106, (1946). p. 41

[14] Stratton, Frederick John Marrian - Estrêlas novas e supernovas. O Instituto. Vol. XCVII (1940). pp. 462-471.

[15] STRATTON, Frederick John Marrian - Contours of emission bands in the spectra of novae. O Instituto. Volume CXV (1953), p. 445-448.

[16] Öhman, Yngve - A investigação astronómica baseada na polarização da Luz. O Instituto. Vol. CXIII (1949). pp. 1-20.

[17] Anteriormente designado por Observatório Meteorológico e Magnético, fundado em 1864. Neste observatório também se faziam observações sobre a radiação solar em Coimbra. Os relatórios dos fenómenos solares registados com o espectroheliógrafo incluíam registos do Instituto Geofísico. Este observatório foi criado em Coimbra numa época de grande desenvolvimento da física solar-terrestre.

[18] SILVA, A. Simões da - Sobre a reinstalação do espectroheliógrafo. O Instituto, Vol. CXXXI, (1969). pp. 229-235.

[19] SILVA, A. Simões da - Órbita da estrela dupla visual: ADS 5332 ≡ A 218. ibidem,. Vol. CXXXII (1970). pp. 225-238.

SILVA, A. Simões da - Órbita da estrela dupla visual: ADS 371 ≡ Hu 1007. ibidem. (1970). pp. 211-224.

SILVA, A. Simões da - Órbita da estrela dupla visual: ADS 10355 ≡ A 1145. Ibidem, pp. 239-255.

SILVA, A. Simões da ; Pinheiro, M. Moreirinhas - Órbita da estrela dupla visual Burnham 524 ≡ A. D. S. 2200 A B e respetivos parâmetros físicos. ibidem,. Vol, CXXXV (1972). pp. 1-22.