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Introdução

A década de 1850 foi um período de grandes transformações em Portugal. A conclusão de uma década e meia de guerras civis resultou numa paz regeneradora que permitiu a formação de um governo estável e a institucionalização de eleições diretas. No ano de 1852, como forma de reforçar a pacificação do reino, a rainha D. Maria II decidiu efetuar uma viagem pelo norte do país, acompanhada pelo seu marido, D. Fernando II, e os príncipes D. Pedro e D. Luís. O itinerário da comitiva real, que se estendeu até Viana do Castelo, incluiu, no mês de abril, uma visita a Coimbra e, como não podia deixar de ser, à sua Universidade.

Como ia a velha Universidade? Embora nessa altura a Universidade de Coimbra (UC) ainda fosse a única do país, a concorrência das novas escolas politécnicas de Lisboa e do Porto, que se encontravam mais adaptadas às novas correntes do ensino, às novas saídas do mercado profissional e à nova realidade do país, gerou nos lentes de Coimbra um sentimento de defesa dos seus privilégios, o que dificultava qualquer mudança de vulto. A maioria dos docentes estava apegada a formas de ensino tradicional, reflexo não só de alguma inércia mas também falta de preparação, numa situação que não podia deixar de entrar em contradição com as ideias regeneradoras que atravessavam o reino. Nos escritos de D. Pedro, que relatou todos os pormenores desta visita, realça-se a seguinte passagem relativa ao Laboratório Chimico;

 “As operações que nesse estabelecimento se fazem não correspondem à beleza do edifício. Contudo no tempo de Thomé Rodrigues Sobral o Gabinete de Química da Universidade ganhou alguma reputação. Oxalá que o gabinete continuasse nesse estado, mas com os progressos que a ciência tem feito nas mãos de Berselius, Liebig, etc.” (Escritos de El Rei D. Pedro V).

Impressiona a sua atualização científica relativa à Química, ao referir alguns grandes nomes da época. Sobre o Observatório Astronómico, D. Pedro V referiu que, em geral, estava em estado miserável, servindo apenas para “testemunhar, como outras coisas, que houve um tempo no qual se fazia alguma coisa em ciência. E não seja dito que é por falta de homens competentes que o observatório não tem feito muito.” Para além de outras carências, faltava ser alocada uma verba anual de dinheiro para a conservação da instituição, para a aquisição de livros e para tudo o que nos pudesse pôr novamente a par com a Ciência. Noutras considerações, o futuro rei alertava para a necessidade de um observatório magnético. E sugeria que o governo deveria enviar em missões científicas ao exterior os professores que mais se distinguiam nas ciências exatas. Tal como o Observatório Astronómico, o Gabinete de Física, apesar de bem equipado, era apenas uma monumento ao modo como as coisas se faziam noutros tempos. A coleção mineralógica parecia pequena e pouco organizada e a coleção de animais vertebrados parecia, segundo o futuro rei, ter sido preparada por Noé quando este saiu da sua arca...